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Em 1948, na mesma hora em que os judeus declararam sua independência,
foram atacados por exércitos inimigos. Venceram uma guerra feroz, combatida
em três frentes. Na verdade, faz sentido o que Ben Gurion gostava de
repetir: "só é realista o judeu que acredita em milagres". O ano de
1948, no poente da primeira metade do século vinte, começou com um acontecimento
traumático: o assassinato de Gandhi, na Índia, no dia 30 de janeiro.
No cenário econômico, foi o ano da implementação do Plano Marshall destinado
à recuperação da Europa destruída pela guerra. Na literatura, destacava-se
nos Estados Unidos o judeu Norman Mailer com seu romance, "Os Nus e
os Mortos", enquanto o Prêmio Nobel nessa modalidade cabia ao poeta
anti-semita T.S. Eliot. Na França, Sartre lançava "As Mãos Sujas" e
o "Oscar" de melhor filme pertencia ao diretor e também protagonista,
Laurence Olivier, com "Hamlet". A Inglaterra, livre da dor de cabeça
da Palestina, era sede dos primeiros Jogos Olímpicos do pós-guerra e
já havia pressionado, até a exaustão, o Presidente Truman para que os
Estados Unidos não apoiassem e nem reconhecessem a existência de uma
pátria para os judeus. Entretanto, de todos os fatos grandes e pequenos
daquele ano de 1948, o mais significativo, o mais abrangente, o mais
revolucionário e o de maior repercussão internacional foi a criação
do Estado de Israel, no dia 14 de maio.
Não foi uma data marcada com antecedência e surpreendeu judeus e não-judeus
em todo o mundo. No dia 12 de maio, três dias antes do término do mandato
britânico, Ben Gurion convocou o Conselho Nacional, formado por treze
pessoas, para uma reunião na sede da Agência Judaica em Tel Aviv. As
primeiras notícias eram terríveis. A Legião Árabe começara a invasão
do território demarcado pela partilha com colunas de tanques e mil e
quinhentos homens, forçando a rendição do assentamento judeu de Kfar
Etzion e assassinando a sangue-frio dezenas de prisioneiros.
Apesar do pessimismo reinante, Ben Gurion era o único que procurava
conservar a calma, embora sua fisionomia se mantivesse sombria como
nunca. Coube a Golda Meyerson (depois Meir) fazer o relato do segundo
encontro que mantivera na véspera com o Rei Abdullah da Transjordânia.
Em uma reunião anterior, o monarca chegara a admitir a criação de um
estado judeu, mas, desta vez, sua posição era irredutível: se houvesse
independência, haveria guerra. Contudo, para os membros do Conselho,
mais do que o receio do conflito, permeava o medo de que a ação sionista
não viesse a ser apoiada pelos Estados Unidos, posição que tornaria
inviável a independência.
Enquanto isso, na Casa Branca, o Presidente Truman e seus principais
assessores discutiam os passos que deveriam ser tomados caso os judeus
insistissem em declarar sua independência no dia 15, último dia da presença
britânica no território da Palestina. Um dos participantes da reunião
era um jovem chamado Clark Clifford, assessor do presidente para assuntos
domésticos. Por iniciativa própria, ele havia preparado uma declaração
oficial de apoio às pretensões judaicas na Palestina. Foi o juiz da
Suprema Corte americana, o judeu Felix Frankfuter, quem havia aconselhado
Eliahu Epstein (depois Elat), diretor da Agência Judaica em Washington,
a manter contato com Clifford, cujo suporte à causa sionista era conhecido
do magistrado. Naquela reunião, Clifford mantinha a esperança da concordância
de Truman com seus pontos de vista, embora as fronteiras de um possível
e futuro estado judaico não estivessem definidas e nem seu nome oficial
estivesse escolhido. George Marshall, Secretário de Estado e vitorioso
general na Segunda Guerra Mundial, era um dos homens mais admirados
do país e se opunha com firmeza ao reconhecimento de um estado judeu.
O Secretário de Defesa, James Forrestal, argumentou que os Estados Unidos
não deveriam antagonizar os países árabes. Clifford rebateu, dizendo
que o estabelecimento de uma nova nação no Oriente Médio, guiada por
princípios democráticos, concorreria para estabilizar aquela região
além de servir ao Partido Democrata no tocante à influência judaica
com vistas às eleições presidenciais, que aconteceriam em novembro.
Marshall explodiu: "Senhor Presidente, eu pensei que esta reunião fosse
para resolver um intrincado problema de política internacional e nem
sei o que o Clifford está fazendo aqui!" Truman respondeu fleumático:
"Ele está aqui porque eu o convoquei". Anos mais tarde, Marshall escreveu
em suas memórias: "Eu disse ao presidente que as sugestões de Clifford
estavam equivocadas e que, caso acatadas, teriam um efeito contrário
ao desejado e seria afetada a dignidade da Casa Branca. Acrescentei
que se o presidente concordasse com Clifford, eu talvez nem viesse a
votar nele nas próximas eleições".
Na reunião, em Tel Aviv, Moshe Shertok (depois Sharret) comunicou ao
Conselho que a França e a Inglaterra haviam proposto um armistício.
Aceitá-lo significaria abrir mão da criação de um estado soberano. Não
aceitar seus termos poderia eqüivaler a um suicídio. Dois assessores
do Conselho, Igal Yadin e Israel Galili, foram convocados para apresentar
um panorama da situação militar judaica, que era mais do que frágil.
Ben Gurion foi enfático: "A catástrofe de Etzion não me abala. Eu já
esperava derrotas e receio que teremos que enfrentar dificuldades ainda
maiores. Tudo será decidido quando conseguirmos derrotar a maior parte
da Legião Árabe. É pelas armas que resolveremos este problema". Parecia
um absurdo, mas a determinação de Ben Gurion empolgou o Conselho.
A proposta de armistício foi colocada em votação: seis contra, quatro
a favor e três abstenções. A pátria judaica seria criada por uma diferença
de apenas dois votos. Após um breve intervalo, sucedeu-se uma série
de cruciais indagações. Como proclamar a soberania? Que nome dar ao
novo país? Como seria redigida a declaração de independência? Alguns
propuseram Estado Judeu, outros simplesmente Sion. Finalmente, um consenso:
o nome seria Israel. Seguiu-se, então, outro ruidoso debate sobre a
questão das fronteiras. Como inseri-las na declaração? Mais uma vez
prevaleceram as palavras de Ben Gurion: "Leiam a declaração de independência
dos Estados Unidos que não contém qualquer alusão a fronteiras territoriais.
Não somos obrigados a precisar com exatidão os limites do estado. Os
árabes estão-nos atacando. Se conseguirmos derrotá-los, a Galiléia ocidental
e os dois lados da estrada para Jerusalém serão parte de nosso país".
Nova votação, agora sobre a definição das fronteiras: cinco votos contra,
quatro a favor e quatro abstenções. A reunião terminou de madrugada,
ficando decidido que um pequeno grupo, presidido por Sharret, se encarregaria
do texto da declaração de independência.
Ben Gurion passou a manhã do dia 13 de maio reunido com o Estado Maior.
A cidade de Safed tinha-se rendido à Haganá. Depois de Kfar Etzion,
outras localidades judaicas estavam sob severo ataque. No sul havia
uma forte ofensiva do exército egípcio. Na sede das Nações Unidas, em
Lake Success, a confusão era total. Em Washington, o líder Chaim Weizmann
enviou uma carta ao presidente Truman solicitando o reconhecimento do
Estado de Israel, embora sua independência nem tivesse sido proclamada.
Na Casa Branca, depois da reunião com Marshall, o presidente agradeceu
a Clifford por suas sugestões e nada mais disse. O jovem assessor retornou
ao seu gabinete convencido de que havia sido derrotado. Entretanto,
sem que ele soubesse, acabara de ganhar um precioso aliado, Robert Lovett,
Sub-Secretário de Estado, que antes era contra a causa sionista, mas
que se deixara convencer pela argumentação de Clifford. Na mesma manhã
em que Ben Gurion se inteirava da débil situação militar, Lovett convocou
sua equipe. Todos estavam a favor do reconhecimento de um estado judeu.
Isto fez com que Marshall voltasse atrás, inclusive impressionado pela
carta de Weizmann, na qual ele dizia esperar que "a mais antiga democracia"
se colocasse ao lado "da mais nova democracia". Truman pediu que Marshall
e Lovett fizessem contato com Chaim Weizmann, mas o Departamento de
Estado objetou, argumentando que Weizmann não detinha um cargo oficial
na Agência Judaica e era cidadão britânico. Como conseqüência, Eliahu
Epstein assumiu a posição de representante do novo país junto à Casa
Branca e Clifford recebeu autorização para contatá-lo em caráter formal.
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