Judeus no Marrocos - ed55 - Página3

Diáspora sefaradita

Após os violentos pogroms de 1391 e a instalação da Inquisição, levas de judeus deixaram a Espanha, em grande parte já sob domínio cristão. E, entre as paragens que se apresentavam para se estabelecerem, estava o Marrocos. O fluxo aumentou após 1492, quando, entre os 300 mil judeus que preferiram deixar a Espanha a se converter ao cristianismo, muitos escolheram novamente esse país. Ciente de seu talento e elevada cultura, bem como das vantagens que suas habilidades comerciais trariam para o reino, o Sultão abre-lhes as portas.

Em 1497, foi a vez dos judeus que viviam em Portugal ter que optar entre exílio ou conversão, e, outra vez, refugiaram-se no Marrocos, aos milhares. E, nos séculos posteriores, esse mesmo país virou um porto-seguro para conversos que escapavam da Inquisição, ansiosos por retornar ao judaísmo.

Os sefaraditas, chamados de megorashim, ou seja, exilados, fixam-se principalmente no litoral Norte, onde se tornam a maioria. Criam suas próprias comunidades e sinagogas, vivendo conforme suas tradições e costumes. A princípio, os judeus locais, os toshavim ou "residentes", tratavam os refugiados ibéricos com desconfiança.Estranhavam seus hábitos, seus min'haguim; até o idioma era diferente, pois enquanto os sefaraditas falavam espanhol ou português, os toshavim se comunicavam em judeo-árabe. Com o tempo, apesar da enorme influência dos oriundos de Sefarad sobre a vida religioso-cultural das comunidades judaicas do Marrocos, eles próprios acabaram por assimilar aspectos da cultura judaica local, criando uma nova síntese tipicamente marroquina, assim como um novo dialeto, um ladino arabizado, chamado de Haquitia.

Graças a seu talento para o comércio e contatos com toda a diáspora sefardi, os judeus ibéricos se tornaram prósperos mercadores. Seu prestígio junto ao Sultão aumentou ainda mais a partir de 1600, quando os portugueses tomam áreas do litoral atlântico marroquino. As raízes européias dos "exilados" e suas habilidades de negociadores e diplomatas, tornavam-nos indispensáveis entre os governantes árabes e os reis católicos.

A Era moderna

No século 17, instala-se no poder nova dinastia berbere, originária do Sudeste marroquino, os alaouitas, que constituem a família real do Marrocos até hoje. Seus sultãos, buscando contrabalançar as constantes pressões dos turcos otomanos, que, em fins do século 16 já haviam conquistado todo o Magrebe, procuram desenvolver ligações comerciais e diplomáticas com as nações da Europa Ocidental. Nesse cenário, era preponderante o papel dos grandes comerciantes judeus, que não só obtêm dos sultãos virtual monopólio do comércio ultramarino, como se tornam os responsáveis pela diplomacia do país e pela negociação de tratados internacionais. Para os europeus, também, os judeus eram praticamente indispensáveis, sendo os únicos intermediários plausíveis entre o mundo islâmico e o europeu.

Para proteger seus interesses as nações européias começam a instalar consulados no Marrocos, que podiam estender sua proteção a representantes e funcionários locais, via de regra, judeus. Tal "representação judaica" dos poderes europeus provoca um forte ressentimento entre as massas berberes, fazendo com que, até o século 20, os judeus servissem de bode expiatório em qualquer instância em que os muçulmanos discordassem das medidas adotadas pelos estrangeiros.

Fontes judaicas relatam a "dança" das fortunas judaico-marroquinas, na Era moderna. Durante o reinado de Moulay Ismail, por exemplo, em que o Marrocos atingia seu apogeu, dois dos mais importantes conselheiros reais eram judeus, Moshé Ben Attar e Youssef Memran. Mas, com a morte de Ismail, em 1727, o país entra em um período de anarquia durante o qual são arrasadas comunidades judaicas inteiras, no interior. E, se sob o sultanato de Mulay Muhammed (1757-1790), os únicos diplomatas enviados a países ocidentais eram judeus marroquinos, seu filho Mulay al-Yazid encarrega-se de massacrar milhares de judeus em Tetuan, Marrakesh e Meknés.

Um outro fator que influenciava as condições de vida dos judeus marroquinos era a sua posição econômica. Enquanto grandes mercadores e diplomatas formavam uma pequena mas poderosa classe alta, a maioria deles vivia na total penúria, como seus vizinhos muçulmanos. Em busca de um futuro melhor, a partir do século 19 inicia-se um intenso processo de emigração para a Europa, América do Sul, inclusive para a Amazônia, e para Eretz Israel.

O único raio de esperança nesse período foi a chegada, ao Marrocos, da Alliance Israelite Universelle, que abre sua primeira escola em Tetuan, em 1862. Sua missão era dar aos judeus uma educação moderna, francesa, que os ajudasse a melhorar de vida. Em 1912, a Alliance já tinha mais de 27 escolas, em todo o território marroquino, com acima de 30 mil alunos.

A difícil situação dos judeus marroquinos leva, em 1864, sir Moses Montefiori àquele país. Recebido pelo sultão Sidi Mohammed Abd-al-Rahman com grandes honras, Montefiori intercede em favor dos judeus junto ao mesmo, que tudo promete mas nada faz para mudar o status quo.

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N.85/setembro 2014
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