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Uma visita à família Muyal em Israel
O encontro estava marcado para o dia 19 de outubro de 2005. Por volta
das 10h, estávamos eu, Simone e as crianças, batendo à porta da família
Muyal, na cidadela, Ishuv Omer, a dez minutos do centro da cidade de
Beersheva. Fomos recebidos pelo professor Meyr Muyal. Voltemos atrás,
no entanto, duas semanas antes, quando tudo começou. Eu e minhas idéias!...
Vamos!
Lendo uma das edições anteriores do Amazônia Judaica, encontrei a reportagem
que escreveu o Dr. Isaac Dahan sobre o Ribi* Shalom Imanu- El Muyal,
como era chamado o rabino, e a maneira como ele tinha falecido, em 12
de março de 1910 (1º de Adar II, 5670), em Manaus, época em que não
havia, na cidade, Cemitério Israelita organizado e os judeus eram enterrados
no cemitério católico. Atualmente, o Cemitério Israelita onde está sepultado
o Rabino Muyal está localizado ao lado do cemitério católico de São
João Batista.
Ribi Muyal morreu provavelmente de febre amarela quando de sua visita
à comunidade da região manauara. Depois de muitos anos, começaram a
surgir, ninguém sabe precisar exatamente em que ano, placas em mármore
em volta de sua sepultura. Sabia-se que essas placas faziam parte do
costume católico de agradecer aos Santos por "graças alcançadas". Em
cada placa indicativa do "milagre", consta a data em que foi realizado
e a frase "Graça Alcançada". Foi vendo essas placas que a comunidade
judaica de Manaus descobriu que o Ribi Muyal estava virando "Santo Milagreiro"
para os católicos da cidade.
Lembro-me bem que quando trabalhava como sheliach comunitário em Manaus,
chegavam turistas judeus que já tinham ouvido falar do Ribi Muyal e
seus milagres, querendo saber onde ficava localizada sua sepultura.
Assim, cada vez mais, foi-se disseminando essa história do "Rabino Santo
Milagreiro de Manaus"...
Os judeus marroquinos e de outras regiões também têm seus costumes
e suas crenças e, logo surgiram, dentro da própria comunidade judaica,
histórias de milagres do Ribi Muyal. Por exemplo, sabe-se que a mulher
que dele cuidava quando esteve muito doente era uma senhora judia, que
não teve medo de um eventual contágio ao tratá-lo, pois muitas epidemias
grassavam, à época, como malária, cólera, febre amarela e outras. Esta
possibilidade, porém, não deteve a bondosa senhora, que continuou cuidando
do "Grande Rabino", tentando amenizar seu sofrimento. Algum tempo após
ele falecer, essa mesma senhora, certa vez, foi abordada por uma pessoa
que tinha muitas dores em um dos braços. Ela, então, como por instinto,
começou a massagear-lhe o braço dolorido e não demorou muito se ouviu
um estalo, como o feito por um osso que retorna a seu lugar. As dores
diminuíram acentuadamente e a pessoa agradeceu à bondosa senhora pelo
que fizera. Também não tardou muito e outros passaram a procurá-la para
resolver seus problemas de "desmentidura" . O interessante é que nem
a própria sabia desse seu poder, adquirido logo após a passagem de Ribi
Muyal para o Mundo Eterno, e, como explicação para tal, ficou o fato
dela ter tratado do Rabino durante sua doença, sem receio algum de se
contaminar.
Outra situação muito conhecida na comunidade manauara é a de um senhor
- ainda me lembro bem dele naquele estado - com um problema sério no
pescoço que o impedia de andar com a cabeça na posição vertical; esta
sempre pendia para o lado. Depois de ter consultado médicos em busca
de uma solução para o problema, sem nenhum resultado satisfatório, a
mãe do rapaz tomou importante decisão. Abraçada em sua fé no Eterno,
D'us de Israel, dirigiu-se certa manhã à tumba de Ribi Muyal, onde fez
um pedido especial para que seu filho tivesse pleno restabelecimento.
Não demorou muito tempo e o homem acordou certa manhã, depois de ter
sonhado durante a noite que uma mão muito delicada empurrava o seu rosto,
que sempre estivera quase grudado ao ombro, para a posição vertical.
Aquilo lhe parecia muito estranho, mas para sua surpresa e imensa alegria,
ao acordar, percebeu que estava sem dor e podia olhar-se no espelho
de maneira normal, como todos nós!
Essas e outras histórias qualquer um pode ouvir pesquisando um pouco
na comunidade judaica amazônica. Entre os não-judeus, as histórias são
em número bem maior e os milagres, ainda mais inimagináveis.
A comunidade de Manaus tem o min'hag (costume) de visitar o Cemitério
Israelita e a sepultura do Ribi Muyal, todos os anos, dias antes de
Rosh Hashaná, com o objetivo de recitar uma Hashkabá para ele e todos
os outros que ali descansam. Foi assim que notaram que as placas de
"graça alcançada" iam aumentando ano após ano e, por isso, decidiu-se
fazer uma sepultura protegida com muro e grade, como está até hoje.
Tendo a história do "Rabino Milagreiro de Manaus" ganhado o mundo,
certa vez, esteve em Manaus um israelense interessado em maiores detalhes
sobre tão intrigantes acontecimentos. Ele era amigo, em Israel, de alguém
com o mesmo sobrenome, Muyal, e queria coletar o máximo de informações
para, quando de seu regresso, contar ao amigo. Assim fez. Quando retornou
a Israel, procurou o amigo Muyal e lhe contou toda a história do Rabino,
que teria viajado do Marrocos para a Amazônia para angariar fundos para
sua ieshivá e, infelizmente, tendo adoecido, lá veio a falecer. Contou
que ele era considerado "santo" para os católicos na Amazônia, onde
se dizia que, até hoje, operava milagres. Finalmente disse ao seu amigo
que o Rabino se chamava Shalom Imanu-El Muyal e, então perguntou se
por acaso não era seu parente. A resposta foi surpreendente. Shalom
Imanu-El Muyal era tio de seu amigo, irmão de seu pai, Avraham Itzchak
Muyal!
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