Uma carta para Sharon - ed.52 - Página1

PERSONALIDADE:

Uma carta para Sharon
por Zevi Ghivelder



Foto Ilustrativa

Edição 52 - abril de 2006

Querido amigo Arik, É muito difícil, na verdade impossível, imaginá-lo num leito de hospital inerte e entregue aos desígnios de D'us.

Quem acompanhou suas ações na guerra e na paz, desde os primórdios de Israel até os dias atuais, estava acostumado a vê-lo na linha de frente, volumoso, forte como um touro e audaz como uma águia, pronto para o que desse e viesse. Agora, não são somente os israelenses, mas é todo o povo judeu que carece da sua presença impositiva, de suas posições inarredáveis e, inclusive, tantas vezes rebeldes e turronas. Mas, o fato é que jamais, em seus 78 anos de vida, você pensou apenas em você. Esteve sempre com a mente e o coração voltados para todos nós, judeus, dentro e fora de Israel.

Muito do que vou escrever aqui não lhe será novidade porque tive como base sua própria autobiografia, que acabo de reler, desta vez com maior acuidade. Entretanto, relatarei algumas passagens que julgo importantes, porque a maioria das pessoas, no mundo inteiro, desconhece os meandros da sua história e a mídia lhe foi injusta como raras vezes a tenho visto ser, com um homem público no mundo civilizado, que nunca trilhou outro caminho senão o da democracia. Não faltou quem o rotulasse de "criminoso de guerra", "pária internacional" ou "fomentador de guerras". Entretanto, bastou que você tomasse uma iniciativa concreta em direção à paz com os palestinos, como a retirada unilateral de Gaza, para que passassem a vê-lo como um autêntico Estadista, como se você tivesse executado um passe de mágica, sem levar em conta que a sua vida sempre foi marcada por atitudes desprendidas e pragmáticas, tanto no campo militar como no político.

A acusação mais perniciosa que lhe fizeram foi a de ter detonado a segunda intifada, em setembro de 2000, depois de percorrer a pé o Monte do Templo, onde estão as mesquitas de Al-Aksa e do Domo da Rocha, em Jerusalém. Qualquer pessoa, com um mínimo de bom senso, sabe que sua única intenção foi a de evidenciar que, em tempo algum, nenhum judeu poderia ser impedido de estar em qualquer lugar de Jerusalém. Você certamente tomou conhecimento de uma declaração do então ministro palestino das comunicações, no dia 3 de março de 2001, ao jornal Al-Safir: "Quem pensa que a intifada eclodiu por causa da presença de Sharon junto à mesquita de Al-Aksa, está errado. Esta intifada já estava planejada, antes ainda da volta de Arafat das negociações de Camp David, onde ele virou a mesa para o presidente Clinton".

É muito sensível a maneira pela qual você escreve sobre sua infância no moshav (cooperativa agrícola) Kfar Malal, ao lado de seu pai, trabalhando no campo, raiz de sua segunda profissão, talvez a que sempre preferiu, a de fazendeiro. Depois, veio a sua participação na Guerra da Independência, na qual se destacou pela capacidade de liderança, apesar de ter pouco mais de 20 anos de idade. Em função disso, deram-lhe o comando da Unidade 101, encarregada de caçar terroristas usando a tática, até hoje empregada, de demolir suas casas. Foi por causa disso que lhe adveio a primeira adversidade: o ataque ao vilarejo de Kabia, na Jordânia. É desde quando data a fama de sua agressividade. Cumprida aquela missão, você só tomou conhecimento do que ali tinha de fato acontecido no dia seguinte, ao ouvir o relato de uma rádio jordaniana: a morte de 69 civis. Você ficou perplexo. Até então, as investidas israelenses contra terroristas se limitavam à periferia dos alvos. Durante o seu ataque, os moradores das pequenas casas poderiam ter-se resguardado em seus porões, mas não tomaram qualquer iniciativa e esta foi a causa da tragédia. Em compensação, o incidente de Kabia deu nova força moral ao exército israelense, que jamais havia penetrado com tanta autoridade em território inimigo. Na ocasião, o primeiro-ministro Ben Gurion comentou: "Não é relevante o que se dirá no mundo sobre Kabia. O importante é como esta ação será vista aqui na região, dando-nos a possibilidade de aqui vivermos".

Mesmo assim, os ataques dos fedaín (terroristas que ainda não eram homens-bombas) contra Israel continuaram em ritmo crescente. O sul do país, incluindo os subúrbios de Tel Aviv, eram o alvo constante. Em pouco tempo, seis crianças foram mortas numa escola em Shafir e sete adolescentes foram assassinados em Bet Guvrim. No sítio arqueológico de Ramat Rachel, quatro mortos e dezesseis feridos. Um grupo de trabalhadores foi metralhado a caminho das indústrias químicas próximas ao Mar Morto. Em Jerusalém, uma mulher e sua filha foram estupradas e mortas. Numa noite, em 1956, seu motorista, um amigo de confiança, lhe revelou que por acaso tinha ouvido uma conversa entre oficiais do estado-maior, na qual alguém comentara: "Quero ver a cara do Arik quando ele souber que depois de Kabia ele nunca mais comandará coisa alguma". No dia seguinte, impetuoso, você foi procurar o general Moshe Dayan que, nas entrelinhas, lhe disse o mesmo. Depois de bater-lhe a porta, você telefonou para o gabinete do primeiro-ministro e pediu para ser recebido. Ben Gurion ouviu suas razões com paciência e apenas murmurou: "Espera". Sua reação: "Esperar o que?" O velho respondeu: "Espera, que tudo tem uma solução". E a solução, pouco tempo depois, foi a devolução do seu comando.

No dia 25 de outubro de 1956, em novo encontro com Ben Gurion, este lhe revelou que havia concluído um acordo militar com a França e a Inglaterra, que queriam garantir seus direitos de passagem pelo canal de Suez, então nacionalizado por Gamal Abdel Nasser, o ditador egípcio. O objetivo de Israel, na ação conjunta, era ocupar o Sinai para acabar com os fedaín. Nessa batalha, sua ação foi crucial para desobstruir a passagem de Mitla, contra a vontade de Dayan que, devido ao perigo, não queria concentrar muitas tropas naquela região. Por isso, mesmo depois do sucesso no Sinai, cresceu sua fama de rebelde, ao lhe acusarem formalmente de ter desobedecido ordens superiores, com a instalação de uma comissão de inquérito. Ben Gurion chamou-o e perguntou: "Se você tivesse que tomar novamente aquela decisão desobediente, o que faria?" Sua resposta: "Sentado aqui ao seu lado e tomando esta bela xícara de chá, e tendo todas as informações, talvez fizesse algo diferente. Mas, naquele dia, estava comandando muitos soldados, numa área aberta, quase sem armamentos anti-tanques, sem noção das ações dos franceses e ingleses, e com o grosso do nosso exército a mais de cem milhas de distância. Naquela situação, toda a responsabilidade era minha. Meu julgamento foi no sentido de que tínhamos que avançar e fazer todo o possível para nos defendermos". Ben Gurion respondeu: "O fato é que não me compete julgar o comportamento de dois comandantes militares em tal questão". Dayan veio a saber do teor daquela conversa e o inquérito foi arquivado.

No dia 14 de maio de 1967, você estava em Jerusalém assistindo à parada comemorativa da independência, quando vieram as primeiras informações de que os egípcios haviam deslocado grande quantidade de tropas na direção do canal de Suez. Foi uma surpresa. Até então, as condições na frente com o Egito eram de relativa calma, sublinhada pela presença de forças das Nações Unidas, entre as quais o Batalhão Suez, do Brasil. A ansiedade aumentou quando a mesma situação foi detectada na fronteira com a Síria. O primeiro-ministro Levi Eshkol se encontrava em nítido estado de depressão. Depois de uma série de reuniões com o estado-maior, sua conclusão foi a de que Israel deveria atacar imediatamente e de forma maciça. Não era esta a opinião de Rabin, responsável pelo estado-maior, que preferia uma ação em fases sucessivas. A indecisão era palpável. Naquela ocasião, você repetiu para seus comandados o que sempre costumava dizer: "O escalão político deve ter a liberdade de fazer suas opções, sejam elas políticas ou militares. Nossa missão consiste em dar-lhe liberdade para decidir. Os políticos é que vão definir seus objetivos e estratégias. E nós devemos estar em condições de lhes mostrar que seus objetivos podem ser alcançados".

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