|
A servente de Rabi Yehudá HaNasi, uma mulher de extraordinário valor,
subiu, então, ao telhado da casa, proclamando: "Os que estão acima (os
anjos), querem levar o Rebi, ao passo que os que estão abaixo (o povo
judeu) buscam, por todos os meios, mantê-lo entre eles. Que seja a Vontade
Divina que os de baixo vençam os de cima". Contudo, ao ver a intensidade
do sofrimento de seu amo - voltou ao telhado e clamou: "Que Seja a Sua
Vontade que os de cima vençam os de baixo". Os rabinos, no entanto,
não cessavam suas orações em contrário; assim sendo, a boa mulher tomou
um vaso de barro e o atirou ao chão, das alturas. Quando os eruditos
ouviram aquele som, interromperam por breves segundos suas preces. Naquele
instante preciso, morria o Rebi.
Como suas preces se interromperam, os Sábios enviaram Bar Kapará para
constatar se Rabi Yehudá realmente deixara o mundo terreno. Ao voltar,
o enviado pronunciou o seguinte elogio fúnebre: "Os anjos e os justos
(os Rabis) quiseram apossar-se da Arca Sagrada (o Rebi), digladiando-se
por sua posse. Os anjos derrotaram os justos, levando consigo a Arca".
Perguntaram os rabinos: "Deixou-nos, para sempre, o Rebi?" Mas, como
eles próprios haviam lançado a proibição de mencionar aquele fato, Bar
Kapará respondeu: "Disseram-no os senhores, mesmos; eu não o pronunciei".
Teria morrido o Rebi? Diz o Talmud, em Ketubot, 103a: todas
as noites de 6ª. feira, após ter morrido, o Rebi voltava a sua casa.
Vinha trajado com as vestes festivas de Shabat e recitava a bênção do
vinho, o Kidush, para sua família. O Sefer Chassidim explica
que ainda que nós não tenhamos como e, portanto, estejamos isentos da
obrigação de cumprir os mandamentos da Torá após nossa morte, isto não
se aplica aos verdadeiros homens justos e íntegros. Pois que eles, mesmo
após sua morte, são considerados "vivos".
No entanto, o Rebi parou de "visitar" sua casa. Em certa noite de Shabat,
uma vizinha veio bater à sua porta, falando em voz alta. A fiel servente
respondeu: "Quieta! O Rebi está sentado à mesa de Shabat!" Vendo que
suas visitas se tinham tornado de domínio público, ele desapareceu.
Maharsha, um dos mais importantes comentaristas do Talmud, escreveu
que o domínio da morte se deve à santidade e, como o Rebi era a própria
personificação dessa virtude, ele tinha o mérito de voltar ao mundo
terreno após seu falecimento. E não era coincidência o fato de voltar
justamente no momento em que a santidade deste mundo está em seu ápice
- durante a recitação do Kidush, quando se proclama a santificação do
Shabat.
"Nosso patriarca Yaacov jamais morreu", ensina o Talmud. Nem Moshé
Rabênu. Nem tampouco Rabênu HaKadosh. Eram almas com espírito
muito elevado, tão ligadas a D'us, Fonte da Vida, a ponto de transcender
a morte. Diz o Talmud que os lábios de cada um dos Sábios da Torá -
mesmo daqueles que deixaram este mundo há milênios - movem-se e emitem
sons quando alguém estuda seus ensinamentos, e os recita em voz alta.
E, sendo assim, ainda que nossos olhos não vejam o Rabênu HaKadosh,
sempre que estudamos a Mishná estamos, de fato, comungando com
o Grande Sábio e Tsadik - verdadeiro Homem de D'us, Rebi, Príncipe
e Líder de Israel.
Traduzido por Lilia Wachsmann
Bibliografia:
Bader, Gershom, The Encyclopedia of Talmudic Sages; Jason Aronson Inc.
Talmud Bavli - The Schottenstein Edition; The Artscroll Series; Mesorah
Publications Ltd.
The Mishnah - Yad Avraham Series; The Artscroll Series; Mesorah Publications
Ltd.
Steinsaltz, Adin Even, Talmud Reference Guide; Random House.
Freeman, Tzvi, Bringing Heaven Down to Earth; Class One Press.
|