Rabi Yehudá HaNasi: Rabênu HaKadosh - ed.50 - Página3

A servente de Rabi Yehudá HaNasi, uma mulher de extraordinário valor, subiu, então, ao telhado da casa, proclamando: "Os que estão acima (os anjos), querem levar o Rebi, ao passo que os que estão abaixo (o povo judeu) buscam, por todos os meios, mantê-lo entre eles. Que seja a Vontade Divina que os de baixo vençam os de cima". Contudo, ao ver a intensidade do sofrimento de seu amo - voltou ao telhado e clamou: "Que Seja a Sua Vontade que os de cima vençam os de baixo". Os rabinos, no entanto, não cessavam suas orações em contrário; assim sendo, a boa mulher tomou um vaso de barro e o atirou ao chão, das alturas. Quando os eruditos ouviram aquele som, interromperam por breves segundos suas preces. Naquele instante preciso, morria o Rebi.

Como suas preces se interromperam, os Sábios enviaram Bar Kapará para constatar se Rabi Yehudá realmente deixara o mundo terreno. Ao voltar, o enviado pronunciou o seguinte elogio fúnebre: "Os anjos e os justos (os Rabis) quiseram apossar-se da Arca Sagrada (o Rebi), digladiando-se por sua posse. Os anjos derrotaram os justos, levando consigo a Arca". Perguntaram os rabinos: "Deixou-nos, para sempre, o Rebi?" Mas, como eles próprios haviam lançado a proibição de mencionar aquele fato, Bar Kapará respondeu: "Disseram-no os senhores, mesmos; eu não o pronunciei".

Teria morrido o Rebi? Diz o Talmud, em Ketubot, 103a: todas as noites de 6ª. feira, após ter morrido, o Rebi voltava a sua casa. Vinha trajado com as vestes festivas de Shabat e recitava a bênção do vinho, o Kidush, para sua família. O Sefer Chassidim explica que ainda que nós não tenhamos como e, portanto, estejamos isentos da obrigação de cumprir os mandamentos da Torá após nossa morte, isto não se aplica aos verdadeiros homens justos e íntegros. Pois que eles, mesmo após sua morte, são considerados "vivos".

No entanto, o Rebi parou de "visitar" sua casa. Em certa noite de Shabat, uma vizinha veio bater à sua porta, falando em voz alta. A fiel servente respondeu: "Quieta! O Rebi está sentado à mesa de Shabat!" Vendo que suas visitas se tinham tornado de domínio público, ele desapareceu.

Maharsha, um dos mais importantes comentaristas do Talmud, escreveu que o domínio da morte se deve à santidade e, como o Rebi era a própria personificação dessa virtude, ele tinha o mérito de voltar ao mundo terreno após seu falecimento. E não era coincidência o fato de voltar justamente no momento em que a santidade deste mundo está em seu ápice - durante a recitação do Kidush, quando se proclama a santificação do Shabat.

"Nosso patriarca Yaacov jamais morreu", ensina o Talmud. Nem Moshé Rabênu. Nem tampouco Rabênu HaKadosh. Eram almas com espírito muito elevado, tão ligadas a D'us, Fonte da Vida, a ponto de transcender a morte. Diz o Talmud que os lábios de cada um dos Sábios da Torá - mesmo daqueles que deixaram este mundo há milênios - movem-se e emitem sons quando alguém estuda seus ensinamentos, e os recita em voz alta. E, sendo assim, ainda que nossos olhos não vejam o Rabênu HaKadosh, sempre que estudamos a Mishná estamos, de fato, comungando com o Grande Sábio e Tsadik - verdadeiro Homem de D'us, Rebi, Príncipe e Líder de Israel.

Traduzido por Lilia Wachsmann

Bibliografia:

Bader, Gershom, The Encyclopedia of Talmudic Sages; Jason Aronson Inc.

Talmud Bavli - The Schottenstein Edition; The Artscroll Series; Mesorah Publications Ltd.

The Mishnah - Yad Avraham Series; The Artscroll Series; Mesorah Publications Ltd.

Steinsaltz, Adin Even, Talmud Reference Guide; Random House.

Freeman, Tzvi, Bringing Heaven Down to Earth; Class One Press.

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