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Do Pirkei Avot, tratado talmúdico que discute as questões éticas
e a conduta adequada, constam ensinamentos de Rabi Yehudá HaNasi. Este
ensinava que D'us percebe, um a um, os feitos de todos os homens e que,
por essa razão, ninguém escapava às conseqüências de seus atos, pois
que a Corte Celestial registra tudo o que o ser humano realiza e profere.
Era seu costume dizer que o judeu devia dar igual importância a todos
os Mandamentos Divinos, uma vez que nunca se poderia saber a recompensa
inerente a cada um dos mesmos.
O Rebi acreditava que não havia nada mais importante do que paz e fraternidade
entre todos os judeus. Disse, certa vez, que "mesmo se os judeus porventura
adorassem ídolos mas vivessem em paz, D'us, Ele Próprio, seria incapaz
de os punir". Dava, também, muito valor ao labor, enquanto desprezava
o ócio, dizendo: "Grande é o valor do trabalho. Quando as pessoas vêem
um homem que vagueia, sem ocupação, ficam a pensar de onde provém sua
renda. Tal homem pode ser comparado a uma mulher solteira que, por exagerar
em seus enfeites, atrai comentários negativos de terceiros. Semelhantes
pensamentos negativos desperta o homem que não trabalha".
O Rebi e Antonino
As qualidades pessoais de Rabi Yehudá HaNasi - sua sabedoria, nobreza
e grandeza de espírito - fizeram com que ele fosse amado não apenas
por seu povo, mas também pelo Imperador romano da época, a quem o Talmud
se refere como 'Antonino' e que se acredita tenha sido o Imperador Marco
Aurélio, brilhante mandatário de Roma antiga. A amizade entre os dois
é particularmente surpreendente pois, naquele então, os romanos tinham
ódio aos judeus. Somente um homem extraordinário, reluzente exemplo
de ser humano como o Rebi, poderia conquistar a amizade e a admiração
de um líder romano. Pois o Imperador desenvolveu um íntimo relacionamento
com o Nasi. Visitava-o, com freqüência em casa, ocasiões em que encetavam
longas e profundas conversas. Certa vez, durante uma refeição à mesa
de Rabi Yehudá HaNasi, o Imperador manifestou sua surpresa com a saborosa
comida que era servida - bem melhor do que em outras ocasiões - apesar
de estar fria. O Rebi lhe respondeu que a comida continha um ingrediente
"secreto" - o Shabat...
Ambos sempre mantinham interessantes discussões sobre questões filosóficas
e religiosas. Via de regra, o Imperador não se satisfazia com o ponto
de vista do Rebi e contribuía com suas próprias interpretações, com
as quais o amigo às vezes concordava - e que chegaram, mesmo, a ser
incorporadas e imortalizadas no Talmud. A confiança do potentado no
Nasi era tanta que ele costumava pedir-lhes conselhos sobre assuntos
pessoais, como a sucessão no trono romano. E, quanto mais tempo juntos
os dois passavam, mais o Imperador reverenciava o Rebi. A amizade entre
eles, à princípio mantida em sigilo, passou a ser pública e notória.
Antonino designou guardas romanos especiais para proteger o Rebi, instruindo-os
a dar cabo de qualquer pessoa que ousasse ameaçar-lhe a vida. Conta-se
que aquele buscava uma forma de atender e servir o amigo todas as vezes
em que o visitava. Certa feita, estava o Rebi prestes a subir em uma
liteira que o levaria à ieshivá. Antonino prontamente se curvou, fazendo
de suas costas o degrau que facilitaria a subida. Quando o Rebi se opôs,
veementemente, afirmando que tal gesto não condizia com a dignidade
da posição do Imperador, Antonino respondeu: "Quisera, no Mundo Vindouro,
ser um tapete sob seus pés". De outra feita, o governante enviou ao
Rebi várias sacas repletas de ouro, acobertando-as com trigo para que
os romanos não percebessem que brindava o líder do povo judeu com riquezas
imperiais. Quando Rabi Yehudá HaNasi recebeu as sacas, perguntou: "Por
que ages assim? Não estou necessitado dessa fortuna". Ao que Antonino
retrucou: "Que fique para os que vierem depois de ti e estes a possam
transferir às gerações futuras". Em outro belo gesto de amizade pelo
Sábio, o Imperador ofertou uma menorá à sinagoga de Tiberíades. Quando
o Rabi soube do presente, exclamou: "Louvado seja D'us que o inspirou
a tal gesto!"
E, assim, o líder do povo judeu e o mandatário de Roma mantiveram íntima
amizade por toda a vida. Quando morreu o Imperador, Rabi Yehudá HaNasi
lamentou-se, com um suspiro de dor: "Está destroçada a sociedade".
A edição da Mishná
O maior dos feitos do Rebi - que imortalizaria sua forte influência
e lhe outorgaria um lugar na história de nosso povo somente comparável
ao de Moisés - foi a edição da Mishná, obra onde compilou as leis e
costumes ditados por D'us, no Monte Sinai, e que haviam sido transmitidos,
oralmente, através das gerações. Por razões inúmeras, da época de Moshé
Rabênu até os dias de Rabênu HaKadosh, estava totalmente
proscrita a transcrição da Lei Oral. Contudo, à medida que envelhecia,
o Rabi Yehudá HaNasi foi-se tornando cada vez mais preocupado de que
um tão vasto repositório de Leis - ou, ao menos, parte do mesmo - pudesse
ser esquecido pelas gerações seguintes, já que os judeus viviam no exílio
ou sob ocupação de governantes estrangeiros, o que causava drástica
redução no número de estudiosos. E ele, erudito extraordinário em Torá
que era, além da forte influência e poder que exercia sobre todas as
comunidades judaicas, empreendeu consultas aos maiores Sábios de seu
tempo, registrando, assim, todas as explicações e interpretações da
Lei de Moisés.
Rabi Akiva já iniciara a majestosa obra de organizar o imenso cabedal
de leis contidas na Torá, cabendo ao Rebi dar-lhe continuidade e conclusão.
Não se trata de coincidência - aliás, nada nesta vida o é; muito menos
o que se refere à Torá - o fato de Rabi Yehudá HaNasi ter nascido no
exato dia em que falecia Rabi Akiva. Era um Yom Kipur, dia mais sagrado
do calendário judaico; e Roma executava o Mestre justamente por ensinar
e preservar a Torá. Ele deixava este mundo no dia em que nele entrava
aquele a quem caberia continuar sua obra.
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