Rabi Yehudá HaNasi: Rabênu HaKadosh - ed.50 - Página2

Do Pirkei Avot, tratado talmúdico que discute as questões éticas e a conduta adequada, constam ensinamentos de Rabi Yehudá HaNasi. Este ensinava que D'us percebe, um a um, os feitos de todos os homens e que, por essa razão, ninguém escapava às conseqüências de seus atos, pois que a Corte Celestial registra tudo o que o ser humano realiza e profere. Era seu costume dizer que o judeu devia dar igual importância a todos os Mandamentos Divinos, uma vez que nunca se poderia saber a recompensa inerente a cada um dos mesmos.

O Rebi acreditava que não havia nada mais importante do que paz e fraternidade entre todos os judeus. Disse, certa vez, que "mesmo se os judeus porventura adorassem ídolos mas vivessem em paz, D'us, Ele Próprio, seria incapaz de os punir". Dava, também, muito valor ao labor, enquanto desprezava o ócio, dizendo: "Grande é o valor do trabalho. Quando as pessoas vêem um homem que vagueia, sem ocupação, ficam a pensar de onde provém sua renda. Tal homem pode ser comparado a uma mulher solteira que, por exagerar em seus enfeites, atrai comentários negativos de terceiros. Semelhantes pensamentos negativos desperta o homem que não trabalha".

O Rebi e Antonino

As qualidades pessoais de Rabi Yehudá HaNasi - sua sabedoria, nobreza e grandeza de espírito - fizeram com que ele fosse amado não apenas por seu povo, mas também pelo Imperador romano da época, a quem o Talmud se refere como 'Antonino' e que se acredita tenha sido o Imperador Marco Aurélio, brilhante mandatário de Roma antiga. A amizade entre os dois é particularmente surpreendente pois, naquele então, os romanos tinham ódio aos judeus. Somente um homem extraordinário, reluzente exemplo de ser humano como o Rebi, poderia conquistar a amizade e a admiração de um líder romano. Pois o Imperador desenvolveu um íntimo relacionamento com o Nasi. Visitava-o, com freqüência em casa, ocasiões em que encetavam longas e profundas conversas. Certa vez, durante uma refeição à mesa de Rabi Yehudá HaNasi, o Imperador manifestou sua surpresa com a saborosa comida que era servida - bem melhor do que em outras ocasiões - apesar de estar fria. O Rebi lhe respondeu que a comida continha um ingrediente "secreto" - o Shabat...

Ambos sempre mantinham interessantes discussões sobre questões filosóficas e religiosas. Via de regra, o Imperador não se satisfazia com o ponto de vista do Rebi e contribuía com suas próprias interpretações, com as quais o amigo às vezes concordava - e que chegaram, mesmo, a ser incorporadas e imortalizadas no Talmud. A confiança do potentado no Nasi era tanta que ele costumava pedir-lhes conselhos sobre assuntos pessoais, como a sucessão no trono romano. E, quanto mais tempo juntos os dois passavam, mais o Imperador reverenciava o Rebi. A amizade entre eles, à princípio mantida em sigilo, passou a ser pública e notória. Antonino designou guardas romanos especiais para proteger o Rebi, instruindo-os a dar cabo de qualquer pessoa que ousasse ameaçar-lhe a vida. Conta-se que aquele buscava uma forma de atender e servir o amigo todas as vezes em que o visitava. Certa feita, estava o Rebi prestes a subir em uma liteira que o levaria à ieshivá. Antonino prontamente se curvou, fazendo de suas costas o degrau que facilitaria a subida. Quando o Rebi se opôs, veementemente, afirmando que tal gesto não condizia com a dignidade da posição do Imperador, Antonino respondeu: "Quisera, no Mundo Vindouro, ser um tapete sob seus pés". De outra feita, o governante enviou ao Rebi várias sacas repletas de ouro, acobertando-as com trigo para que os romanos não percebessem que brindava o líder do povo judeu com riquezas imperiais. Quando Rabi Yehudá HaNasi recebeu as sacas, perguntou: "Por que ages assim? Não estou necessitado dessa fortuna". Ao que Antonino retrucou: "Que fique para os que vierem depois de ti e estes a possam transferir às gerações futuras". Em outro belo gesto de amizade pelo Sábio, o Imperador ofertou uma menorá à sinagoga de Tiberíades. Quando o Rabi soube do presente, exclamou: "Louvado seja D'us que o inspirou a tal gesto!"

E, assim, o líder do povo judeu e o mandatário de Roma mantiveram íntima amizade por toda a vida. Quando morreu o Imperador, Rabi Yehudá HaNasi lamentou-se, com um suspiro de dor: "Está destroçada a sociedade".

A edição da Mishná

O maior dos feitos do Rebi - que imortalizaria sua forte influência e lhe outorgaria um lugar na história de nosso povo somente comparável ao de Moisés - foi a edição da Mishná, obra onde compilou as leis e costumes ditados por D'us, no Monte Sinai, e que haviam sido transmitidos, oralmente, através das gerações. Por razões inúmeras, da época de Moshé Rabênu até os dias de Rabênu HaKadosh, estava totalmente proscrita a transcrição da Lei Oral. Contudo, à medida que envelhecia, o Rabi Yehudá HaNasi foi-se tornando cada vez mais preocupado de que um tão vasto repositório de Leis - ou, ao menos, parte do mesmo - pudesse ser esquecido pelas gerações seguintes, já que os judeus viviam no exílio ou sob ocupação de governantes estrangeiros, o que causava drástica redução no número de estudiosos. E ele, erudito extraordinário em Torá que era, além da forte influência e poder que exercia sobre todas as comunidades judaicas, empreendeu consultas aos maiores Sábios de seu tempo, registrando, assim, todas as explicações e interpretações da Lei de Moisés.

Rabi Akiva já iniciara a majestosa obra de organizar o imenso cabedal de leis contidas na Torá, cabendo ao Rebi dar-lhe continuidade e conclusão. Não se trata de coincidência - aliás, nada nesta vida o é; muito menos o que se refere à Torá - o fato de Rabi Yehudá HaNasi ter nascido no exato dia em que falecia Rabi Akiva. Era um Yom Kipur, dia mais sagrado do calendário judaico; e Roma executava o Mestre justamente por ensinar e preservar a Torá. Ele deixava este mundo no dia em que nele entrava aquele a quem caberia continuar sua obra.

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N.69/setembro 2010
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