Shula Cohen, codinome: a Pérola - ed.48 - Página1

MULHERES NA HISTÓRIA
Shula Cohen, codinome: a Pérola


Foto Ilustrativa


Edição 48 - abril de 2005
A trajetória que transformou uma dedicada esposa e mãe de família em uma das principais espiãs do Oriente Médio.

Shula Cohen nasceu na Argentina, em 1920, e aos 7 anos emigrou para Eretz Israel com sua família. Sua vida começou a mudar quando, aos 16 anos, encontrou Joseph Kishik Cohen, um próspero comerciante judeu libanês que fora a Jerusalém especialmente para conhecê-la. Foi um casamento "arranjado", como era costume, à época. A cerimônia se realizou em Beirute, onde Joseph vivia com sua família.

O casal foi morar no bairro judeu de Wadi Abu Jamil e teve sete filhos. Joseph era um bom marido, mas, embora tivesse uma vida feliz, Shula sentia um vazio dentro dela; buscava envolver-se mais concretamente com seu povo.

Esse envolvimento com a causa sionista começou casualmente, em 1944, quando ela passou a freqüentar o movimento juvenil Macabi Hatzair. Sua função era transmitir aos jovens, por meio de músicas, histórias e jogos, as experiências de sua infância em Jerusalém, incutindo neles o amor por Israel. No dia da votação nas Nações Unidas para a Partilha da então Palestina, em 29 de novembro de 1947, que levaria à criação do Estado de Israel, a polícia cercou o bairro judeu para controlar as manifestações e evitar hostilidades contra os judeus.

Shula passava o dia em casa ouvindo pelo rádio notícias da luta que acontecia em Israel. As informações eram alarmantes: parecia inevitável uma guerra entre o recém-criado Estado e a Liga Árabe. No Líbano, o representante da Liga recrutava voluntários para lutar no Exército de Libertação Árabe, que invadiria o novo país assim que fosse declarada sua independência. A fronteira do Líbano se tornaria - assim como ocorrera em 1936-39 - uma base para ataques militares contra Israel.

Preocupada com a sua família, que vivia em Jerusalém, e com a sorte do recém-criado Estado, Shula procurava uma forma de ajudar. Na época, tinha 24 anos. A oportunidade surgiu um dia, quando, estando na loja do marido, ouviu de um vendedor libanês, recém-chegado do sul do país, importantes informações. Ele falava sobre voluntários que estavam sendo recrutados e treinados para lutar contra Israel e sobre possíveis instalações militares e movimentações de tropas árabes que se preparavam para atacar o novo país.

Shula não teve dúvida. As informações precisavam chegar até Israel. Convenceu o marido a ajudá-la. Este pediu a um de seus vendedores, que vivia em um vilarejo na fronteira com Israel, que levasse uma carta até o kibutz mais próximo, alegando ser para os pais da esposa. Na carta, Shula colocara todas as informações, na certeza de que, de alguma forma, estas chegariam às pessoas certas.

Decidida a Partilha, explodiram por todo o Oriente Médio manifestações contra os judeus. O clima de relativa tolerância e liberdade que havia no Líbano fez afluírem a este país milhares de refugiados judeus exilados da Síria e do Iraque. Shula e dois grandes líderes comunitários, o advogado Albert Elia e o médico Dr. Attié, foram os responsáveis pela criação de uma rota de fuga para transferir, clandestinamente, os refugiados para Israel.

Com o tempo, essa mulher destemida conseguiu penetrar nos mais altos círculos do poder, circulando entre presidentes, diplomatas e militares com a mesma naturalidade com que o fazia no submundo, povoado por perigosos bandidos, contrabandistas e ladrões.

Sob o codinome "a Pérola", Shula se tornou uma das principais agentes israelenses no Líbano. Sua história é a de uma mulher que não hesitou em arriscar a vida de seu marido e filhos, além da sua, em prol de seu povo.

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