|
Na verdade, a narrativa da história de sua vida, no Livro dos Reis,
é basicamente o registro de uma série de eventos e atos sobrenaturais.
Elisha viveu no Reino de Israel, no século VII antes da Era Comum, época
turbulenta em que a Terra de Israel estava dividida entre os reinos
de Israel, ao norte, e Judá, ao sul. Além disso, apesar dos esforços
do profeta Eliahu, os Filhos de Israel ainda não haviam abandonado as
práticas idólatras introduzidas por Jezebel, esposa do rei Achav.
Com a subida de seu mestre aos Céus, cabe a Elisha dar continuidade
à missão de fazer Israel entender que D'us é Um e Único e que somente
Ele é o Juiz Supremo. Através de demonstrações de Seu poder, de Sua
justiça e de Sua misericórdia, D'us queria forçar até os mais céticos
entre Seus filhos a abandonar as práticas idólatras e reconhecer que
Ele era D'us Todo Poderoso, tanto nos Céus quanto na Terra. Para cumprir
sua missão, Elisha começa a viajar pela Terra de Israel, acompanhado
de alunos e discípulos, voltando a todos os lugares onde estivera com
Eliahu. Por onde passa, opera milagres, provando assim que sucedia o
mestre. Todas as narrativas que o envolvem servem para reafirmar que
a Força e Poder Divino regem tudo o que existe na natureza.
Apesar de sua intensa atuação pessoal e política junto a Israel, Elisha,
diferentemente de Eliahu, efetua a maioria de seus milagres sobre pessoas
comuns: famintos, pobres, uma viúva com problemas financeiros, uma mulher
sem filhos, um doente, um jovem que falecera. O Livro dos Reis revela
a grandeza de Elisha, descrevendo sua imensa compaixão.
O manto da profecia
Elisha, filho de Shafat, rico proprietário de terras em Abelmecholá,
escolhido por D'us para suceder Eliahu, arava o campo quando o mestre
o viu pela primeira vez. De imediato, o profeta joga sobre os ombros
do jovem o próprio manto e, com aquele sinal, tornava o agricultor seu
discípulo. Este imediatamente abandona tudo, seus familiares, suas posses,
para dedicar-se a D'us e acompanhar Eliahu, seu novo mentor, quase um
pai.
Os dois se tornam inseparáveis por quase dez anos e, quando chega o
momento em que o mestre deve deixar este mundo, seu fiel discípulo o
acompanha. Não aceita, de forma alguma, deixá-lo partir só. Ambos são
seguidos à distância por 50 profetas, também discípulos de Eliahu. D'us
queria que este lhes concedesse sua aura de profecia antes de partir.
A despedida entre mestre e discípulo predileto ocorreu nas proximidades
do rio Jordão, perto de Jericó. Ao alcançarem as margens do rio, percebem
que as águas haviam subido, de um momento a outro. Como o atravessariam?
Os discípulos observavam atentamente o mestre. Este, com um gesto de
seu manto, abre as águas do rio e o atravessa, com Elisha.
Ciente de que o discípulo querido sofreria muito com sua partida, para
consolá-lo e retribuir-lhe a lealdade, Eliahu pergunta o que pode fazer
por ele antes da inevitável separação. E Elisha diz: "Peço-te que haja
porção dobrada de teu espírito sobre mim". Pedia uma porção dupla do
Espírito Divino, ou seja, o dobro do espírito e força moral do mestre.
Segundo os sábios, Elisha pedia que D'us lhe concedesse o mérito de
realizar o dobro dos milagres que Eliahu obrara enquanto vivo.
"Pedes-me algo difícil", responde, "pois como te daria mais do que
tenho?" "Mas", acrescenta, "se me vires quando for tomado de ti, então
poderás ter uma porção dupla do meu espírito" (Reis II, 2-10). Nossos
sábios explicam que na hora em que estivesse para deixar a vida terrena,
Eliahu estaria em um nível espiritual duas vezes mais elevado do que
quando era simples mortal, podendo assim atender o pedido de Elisha.
E, se este presenciasse sua partida, significaria ter atingido um nível
espiritual adequado para merecer "a dupla porção" do espírito do grande
Eliahu HaNavi.
|