Berlim, 1936: as Olimpíadas nazistas - ed.45 - Página1

ANTI-SEMITISMO
Berlim, 1936: as Olimpíadas nazistas



Foto Ilustrativa


Edição 45 - junho de 2004

Os Jogos Olímpicos de Berlim, de 1936, foram uma das páginas mais vergonhosas do esporte mundial de nossa era.

Em janeiro de 1933, Hitler se torna chanceler da Alemanha e o Partido Nacional-Socialista chega ao poder. Um nacionalismo e autoritarismo exaltados, acrescidos de uma ideologia racista e anti-semita, eram os elementos essenciais da campanha política e da visão de mundo do Führer. Mal chegado ao poder, ele começa a montar um sistema ditatorial e a pôr em prática seu programa anti-semita. O incêndio do prédio do Reichstag, o parlamento alemão, em fevereiro de 1933, logo atribuído aos comunistas, serve de pretexto para que fossem aprovadas leis que o levariam ao poder absoluto.

Passo a passo, os judeus foram despojados de seus direitos individuais e civis. Um ano antes da realização dos Jogos Olímpicos, as Leis de Nüremberg tinham excluído os judeus da sociedade alemã. O esporte não foi uma exceção. Os atletas judeus foram proibidos de freqüentar os clubes em que treinavam. E os que se haviam qualificado nas várias modalidades e treinavam para participar dos jogos de 1936 foram sumariamente dispensados pelos respectivos comitês olímpicos, ainda que seu desempenho fosse excelente. A delegação alemã não queria judeu algum em suas fileiras.

Mas a política repressiva e anti-semita da Alemanha nazista provocou reações na mídia e na opinião pública mundial. Houve uma campanha para mudar a sede dos jogos, mas o Comitê Olímpico Internacional (COI), com o argumento de que o esporte olímpico não deveria sofrer interferência política, manteve Berlim como sede.

Boicote aos jogos

Pressionados pela opinião pública, vários paises ameaçaram boicotar os jogos, entre os quais Estados Unidos, Inglaterra e França. Várias associações atléticas norte-americanas e inglesas condicionaram sua presença nas Olimpíadas de Berlim ao direito dos judeus alemães de treinar e fazer parte da delegação olímpica de seu país.

Mas o esporte mundial não estava unido frente à arbitrariedade nazista. Havia os que concordavam com os nazistas no tocante aos judeus. Apesar de que uma pesquisa de opinião pública, realizada em 1935, mostrara que 43% dos norte-americanos estavam a favor do boicote, o presidente do influente Comitê Olímpico Americano, Avery Brundage, estava determinado a enviar a delegação olímpica de seu país a Berlim. Apesar de serem contundentes as provas da política nazista contra os judeus, Brundage insistia publicamente que os protestos e a idéia do boicote haviam sido orquestrados "por agitadores judeus e comunistas". O escritor Richard D. Mandell em seu livro "A Nazi Olympics" aponta para o fato de Julius Streicher, amigo de Hitler e editor do jornal Der Sturmer, nitidamente anti-semita, ter escrito, na época: "Judeus são judeus. E, no esporte alemão, não há lugar para eles. A Alemanha é a pátria dos alemães, não dos judeus".

Como Mandell observa, Brundage estava deslumbrado pelos nazistas e afirmara, de público, que "O mundo tem muito o que aprender com a Alemanha" e que "...nenhuma outra nação, desde a Grécia antiga, mostrara tamanho interesse nacional no espírito olímpico como o que se vê, hoje, na Alemanha". Convidado a visitar Berlim dois anos antes das Olimpíadas, dera-se por satisfeito quando os alemães lhe asseguraram que 23 atletas judeus seriam convidados a treinar nos centros olímpicos. Brundage não era o único membro do Comitê Olímpico Americano a favorecer os alemães e a desprezar os judeus. O General Charles E. Sherrill disse que "nunca houve na história um atleta judeu de destaque". Frederick Rubien, secretário do Comitê Olímpico Americano, afirmara: "Os alemães não estão discriminando os judeus. Os atletas judeus foram eliminados porque não têm nível para competir". Infelizmente, nem mesmo o presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, apesar das Leis de Nüremberg, pronunciou-se sobre o boicote ou sobre a atitude nazista com os atletas judeus alemães.

O Comitê Olímpico Internacional fez de tudo para evitar o boicote. Historiadores concordam que mais dois influentes membros do COI, além de Brundage, eram anti-semitas, Graf Henry, da Bélgica, e J. Sigfried Edstrom, da Suécia. Edstrom afirmara que a campanha na imprensa norte-americana era orquestrada pelos judeus dos EUA e que era "necessária a ação nazista contra os judeus para que a Alemanha continuasse a ser uma nação branca".

Mas a opinião pública norte-americana e inglesa continuava a se manifestar contra a política nazista. Hitler, então, para silenciar a comoção internacional e não tirar o brilho do espetáculo, resolveu dar uma trégua aos atletas judeus. Permitiu que a esgrimista Helen Mayer e o jogador de hóquei, Rudi Ball participassem da delegação alemã. Loura de olhos azuis, Helen, que desde 1932 vivia na Califórnia, era filha de pai judeu e mãe cristã. Segundo o "Livro Completo das Olimpíadas", de autoria de David Wallechinsky, "Os nazistas aceitaram a esgrimista porque, pelo menos, dois de seus avós eram arianos...".

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