RABI SHIMON BAR YOCHAI - ed.44 - Página1

PROFETAS E SÁBIOS
RABI SHIMON BAR YOCHAI: O PAI DO MISTICISMO JUDAICO
por Tev Djmal


Foto Ilustrativa


Edição 44 - março de 2004

Uma narrativa do Talmud de Jerusalém: Rabi Akiva, ao ordenar seus dois alunos mais destacados, o Rabi Meir Baal Ha'Ness - Mestre dos Milagres - e o Rabi Shimon Bar Yochai, assim se teria expressado: 'Deixa que primeiro se sente Rabi Meir'. Empalidecendo, Rabi Shimon ouviu o mestre, Rabi Akiva, que continuando, lhe confidenciava: "Basta que o Criador e eu tenhamos consciência de teu poder".

O que nos ensina esta história? Ensina-nos que o mérito do Rabi Shimon era tão extraordinário que somente D'us e seu mestre podiam apreciá-lo, inteiramente. Não podemos falar de Rabi Shimon sem primeiro mencionar Rabi Akiva, seu guia. Se quisermos louvar o discípulo, primeiro devemos render as homenagens ao mestre - ainda que de forma sucinta. Analfabeto até completar 40 anos, Akiva se tornaria o maior dos mestres do Talmud. Segundo relatos neste último e no Midrash, até mesmo a alma de Moisés sentiu-se humilde diante do vasto conhecimento em questões da Torá e do auto-sacrifício que Akiva se impôs. Ele foi um dos quatro sábios que, ainda vivos fisicamente, adentraram o Pardês - o Jardim do Misticismo - vivenciando o Mundo Vindouro. Foi o único a voltar com vida, bem disposto e em paz. Não surpreende, portanto, o fato de seu aluno mais destacado ter-se tornado "o pai" do misticismo judaico. A vida e o heroísmo de Rabi Akiva estão descritos no Talmud e na liturgia de Yom Kipur. Foi torturado e executado pelos romanos por ter salvo o judaísmo, desafiando o decreto de Roma que proibia o ensino da Torá. Rabi Akiva certamente legou ao maior de seus discípulos os seus dons místicos, a sua paixão insaciável pela Lei de Moisés e a sua forte oposição a todos que não acreditavam num D´us Único.

Rabi Shimon, também conhecido como Rashbi (uma sigla tirada das iniciais de seu nome - Rabi Shimon Bar Yochai), viveu durante o segundo século da Era Comum. De modo similar a seu mestre, em época de grandes perseguições romanas. Conhecido como um grandioso artífice de maravilhas, era convocado pelos judeus para realizar milagres em sua intenção. E, por isso, apesar do ódio ancestral que ele nutria pelos romanos - nunca os tendo perdoado pelos crimes indescritíveis que cometeram contra seu mestre e contra seu povo - os líderes judeus da época o enviaram a Roma. Levava a missão de tentar convencer o imperador romano a extinguir a proibição de se praticar a religião judaica. Ao descrever esse episódio, o Talmud nos relata um dos inúmeros milagres que marcaram a vida do Rashbi: a filha do imperador, possuída por um demônio, esbravejava dizendo que só havia um homem que a podia exorcizar e que este atendia pelo nome de Rabi Shimon Bar Yochai. O místico judeu o conseguiu - e a proibição foi revogada.

No entanto, o ódio que tinha de Roma permanecia imutável e ele nada fazia para disfarçá-lo; pouco faltou para que se tornasse mútuo. No ano de 3909 (149 da E.C.), Rabi Shimon, ouvindo um colega judeu louvar as conquistas romanas, reagiu dizendo que "tudo o que haviam feito de bom tinha sido em seu próprio benefício, além de motivados por propósitos imorais". A discussão chegou aos ouvidos das autoridades romanas, que decretaram que ele fosse morto.

Ato contínuo, o Rabi e seu filho, Rabi Elazar, fugiram e se esconderam em uma caverna. Lá permaneceram durante treze anos, estudando, noite e dia, a Torá. Sustentaram-se, dentro da caverna, do fruto de uma alfarrobeira e da água de uma fonte, surgida do nada. Durante os anos em que viveram na caverna, pai e filho - tendo o estudo da Torá como única ocupação - foram visitados pelas almas de Moisés e do profeta Eliahu, que lhes transmitiram os segredos místicos mais profundos do universo. E exatamente essa riqueza de conhecimentos, adquiridos na caverna, foi transcrita como sendo o Zohar - a obra na qual se fundamenta a Cabalá.

Transcorridos doze anos da reclusão dos eruditos, morre o governador romano, levando consigo o decreto de morte contra Rabi Shimon. Quando o grande sábio e seu filho emergem do isolamento da caverna, deparam com um homem que arava e semeava a terra. Os dois, que se tinham recolhido por mais de uma década numa caverna, exclusiva e ininterruptamente estudando a Torá, não podiam compreender como devotava um judeu o seu tempo a uma ocupação mundana qualquer - e não a questões eternas, como a oração e o estudo da Lei. Encararam, pois, o homem, com desagrado, e de seus olhos se projeta um raio de fogo que o queima. Eis que dos Céus lhes chega uma voz, tonitruante: "Para destruir o Meu mundo saístes da reclusão?" E a Voz lhes ordenou voltar ao isolamento da caverna, tendo lá permanecido por mais um ano, imersos no estudo. Quando, pela segunda e última vez emergem da caverna, pai e filho regozijaram-se ao constatar que os judeus de Israel se ocupavam do cumprimento dos sagrados Mandamentos Divinos. Já não incomodava ao Rashbi o que de mundano o cercava e disse a Elazar, seu filho, que o que ambos estudaram da Torá bastava para sustentar o mundo. Rabi Shimon estava em busca de maneiras de retificar o mundo; não de condená-lo.

De seu longo confinamento, emergiu Rabi Shimon espiritualmente mais sábio e mais poderoso do que nunca. Reunindo seu filho, seu genro e os discípulos mais próximos, começa a lhes revelar os segredos da Cabalá que ele próprio recebera durante os treze anos em que estivera recluso. Esses grandes mistérios e revelações sobre o processo da Criação, sobre o relacionamento de D'us com nossa existência e sobre a feitura da alma humana eram transmitidos oralmente, de geração em geração, pelos grandes líderes espirituais do povo judeu exclusivamente a seus pares. Mas, com Rabi Shimon, a Cabalá começou a ser transcrita, de forma sistemática, e divulgada pelo mundo. Daí considerarem-no o "pai" do misticismo judaico. Um de seus discípulos, Rabi Abba, seu escriba mais proeminente, foi quem redigiu o Sefer Ha'Zohar - "o Livro do Esplendor" - espinha dorsal dos estudos cabalísticos.

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