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O que nos ensina esta história?
Ensina-nos que o mérito do Rabi Shimon era tão extraordinário que somente
D'us e seu mestre podiam apreciá-lo, inteiramente. Não podemos falar
de Rabi Shimon sem primeiro mencionar Rabi Akiva, seu guia. Se quisermos
louvar o discípulo, primeiro devemos render as homenagens ao mestre
- ainda que de forma sucinta. Analfabeto até completar 40 anos, Akiva
se tornaria o maior dos mestres do Talmud. Segundo relatos neste último
e no Midrash, até mesmo a alma de Moisés sentiu-se humilde diante do
vasto conhecimento em questões da Torá e do auto-sacrifício que Akiva
se impôs. Ele foi um dos quatro sábios que, ainda vivos fisicamente,
adentraram o Pardês - o Jardim do Misticismo - vivenciando o
Mundo Vindouro. Foi o único a voltar com vida, bem disposto e em paz.
Não surpreende, portanto, o fato de seu aluno mais destacado ter-se
tornado "o pai" do misticismo judaico. A vida e o heroísmo de Rabi Akiva
estão descritos no Talmud e na liturgia de Yom Kipur. Foi torturado
e executado pelos romanos por ter salvo o judaísmo, desafiando o decreto
de Roma que proibia o ensino da Torá. Rabi Akiva certamente legou ao
maior de seus discípulos os seus dons místicos, a sua paixão insaciável
pela Lei de Moisés e a sua forte oposição a todos que não acreditavam
num D´us Único.
Rabi Shimon, também conhecido
como Rashbi (uma sigla tirada das iniciais de seu nome - Rabi Shimon
Bar Yochai), viveu durante o segundo século da Era Comum. De modo similar
a seu mestre, em época de grandes perseguições romanas. Conhecido como
um grandioso artífice de maravilhas, era convocado pelos judeus para
realizar milagres em sua intenção. E, por isso, apesar do ódio ancestral
que ele nutria pelos romanos - nunca os tendo perdoado pelos crimes
indescritíveis que cometeram contra seu mestre e contra seu povo - os
líderes judeus da época o enviaram a Roma. Levava a missão de tentar
convencer o imperador romano a extinguir a proibição de se praticar
a religião judaica. Ao descrever esse episódio, o Talmud nos relata
um dos inúmeros milagres que marcaram a vida do Rashbi: a filha do imperador,
possuída por um demônio, esbravejava dizendo que só havia um homem que
a podia exorcizar e que este atendia pelo nome de Rabi Shimon Bar Yochai.
O místico judeu o conseguiu - e a proibição foi revogada.
No entanto, o ódio que tinha
de Roma permanecia imutável e ele nada fazia para disfarçá-lo; pouco
faltou para que se tornasse mútuo. No ano de 3909 (149 da E.C.), Rabi
Shimon, ouvindo um colega judeu louvar as conquistas romanas, reagiu
dizendo que "tudo o que haviam feito de bom tinha sido em seu próprio
benefício, além de motivados por propósitos imorais". A discussão chegou
aos ouvidos das autoridades romanas, que decretaram que ele fosse morto.
Ato contínuo, o Rabi e seu
filho, Rabi Elazar, fugiram e se esconderam em uma caverna. Lá permaneceram
durante treze anos, estudando, noite e dia, a Torá. Sustentaram-se,
dentro da caverna, do fruto de uma alfarrobeira e da água de uma fonte,
surgida do nada. Durante os anos em que viveram na caverna, pai e filho
- tendo o estudo da Torá como única ocupação - foram visitados pelas
almas de Moisés e do profeta Eliahu, que lhes transmitiram os segredos
místicos mais profundos do universo. E exatamente essa riqueza de conhecimentos,
adquiridos na caverna, foi transcrita como sendo o Zohar - a obra na
qual se fundamenta a Cabalá.
Transcorridos doze anos
da reclusão dos eruditos, morre o governador romano, levando consigo
o decreto de morte contra Rabi Shimon. Quando o grande sábio e seu filho
emergem do isolamento da caverna, deparam com um homem que arava e semeava
a terra. Os dois, que se tinham recolhido por mais de uma década numa
caverna, exclusiva e ininterruptamente estudando a Torá, não podiam
compreender como devotava um judeu o seu tempo a uma ocupação mundana
qualquer - e não a questões eternas, como a oração e o estudo da Lei.
Encararam, pois, o homem, com desagrado, e de seus olhos se projeta
um raio de fogo que o queima. Eis que dos Céus lhes chega uma voz, tonitruante:
"Para destruir o Meu mundo saístes da reclusão?" E a Voz lhes ordenou
voltar ao isolamento da caverna, tendo lá permanecido por mais um ano,
imersos no estudo. Quando, pela segunda e última vez emergem da caverna,
pai e filho regozijaram-se ao constatar que os judeus de Israel se ocupavam
do cumprimento dos sagrados Mandamentos Divinos. Já não incomodava ao
Rashbi o que de mundano o cercava e disse a Elazar, seu filho, que o
que ambos estudaram da Torá bastava para sustentar o mundo. Rabi Shimon
estava em busca de maneiras de retificar o mundo; não de condená-lo.
De seu longo confinamento,
emergiu Rabi Shimon espiritualmente mais sábio e mais poderoso do que
nunca. Reunindo seu filho, seu genro e os discípulos mais próximos,
começa a lhes revelar os segredos da Cabalá que ele próprio recebera
durante os treze anos em que estivera recluso. Esses grandes mistérios
e revelações sobre o processo da Criação, sobre o relacionamento de
D'us com nossa existência e sobre a feitura da alma humana eram transmitidos
oralmente, de geração em geração, pelos grandes líderes espirituais
do povo judeu exclusivamente a seus pares. Mas, com Rabi Shimon, a Cabalá
começou a ser transcrita, de forma sistemática, e divulgada pelo mundo.
Daí considerarem-no o "pai" do misticismo judaico. Um de seus discípulos,
Rabi Abba, seu escriba mais proeminente, foi quem redigiu o Sefer Ha'Zohar
- "o Livro do Esplendor" - espinha dorsal dos estudos cabalísticos.
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