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Palestina a ser dividida contava com uma população de 1 milhão e 200
mil árabes e 570 mil judeus, cabendo às Nações Unidas a tutela de Jerusalém.O
futuro Estado Judeu ficaria com 55% do território e apenas 58% do total
de seus habitantes. O Estado Árabe, com 45% da área e 99% dos habitantes.
A decisão final sobre a partilha caberia à Assembléia Geral.
Abba Eban, que viria a ser um dos mais
destacados chanceleres de Israel, escreveu em suas memórias: "Nós tínhamos
bons aliados. O presidente da Assembléia, Oswaldo Aranha, do Brasil,
estava religiosamente enlevado pelo conceito da existência de um estado
judaico. Do seu lado estava a sólida e rotunda figura do secretário-geral,
Trygve Lie, que tinha um interesse duplo em nosso sucesso: era necessário
um acontecimento que desse ressonância às Nações Unidas na opinião pública
mundial e, como socialista norueguês, tinha acompanhado de perto as
perseguições nazistas em seu país". David Horowitz e Moshe Sharret lideravam
a delegação da Agência Judaica que acompanhava os acontecimentos de
perto, em Nova York, e trabalhava 24 horas por dia. Telefonemas, cartas
e telegramas percorriam febrilmente os continentes. Era preciso encontrar
alguém nas Filipinas que tivesse acesso ao presidente e alguém, nos
Estados Unidos, que fosse amigo do presidente da Libéria. Faltava convencer
diversos países da América Latina e, muito mais difícil ainda, atrair
a França e a Bélgica para a causa sionista.
No dia 27 de novembro, quando a Assembléia
Geral se reuniu, os líderes judeus eram uma só depressão. Se houvesse
a votação, estava longe a possibilidade de serem alcançados os dois
terços dos votos. A única alternativa era pedir aos embaixadores dos
países favoráveis à partilha que ocupassem a tribuna e discursassem
o máximo possível para que o horário extrapolasse, obrigando o adiamento
da sessão. O representante do Uruguai, Rodriguez Fabregat, foi particularmente
brilhante, falando por longo tempo, sem, no entanto, deixar transparecer
que se tratava de uma obstrução. Ao anoitecer, Oswaldo Aranha cedeu
aos apelos da liderança judaica e num gesto amigável deu a sessão por
encerrada. O dia seguinte seria feriado nos Estados Unidos, o Dia de
Ação de Graças, e portanto a assembléia só voltaria a se reunir dois
dias depois. Esse intervalo de 24 horas acabou se tornando crucial.
Foi nesse tempo que, a exemplo de outros países, as Filipinas e a Líbéria
asseguraram seus votos pela partilha. A França, inclinada a votar contra,
dava sinais de que poderia mudar de idéia. À última hora, o chefe da
delegação árabe, o libanês Camile Chammoun, desencavou uma resolução
do comitê político das Nações Unidas, através da qual uma comissão formada
pelos embaixadores da Austrália, Tailândia e Islândia tentaria uma solução
de compromisso entre as partes. O relatório final caberia ao islandês
Thor Thors.
Na manhã do dia 29 de novembro de 1947,
o embaixador da Tailândia, Príncipe Wan, deixou Nova York às pressas,
alegando que havia um princípio de revolução em seu país. Foi a maneira
que encontrou para fugir à pressão árabe de votar contra a partilha.
De qualquer maneira, a sessão seria aberta
por Thor Thors e Abba Eban decidiu procurá-lo de manhã cedo no Hotel
Barclay. Disse-lhe que se o povo judeu triunfasse com a partilha, estaria
realizando um sonho milenar. Se fracassasse, esse sonho poderia ficar
extinto por muitas gerações. Tudo dependeria da atmosfera que viesse
a ser criada por ele na abertura dos trabalhos. A emocionada resposta
de Thors deixou Eban desconcertado. Ele disse que a Islândia estava
menos remota do destino judaico do que se poderia supor porque a cultura
de seu país estava impregnada de lições bíblicas, porque seu povo lutava
contra terríveis adversidades da natureza e, portanto, bem compreendia
a luta dos judeus.
À tarde, era indescritível a tensão nas
Nações Unidas, com frenéticos repórteres, fotógrafos e cinegrafistas
de todas as partes do mundo, os embaixadores sendo assediados nos corredores,
as galerias lotadas. Aberta a sessão, Oswaldo Aranha deu a palavra a
Thor Thors. O embaixador islandês declarou de forma imperativa estar
convencido de que era impossível um acordo e que cabia à Assembléia
Geral tomar uma decisão. Camille Chamoun ainda tentou obter novo adiamento,
mas foi obstado por Aranha, apoiado pelos embaixadores Herschel Johnson,
dos Estados Unidos, e Andrei Gromiko, da União Soviética.
Quando os discursos terminaram e Oswaldo
Aranha deu início à votação, chamando os países por ordem alfabética,
um manto de solenidade cobriu a assembléia. Os votos foram-se alternando,
mais para "sim" do que para "não" e a vitória sionista tornou-se evidente
quando a França disse "oui". Ao término, Aranha declarou com voz firme:
"São 33 a favor, 13 contra, 10 abstenções e uma ausência. A resolução
está adotada". Nos corredores das Nações Unidas, judeus se abraçavam
e choravam e não-judeus, sensibilizados por aquele instante dramático,
também. Abba Eban escreveu em suas memórias: "Suzy e eu, mais Moshe
Sharret e Moshe Tov, entramos num carro e saímos dali. Estranhamente,
mas de forma compreensível, fizemos a viagem até Manhattan no mais completo
silêncio. Nosso destino era o Hotel Plaza, onde fomos cumprimentar Chaim
Wezimann e o convencemos a vir conosco a uma manifestação no Madison
Square Garden, onde ele recebeu estrondosa ovação".
Já era madrugada em Jerusalém. A multidão
dançava e cantava nas ruas. Sozinho em seu gabinete da Agência Judaica,
David Ben-Gurion mantinha a cabeça baixa e coberta pelas mãos. Ele avistava
a fumaça de uma guerra terrível que fatalmente viria.
Zevi Ghivelder é escritor e jornalista.
Os votos
Votação referente à Partilha da Palestina
durante Assembléia Geral das Nações Unidas, no dia 29 de novembro de
1947
A favor : 33
África do Sul, Austrália, Bélgica, Bolívia,
Brasil, Bielorússia, Canadá, Checoslováquia, Costa Rica, Dinamarca,
Equador, Estados Unidos, Filipinas, França, Guatemala, Haiti, Holanda,
Islândia, Libéria, Luxemburgo, Nicarágua, Noruega, Nova Zelândia, Panamá,
Paraguai, Peru, Polônia, República Dominicana, Suécia, Ucrânia, União
Soviética, Uruguai e Venezuela.
Contra: 13
Afeganistão, Arábia Saudita, Cuba, Egito,
Grécia, Iêmen, Índia, Irã, Iraque, Líbano, Paquistão, Síria e Turquia.
Abstenções: 10
Argentina, Chile, China, Colômbia, El
Salvador, Etiópia, Honduras, Iugoslávia, México e Reino Unido.
Ausência: 1
Tailândia
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