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ANTI-SEMITISMO |
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FILME FOMENTA ANTI-SEMITISMO ?
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Foto Ilustrativa
| Edição
44 - março de 2004 |
Antes
mesmo de seu lançamento nas salas de cinema de todo o mundo, o filme
"A Paixão " produzido e dirigido pelo ator Mel Gibson, gera debates
e críticas pela violência de suas cenas.E, principalmente, segundo comentaristas
internacionais judeus e não judeus, por devolver ao povo de Israel a
responsabilidade pela morte de Jesus.Ou seja, culpava-o, novamente,
pelo crime de deicídio, acusação que lhe fora retirada há quase trinta
anos pelo papa João XXIII, durante o Concílio Vaticano II, em 1965.
Desde então, mudou a tônica e o perfil do relacionamento cristão-judaico.
Será o filme de Mel Gibson capaz de reverter este processo, levando,
outra vez, ao clima de mágoas e ressentimentos?
Para falar sobre este assunto,
Morashá conversou com o Rabino David Weitman.
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Morashá
Aparentemente, a narração
da "Paixão de Jesus" foi, no passado, um assunto bastante delicado para
os judeus. Como vê esta questão?
Rabino David Weitman
Efetivamente, ao se fazer
uma retrospectiva, não há dúvida de que, durante séculos, principalmente
na Europa, o período da dramatização da Paixão de Jesus sempre se constitui
um momento difícil para as comunidades judaicas. Os judeus sabiam que,
nessa época, o ódio das massas contra eles era mais insuflado, levando
a perseguições, massacres e matanças de inocentes, os chamados pogroms.
Por isso, muitas pessoas se trancavam em suas casas, já antevendo a
onda de violência que poderia se abater sobre a população judaica em
dia nefasto e difícil. O responsável pela transformação gradativa dos
sentimentos do mundo cristão em relação aos judeus foi o Papa João XXIII,
pioneiro que, em 1965, durante o Concílio Vaticano II, definiu novas
regras sobre o tema da Paixão e as incluiu no documento denominado Nostra
Aetate, que renegava claramente o conceito secular de que os judeus
eram os responsáveis pela morte de Jesus. Segundo as determinações desta
declaração conciliar (Encíclica), não se poderia mais imputar a culpa
aos judeus pelos acontecimentos do passado. Ele retirou, sem sombra
de dúvida, a acusação de deicídio e proibiu a disseminação de manifestações
anti-semitas durante as preces e liturgias, em todo o mundo. O Papa
também lamentou os ressentimentos e as mágoas do passado, ressaltando
que os judeus não poderiam mais ser condenados ou amaldiçoados.
Morashá :
Será que a abordagem apresentada
no filme de Mel Gibson é historicamente correta?
Rabino David Weitman:
O filme é simplesmente uma
aberração, ou melhor, uma adulteração da história na medida que não
narra os fatos corretamente e, principalmente, por contradizer as determinações
do Concílio Vaticano II, responsabilizando novamente e exclusivamente
o povo judeu pela morte de Jesus. Infelizmente, não se pode, neste momento,
deixar de lembrar que o próprio pai de Gibson negou recentemente a extensão
do Holocausto, rejeitando a verdade histórica de que este tenha feito
tantas vítimas. Ou seja, ele apresentou a "sua" versão do Holocausto,
tentando mudar o rumo da história e minimizando suas conseqüências principalmente
no referente à tragédia que se abateu sobre os judeus, na Europa, durante
a Segunda Guerra Mundial. Em sua apresentação da Paixão, o ator e diretor
também segue a mesma trajetória, tentando mudar os fatos e buscando
denegrir o povo judeu. Apresenta como o vilão da história, quando é
um fato histórico incontestável que o poder vigente na região na época,
era o romano. A área que incluía Jerusalém e a Galiléia, na então Israel,
fazia parte do Império Romano; portanto, tudo o que acontecia ali era
de responsabilidade total de Roma.
Morashá:
Qual era a relação entre
a elite judaica e os representantes de Roma, naquele período?
Rabino David Weitman:
É preciso sempre ter bem
claro que, naquela época, o povo de Israel era súdito do Império Romano.
Como tal era oprimido e sujeito a um poder supremo representado pelo
governador - indicado por Roma - e pelo exército romano. Não havia outro
poder político e eram estas forças - governador e exército - que tomavam
todas as decisões. É necessário lembrar, ainda, que, a exemplo de Jesus,
centenas de milhares de judeus que viviam sob dominação romana também
morreram crucificados e que comunidades inteiras da Galiléia foram exterminadas
pelos soldados durante o governo do imperador Adriano. Dizem nossos
sábios que os cavalos cavalgavam nos povoados judaicos em meio a um
mar de sangue, tantas as vítimas inocentes das tropas de Roma. Como
poderia, então, esta suposta elite judaica decidir ou impedir a morte
de Jesus se não era capaz sequer de impedir a matança constante de tantas
outras pessoas? Infelizmente, o sofrimento e o martírio de milhões de
judeus, entre os quais rabi Akiva e outros nove sábios, durante este
período, é sistematicamente omitido da história. Por estas e outras
omissões, o filme de Gibson não pode ser considerado correto do ponto
de vista histórico. Ao apresentar o governador Pôncio Pilatos e outros
representantes do poder romano como pessoas boas e piedosas, e os judeus
como indivíduos vingativos, cruéis e maléficos, o produtor e diretor
adultera deliberadamente a história. Todos sabem o quanto os judeus
têm compaixão e são piedosos, bem diferentes das crueldades romanas.
Morashá:
Mas, afinal, Gibson não
tem o direito de produzir um filme de acordo com os Evangelhos?
Rabino David Weitman
É importante ressaltar
que este filme não segue a narração da Paixão baseada nos Evangelhos.
É sabido que Gibson usou outras fontes, autores que têm uma visão própria
dos fatos apresentados. A discrepância em relação aos Evangelhos é tamanha
que houve até um bispo em Detroit (EUA) que afirmou que a dramatização
feita no filme não seguia os Evangelhos, mas sim era "segundo Mel Gibson".
É uma versão própria. Também é importante lembrar, como a imprensa norte-americana
vem repetindo há meses, que o filme é uma abordagem sádica com a duração
de duas horas. A Conferência Nacional dos Bispos Católicos dos Estados
Unidos emitiu tempos atrás um guia pastoral para os interessados em
produzir uma dramatização sobre a Paixão de Jesus. Entre as dezenas
de regras apresentadas estão a proibição da caricaturização de personagens
e do uso da acusação de deicídio contra os judeus. O filme de Gibson
viola todas as regras definidas pelos religiosos norte-americanos e
desafia as determinações do Concílio Vaticano II. É claro que um ator,
diretor ou produtor tem o direito de fazer um filme com a sua visão.
Mas é também universalmente reconhecida a idéia de que o produtor, justamente
pela sua influência junto ao público, deve ser responsável social e
moralmente. Ele deve estar consciente de que o cinema é um instrumento
de comunicação de massa e que os filmes têm um impacto imediato e podem
deixar marcas profundas no público que os assiste. Um ator como Gibson
jamais poderia ter adulterado desta forma os fatos históricos, utilizando
o seu filme para inflamar as massas, reabrindo feridas que estavam começando
a cicatrizar.Várias sugestões de mudanças no roteiro foram feitas a
Gibson por teólogos católicos e protestantes, para que obra se aproximasse
mais da verdade, mas ele se recusou a acatá-las.
Morashá:
Quais podem ser as conseqüências
deste filme?
Rabino David Weitman
:
Este filme pode causar um
retrocesso na história das relações entre a Igreja e o Judaísmo. Pena
que realmente, talvez por razões puramente financeiras, Gibson fez questão
de produzir este filme de acordo com a sua visão pessoal sobre o tema.
Não há dúvida de que este filme fomentará ódio, intolerância e anti-semitismo,
pois é difícil assistir duas horas de atos sádicos e sofrimento e não
sair das salas de exibição revoltado com o vilão da história que, segundo
Gibson, é o povo judeu. Por isso, ele foi totalmente irresponsável,
principalmente se levarmos em consideração que a humanidade, diante
do terrorismo que está matando milhares de inocentes, busca formas de
cultivar a harmonia e a paz entre os povos. Não se pode, também, esquecer
que exibir um filme como este em um momento em que a Europa vive um
período de recrudescimento do anti-semitismo, além de um ato irresponsável
é, acima de tudo, repulsivo.
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