Sua obra
Durante toda sua vida foi um pintor prolífico
e, mesmo nas situações mais difíceis, continuou a pintar. Sua arte,
mais do que a de qualquer outro pintor, reflete os rumos da primeira
metade do século XX. Até o fim, Nussbaum recusa-se a adotar um estilo
"uniforme" e "inconfundível". Sempre voltava a confrontar, na forma
e na temática, a situação criada por suas circunstâncias pessoais ou
políticas. E precisamente a aparente "desunião" e "desigualdade" de
sua obra têm que ser vistas como o aspecto crucial de sua arte - pois
que constituem o elemento da verdade em sua criação. Nesta é possível
encontrar e reconhecer a vida tranqüila das províncias, sua breve passagem
por Berlim, a emigração, o campo, a guerra e a conquista da Europa pelos
nazistas e, posteriormente, a exclusão do povo judeu pela política racista,
a vida clandestina e, por fim, a exterminação dos judeus da Europa.
Suas últimas pinturas, verdadeiro testemunho do Holocausto do qual fora
vítima, são consideradas únicas. Até viver como estrangeiro indesejado
na Bélgica, grande parte de seus quadros era composta por retratos,
naturezas mortas e paisagens. A tempestade que estava para atingir a
Europa aparecia, apenas, em alguns de seus óleos. Mas, a partir de 1936,
muda a sua arte, assim como mudara a sua vida. Sua pintura torna-se
mais politizada. Seus sentimentos e conflitos internos são vistos sob
a ótica dos acontecimentos externos que o envolvem e ameaçam. Nussbaum
passa a usar formas surrealistas e grotescas e a pintar inúmeros auto-retratos,
nada comuns.
Sentia sua identidade ameaçada e esta
era a única forma que, como " estrangeiro indesejado", encontrara para
reafirmá-la. As telas desse período revelam a alienação e o isolamento
artístico no qual se encontrava, assim como o medo e a sensação de perseguição
que não o deixavam. Na medida que pioravam sua vida e sua situação,
torna-se cada vez mais expressiva a sua obra. No óleo "Auto-retrato
de Nussbaum no estúdio" , de 1938, o olho direito do artista olha para
fora, para o mundo, enquanto uma de suas mãos cobre a boca, horrorizada
e muda.
Em 1939, entram em sua última fase sua
arte e sua vida. Os eventos da noite de 9 de novembro de 1938, a famigerada
Noite dos Cristais, marcam a vida e a obra do artista. Pela primeira
vez, ele reconhece o vínculo entre seu destino e o dos judeus alemães.
Em trabalhos gráficos de 1939, o pintor revela sua intuição sobre a
mudança dramática provocada pela ascensão de Hitler e o trágico destino
que aguardava a Europa. No mesmo ano pinta "O refugiado" , em que retrata
o desespero de um refugiado que não encontra abrigo em lugar algum do
mundo.
Campo em Saint-Cyprien
Em 10 de maio de 1940, os exércitos nazistas
ocupam a Bélgica. O artista, assim como outros "estrangeiros indesejados",
é preso e deportado em vagões de gado para um campo de internamento
na França de Vichy - Saint-Cyprien -, sul da França. Em agosto, após
três longos meses "no inferno de Saint-Cyprien", sujeito às mais humilhantes
condições, Nussbaum consegue fugir e volta à Bélgica e para Felka. A
partir de então, o casal é obrigado a viver escondido. Para sobreviver,
vendiam suas ilustrações e cerâmicas sob nomes não judaicos. Amigos
belgas os ajudam de todas as formas; conseguem até providenciar um estúdio
e tudo o que era preciso para pintar. Apesar de acuado e escondido,
continua produzindo. Como artista, esta foi sua fase mais brilhante;
parecia que o terror no qual vivia desabrochara sua criatividade. Pinta
inúmeras vezes suas experiências em Saint-Cyprien. Os meses passados
nesse campo tiveram um profundo impacto em Nussbaum. Até então, ele
era um jovem de classe média abastada, um tanto frio e reservado. O
tratamento desumano, a falta de comida, água potável e medicamentos,
as doenças e a brutalidade dos guardas o marcam de forma decisiva. Foi
lá que, preso por ser judeu, Nussbaum assume por completo sua identidade.
Compreende que é judeu, que compartilha o destino de seu povo e que
o mundo o vê como judeu. Fica-lhe claro o grande perigo que o nazismo
representava para qualquer um de seu povo. Estes sentimentos são expressos
em um de seus mais importantes trabalhos - "A sinagoga do campo em Saint-Cyprien",
de 1941. Foi seu primeiro quadro sobre um tema judaico, após muitos
anos. A partir de então, todas as suas obras giravam em torno do destino
dos judeus europeus.
A idéia de que sua vida corria perigo
passa a ser retratada em muitos trabalhos. Mas, apesar da catástrofe
que via à sua volta, ele estava determinado a não se desesperar, a resistir,
pintando. Tinha a tênue esperança de sobreviver...
Em 1942, quando a "Solução Final" começava
a devastar os judeus belgas, Nussbaum escondeu grande número de pinturas
com Josef Grosfils, o dentista belga que dizia ter pago "um mero franco
por cada quadro". Em várias ocasiões, o pintor lhe recomendara: "Se
eu morrer, não permita que o mesmo aconteça com minhas obras, mostre-as
ao mundo". Repete este apelo, em carta datada de 1944 para uma família
de amigos, em Bruxelas, informando que parte de seus trabalhos estavam
guardados com o Dr. Grosfil.
Nos quadros que pintara entre julho e
outubro de 1943, dispôs-se a fazer o que entendia ser a missão de sua
arte - mostrar a verdade. Na seqüência de pinturas que levam a Estrela
de David, o que cria vai além de seu destino pessoal, retratando as
condições físicas e mentais de seu povo. Conseguiu dar expressão à impotência
e ao desamparo dos judeus que, ameaçados de extinção, apenas aguardavam.
Foi em agosto de 1943 que Nussbaum pintou
um de seus mais famosos quadros - "Auto-retrato com carteira de identidade
judaica". Nele, um Nussbaum acossado, encara a si mesmo com claridade
e precisão. O artista, vestido com um sobretudo, olha para o espectador
enquanto levanta a gola da roupa para mostrar uma Estrela de David amarela
- que ele própria nunca usara. Exibe uma carteira de identidade na qual
está apagada sua naturalidade alemã, a nacionalidade marcada como "nenhuma"
e em vermelho destaca-se a palavra "Juif-Jood".
Nenhuma de suas telas impressiona mais
do que a última, datada 18 de abril de 1944 - "Triunfante, a Morte",
ou "Esqueletos tocam para a morte" (figura). No meio das ruínas da civilização
ocidental, músicos tocam usando máscaras macabras de esqueletos humanos.
O fundo está repleto de objetos que representam as ciências, a tecnologia
e as artes. Mas, apesar da morte e destruição, há esperança, no quadro.
As nuvens escuras são explodidas e nos céus voam aviões aliados. O quadro
retrata o mundo do pós-guerra e a derrota do nazismo. As feições do
artista podem ser identificadas no rosto macilento, mas vivo, do tocador
de realejo. Estimulado pelas notícias sobre o avanço aliado, Nussbaum
acredita que conseguira escapar e se vê como um dos sobreviventes. Mas
o destino dele e da esposa, bem como o de praticamente toda a sua família,
estava selado.
Os Nussbaum viveram até um mês antes
da libertação da Bélgica, pelos aliados. No verão de 1944, após o "Dia
D" e apesar de estar perdendo a guerra, a Gestapo decide acabar com
todos os judeus que restavam em Bruxelas. Até oferecem recompensas a
quem os entregasse. Em 20 de junho de 1944, o casal é denunciado por
belgas interessados no prêmio. Presos durante a noite, Felix e Felka
são enviados para Mechelen, o "campo de trânsito", do qual 25 mil judeus
belgas já haviam sido enviados para a morte.
Em 31 de julho de 1944, o casal é despachado
para Auschwitz naquele que seria o último transporte de judeus para
as câmaras de gás. Três semanas mais tarde, as forças britânicas libertariam
Mechelen. Ao chegar em Auschwitz, não há milagre que salve o casal:
ambos morrem nas câmaras de gás, segundo as autoridades belgas, no dia
9 de agosto.
O artista não conseguiu salvar-se, mas
salvou sua arte. Seus quadros, admirados pelo mundo todo, são mais do
que documentos vivos da loucura que envolveu a Europa nazista. São testemunhos
pungentes do poder do espírito humano, de sua capacidade de transcender
toda e qualquer adversidade.
Bibliografia :
E. Berger, I. Jaehner, P. Junk, K. G.
Kaster, M. Meinz, W. Zimmer Felix Nussbaum, A Biography -Art Defamed,
Art in Exile, Art in Resistance, Ed. The Overlook Press, N.Y., 1997
Felix Nussbaum (1904-1944), Yad Vashem
Museum.
Felix Nussbaum, Reviled in Life, Embraced
in Death, artigo de Alan Riding.
Felix Nussbaum and the Art of Resistance,
artigo de John Felstiner
Still with Gas, Jerusalem Report, artigo
de Netty C. Gross, 3 abril de 1997
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