FELIX NUSSBAUM, UM RETRATO DA SHOÁ - ed.44 - Página2

Sua obra

Durante toda sua vida foi um pintor prolífico e, mesmo nas situações mais difíceis, continuou a pintar. Sua arte, mais do que a de qualquer outro pintor, reflete os rumos da primeira metade do século XX. Até o fim, Nussbaum recusa-se a adotar um estilo "uniforme" e "inconfundível". Sempre voltava a confrontar, na forma e na temática, a situação criada por suas circunstâncias pessoais ou políticas. E precisamente a aparente "desunião" e "desigualdade" de sua obra têm que ser vistas como o aspecto crucial de sua arte - pois que constituem o elemento da verdade em sua criação. Nesta é possível encontrar e reconhecer a vida tranqüila das províncias, sua breve passagem por Berlim, a emigração, o campo, a guerra e a conquista da Europa pelos nazistas e, posteriormente, a exclusão do povo judeu pela política racista, a vida clandestina e, por fim, a exterminação dos judeus da Europa. Suas últimas pinturas, verdadeiro testemunho do Holocausto do qual fora vítima, são consideradas únicas. Até viver como estrangeiro indesejado na Bélgica, grande parte de seus quadros era composta por retratos, naturezas mortas e paisagens. A tempestade que estava para atingir a Europa aparecia, apenas, em alguns de seus óleos. Mas, a partir de 1936, muda a sua arte, assim como mudara a sua vida. Sua pintura torna-se mais politizada. Seus sentimentos e conflitos internos são vistos sob a ótica dos acontecimentos externos que o envolvem e ameaçam. Nussbaum passa a usar formas surrealistas e grotescas e a pintar inúmeros auto-retratos, nada comuns.

Sentia sua identidade ameaçada e esta era a única forma que, como " estrangeiro indesejado", encontrara para reafirmá-la. As telas desse período revelam a alienação e o isolamento artístico no qual se encontrava, assim como o medo e a sensação de perseguição que não o deixavam. Na medida que pioravam sua vida e sua situação, torna-se cada vez mais expressiva a sua obra. No óleo "Auto-retrato de Nussbaum no estúdio" , de 1938, o olho direito do artista olha para fora, para o mundo, enquanto uma de suas mãos cobre a boca, horrorizada e muda.

Em 1939, entram em sua última fase sua arte e sua vida. Os eventos da noite de 9 de novembro de 1938, a famigerada Noite dos Cristais, marcam a vida e a obra do artista. Pela primeira vez, ele reconhece o vínculo entre seu destino e o dos judeus alemães. Em trabalhos gráficos de 1939, o pintor revela sua intuição sobre a mudança dramática provocada pela ascensão de Hitler e o trágico destino que aguardava a Europa. No mesmo ano pinta "O refugiado" , em que retrata o desespero de um refugiado que não encontra abrigo em lugar algum do mundo.

Campo em Saint-Cyprien

Em 10 de maio de 1940, os exércitos nazistas ocupam a Bélgica. O artista, assim como outros "estrangeiros indesejados", é preso e deportado em vagões de gado para um campo de internamento na França de Vichy - Saint-Cyprien -, sul da França. Em agosto, após três longos meses "no inferno de Saint-Cyprien", sujeito às mais humilhantes condições, Nussbaum consegue fugir e volta à Bélgica e para Felka. A partir de então, o casal é obrigado a viver escondido. Para sobreviver, vendiam suas ilustrações e cerâmicas sob nomes não judaicos. Amigos belgas os ajudam de todas as formas; conseguem até providenciar um estúdio e tudo o que era preciso para pintar. Apesar de acuado e escondido, continua produzindo. Como artista, esta foi sua fase mais brilhante; parecia que o terror no qual vivia desabrochara sua criatividade. Pinta inúmeras vezes suas experiências em Saint-Cyprien. Os meses passados nesse campo tiveram um profundo impacto em Nussbaum. Até então, ele era um jovem de classe média abastada, um tanto frio e reservado. O tratamento desumano, a falta de comida, água potável e medicamentos, as doenças e a brutalidade dos guardas o marcam de forma decisiva. Foi lá que, preso por ser judeu, Nussbaum assume por completo sua identidade. Compreende que é judeu, que compartilha o destino de seu povo e que o mundo o vê como judeu. Fica-lhe claro o grande perigo que o nazismo representava para qualquer um de seu povo. Estes sentimentos são expressos em um de seus mais importantes trabalhos - "A sinagoga do campo em Saint-Cyprien", de 1941. Foi seu primeiro quadro sobre um tema judaico, após muitos anos. A partir de então, todas as suas obras giravam em torno do destino dos judeus europeus.

A idéia de que sua vida corria perigo passa a ser retratada em muitos trabalhos. Mas, apesar da catástrofe que via à sua volta, ele estava determinado a não se desesperar, a resistir, pintando. Tinha a tênue esperança de sobreviver...

Em 1942, quando a "Solução Final" começava a devastar os judeus belgas, Nussbaum escondeu grande número de pinturas com Josef Grosfils, o dentista belga que dizia ter pago "um mero franco por cada quadro". Em várias ocasiões, o pintor lhe recomendara: "Se eu morrer, não permita que o mesmo aconteça com minhas obras, mostre-as ao mundo". Repete este apelo, em carta datada de 1944 para uma família de amigos, em Bruxelas, informando que parte de seus trabalhos estavam guardados com o Dr. Grosfil.

Nos quadros que pintara entre julho e outubro de 1943, dispôs-se a fazer o que entendia ser a missão de sua arte - mostrar a verdade. Na seqüência de pinturas que levam a Estrela de David, o que cria vai além de seu destino pessoal, retratando as condições físicas e mentais de seu povo. Conseguiu dar expressão à impotência e ao desamparo dos judeus que, ameaçados de extinção, apenas aguardavam.

Foi em agosto de 1943 que Nussbaum pintou um de seus mais famosos quadros - "Auto-retrato com carteira de identidade judaica". Nele, um Nussbaum acossado, encara a si mesmo com claridade e precisão. O artista, vestido com um sobretudo, olha para o espectador enquanto levanta a gola da roupa para mostrar uma Estrela de David amarela - que ele própria nunca usara. Exibe uma carteira de identidade na qual está apagada sua naturalidade alemã, a nacionalidade marcada como "nenhuma" e em vermelho destaca-se a palavra "Juif-Jood".

Nenhuma de suas telas impressiona mais do que a última, datada 18 de abril de 1944 - "Triunfante, a Morte", ou "Esqueletos tocam para a morte" (figura). No meio das ruínas da civilização ocidental, músicos tocam usando máscaras macabras de esqueletos humanos. O fundo está repleto de objetos que representam as ciências, a tecnologia e as artes. Mas, apesar da morte e destruição, há esperança, no quadro. As nuvens escuras são explodidas e nos céus voam aviões aliados. O quadro retrata o mundo do pós-guerra e a derrota do nazismo. As feições do artista podem ser identificadas no rosto macilento, mas vivo, do tocador de realejo. Estimulado pelas notícias sobre o avanço aliado, Nussbaum acredita que conseguira escapar e se vê como um dos sobreviventes. Mas o destino dele e da esposa, bem como o de praticamente toda a sua família, estava selado.

Os Nussbaum viveram até um mês antes da libertação da Bélgica, pelos aliados. No verão de 1944, após o "Dia D" e apesar de estar perdendo a guerra, a Gestapo decide acabar com todos os judeus que restavam em Bruxelas. Até oferecem recompensas a quem os entregasse. Em 20 de junho de 1944, o casal é denunciado por belgas interessados no prêmio. Presos durante a noite, Felix e Felka são enviados para Mechelen, o "campo de trânsito", do qual 25 mil judeus belgas já haviam sido enviados para a morte.

Em 31 de julho de 1944, o casal é despachado para Auschwitz naquele que seria o último transporte de judeus para as câmaras de gás. Três semanas mais tarde, as forças britânicas libertariam Mechelen. Ao chegar em Auschwitz, não há milagre que salve o casal: ambos morrem nas câmaras de gás, segundo as autoridades belgas, no dia 9 de agosto.

O artista não conseguiu salvar-se, mas salvou sua arte. Seus quadros, admirados pelo mundo todo, são mais do que documentos vivos da loucura que envolveu a Europa nazista. São testemunhos pungentes do poder do espírito humano, de sua capacidade de transcender toda e qualquer adversidade.

Bibliografia :

E. Berger, I. Jaehner, P. Junk, K. G. Kaster, M. Meinz, W. Zimmer Felix Nussbaum, A Biography -Art Defamed, Art in Exile, Art in Resistance, Ed. The Overlook Press, N.Y., 1997

Felix Nussbaum (1904-1944), Yad Vashem Museum.

Felix Nussbaum, Reviled in Life, Embraced in Death, artigo de Alan Riding.

Felix Nussbaum and the Art of Resistance, artigo de John Felstiner

Still with Gas, Jerusalem Report, artigo de Netty C. Gross, 3 abril de 1997



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