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Alguns meses antes de sua
deportação, apesar de acreditar que de alguma forma sobreviveria à Shoá,
disse a um amigo que escondia seus quadros: "Se eu perecer, não permita
que o mesmo aconteça com minhas obras, mostre-as ao mundo".
Sua obra foi praticamente
esquecida durante 25 anos, como se tivesse tido o mesmo destino de seu
criador. A primeira reviravolta aconteceu em 1960, quando os únicos
sobreviventes da família de Nussbaum - duas primas maternas - souberam
que mais de cem telas estavam apodrecendo no porão de Josef Grosfils,
dentista belga a quem o artista fizera aquele pedido.
Auguste Moses Nussbaum e
Shulamit Jaari Nussbaum imediatamente iniciaram o longo caminho que
as levaria a redimir a obra do primo. Pediram ao dentista que lhes entregasse
os quadros, já que eram as únicas herdeiras do pintor. Diante de sua
recusa, apelaram à justiça belga. Nove anos depois, uma Corte belga
proferiu uma sentença a favor delas.
Os 177 trabalhos estavam
em condições lamentáveis, danificados pela umidade e sujeira e até rasgados,
em alguns casos. Aconselhadas por curadores do Museu de Jerusalém, as
herdeiras de Nussbaum levaram as telas para Osnabrück, cidade natal
do pintor, onde o diretor do museu da cidade - que felizmente conhecia
o trabalho de Nussbaum - concordou em restaurar e guardar os quadros.
A primeira retrospectiva de sua obra foi realizada nessa cidade, em
1971. Osnabrück, assim como o restante da Alemanha, mudara, o Holocausto
deixara de ser um tema tabu e seus habitantes julgavam haver chegado
o momento de redimir, de alguma forma, os erros cometidos durante o
nazismo. E, como afirmara o diretor do Museu, era "necessário devolver
a Nussbaum o lugar que merecia na história da arte e da pintura alemã".
A partir de 1970, o museu
passa a pesquisar a vida do artista, encarregando especialistas de encontrar
seus quadros e de comprá-los a preço de mercado. Em 1975, um antiquário
belga vende para o museu oito quadros pintados entre 1942-1944, o período
mais expressivo do artista. Tudo leva a crer que estas e outras obras
estavam guardadas no ateliê do artista, em Bruxelas, e teriam desaparecido
imediatamente após sua prisão e deportação para Auschwitz.Osnabrück
inaugurou, em 1998, o "Complexo Felix Nussbaum", uma ala nova e independente
do Museu de História Cultural. A ala, com uma arquitetura arrojada e
moderna, foi idealizada por Daniel Libeskind e abriga quadros e trabalhos
gráficos do artista. O brilhante arquiteto judeu é responsável, entre
outros, pelo projeto do Museu Judaico de Berlim e do Museu Judaico de
São Francisco, além de ter sido escolhido para projetar o novo World
Trade Center.
Atualmente, Nussbaum é reconhecido
internacionalmente como um dos grandes artistas de seu tempo e seus
quadros têm sido apreciados tanto por seu valor artístico como histórico.
Exposições realizadas em todo o mundo têm atraído centenas de milhares
de visitantes. Em 2001, em um leilão da Sotheby's, a obra "Auto-retrato
no campo" atingiu o valor de US$ 1,68 milhão. Seu desejo foi realizado.
Sua arte não foi esquecida.
Para entender e apreciar
a obra de Nussbaum é inevitável relacioná-la às terríveis circunstâncias
em que o artista viveu, pintou e morreu. Além de grande pintor, ele
foi, também, testemunha e vítima da barbárie nazista e seus trabalhos
são vitais quando colocados no contexto artístico do período do Holocausto.
São testemunhos vivos do sofrimento de todo um povo, da exclusão, do
ódio racial e do extermínio.
Enquanto vivia acuado e
perseguido, retratou em suas obras a tragédia e a destruição que se
abateram sobre os judeus da Europa. Os temas dramáticos e a atmosfera
apocalíptica de suas telas são a pura expressão da angústia e da dor.
Irit Salomon, curadora do Museu de Israel, afirmou durante uma exposição
lá realizada, em 1997, que "o surrealismo que influencia e permeia a
obra de Felix Nussbaum tornara-se, para o pintor, uma metáfora de sua
vida, também surreal".
Mas, ao se traçar a carreira
do artista, ao longo dos acontecimentos de sua vida, se estaria sugerindo
que Nussbaum destacou-se mais como vítima da fúria nazista do que como
pintor brilhante? Não! - respondem críticos de arte e historiadores.
Ele tanto foi vítima quanto grande pintor. E sua arte é um reflexo de
seu destino.
Juventude
Felix Nussbaum nasceu em
11 de dezembro de 1904, em Osnabrück, no noroeste da Alemanha, no seio
de abastada família judia. Seus pais, Philip e Rachelle, eram judeus
tradicionais que consideravam a Alemanha como pátria. De certa maneira,
pode-se dizer que sua trajetória familiar carrega a mesma ironia atualmente
tão conhecida de todos os estudiosos do período. Seu pai era fervoroso
patriota alemão, tendo sido oficial da Cavalaria durante a Primeira
Guerra Mundial. Contudo, ele, a esposa, os filhos e a nora morreram
por serem judeus.
Desde pequeno, Nussbaum
queria ser artista e seu pai, próspero comerciante, encorajara-o a seguir
sua vocação. Queria ver o filho "pintar como Van Gogh". Aos 18 anos,
Felix deixa sua cidade natal e parte para Hamburgo, onde passa a estudar
arte. No ano seguinte se muda para Berlim, onde continua os estudos
e monta um ateliê. É em Berlim que, em 1924, Nussbaum conhece Felka
Platek, sua futura esposa. Judia polonesa e também pintora, ela se torna
uma companheira inseparável e o acompanha até a morte nas câmaras de
Auschwitz. Naquele período, o artista, assim como milhares de outros
judeus, sentia-se dividido entre sua identidade judaica e a possibilidade
de se assimilar no seio da sociedade alemã. Mesmo assim, aos 21 anos,
sentado na sinagoga de Osnabrück, ele pintou "Os dois judeus". O quadro
sobreviveu ao incêndio que destruiu a sinagoga durante a Kristallnacht.
Nussbaum acaba abandonando os temas judaicos do início da carreira,
retomando-os apenas em 1941.
Apesar de, no final da década
de 1920 e início dos anos 1930, não conseguir vender muitos trabalhos,
suas exposições em Berlim obtêm relativo sucesso. Em 1932, como reconhecimento
por seu trabalho, o jovem recebe uma bolsa de estudos para a Villa Massima,
prestigiosa academia de arte alemã, em Roma. Em outubro do mesmo ano,
deixa a Alemanha e vai para a Itália com Felka, país onde conhece o
pintor surrealista italiano Giorgio de Chirico, cuja obra o influenciará
profundamente.
Alemanha, não
A ascensão do nazismo na
Alemanha torna cada vez mais difícil a vida dos judeus e, apesar de
viver longe, Nussbaum logo sofre as conseqüências dessa realidade. Em
dezembro daquele mesmo ano um incêndio destrói seu estúdio, em Berlim,
e mais de 150 de suas telas acabam consumidas pelo fogo. Apesar dos
indícios de que o fogo tinha sido iniciado por artistas que viviam no
ateliê, Nussbaum nunca descartou a idéia de que tivesse sido provocado
por membros da Juventude Hitlerista.
Em 1933, Hitler toma o poder
na Alemanha e o pintor muda seus planos de retornar à terra natal. Sua
determinação de não voltar se torna definitiva, em maio desse mesmo
ano, após ouvir Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, discursar
perante os estudantes da Vila Massima sobre as "doutrinas artísticas
do Führer". Compreende que na Alemanha não havia mais lugar para ele
como artista e muito menos como judeu. Deixa Roma com a futura esposa,
seguindo viagem pela Itália, Suíça, França. Logo após deixar a cidade,
recebe a notícia de que fora expulso da academia.
No verão de 1934, o artista
encontra-se com seus pais na Riviera italiana. Seria o último encontro
familiar. Philippe e Rachelle Nussbaum - assim como mais da metade dos
500 judeus que viviam em Osnabrück - tinham abandonado a Alemanha. Desde
1926, a cidade tornara-se o celeiro perfeito para o nazismo e para o
anti-semitismo. O arcebispo católico local, Wilhelm Berning, era conhecido
como o "bispo nazista".
Segundo um historiador encarregado
de pesquisar a vida de Nussbaum, "em Osnabrück, durante a guerra, ninguém
escondeu um único judeu". Mas os pais de Felix amavam sua terra natal
e, apesar dos perigos e dos protestos do filho, decidem no ano seguinte
voltar à Alemanha, enquanto Nussbaum e Felka vão para a cidade de Oostende,
na Bélgica, com visto de turista.
Na Bélgica, a vida de Nussbaum
torna-se difícil e insegura. As autoridades negam ao casal documentos
de identidade e ele se sente acuado. É em Oostende que conhece o pintor
James Ensor, de quem se torna amigo. O estilo deste e suas máscaras
amargas e cínicas ajudam-no a delinear sua própria alienação.
Em 1937, Nussbaum e Felka
se mudam para Bruxelas e se casam. No mesmo ano, seu irmão Justin foge
com a esposa e filha da Alemanha, estabelecendo-se em Amsterdã. Seus
pais ainda lá permanecem por mais dois anos, indo para Amsterdã apenas
em 1939.
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