Kislêv, o mês propício para curar a nossa dor de cabeça - ed.35 - Página1

KISLÊV


Foto Ilustrativa

A gema correspondente ao mês de Kislêv, o nono mês, é a ametista, chamada “achlamá”, em hebraico. Achlamá vem da raiz etimológica hebraica “chalam”, que significa “saúde” (física e mental) e “cura” [vide Isaías 32:16].


Edição 35 - Dezembro de 2001
Aliás, no mês de Kislêv – não por acaso –, lemos nas porções da Torá nove dos dez sonhos lá mencionados (Jacob, Labão, José, Faraó, os ministros, etc.). A palavra “sonho” - em hebraico “chalom” - provém da mesma raiz etimológica já mencionada. Tudo isso nos permite concluir que Kislêv também é um mês propício para a concretização dos sonhos.

Encontramos na Torá que antes de Yaacov deitar e sonhar sobre a famosa escada que atingia o céu, ele protegeu a sua cabeça (Gênese 28:11). A cabeça é a parte mais sensível do corpo, e a maior preocupação do homem é mantê-la saudável. Falando em nível do povo, também precisamos cuidar da nossa dor de cabeça.

Com relação à cabeça, a literatura talmúdica [Beit Hamidrash IV, Tossfot Menachot 37a] nos relata um interessante julgamento realizado na época do Rei Salomão. Um pai de família faleceu, deixando sua herança para sete filhos. Um deles possuía duas cabeças e achava que a herança deveria ser dividida em oito partes, cabendo-lhe duas porções. Os irmãos discordavam, achando que a herança deveria ser dividida em sete partes iguais.

O problema foi levado aos sábios, chegando até a Corte Suprema (Sanhedrin), que não soube como julgá-lo, recorrendo à ajuda do sábio rei Salomão. O rei aceitou o caso, pedindo que todos comparecessem ao seu palácio na manhã seguinte. À noite, o rei Salomão foi ao Templo rezar, quando lembrou ao Todo-Poderoso que ele não havia pedido nenhuma honra nem riqueza, apenas sabedoria. Como era de se esperar, este caso atraiu muitos curiosos. Pela manhã, o rei Salomão, inspirado pela sabedoria Divina, mandou trazer água fervente para despejar em uma das cabeças deste ser estranho, dizendo o seguinte: “Se as duas cabeças gritarem de dor, é apenas uma pessoa; se uma gritar e a outra não, são duas pessoas diferentes”. E assim foi feito. A água foi jogada em uma cabeça e logo as duas cabeças começaram a gritar de dor. Neste momento, o rei Salomão proclamou o veredito que era uma só pessoa e a herança deveria ser dividida em sete partes. Mais uma vez, esta decisão salomônica foi aclamada por todos.

Sem desconsiderar o conteúdo literal desta história, alguns também a interpretam de maneira figurativa. Após o reinado de Salomão, ocorreu a famosa cisão entre os Reinos de Israel e Judá. Já nos últimos anos de vida do rei Salomão havia discórdia entre as Tribos de Judá e Efraim. A situação chegou a tal ponto, que alguns temiam uma divisão categórica, gerando dois povos com duas cabeças. O rei, preocupado com esta desavença que poderia levar a uma divisão concreta do povo, resolve testar se as divergências são apenas superficiais ou profundas (dois povos com duas cabeças). E a melhor forma de saber isso é ver se ambos sentem dor e aflição pelas mesmas mágoas - a mesma dor pela água fervente.

Hoje, muito se comenta sobre as divergências dentro do povo judeu. Fala-se em ortodoxos e ultra-ortodoxos de um lado e liberais e ultra-liberais do outro. Também na Terra Santa existem profundas diferenças entre a direita e a esquerda e os extremos de ambos os lados. Alguns, precipitados, falam de uma ruptura definitiva. Outros nos assediam falando repetidamente em divisão do povo de Israel. Muitos temem ver dois povos com duas cabeças.

O julgamento salomônico relatado acima nos permite checar se esta dor de cabeça são apenas divergências superficiais ou se estamos à beira de um cisma perigoso. A realidade nos mostra que todas as correntes do judaísmo sentem uma profunda dor quando somos afligidos por sofrimentos materiais ou espirituais. Todos os irmãos choram e gritam quando vêem as cenas chocantes dos últimos atentados terroristas em Israel. Assim também, na esfera espiritual, as águas ferventes da assimilação causam dor a todos nós, inclusive aos familiares atingidos.
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