A Rosa do Gueto - ed.33 - Página1

A ROSA DO GUETO


Foto Ilustrativa

“Esta é a história de uma rosa que um tirano condenou a morrer por mil anos. Os tiranos passam, as rosas ficam. Mas é preciso repetir a história por mil anos, para que as rosas não passem e os tiranos não fiquem”


Edição 33 - Junho de 2001
Em 21 de setembro de 1939, quase três semanas após o início da II Guerra Mundial, Reinhardt Heydrich, chefe da Polícia de Segurança do Terceiro Reich, enviou uma circular aos seus subordinados, com instruções para o que os nazistas chamavam de “Solução Final” – o extermínio da população judaica nos territórios ocupados.

Em 20 de janeiro de 1942, ao encerrar a mais importante conferência realizada no Departamento Central de Assuntos Raciais, Heydrich determinou que a “Solução Final” fosse apressada. No cumprimento das ordens, o “gauleiter” da Polônia, Hans Frank, recusou-se a fornecer alimentação às 450 mil pessoas confinadas no Gueto de Varsóvia, em um espaço que só comportava 150 mil.

Tinha 15 anos. Chamava-se Rosa, como muitas mulheres do seu povo. No Gueto, todos passavam fome e tinham medo. Rosa sentia-se só e aturdida. Quando olhava para cima, o universo era feito de sol, de azul, de nuvens brancas. Quando olhava para frente, o mesmo universo ficava cinzento e escorria pelo chão coberto de detritos, para terminar abruptamente junto ao muro.

Foi ali que ela encontrou a roseira quase murcha e coberta de pó.

A partir de 22 de julho de 1942, os nazistas acionaram ao máximo a máquina de horrores. Em menos de um ano, somente 60 mil pessoas sobreviviam no Gueto. As demais tinham morrido de fome ou sido assassinadas quando procuravam pular o muro em busca de comida. E também enviadas às câmaras de gás.

Schmilek a viu ajoelhada junto ao muro. Pensou que ela enlouquecera.

“Rosa, que fazes? – perguntou aflito”.

Ela sorriu. Apontou a roseira.

“Estava quase morta. Acho que a salvei”, disse Rosa.

Schmilek respirou fundo e movimentou as mãos num cacoete de impaciência muito próprio dos homens de seu povo. Ficou só no gesto. Aquele sorriso apagava o muro cinzento e os seios de Rosa arfavam, na esperança da vida ressurgente.

Em janeiro de 1943, Himmler fez uma visita-surpresa a Varsóvia. Não ficou satisfeito ao saber que lá ainda restavam 60 mil judeus. Suas ordens foram intransigentes: liquidação total até 15 de fevereiro.

Rosa o chamou alvoroçada:

“Schmilek!... a roseira!...”

Ele olhou a planta. Um pequeno botão despontava. Tentou falar, dizer o que estava acontecendo no Gueto, mas desistiu. Dentro dos olhos de Rosa só havia flores. Ela não se sentia mais só nem aturdida.

Então Schmilek sorriu com muita dificuldade, a custo contendo as lágrimas.

Os alemães encontraram dificuldades para cumprir as ordens de Himmler. O desastre de Stalingrado e as contínuas retiradas do exército nazista da frente russa provocaram escassez de transportes. Era impossível retirar os judeus do Gueto em tão pouco tempo para conduzi-los aos campos de extermínio.

Só em março a operação pôde ser iniciada. Mas sobreveio novo obstáculo: os judeus começaram a resistir. Então, foi ordenada a destruição do Gueto e o massacre de seus habitantes.

Quanto o botão desabrochou, a rosa apareceu muito vermelha. Ela pediu:

“Colhe a rosa, Schmilek. Colhe e me oferece”.
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