Este texto não deveria ter sido intitulado "Hollywood e os Judeus",
mas "Os Judeus e Hollywood", simplesmente porque foram os judeus que
conceberam e implantaram naquele mitológico subúrbio de Los Angeles,
na Califórnia, uma indústria americana tão poderosa quanto
a do aço ou a dos automóveis.
Edição 42 - Setembro de 2003
Uma indústria na qual a criatividade, o talento, a audácia,
a magia, a capacidade de sonhar e de fazer sonhar continuam servindo até
hoje como matéria-prima.
As pequenas e primitivas salas de projeção que apresentavam filmes
mudos foram transformadas em deslumbrantes casas de espetáculos por exibidores
judeus. Com o advento do cinema falado, a indústria cinematográfica
percebeu que seus produtos deveriam abranger conteúdos mais consistentes
e importou da costa leste dos Estados Unidos, mais precisamente de Nova York,
uma nata de dramaturgos e escritores, judeus em sua esmagadora maioria. Em Hollywood,
as principais agências de artistas eram operadas por judeus; os contratos,
tanto por parte dos estúdios como do lado dos artistas, eram redigidos
por advogados judeus; os medalhões da medicina, na capital do cinema, também
eram quase todos judeus. E, acima de tudo, eram os judeus que produziam os filmes,
moldando-os de acordo com suas exclusivas preferências. Num livro excelente
e definitivo chamado “An Empire of their Own How the Jews Invented Hollywood”,
o crítico Neal Gabler cita um levantamento feito pela revista Fortune,
em 1936, no qual é apontado que de 85 nomes que aparecem nos créditos
da produção de um determinado filme, 53 são de judeus. O
escritor F. Scott Fitzgerald, que teve uma breve e fracassada passagem por Hollywood,
escreveu em suas anotações para o romance “The Last Tycoon”
que Hollywood estava sendo uma festa para os judeus e uma tragédia para
os não-judeus.
Mas, o fato é que, no início da década de 30, a verdadeira
tragédia existente se abatia sobre os judeus do cinema, alvos de manifestações
hostis, algumas vezes ocultas, outras escancaradas, estimuladas por grupos religiosos
e de fanáticos direi-tistas, tipo Klu-Klux-Khan que, no mais tradicional
estilo anti-semita, exortavam os americanos a arrancar a indústria cinematográfica
das dominantes mãos dos judeus. Eles eram acusados de conspirar contra
os valores tradicionais americanos e contra as estruturas do poder que os asseguravam.
Entretanto, esses anti-semi-tas não tinham a menor noção
do caminho equivocado que estavam percorrendo. Os judeus que criaram Hollywood
empenhavam-se de corpo e alma num só objetivo: a adoção dos
valores americanos e a possibilidade de serem acolhidos na estrutura do poder.
Eles queriam ser vistos como americanos e não como judeus. Alguns deles
chegaram ao ponto de jamais falarem sobre suas origens européias e muito
menos judaicas. Tinham uma devoção ilimitada pelos Estados Unidos
e não mediam esforços para serem aceitos pela sociedade americana,
numa época em que a xenofobia era disseminada e aceita em todos os segmentos
sociais.
Os pais da pátria de Hollywood constituíam um grupo homogêneo
em função de suas infâncias e trajetórias muito semelhantes.
O mais velho de todos, Carl Laemmle, nascido em 1867, emigrou de uma pequena cidade
da Alemanha para os Estados Unidos no início do século passado.
Percorreu uma série de trabalhos menores até fundar o Estúdio
Universal.
Adolph Zukor nasceu numa aldeia da Hungria, ainda menino ficou órfão
de pai e mãe, tendo sido criado por um tio que era rabino. Assim como Laemmle,
foi parar na América, conheceu o cinema primitivo exibido nos Nickleodeons,
apaixonou-se pelo que viu, culminando por ser dono de seu próprio estúdio:
a Paramount. William Fox também era húngaro de nascimento. Chegou
aos Estados Unidos levado pelos pais e começou a trabalhar por conta própria,
ainda de calças curtas, como ambulante de pipocas e sanduíches.
Anos depois, de terno e gravata, inaugurava a Fox Film Corporation, gênese
da 20th Century Fox.
Louis B. Mayer tanto queria ser genuinamente americano, que dizia ter esquecido
o nome da cidade em que havia nascido na Rússia. Também afirmava
desconhecer sua data de nascimento, adotando o feriado da independência
americana, o dia 4 de julho, para celebrar seu aniversário. Dentre os demais
judeus europeus do cinema foi o mais bem sucedido, construindo o império
da Metro-Goldwyn-Mayer.
Um judeu chamado Benjamin Warner partiu de sua aldeia polonesa em 1883, deixando
para trás a mulher, uma filha e um filho, Harry. Começou a trabalhar
como sapateiro em Baltimore e em pouco mais de um ano já tinha conseguido
juntar dinheiro para trazer para a América toda a família. Benjamin
era um judeu devoto que quase só falava ídiche, só comia
casher e morava perto da sinagoga para bem respeitar o Shabat. Foi nessa atmosfera
que cresceram seus outros filhos, Sam, Albert e Jack. Os quatro irmãos
um dia juntaram suas economias, compraram um projetor usado e instalaram um pequeno
cinema. Conta a lenda que Jack perguntou à mãe se ela achava que
estavam fazendo um bom negócio. Ouviu a seguinte resposta: "Se o cliente
paga antes de ver a mercadoria, só pode ser um bom negócio".
Os quatro rapazes fundaram a Warner Brothers e foram os responsáveis pela
introdução do som no universo cinematográfico.
Os judeus que criaram Hollywood tinham outra qualidade comum: um extraordinário
sentido para apurar as preferências das platéias. Talvez isso se
deva ao fato de que todos eles tiveram passagens em Nova York pela imensa indústria
de confecções de roupas, tanto no atacado como no varejo, o que
lhes valeu como um excelente treinamento para conhecer e medir os gostos do público.
E, na medida que continuavam enfrentando dificuldades para serem aceitos pelo
mundo não-judeu, encontraram no cinema uma forma de construir o seu próprio
mundo, um mundo que não exigia escolaridade nem experiências anteriores,
que lhes abria as portas e, acima de tudo, lhes pertencia. Os filmes americanos,
a partir da década de 30, tornaram a ficção mais poderosa
do que a realidade e conquistaram massas crescentes de espectadores em todos os
continentes, retratando aspectos de uma nação toda impressa em celulóide:
virtuosa e próspera, dotada de seus próprios códigos e valores.
Era uma América na qual os pais eram vistos na tela como figuras fortes
e respeitadas, as famílias eram estáveis, os homens e mulheres eram
bonitos, os heróis eram trabalhadores, joviais e honestos. Este foi o país
que os judeus de Hollywood materializaram no cinema, criando mitos e arquétipos
que até hoje permanecem, tais como vistos em dois filmes emblemáticos:
"A Felicidade Não se Compra" (It’s a Wonderful Life) e
"A Mulher Faz o Homem" (Mr. Smith Goes to Washington), ambos dirigidos
por Frank Capra e estrelados por James Stewart. Neste sentido, o crítico
Neal Gabler chega a afirmar que as imagens criadas pelos produtores judeus foram
tão poderosas que "de uma certa maneira colonizaram a imaginação
americana". E acrescenta: "Era impossível falar sobre os Estados
Unidos sem falar sobre os seus filmes". Numa avaliação semelhante,
o economista John Kenneth Galbraith escreveu que muito mais do que qualquer aspecto
material, quem mais impôs no mundo o poder dos Estados Unidos, foi Fred
Astaire.
Os reis de Hollywood durante os anos dourados dos grandes estúdios, ou
seja, desde a introdução do cinema sonoro até um pouco mais
do fim da década de 60, relutavam em se engajar em atividades comunitárias
judaicas, embora se tivessem unido para fundar o Hillcrest Country Club para ali
jogar golfe, já que levavam bolas pretas quando pretendiam se associar
ao Los Angeles Country Club, freqüentado por não-judeus. Nenhum deles
teve a coragem, como Charles Chaplin (que não era judeu, mas sofria ataques
anti-semitas), de expor a malignidade do nazismo e de ridicularizar a figura de
Hitler, no filme "O Grande Ditador", que ele começou a rodar
antes ainda de a Alemanha invadir a Polônia, em 1939.
No seio da intelectualidade judaica de Hollywood, uma das vozes que mais
se levantou contra o nazismo foi a de Ben Hecht (1894-1964), um jornalista
de Chicago que se tornou um dos melhores roteiristas do cinema, tendo
assinado mais de cem filmes, alguns de grande sucesso como "Duelo
ao Sol", "O Retrato de Jennie", "Adeus às Armas",
"O Homem do Braço de Ouro", parte de "E o Vento
Levou" e realizações de Alfred Hitchcock. Quando a
guerra terminou e os judeus da antiga Palestina começaram a confrontar
os mandatá-rios britânicos, Hecht foi procurado por um emissário
do grupo Irgun Zvai Leumi, que pregava a luta armada e atos de terrorismo
contra os militares ingleses. O emissário se chamava Peter Bergson,
nome de guerra de Hillel Kook, que veio a falecer em Israel em 2000, aos
86 anos de idade. Bergson conseguiu convencer Ben Hecht a ajudá-lo
a captar doações para a compra de armas entre os ricos produtores
de cinema. Não era uma tarefa fácil, pois muitos judeus,
tanto em Hollywood como no mundo inteiro, se opunham às ações
da Irgun. Mas, Hecht tinha trânsito livre e foi recebido por todos
os poderosos chefões. Harry Warner, apesar de sionista convicto,
expulsou-o de sua sala, pelo horror que tinha à Irgun. Louis B.
Mayer e Samuel Goldwyn disseram não. Ben Hecht conta em suas memórias,
“A Child of the Century”, que David Selznick só faltou
agredi-lo, enquanto vociferava: "Esta é uma causa judaica
de natureza política e eu não estou interessado nos problemas
judaicos. Eu sou americano, não sou judeu". Hecht valeu-se
de um estratagema. Disse a Selznick que ele poderia indicar três
pessoas de sua confiança, que chamaria ao telefone e perguntaria
se o consideravam judeu ou americano. Se a resposta fosse judeu, Selznick
se comprometeria a organizar um jantar para arrecadar fundos. Os dois
primeiros responderam: judeu. O roteirista Nunnally Johnson, também
responsável por grandes êxitos no cinema, foi mais explícito:
"Pelo amor de Deus, o que está acontecendo com o David? Ele
é judeu é sabe muito bem disso!" David Selznick não
só organizou o jantar, como ainda promoveu um almoço, com
a mesma finalidade, no restaurante dos estúdios da Fox.
O advento do cinema sonoro eqüivale a uma ironia na história de Hollywood.
Por mais que os magnatas dos estúdios pretendessem passar ao largo de suas
raízes judaicas, o primeiro filme falado, "O Cantor do Jazz"
“The Jazz Singer”, estrelado por Al Jolson, continha uma temática
judaica até a medula.
Tudo começou com a iniciativa dos irmãos Warner para dotar o cinema
de diálogos e música. Para isso, contrataram um sistema técnico
chamado Vitaphone que, em 1926, sonorizou um filme da Warner, com a duração
de dez minutos, intitulado “Don Juan”. Enquanto discutiam um projeto
para o primeiro longa-metragem sonoro, foram atropelados pelo cantor e comediante
Al Jolson, o maior nome do show business daquela época. Jolson insistiu
para que fosse levada à tela uma adaptação da peça
teatral "O Cantor do Jazz", um sucesso em Nova York. A motivação
de Jolson era no sentido de que a temática teatral tinha tudo a ver com
a sua própria trajetória. A peça conta a história
do filho de um cantor de sinagoga, Jakie Rabinowitz, que se torna Jack Robin e
faz sucesso na Broadway, ignorando sua origem judaica, o que resulta em rompimento
com seu pai. No Yom Kipur, enquanto o cantor está em seu leito de morte,
Jack adia a estréia de um musical que iria protagonizar e vai à
sinagoga, onde canta o “Kol Nidrei”, numa cena transbordante de emoção.
Depois, Jack volta ao teatro de variedades, onde é assistido e aplaudido
pela mãe, cantando “My Mammy”, uma marca registrada de Al Jolson
ao longo de toda a sua carreira. O filme estreou no dia 6 de outubro de 1927,
alcançou um triunfo espetacular e mudou para sempre a história do
cinema, contendo o próprio dilema dos donos dos estúdios: eles até
poderiam ir à sinagoga, mas sempre voltariam para o mundo não-judeu.
Quando terminou a segunda guerra, talvez como conseqüência do conhecimento
do Holocausto, um filme quebrou um arraigado tabu de Hollywood, ao abordar a questão
do anti-semitismo nos Estados Unidos: "A Luz É Para Todos" “Gentleman’s
Agreement”, produzido em 1947 para a Fox pelo metodista Darryl F. Zanuck,
que anos antes já tinha realizado um filme, "A Casa dos Rothschild",
em favor dos judeus da Europa. Seu novo projeto foi dirigido por Elia Kazan, não-judeu,
e estrelado por Gregory Peck, também não-judeu, e com James Garfield,
o judeu Jules Gurfinkle, que só aceitou um papel secundário em função
do tema do filme. O sucesso foi estrondoso, com duas indicações,
Peck e Garfield, e três Oscars para melhor filme, melhor diretor e melhor
atriz coadjuvante, Celeste Holm.
Rompido o dique, histórias focalizando as lutas pela criação
do Estado de Israel começaram a aparecer nas telas, nas décadas
de 50 e 60, juntamente com outros filmes de temática judaica tais
como "O Diário de Anne Frank" (1959, Fox), “Marjorie
Morningstar” (1958, Republic) e "Os Últimos Homens Maus"
(1959, Columbia). No tocante a Israel, tiveram êxito "Adagas
no Deserto" (1949, Universal), sobre a imigração ilegal
para a antiga Palestina; "O Malabarista" (1953, Columbia), com
Kirk Douglas, todo filmado em Israel, o drama de um sobrevivente do Holocausto
nos primórdios do novo país; e "A Sombra de um Gigante"
(1966, United Artists), também com Kirk Douglas, a história
verdadeira do coronel do exército americano, David Marcus, que
morreu lutando como voluntário na guerra da independência
de Israel. Esses filmes de cunho sionista tiveram sua síntese no
formidável êxito internacional de "Exodus" (1960,
United Artists), baseado no best-seller de Leon Uris, com uma mensagem
tão dramática quanto objetiva: depois dos horrores do Holocautso,
os judeus precisavam de um lar nacional. A bela música incidental
composta por Ernest Gold para o filme, ganhou versos e estourou nas paradas
de sucesso: "Esta terra é minha, esta terra me foi dada por
Deus..."
Hoje em dia, a postura dos grandes produtores de Hollywood é radicalmente
oposta àquela de seus antecessores de setenta anos atrás. As raízes
judaicas se tornaram motivo de orgulho, bastando citar um nome: Steven Spielberg,
realizador de "A Lista de Schindler" e criador da Fundação Shoah,
um museu da imagem e do som dedicado a sobreviventes do Holocausto no mundo inteiro.
Nomes verdadeiros de artistas judeus
Woody Allen: Alan Stewart Koenigsberg June Allyson: Ella Geisman Lauren Bacall: Betty Joan Perske Irving Berlin: Israel Baline Karen Black: Karen Blanche Ziegler Fanny Brice: Fanny Borach Mel Brooks: Melvin Kaminsky George Burns: Nathan Birnbaum Eddie Cantor: Edward Israel Iskowitz Lee J. Cobb: Jacob Amos Tony Curtis: Bernard Schwartz Kirk Douglas: Issur Danielovich Demsky Melvyn Douglas: Melvyn Hesselberg Paulette Goddard: Marion Levy Elliot Gould: Elliot Goldstein Al Jolson: Asa Yoelson Danny Kaye: David Daniel Kaminsky Jerry Lewis: Joseph Levitch Peter Lorre: Laszlo Lowenstein Yves Montand: Ivo Levy Joan Rivers: Joan Molinsky Edward G. Robinson: Emmanuel Goldenberg Jane Seymour: Joyce Penelope Frankenburg Simone Signoret: Simone-Henriette Kaminker Bevery Sills: Belle Silverman John Garfield: Jules Gurfinkle Paul Muni: Muni Weisenfreund Gene Wilder: Gerald Silberman Theda Bara: Theodesia Goodman Sylvia Sidney: Sophia Kosow Judy Holliday: Judith Tuvim Shelley Winters: Shirley Schrift