Outubro de 1973. Enquanto Israel se preparava para a celebração
de Yom Kipur, o dia mais sagrado do calendário judaico, a Síria
e o Egito se preparavam para a guerra.
Edição 42 - Setembro de 2003
Às 14h do dia 6 de outubro, enquanto a maioria da população
israelense estava nas sinagogas, rezando, as forças armadas da Síria
e do Egito, contradizendo todas as previsões e afirmações
dos serviços de Inteligência de Israel, iniciaram uma ofensiva coordenada
contra o país na região do deserto do Sinai, ao sul, e nas Colinas
do Golã, ao norte. Era o início da chamada Guerra de Yom Kipur referência
direta ao dia no qual eclodiu e o começo do maior e inimaginável
pesadelo de Israel nos últimos anos: um ataque surpresa e conjunto dos
maiores exércitos inimigos.
Desde o dia 1º de outubro a Síria e o Egito haviam decretado o estado de
alerta máximo ao longo de sua fronteira. Damasco movimentou tropas a partir
da fronteira com a Jordânia em direção às Colinas do
Golã e, no dia seguinte, fez uma ampla mobilização dos reservistas.
Para os serviços de segurança do país, tudo isso era apenas
uma retaliação à ação de Israel que derrubou
13 aviões de combate sírios no dia 13 de setembro. Diante dessa
movimentação, David (Dado) Elazar, então chefe do Estado-Maior
das Forças de Defesa de Israel (FDI), determinou o deslocamento da 7ª Brigada
para a área, que foi completado às vésperas de Yom Kipur.
Elazar havia pedido também a mobilização dos reservistas,
para o que contava com o apoio da então primeira-ministra Golda
Meir. Sua recomendação, no entanto, não contou com
a aprovação do então ministro da Defesa, Moshe Dayan.
Ao mesmo tempo, forças egípcias se mobilizavam ao longo
do Canal do Suez, mas tal medida também foi menosprezada, sendo
considerada apenas um gesto de solidariedade com a Síria.
No dia 2 de outubro, em uma entrevista à revista Time, mais um indício
do que estava por vir. O então rei Hussein, da Jordânia, afirmava
que, a menos que Israel se retirasse de todos os territórios ocupados durante
a guerra de 1967, em troca de uma garantia para a paz, "um novo desastre
de grande magnitude seria inevitável". No dia 4 de outubro, a ex-União
Soviética, totalmente alinhada com os países árabes na sua
luta contra Israel, retirava centenas de assessores e seus familiares do Egito
e da Síria.
Segundo os analistas, a somatória desses fatos deveria ter alertado a Inteligência
israelense e as FDI sobre a iminência do conflito e preparado o país
para a guerra. No entanto, em uma reunião especial do Gabinete, no dia
5 de outubro, o governo decidiu pela não convocação dos reservistas,
como maneira de evitar acusações internacionais de que Israel se
estaria preparando para iniciar uma guerra contra os árabes. No dia 6,
horas antes do ataque, o gabinete reuniu-se novamente em sessão extraordinária.
Em seguida, Golda Meir informou o embaixador norte-americano Kenneth Keating sobre
a movimentação nas fronteiras e sobre um ataque iminente, ressaltando
que o Gabinete decidira não fazer nenhuma ação preventiva,
incluindo a convocação dos reservistas, em relação
à ação árabe por razões políticas e
não militares. A pergunta "por que os reservistas não foram
mobilizados" foi o slogan principal das críticas a Golda Meir desde
o primeiro dia do conflito.
Assim, sem saber muito bem o que acontecia ao longo de suas fronteiras, a população
de Israel se preparava para celebrar Yom Kipur, acreditando ser uma força
militar invencível, segura ao longo de suas fronteiras desde as Colinas
do Golã até o Canal de Suez.
A verdade dolorosa, no entanto, surgiu rapidamente, quando logo após as
14hs, as emissoras de rádios, que haviam suspendido suas transmissões
em função de Yom Kipur, foram ao ar com a notícia sobre os
ataques ao norte e ao sul do país. Em seguida, a primeira-ministra Golda
Meir fez um comunicado à nação sobre o início das
hostilidades e sobre a convocação dos reservistas. Imediatamente
a defesa civil divulgou medidas para reforçar a segurança, incluindo
o fechamento das escolas, a restrição ao uso de carros e telefones
a não ser em situações de emergência, além do
blecaute total. O país estava em guerra. Mais uma vez.
No início do conflito, os inimigos de Israel conseguiram mobilizar
o equivalente ao total das forças da Organização
do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ao longo das fronteiras israelenses.
Nas Colinas do Golã, cerca de 180 tanques de Israel enfrentaram
aproximadamente 1.400 tanques sírios. Ao longo do Canal do Suez,
cerca de 80 mil egípcios atacaram menos de 500 soldados israelenses
situados ao longo da chamada Linha Bar Lev.
No total, nove estados árabes, incluindo quatro nações que
não são do Oriente Médio, participaram do esforço
de guerra da Síria e do Egito. Poucos meses antes da Guerra do Yom Kipur,
o Iraque transferiu um esquadrão de jatos Hunter para o Egito. Durante
o conflito, uma divisão iraquiana de 18 mil homens e centenas de tanques
foram deslocados para a região central do Golã e participaram de
16 ataques contra posições israelenses. Aviões Mig do Iraque
começaram a operar nas Colinas do Golã a partir de 8 de outubro.
Além de garantir suporte financeiro para a continuidade do conflito, a
Arábia Saudita e o Kuwait também enviaram homens. Uma brigada saudita
de aproximadamente três mil soldados foi para a Síria e lutou na
região próxima a Damasco. A Líbia, violando o acordo com
a França que proibia a transferência de armas francesas, enviou aviões
Mirage para o Egito. Além disso, de 1971 a 1973, o presidente Muamar Khadafi
deu mais de US$ 1 bilhão para o rearmamento egípcio. A Argélia
mandou três esquadrões de aviões de combate e bombardeios,
além de uma brigada de blindados e 150 tanques. Entre mil e dois mil soldados
tunisinos estavam estacionados no delta do Nilo. O Sudão enviou cerca de
3.500 homens para o sul do Egito e o Marrocos, três brigadas para as linhas
de frente, incluindo 2.500 soldados para a Síria.
Assim, durante os primeiros dois dias do conflito, em função do
elemento surpresa, Israel encontrava-se em uma posição defensiva,
tendo perdido o controle sobre a quase totalidade das áreas asseguradas
durante a Guerra de 1967, além de se ver diante da invasão iminente
de seu território. Apesar da forte pressão exercida pela Síria
e pelo Egito para que a Jordânia também declarasse guerra a Israel,
o rei Hussein afirmou que a concentração de forças de seu
país na margem oriental do rio Jordão seria uma medida suficiente.
Tal atitude garantiu a Israel maior tranquilidade para concentrar seus esforços
nas fronteiras ao norte e ao sul.
Com a rápida mobilização dos reservistas, a situação
inicial reverteu-se e, ao final de pouco mais de duas semanas de combates, os
exércitos invasores foram repelidos e as posições israelenses
reasseguradas. A um preço alto: 2.688 soldados das FDI foram mortos; 243
foram capturados pelos egípcios; 68 pelos sírios; e quatro pelos
libaneses. Em contrapartida, Israel capturou 8.372 egípcios, 392 sírios,
treze iraquianos e seis marroquinos. A troca de prisioneiros com o Egito foi realizada
no período de 15 a 22 de novembro de 1973. No dia 4 de abril de 1975, o
Egito devolveu o corpo de 39 soldados israelenses mortos em combates durante a
Guerra de Yom Kipur. Israel, por sua vez, devolveu 92 terroristas e outros detentos
que estavam em prisões do país.
Foi na Guerra de Yom Kipur também que, pela primeira vez no século
XX, os países árabes produtores de petróleo decidiram
usar este precioso líquido como instrumento político. Ameaçando
reduzir a produção e aumentar os preços, impuseram
um embargo aos países que apoiavam Israel. Foi o chamado primeiro
choque do petróleo, que tanto abalou a economia mundial, então
muito mais dependente do ouro negro dos árabes do que atualmente.
Foi também com base neste instrumento de pressão que os
países árabes, com apoio da então União Soviética
e dos chamados países não-alinhados, fizeram com que as
Nações Unidas apresentassem e aprovassem a resolução
que equiparou sionismo a racismo, em 1975. Esta moção, no
entanto, foi revogada em 1991, com 111 votos a favor e 25 contra. Seis
países árabes não participaram da votação.
6 de outubro
Às 14 horas do dia 6 de outubro, cerca de 200 aviões egípcios
sobrevoaram o Canal de Suez, bombardeando campos, instalações, aeroportos,
estações de radares e baterias israelenses na área. Simultaneamente,
ataques maciços de artilharia voltavam-se para pontos estratégicos
nas primeiras e segundas linhas das defesas israelenses. Tropas egípcias
atravessaram o Canal de Suez atacando as FDI ao longo do canal e os batalhões
de blindados que as protegiam. Cerca de 20 mil homens participaram da operação
e capturaram a Margem Oriental que, então, estava sob controle israelense.
Logo no primeiro dia da guerra, o exército egípcio conseguiu construir
várias pontes ao longo do Suez através das quais suas forças
de blindados e de infantaria passaram, assumindo o controle sobre as posições
israelenses. Ao mesmo tempo, helicópteros egípcios aterrissaram
trazendo numerosas tropas para a margem ocidental do Canal.
Simultaneamente à ação no Sinai, aviões sírios
atacavam as unidades e instalações israelenses no Golã, enquanto
a artilharia bombardeava assentamentos civis. Rapidamente, três helicópteros
da Síria pousaram próximo ao Monte Hermon chamado de Olhos de Israel
trazendo comandos especiais. Em poucas horas, as forças de Damasco conseguiram
capturar uma das mais importantes posições da Inteligência
israelense, atingindo duramente a moral das FDI. Dezenas de soldados se renderam
e os sofisticados equipamentos eletrônicos foram levados para a Síria.
Centenas de tanques sírios invadiram as Colinas do Golã e foram
avançando sem encontrar quase nenhuma resistência. Em pouco tempo,
a Força Aérea de Israel (FAI) descobriu a principal arma secreta
do inimigo: os mísseis anti-aéreos, que se tornaram o terror dos
pilotos israelenses.
Ao final do primeiro dia, o quadro era bastante assustador e inédito para
o país: quase todo o Canal do Suez estava sob controle egípcio;
todas as posições israelenses foram isoladas; numerosas unidades
de blindados haviam atravessado o canal e começado a se movimentar, em
direção à região leste. Os blindados sírios,
por sua vez, chegaram a sete quilômetros do lago Kineret e muito próximos
do Vale de Hulla. Poderiam continuar avançando, pois não havia nada
para os deter. Enquanto isso, as forças regulares de Israel aguardavam
o reforço que viria com a mobilização dos reservistas.
7 e 8 de outubro
O segundo dia dos combates foi um dos mais intensos e difíceis,
pois marcou o início da contra-ofensiva israelense. Tropas exaustas
enfrentaram centenas de tanques no Sinai e nas Colinas do Golã,
além de terem de conter os avanços dos exércitos
inimigos com seus últimos resquícios de força. Os
reservistas começaram a chegar apenas no período da tarde
nas duas frentes. Diante da gravidade na fronteira com a Síria,
o comando das FDI decidiu enviar toda a FAI para reverter o ataque sírio,
bombardeando posições estratégicas na área
e também em território sírio. Foram necessárias
24 horas para que as divisões terrestres, sob as ordens de Dan
Laner e Rafael Eitan, conseguissem deter ao avanço das forças
sírias.
A situação no sul continuava complicada, no terceiro dia da Guerra.
Os rabinos militares levaram os rolos sagrados de Torá que estavam no Muro
das Lamentações para as linhas de batalha. A divisão comandada
pelo General-de-Brigada Avraham (Bren) Adan lutava no setor norte do Sinai enquanto
a divisão sob as ordens do General-de-Brigada Ariel Sharon (atual primeiro-ministro
de Israel) vinha pelo sul, para dar-lhe suporte. Apesar das informações
iniciais de que o contra-ataque israelense estava obtendo êxito, logo o
fracasso se tornou evidente. A divisão de Bren foi repelida pelas forças
egípcias, sofrendo pesadas perdas; 400 tanques foram destruídos
e dezenas de soldados foram mortos ou feridos. As forças lideradas por
Sharon atacaram diretamente o 3º Exército egípcio, ao invés
de apoiar a ofensiva de Bren sobre o 2º Exército. Enquanto o comando das
FDI analisava a situação e decidia o deslocamento de mais forças
para tentar fazer os egípcios retrocederam através do Canal de Suez,
o Egito lançou uma nova ofensiva, repelida apenas graças a um enorme
esforço das divisões envolvidas.
Neste mesmo dia, Dayan dizia aos jornalistas que estava surpreso com o poder das
forças armadas do Cairo e com o fracasso das FDI na contra-ofensiva. Dizia
também estar muito pessimista e acreditar que as tropas israelenses deveriam
recuar na região do Sinai e estabelecer uma nova linha de defesa nas áreas
de Gidi e do Estreito de Mitleh. Na noite do dia 8, Dayan convocou novamente a
imprensa e afirmou que a situação era muito grave e poderia levar
à destruição do Terceiro Templo. Os editores ficaram chocados
com suas palavras. O ministro da Defesa queria fazer um pronunciamento em cadeia
pela televisão falando sobre a situação, mas foi impedido
por Golda Meir.
11 de outubro
Na manhã do dia 11, as tropas israelenses receberam uma ordem do Estado
Maior: lançar uma grande ofensiva sobre a Síria. Até então,
as FDI vinham lutando para levar a guerra para o território do inimigo.
Durante as 24 horas do dia anterior, a FAI bombardeara alvos estratégicos
nos arredores de Damasco, incluindo aeroportos, bases militares, refinarias, prédios
do governo, entre outros. Ao mesmo tempo, os israelenses avançavam para
recuperar o controle sobre toda a região das Colinas do Golã os
sírios, por sua vez, recuaram deixando para trás cerca de 900 tanques,
a maioria danificada.
O ataque à Síria foi liderado por Rafael Eitan e Moshe Peled. No
início da noite, suas divisões avançaram sobre as posições
fortificadas sírias e chegaram a 40 quilômetros da capital. Por razões
políticas e estratégicas, as FDI não seguiram adiante, mantendo-se
em posições facilmente defensáveis. No dia 12 de outubro,
não havia mais combates no Golã e Israel havia recuperado todos
os territórios anteriores a 6 de outubro. O Estado-Maior decidiu, então,
enviar o máximo de unidades para continuar a luta na fronteira sul.
15 a 22 de outubro
Na noite de 15 de outubro, pára-quedistas das divisões lideradas
por Sharon atravessaram o Canal de Suez em botes de borracha e estabeleceram uma
cabeça de ponte na Margem Ocidental. O local escolhido para a travessia
foi justamente uma lacuna entre o 2º e o 3º Exércitos egípcios.
No dia seguinte, depois de árduos combates, os soldados de Bren também
atravessaram o canal, ampliaram o corredor criado pelos pára-quedistas,
movimentaram-se em direção ao sul e eliminaram as baterias de mísseis
que até então impediam os jatos da FAI de operar na região.
A Brigada de Sharon se deslocou rumo ao norte, em direção a Ismailia,
tentando empurrar o 2º Exército de volta para o Egito. Os egípcios,
por sua vez, continuavam tentando atacar a cabeça de ponte israelense na
Margem Ocidental, visando isolar seus inimigos. Mas não o conseguiram.
No dia 19 de outubro, os egípcios perceberam o quanto as tropas israelenses
haviam penetrado em seu território. No dia 22, o Conselho de Segurança
das Nações Unidas aprovou a resolução 338, pedindo
o fim da guerra e o início das negociações para implementação
de uma paz justa e duradoura no Oriente Médio. As FDI continuaram lutando
por mais dois dias e conseguiram cercar totalmente o 3º Exército. No dia
24, uma unidade comandada por Bren tentou conquistar a cidade de Suez, mas foi
repelida, sofrendo muitas baixas: 80 soldados foram mortos e dezenas ficaram feridos.
Enquanto isso, depois de vários dias de lutas sangrentas, uma Brigada Golani
conseguiu recuperar o controle do Monte Hermon, que estava em mãos dos
sírios desde o início da guerra. A luta, praticamente frente a frente
com o inimigo, aconteceu ao longo da noite e durou 12 horas. O silêncio
voltou à fronteira norte. Quando o local foi reconquistado, um dos soldados
disse a um jornalista de televisão: "Estes são os olhos de
Israel".
Às 18h do dia 26 de outubro, após 18 noites na escuridão,
o blecaute em Tel Aviv foi encerrado. Os restaurantes reabriram, foram retiradas
as camuflagens das lanternas de carros e as luzes voltaram a brilhar através
das janelas das casas e edifícios. As pessoas recomeçaram a circular
pelas ruas, tentando voltar à normalidade.
No dia 11 de novembro, o acordo de cessar-fogo foi assinado entre o Egito e Israel,
em uma tenda militar no quilômetro 101 da estrada Suez-Cairo, no mesmo local
ao qual chegaram as FDI durante os combates ou seja, a 101 quilômetros da
capital egípcia. Segundo os termos acordados, Israel e Egito manteriam
o cessar-fogo; as negociações começariam com a retirada para
as posições ocupadas em 22 de outubro; liberação de
mantimentos e medicamentos diariamente para a cidade de Suez; acesso de equipamentos
e suplementos não militares para o 3º Exército egípcio, ainda
sobre cerco; movimentação de profissionais das Nações
Unidas na estrada Suez-Cairo; início imediato da troca de prisioneiros
entre os países envolvidos. Não houve a assinatura de um cessar-fogo
formal com a Síria.
Segundo os especialistas, a derrota dos árabes na Guerra de Yom Kipur foi
fundamental para a mudança gradativa nas relações entre Israel
e o Egito. Dizem que foi a partir deste episódio que o presidente Anuar
Sadat conscientizou-se de que não poderia obter concessões dos israelenses
através do conflito armado, mas apenas através de negociações.
Sadat foi o primeiro presidente egípcio a visitar Israel, em 1977, durante
o governo do primeiro-ministro Menachem Begin. Assinaram, em 1978, o primeiro
acordo de paz entre Israel e um país árabe, o chamado Acordo de
Camp David, ratificado em 1979 através do Tratado de Camp David.
Fonte:
Mishal, Nissim (organizador), Those Were the years...,
Yedioth Ahronoth, 1998.