A destruição de Jerusalém pelos romanos comandados por Tito, David Roberts, 1850
Em Tisha B’Av, nono dia do mês hebraico de Menachem Av, jejuamos e choramos a destruição do Templo Sagrado de Jerusalém. O Segundo Templo foi destruído 490 anos após o primeiro, que também caiu por terra nessa mesma data sinistra.
Edição 41 - Junho de 2003
A destruição do Segundo Templo foi obra do Império Romano,
que primeiro ocupou a Terra de Israel no ano 63 a. E.C. Desde praticamente
início da Era Comum, a Judéia foi governada por procuradores
romanos que cobravam um imposto anual em nome do Império. O montante
que excedia a cota estipulada, ficava em poder deles. Não era, portanto,
de surpreender que eles sempre impusessem impostos adicionais para seu próprio
enriquecimento ilícito. Mas o que enfurecia os judeus ainda mais era
o fato de que Roma impunha a indicação do Cohen Gadol o Sumo
Sacerdote, que devia ser o homem mais puro entre os judeus. Indignava-os o
fato de que o Sumo Sacerdote, que representava os judeus perante D’us
em seus dias mais sagrados, especialmente em Yom Kipur, tivesse que ser indicado
pelo imperador romano, que favorecia apenas quem colaborasse com Roma.
No início da Era Comum, um grupo de rebeldes judeus decidiu enfrentar
Roma. Ficaram conhecidos como os zelotas, os Canaim. Os zelotas acreditavam
que todos os seus meios, inclusive a violência, se justificavam
por terem como objetivo primordial a expulsão dos romanos de Israel.
Os sentimentos judaicos contra Roma foram exacerbados durante o reinado de
Calígula, o psicótico imperador romano. No ano de 39, Calígula
se auto-investiu de divindade, promulgando um decreto de que sua estátua
fosse erigida em todos os templos do Império Romano. Em todas as terras
ocupada pelos romanos, os judeus eram o único povo que se recusou a
cumprir as leis do imperador. Nenhum judeu profanaria o Templo Sagrado com
a estátua de um homem que se auto-proclamava a mais recente divindade
de Roma.
Furioso com a recusa dos judeus em obedecer sua ordem, Calígula ameaçou
destruir o Templo Sagrado. Uma delegação de judeus foi até ele,
na tentativa de apaziguá-lo, o que não conseguiram. Calígula
ameaçou os judeus de exterminá-los, acusando-os, com razão,
de serem inimigos dos deuses, o único povo que se recusou a reconhecer
sua condição de divindade. Felizmente, o imperador Calígula faleceu,
subitamente, salvando os
judeus de uma provável maciça confrontação militar
com o Império Romano.
No entanto, apesar de morto, os atos de Calígula exacerbaram os ânimos
até mesmo dos moderados, entre os judeus. Estavam preocupados de que
pudesse surgir um imperador que, como seu antecessor, tentasse profanar o Templo
Sagrado ou massacrar o povo judeu. Além disso, a morte súbita
de Calígula parecia confirmar a crença dos zelotas de que D’us
lutaria ao lado dos judeus, caso tivessem a coragem de ousar desafiar Roma.
Mesmo com Calígula fora de cena, os romanos continuaram os abusos contra
os judeus. Agiam sem nenhum respeito dentro do Templo, a ponto de queimar os
rolos da Torá. Os romanos também desprezavam o judaísmo,
favorecendo os não judeus que viviam na Terra de Israel. Finalmente,
no ano de 66 desta era, um procurador romano de nome Florus roubou uma grande
quantidade de objetos de prata do Templo Sagrado. Grandes contingentes de judeus,
enfurecidos e revoltados, destruíram uma pequena praça militar
localizada em Jerusalém. O governante romano na vizinha Síria
enviou um batalhão com maior número de soldados para conter a
insurreição judaica, mas estes, também, foram derrotados
pelos insurgentes judeus. Essa vitória convenceu os judeus de que poderiam
derrotar Roma. Muitos se uniram aos zelotas, porém essa grande rebelião
levou a uma das maiores catástrofes da história de nosso povo.
Nossos sábios nos dizem que não foi a superioridade militar dos
romanos que fez com que o povo judeu fosse vencido. Pelo contrário,
o Templo Sagrado foi destruído e os judeus exilados da Terra de Israel
em virtude de terem praticado entre si próprios o ódio gratuito
sinat chinam (Tratado Yomá, 9b). No tratado Gittin, o Talmud narra uma
história que simboliza o ódio existente entre os judeus da época
e que levou à destruição de Jerusalém e do seu
Segundo Templo.
A história de Kamtza e Bar Kamtza
Um
homem tinha um amigo chamado Kamtza e um inimigo de nome Bar Kamtza. Certa
vez, organizou um banquete e pediu a seu ajudante que encontrasse Kamtza
e o convidasse para o banquete. Mas o ajudante trouxe, por engano, Bar
Kamtza. Quando o anfitrião chegou e viu o inimigo lá sentado,
enfureceu-se, gritando: Você é meu inimigo, o que está
fazendo aqui? Levante-se e vá embora!. Bar Kamtza, que se sentiu
humilhado com a possibilidade de ser expulso na presença de outros,
implorou para ficar. Já que estou aqui deixe-me ficar, e pagarei
por tudo que eu consumir, bebidas e comidas. O anfitrião não
concordou. Bar Kamtza disse então: Deixe-me ficar e pagarei a metade
de seu banquete. Novamente, o anfitrião negou o pedido. Bar Kamtza
tentou uma última cartada: Pagarei pelo banquete inteiro. Mas o
anfitrião nem se comoveu. Na frente de todos os convidados, pegou
Bar Kamtza pela mão, expulsando-o do recinto.
Bar Kamtza saiu, constrangido e com muita raiva – não apenas do
anfitrião. Como os rabinos estavam no banquete e não repreenderam
o anfitrião pela forma como me tratou, ficou evidente que aceitaram
o que ele fez raciocinou. Por isso, tramou sua vingança. Decidiu difamar os rabinos
perante o imperador romano. Foi até César e disse: Os judeus se
rebelaram contra Vossa Majestade! Quando César pediu algumas provas, ele fez a seguinte sugestão:
Mande-lhes um animal para ser sacrificado e veja se o oferecem no Templo! César, então, enviou um bezerro perfeito com Bar Kamtza. Quando
este se dirigia a Jerusalém, fez uma marca no bezerro tornando-o impróprio
para o sacrifício no Templo. Interessados em manter a paz com o governo
de Roma, os rabinos aceitaram a oferta do sacrifício, apesar da imperfeição.
Todavia, Rabi Zechariah ben Avkulus opôs-se ao ato: Dirão que animais
impróprios podem ser oferecidos no altar do Templo! Os rabinos, então, pensaram em matar Bar Kamtza para que ele não
fosse até César delatar que sua oferenda havia sido recusada. Mas
Rabi Zechariah disse: Dirão que aquele que macula animais é morto!
O bezerro marcado não foi ofertado nem tampouco Bar Kamtza foi impedido
de ir ao encontro do imperador. Os romanos consideraram tal atitude um ato de
revolta e César enviou o general romano Vespasiano contra os judeus. Enquanto
estavam fora de Jerusalém, as tropas romanas se prepararam para sitiar
a cidade, mas na cidade os judeus travavam uma guerra civil suicida. Os líderes
judeus mais moderados, à frente do governo no início da revolta,
foram mortos por seus compatriotas. Na expectativa de um cerco romano, os judeus
de Jerusalém haviam estocado uma grande quantidade de alimentos, que poderia
sustentar a cidade sitiada por muitos anos. Mas uma das facções
dos zelotas ateou fogo nos mantimentos e suprimentos. Esses zelotas tinham esperança
de que destruindo os víveres, os judeus não conseguiriam resistir
ao cerco e se sublevariam contra os romanos. Mas a fome que resultou da destruição
dos alimentos causou um tremendo sofrimento e morte entre os judeus.
No ano 70 de nossa era, os romanos finalmente romperam as muralhas de Jerusalém.
Em Tisha B’Av daquele ano, o Segundo Templo Sagrado foi destruído.
Calcula-se que mais de um milhão de judeus morreram na Grande Revolta
contra Roma. O povo judeu foi exilado de sua terra natal, e assim começou
a Diáspora, que dura até os dias de hoje.