Doña Gracia Nasi - ed.19 - Página2
Foi durante este período de profundo estudo e meditação que, às vezes, o profeta Eliahu se revelava ao rabino Isaac Luria e lhe ensinava os mais profundos segredos da Torá. Durante um Shabat, o Ari contou à esposa sobre o aparecimento de Eliahu Hanavi, dizendo que deveria mudar-se imediatamente para Safed, em Israel, com o intuito de transmitir os ensinamentos da Cabala. A mudança deveria ser rápida, pois, segundo o profeta, ele teria apenas mais dois anos de vida. Seu antigo professor, o Radbaz, tinha-se mudado para esta cidade em 1553 e este fato deve ter também pesado na sua decisão. Era então o ano de 1570.

Apesar de seus profundos conhecimentos, o Ari optou por permanecer anônimo em Safed durante algum tempo, trabalhando como comerciante.

Logo após sua chegada, faleceu o rabino Moisés Cordovero, o Ramak (26 de junho de 1570), o líder da Academia de Cabala. Conta-se que ao ser questionado por seus discípulos sobre quem seria o novo líder da Academia de Cabala, Ramak disse-lhes que o seu sucessor seria revelado por um pilar de fogo que seguiria seu caixão. Aquele que o visse seria o novo líder.

E assim foi. No dia do enterro, o Ari foi o único a ver o pilar de fogo e foi reconhecido como novo líder. Um grupo coeso de adeptos e discípulos formou-se rapidamente ao seu redor. Mas o homem que se tornaria o grande discípulo do Ari e que transcreveria suas palavras, o rabino Chaim Vital, uniu-se ao grupo apenas seis meses mais tarde.

O rabino Vital, um grande cabalista, escreve que, na época, estava muito envolvido em seus comentários sobre o Zohar e acreditava que seus próprios conhecimentos eram superiores aos do próprio Ari. Mas após o primeiro encontro, o rabino Vital reconheceu a grandeza do rabino Luria, passando a ser seu mais fiel e famoso discípulo. O Ari informou-lhe que tinha vindo do Egito para lhe transmitir seus conhecimentos e que esta era a missão mais importante de sua vida. Os dois tornaram-se inseparáveis.

É difícil imaginar a quantidade de informações que o Ari conseguiu transmitir em menos de 18 meses mas, neste breve período, o rabino Vital conseguiu dominar o método luriano de estudo da Cabala, produzindo, após a morte de seu mestre, uma obra de 12 volumes. Dois anos após sua mudança para Safed, o fim anunciado pelo profeta Eliahau Hanavi concretizou-se: o Ari morreu aos 38 anos, em 15 de julho de 1572, data correspondente no calendário judaico a 5 de Av de 5332. Os seus ensinamentos receberam o status de autoridade máxima e colocados no mesmo nível do que os do Zohar. Seus hábitos foram analisados e considerados um modelo a ser seguido.

O Ari não escreveu praticamente nada, cabendo esta tarefa ao rabino Vital e ao seu filho, Shmuel Vital. Em suas obras, o rabino Chaim Vital descreve a personalidade do Ari, a quem considerava um ser celestial. Segundo ele, o rabino Isaac Luria não apenas tinha profundos conhecimentos da Mishná, do Talmud, da Hagadá e do Midrash, mas também descobriu o conhecimento secreto baseado nos mistérios do Masseh Bereshit, da criação do mundo.

Ele entendia a linguagem dos pássaros, o sussurro das árvores e ouvia a conversa dos anjos. Para ele, o deserto, as águas, as árvores, as plantas, os animais e os pássaros também são parte do mistério divino. O Ari falava com os bons e com os maus espíritos. Podia avaliar um ser humano observando a sua face e a sua testa. Ele sabia quais os atos cometidos por cada indivíduo no passado e podia prever o futuro, além de dominar a grafologia.

Ele acreditava na reencarnação das almas, tanto das pecadoras quanto das justas. Pois aqueles que pecaram em uma vida prévia, dizia, poderiam reencarnar para se arrepender de seus pecados. Consta que ele revelava a raiz da alma de cada discípulo, sua linhagem e suas reencarnações.

Pouco antes de sua morte, o rabino Chaim Vital deixou instruções segundo as quais todos os textos sobre o Ari deveriam ser colocados em seu túmulo. Mas, segundo relato do rabino Chaim Joseph Azulai, em seu livro Shem Hagdolim, logo após a sua morte, Chaim Vital apareceu para seus amigos em sonhos e os autorizou a editar e publicar seus escritos. Seu mais importante trabalho foi Etz Ha-Haim - Árvore da Vida - contendo comentários sobre os ensinamentos do sistema cabalístico do Ari. Inclui também interpretações do Zohar.
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N.69/setembro 2010
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