Havdalá - ed.37 - Página2
Diz o Zohar que “o espírito entristecido se reanima ao cheirar as especiarias da Havdalá”. Os místicos consideram a Havdalá uma proteção contra as forças negativas que voltam a atuar ao término de cada Shabat. Atualmente, costuma-se usar especiarias aromáticas para esta bênção, mas até o século XII usavam-se plantas aromáticas, como a mirta. Em algumas comunidades sefaraditas e orientais ainda se utilizam plantas perfumadas e água de rosas.

A terceira bênção é feita sobre a luz de uma vela trançada, que é acesa logo no início da cerimônia. Os presentes recitam a bênção sobre a luz, enquanto olham para seus dedos e unhas, o que significa que estão fazendo uso da luz, porque acender a luz sem um propósito constitui uma berachá levatalá – uma benção inútil.

A vela utilizada para a Havdalá tem mais de um pavio, pois é necessária uma combinação de no mínimo duas chamas, pois assim está escrito: “Boré me’oré ha-esh” – “Aquele que cria as luzes do fogo” (luzes, no plural). A vela trançada simbolizaria também a unidade encontrada no final do Shabat. Alguns místicos vêem a presença da mulher predominando na sexta-feira à noite; a do homem, no sábado de manhã, e os dois reunidos, no final do Shabat. Há também uma interpretação que diz que as tranças da vela representariam os diversos tipos de judeus espalhados pelo mundo, todos parte de um mesmo povo.

Os presentes observam através da chama da vela acesa os dedos e as unhas para lembrar a transparência do primeiro homem, em contraste com nossa opacidade. Segundo a tradição, Adão, o primeiro homem, descobriu o uso do fogo quando terminou o Shabat da Criação, pois D’us lhe dera duas pedras que esfregou, uma na outra, até que se fez o fogo. Ao ver o fogo, Adão fez uma bênção.

O costume de colocar os dedos curvados sob a luz permite que, ao se vislumbrar a sombra sobre os dedos, possa-se notar a distinção entre a luz e a escuridão. No caso das unhas, a explicação é que, com seu crescimento constante, são um símbolo de prosperidade para a semana que se inicia. O fogo da chama representa a criatividade física evitada durante o Shabat e que, nesse momento, volta a ser utilizada.

A quarta bênção, a prece da Havdalá – Birchat Havdalá – é finalmente recitada, louvando a D’us, que distingue entre o sagrado e o profano, entre a luz e a escuridão, entre Israel e os outros povos, e entre o sétimo dia – dia do descanso – e os seis dias de labor. Nesse momento, as pessoas se cumprimentam, desejando Shavua Tov, que seja boa e abençoada a semana que se inicia.

As bênçãos da Havdalá são quase idênticas entre os diferentes ritos, sefaradita, ashquenazita e iemenita. A frase inicial é a mesma – “Kos yeshu’ot essa”– “Levantarei o copo da salvação”. No entanto, as sentenças de introdução são diferentes: os sefaraditas pedem para serem abençoados com coisas boas e sucesso, os ashquenazitas recitam frases bíblicas contendo o termo yeshu’á, salvação, e os iemenitas rezam por uma boa semana.

Os objetos utilizados nesta poética cerimônia, têm um grande valor simbólico. Este simbolismo serviu de inspiração para os artesãos de arte judaica, levando à produção artística de uma grande variedade de peças lindíssimas e muito procuradas: os suportes de vela trançada de Havdalá e as caixas de bessamim ou hadás, utilizadas para armazenar as especiarias – tradicionalmente cravo da Índia ou folhas de mirta. Estas caixas, que aparecem pela primeira vez nos textos do século XV, são encontradas em diversos formatos, entre os quais, moinho de vento, flor, peixe e até locomotivas de vapor e carroças. São feitas de prata, madeira ou outros materiais. Na Alemanha e nos países da Europa Oriental, estas caixas são encontradas sob o nome de Bessamimbüchse ou Gewürzbüchse.

Bibliografia:
Glustrom, Simon, The Language of Judaism
Quaknin, Marc-Alain, Symboles du judaïsme
Vatitpalel Chana, Sidur para a Mulher
Wigoder, G., The Encyclopedia of Judaism
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N.69/setembro 2010
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