Morashá
Vida Judaica no Uzbequistão Praça Registan Samarkand, Uzbequistão

Vida Judaica no Uzbequistão

Remonta à Antiguidade a presença de judeus na região do atual Uzbequistão. Durante séculos, a população judaica local era composta apenas por judeus mizrachim1 mais especificamente, a comunidade judaica de Bukhara. Mas, a partir do final do século 19, judeus do Leste europeu, ashquenazim, passaram a se instalar na região formando mais uma comunidade local. Hoje, a maioria dos judeus que ainda vivem no Uzbequistão seguem o rito ashquenazita, tendo os judeus de Bukhara emigrado maciçamente.

Edição 109 - Dezembro de 2020


O Uzbequistão é uma criação do século 20, uma nação encravada entre os rios Syr Darya e Amu, estabelecida em outubro de 1924, quando diversas entidades territoriais da Ásia Central foram reunidas na República Socialista Soviética Uzbeque. Porém, a história da região remonta aos primórdios da civilização humana. Estrategicamente localizado na antiga Rota da Seda2, o território do Uzbequistão sempre atraiu invasores. Hoje, sua natureza exuberante rivaliza com a beleza arquitetônica de suas antigas cidades. Verdadeiros museus a céu aberto, revelam os diversos períodos da história da região e as influências culturais de seus inúmeros invasores.

A história dos judeus do Uzbequistão é pouco conhecida, principalmente pelo fato de, através dos tempos, eles terem vivido longe das áreas consideradas como principais polos do mundo judaico. Ademais, até o final da Idade Média são escassas as informações sobre os judeus da região.

Não se sabe quando os primeiros judeus se estabeleceram no que constitui, hoje, o Uzbequistão. Durante o reinado do Rei David na Terra de Israel, no século 10 AEC, já havia comerciantes judeus se aventurando pela Ásia Central. No entanto, não há textos ou achados arqueológicos que nos indiquem quando os judeus lá se assentaram. O que temos são inúmeras tradições orais que, atualmente, os historiadores consideram como prova legítima de um passado.

De acordo com uma tradição dos judeus de Bukhara, os primeiros deles a se estabelecerem na região eram membros das Dez Tribos, possivelmente as de Naftali e Issachar, deportados após a derrota final do Reino de Israel para os assírios, em 722 AEC. A tradição baseia-se no versículo 17:6 do Livro de Reis II: “No 9º ano do reinado de Oseias, o rei assírio conquistou o Reino de Israel (Shomron) e levou-os cativos para a Assíria e fê-los habitar em Halah e Havor, junto do rio Gozan...”. Havor seria uma referência a Bukhara.

Antes de adentrarmos a história dos judeus do Uzbequistão é preciso esclarecer que a terminologia “edá dos judeus de Bukhara” se refere à “comunidade” judaica mizrachí, que durante séculos viveu na região do atual Uzbequistão. O termo chega, às vezes, a englobar toda a população judia mizrachí, oriental, da Ásia Central.

Não há, porém, um consenso sobre quando e por que razão teria sido adotada essa denominação, sendo inúmeras as teorias. É fato que, na Idade Média, a maior comunidade judaica da Ásia Central vivia no Emirado de Bukhara, mas havia judeus também em outros lugares. Alguns estudiosos acreditam que o nome tenha passado a ser usado no séc. 14, quando, como veremos adiante, Tamerlan3 enviou centenas de famílias judias de Bukhara para ajudar na reconstrução da cidade de Samarkand.   Outros justificam que o nome “judeus de Bukhara” tivesse sido aplicado à comunidade por viajantes europeus que lá estiveram antes da conquista russa, em 1868, pois, também à época, a maioria dos judeus da região eram súditos do Emir de Bukhara.

Independentemente de qual seja a explicação, a terminologia ajudou a cristalizar uma identidade. A “comunidade judaica de Bukhara” possui sua própria história, tinha seu território considerado como “sua pátria diaspórica”, seu próprio idioma, o Bukhori um dialeto tadjique-judaico. Suas tradições e cultura são ricas e singulares, resultantes da integração judaica no caldeirão turco-persa de culturas dominante na região.

Os primórdios

Desde o primeiro milênio AEC, nômades iranianos se estabeleceram ao longo dos rios da Ásia Central. Os sogdianos foram dos primeiros povos iranianos a fincar raízes nas regiões de Bukhara e Samarkand, onde a maioria dos judeus acabou por se estabelecer. O território sogdiano estava localizado na antiga Rota da Seda, a maior rede comercial do Mundo Antigo que interligava a Ásia do Sul, o Oriente e a Europa.

De acordo com mais uma tradição local, uma leva de judeus chegou à região no século 6 AEC. Depois de Ciro, o persa, conquistar a Babilônia, em 539 a.E.C., e estabelecer seu próprio Império, ele autorizou o regresso dos judeus à sua Terra de Israel – judeus que os babilônios mantinham cativos desde que Nabucodonosor II derrotara o Reino de Judá e os deportara para a Babilônia. Nem todos o fizeram. Alguns se dirigiram para o Leste, estabelecendo-se na Pérsia (atual Irã), no atual Afeganistão e na Sogdiana. Chamada pelos romanos de Transoxiana, a Sogdiana era uma antiga região geográfica que corresponde aos atuais Uzbequistão, Tadjiquistão e parte do Cazaquistão.

Em 327 AEC Alexandre, o Grande, conquista parte do atual Uzbequistão, inclusive a Sogdiana, na época província do Império Aquemênida, o Primeiro Império Persa. Essa conquista provocou o crescimento das atividades comerciais de suas principais cidades, como Andijan, Kokand, Rishtan, Samarkanda, Bukhara, Khiva e Tashkent.

A primeira evidência documentada de uma presença judaica na região remonta ao século 4 da Era Comum. E, de acordo com mais uma tradição local, um grande número de judeus fugiram da Pérsia no século 5, durante o reinado do Xá Perozes.

Não se sabe exatamente quando os judeus começaram a atuar na Rota da Seda da Ásia Central, mas já no século 7 era grande o número de mercadores judeus.

Nesse século a Transoxiana foi conquistada pelos árabes, que disseminaram o Islã em toda a região. Dos séculos 8 ao 10 a Transoxiana se tornou um importante centro cultural devido à riqueza oriunda da Rota Norte da Seda, sendo seus principais centros Samarkand e Bukhara.

Os judeus e o Islã

A chegada do Islã foi modificando o modo de vida de todas as terras que conquistava. Na região que hoje é o Uzbequistão ocorre uma maciça islamização da população, à exceção dos judeus, que se tornaram uma minoria numericamente insignificante. Como em outros lugares do Dar al-Islam, eles viviam na condição de dhimmis. O Estado muçulmano lhes impunha uma série de obrigações e, em contrapartida, garantia-lhes a vida, a propriedade e o direito de praticar sua religião.

Em suas obras, o historiador árabe do século 9, Al-Masudi4, faz referência à presença judaica na região, constatando que “muitos judeus que se dirigiram ao reino de Khazes5 eram oriundos de cidades muçulmanas” (da Transoxiana).

Na época, os judeus de Bukhara mantinham contatos com outras comunidades no mundo judaico. De acordo com Nathan ben Isaac ha-Kohen ha-Babli, historiador do século 10, os judeus de Khorasan6 consultavam e acatavam as determinações dos Gaonim (sábios) das academias talmúdicas da Babilônia, Sura e Pumbedita, sobre questões religiosas. E também contribuíam para a manutenção dessas duas academias.

Mais informações sobre o relacionamento entre os judeus de Bukhara e as instituições judaicas babilônicas podem ser obtidas na obra do rabino Benjamim de Tudela. A viagem de Tudela rumo à Terra Santa durou mais de dez anos, no período de 1159 ou 1163 até 1173. Em uma descrição da comunidade judaica de Bagdá, ele diz: “A autoridade do Exilarca se estendia sobre todas as comunidades da Babilônia, Pérsia, Khorasan e Sheba... até os portões de Samarkand...”. Em suas anotações, Tudela não menciona a comunidade judaica de Bukhara, mas sim de Samarkand, que segundo anotou somava 50 mil judeus. Historiadores acreditam que esse número não se baseava em observação pessoal, não sendo, portanto, necessariamente preciso.

Os laços entre as comunidades judaicas da Ásia Central e o restante do mundo judaico que, por tantos séculos, haviam sido fortes, foram cortados no século 13, quando Genghis Khan e seu poderoso exército mongol varreram a Ásia Central deixando atrás de si morte e destruição.

Os judeus sofreram demasiadamente durante a invasão mongol do Uzbequistão, em 1220. Os bairros judaicos da cidade de Bukhara foram destruídos e, ao que se sabe, somente foram recuperados no século 14. E quando os exércitos mongóis conquistaram o Irã, muitos judeus fugiram e se instalaram no vizinho Uzbequistão.

Uma das consequências da invasão mongol foi o isolamento dos judeus da Ásia Central do restante do mundo judaico – excetuando-se outras comunidades judaicas de língua persa que viviam nos territórios que hoje constituem o Irã, Afeganistão e Tadjiquistão. Esses laços permaneceram fortes, unindo os judeus dessa vasta região no que poderíamos chamar de uma “única comunidade”, que compartilhava de liturgia e comentários bíblicos, e criou um conjunto de poesias judeu-persa.

Domínio de Tamerlan

No século 14, os mongóis foram subjugados por Tīmur ibn Taragay Barlas, ou Tamerlan. Fundador da linhagem timúrida, uma dinastia muçulmana sunita, sua imagem se tornou referência histórica na construção da moderna identidade nacional uzbeque. Graças à sua competência militar, numeroso exército e campanhas militares marcadas por massacres selvagens, Tamerlan conquistou um vasto império.

Sendo originário de um vilarejo perto de Samarkand, em 1370 Tamerlan fez dessa cidade capital do Império Timúrida e com ele teve início seu grande desenvolvimento cultural. Os mestres artífices capturados no decorrer de suas conquistas e levados por ele para o atual Uzbequistão produziram um vasto acervo de obras. A arquitetura timúrida é o pináculo da arte islâmica na Ásia Central, tendo Samarkand, Bukhara e outras cidades da Transoxiana se tornado verdadeiras obras de arte arquitetônica.

Os judeus contribuíram substancialmente na reconstrução da região. Como vimos acima, Tamerlan levou centenas de judeus que viviam em Bukhara para Samarkand para a reconstrução da cidade. E assim Samarkand acabou se tornando um grande centro judaico.

Durante seu reinado a vida judaica transcorreu com tranquilidade, as comunidades floresceram e os judeus prosperaram. Mas, a bonança duraria pouco. Após a morte de Tamerlan, os judeus voltaram a ser alvo de perseguições por parte das autoridades muçulmanas. A área de residência que lhes era permitida foi restringida a um bairro especial, Mahalla. As casas, sinagogas, portões e lojas judias tinham que ser construídos em nível mais baixo que os dos muçulmanos. Seu testemunho nos tribunais passou a ser inválido e seu vestiário, diferenciado, sendo obrigados a usar um boné e um cordão na cintura, ambos pretos. Criou-se um imposto especial para os judeus e assim que um deles efetuava esse pagamento, recebia uma bofetada dos cobradores oficiais de impostos.

O declínio e o renascimento espiritual da comunidade judaica             

No século 16, dois canatos7 rivais foram estabelecidos na região: o de Bukhara, que mais tarde se tornaria um emirado, e o de Khiva, ambos governados por muçulmanos sunitas.

O Canato de Bukhara era o centro da vida judaica na Ásia Central e foram inúmeros os seus poetas e tradutores judeus, cujos trabalhos eram escritos no dialeto tadjique-judaico. Mas, a vida judaica sofreria uma mudança a partir do século 16 quando a dinastia safávida toma o poder na Pérsia, gradualmente convertendo seus domínios no bastião do Islã xiita. Os governantes safávidas obrigaram a maioria sunita a se tornar xiita e romperam todas as relações com seus vizinhos sunitas, entre os quais o Emirado de Bukhara. Com o rompimento dos laços dos judeus de Bukhara com todas as comunidades judaicas do Irã, a comunidade foi ficando totalmente isolada e entrou num declínio espiritual e religioso.

No século 18, os judeus de Bukhara defrontaram-se com mais uma ameaça à sua integridade espiritual, pois as autoridades islâmicas adotaram uma política de conversões forçadas, uma prática que foi retomada no início do século seguinte. Forçados a escolher entre a morte e o Islã, muitos judeus tornaram-se anussim. Na aparência eram muçulmanos fiéis, enquanto secretamente mantinham-se fieis ao judaísmo.

No final do século, porém, com a chegada do Rabi Yossef Ma’aman al-Maghrebi, inicia-se um novo capítulo em sua história. Natural do Marrocos, Rabi Ma’aman havia se estabelecido em Safed, na Terra Santa, mas motivado pelo desejo de ensinar nossos textos sagrados e rica tradição aos judeus que viviam nos confins da diáspora, ele deixou sua casa, dirigindo-se à Ásia Central. Quando chegou a Bukhara, ele se deparou com uma comunidade destroçada, decidindo então lá se estabelecer e concentrar seus esforços em seu renascimento religioso – que acabou dando certo.

Até a chegada do Rabi Ma’aman, os judeus de Bukhara seguiam a liturgia e tradições dos judeus persas, mas ele introduziu a liturgia sefardita. Com o tempo, os judeus abandonaram seus antigos costumes a favor da liturgia e costumes sefaradis.

A comunidade recebeu das autoridades islâmicas permissão para se instalar fora da Mahalla, fundando a “Nova Mahalla”, o novo bairro judeu. Fundaram-se escolas para meninos (khomlo) semelhantes ao cheder da Europa Oriental, e pouco depois uma ieshivá. As comunidades judaicas de Bukhara e de outras cidades eram dirigidas por um kalontar eleito pela comunidade e aprovado pelo Emir. Ele e os dirigentes das Mahallas nova e antiga, que também eram eleitos e aprovados pelos Emir, atuavam como juízes nos litígios comunitários.

A emigração dos judeus de Bukhara para a Palestina Otomana se iniciou em 1868. Os primeiros imigrantes incluíam judeus abastados que queriam fazer de Jerusalém o centro espiritual de sua comunidade. No final do século 19 havia cerca de 180 famílias de Bukhara que já viviam em Jerusalém. Em 1936, já somavam 2.500 pessoas, metade delas em Yerushalaim. Durante o Mandato Britânico na Palestina, a comunidade judaica oriunda de Bukhara passa a viver um período de grande desenvolvimento.

A invasão da Rússia Czarista

No início do século 19, o território do atual Uzbequistão estava dividido entre o Emirado de Bukhara, o Canato de Khiva e o Canato de Kokand.

Havia judeus vivendo nos três domínios, principalmente nas cidades de Bukhara, Samarkand, Tashkent, Karshi, Shakhrisabz, Kokand e Margelan. Sob o domínio de governantes islâmicos, os judeus ainda eram uma minoria segregada, mas sua vida irá melhorar com a invasão da Rússia Czarista que iniciou a conquista da Ásia Central na segunda metade do século 19.

A parte oriental do atual Uzbequistão foi tomada pelos russos em 1865 e três anos mais tarde eles derrotaram o Emirado Bukhara, que perdeu grande parte do seu território, incluindo Samarkand. Os russos passam a dominar a região – o Emirado e o Canato de Khiva eram protetorados russos e eles anexam o de Kokand. E eles reagrupam os territórios anexados formando o Governo-Geral do Turquestão, tendo Tashkent como capital.

Para a população judaica de Bukhara a situação se torna precária, pois a população muçulmana os culpava pela derrota e um grande número de judeus deixa o Emirado para se estabelecer no Turquestão onde não eram discriminados, pelo contrário, eram respeitados como súditos leais do czar.

Uma das principais motivações por trás da invasão russa foi atender às demandas de seu mercado têxtil e o algodão era uma cultura natural na região. Os dirigentes russos incentivaram a produção de algodão local e executaram obras de infraestrutura no Turquestão. Na década de 1870, uma rede de telégrafos foi instalada e, em 1888, inauguram uma ferrovia que ia do Mar Cáspio até Samarkand.

Os judeus passam a ter um papel vital no desenvolvimento do mercado têxtil. Na época, eles dominavam o comércio de corantes da Ásia Central, e muitos eram donos de pequenas empresas de tingimento têxtil.

Por reconhecerem sua utilidade, as autoridades czaristas implementaram na região políticas favoráveis aos judeus. Enquanto os que viviam no Império Russo eram obrigados a residir na chamada “Zona de Residência”, com sua atividade comercial legalmente restrita, os judeus do Turquestão obtiveram amplos direitos comerciais e podiam escolher onde viver, fosse lá ou na própria Rússia. Nesse período, atraídos pelas oportunidades econômicas, um número ainda reduzido de judeus oriundos do Leste europeu passou a se estabelecer no Turquestão.

Na Rússia czarista a liberdade concedida aos judeus do Turquestão foi mal recebida. Diante da pressão de comerciantes e industriais, em 1888, o governo czarista passa a diferenciar entre os judeus “nativos”, que habitavam a região antes da conquista russa, e os que haviam se estabelecido depois. Enquanto os “judeus nativos” tinham direitos iguais aos da população islâmica, os judeus que se haviam estabelecido na região após a conquista russa, considerados “cidadãos estrangeiros”, tinham direitos restritos. Entre outros, só tinham permissão de residir em locais pré-determinados até retornarem “a seu local original de residência”.

Do desenvolvimento econômico que se seguiu resultou o surgimento, entre os judeus de Bukhara, de uma classe cosmopolita e abastada. Havia judeus cuja riqueza estava envolta em lendas. Eles controlavam a maior parte da exportação do algodão e possuíam dezenas de fábricas e lojas, terras e ferrovias.

A prosperidade da população judaica resultou numa melhora da vida comunitária e religiosa. Estima-se que durante a ocupação da Rússia czarista 50 mil judeus viviam em Samarkand e 20 mil no Emirado de Bukhara, dos quais cerca de 4 mil na cidade de Bukhara.

O domínio soviético

A Revolução Russa de 1917 mudaria totalmente a vida de toda a região. Na década de 1920, os soviéticos incorporaram a região à URSS. No lugar do Emirado de Bukhara foram criadas a República Socialista Soviética Uzbeque (Uzbequistão Soviético) e a República Socialista Soviética Tadjique. De acordo com o censo de 1926, 18.172 judeus viviam no Uzbequistão Soviético dos quais 7.740 em Samarkand, 3.314 em Bukhara, 1.347 em Tashkent e 746 em Kokand. Os historiadores consideram o censo impreciso, estimando que o número de judeus em meados da década de 1920 chegasse a 30-35 mil.

Com o estabelecimento do poder soviético foram abolidas a livre iniciativa e as práticas religiosas. Muitos judeus abastados perderam todos os seus bens, sendo acusados de exploradores do proletariado. O regime comunista dificultava ao máximo a prática e ensino religioso, qualquer que fosse essa religião.

Na Ásia Central, as campanhas foram principalmente direcionadas contra o Islamismo, mas, ainda que os judeus constituíssem uma minoria da população da região, as políticas destinadas a destruir a religiosidade também foram aplicadas a eles. Foram fechadas as sinagogas, as escolas religiosas para as crianças, bem como as ieshivot.

Todos os habitantes da URSS foram proibidos de cruzar as fronteiras. Os judeus do Uzbequistão Soviético ficaram mais uma vez isolados do mundo judaico – não podiam deixar a URSS e a correspondência era censurada. Tampouco podiam receber emissários ou textos religiosos judaicos de fora.

Durante um breve período, de 1917 a 1923, os soviéticos permitiram a abertura de escolas onde o idioma de instrução fosse o hebraico e o bukhori. Mas durante o Grande Terror8 de 1936 a 1938, os jornais judaicos e as escolas judaicas foram fechados. Das 30 sinagogas que havia em Samarkand em 1917, restava apenas uma, em 1935.

Contudo, a despeito de todas essas políticas, o Judaísmo – assim como o Islamismo – continuaram a ser importante força social na Ásia Central. Os judeus continuaram a praticar sua religião ao longo de toda a era soviética, apesar do empenho para erradicá-la. O profundo compromisso com sua fé, que ajudou os judeus de Bukhara a manter sua identidade por milhares de anos, ajudou-os a superar os obstáculos impostos pelas autoridades soviéticas. Todas as cidades e vilarejos no Uzbequistão que contavam com uma razoável comunidade tinham a sua Mahalla – o seu bairro, onde se concentravam os judeus, e uma sinagoga e mikvê. Os soviéticos tinham o controle de sua vida religiosa na esfera institucional, mas muito pouco controle de sua expressão religiosa dentro das Mahallas. E os judeus de Bukhara continuaram a praticar sua religião em relativo segredo. Os meninos continuavam a ser circuncidados, os casais continuaram a ser casados sob a chupá, o pálio nupcial judaico.

A grande maioria deles continuou guardando Yom Kipur, Pessach e o Shabat, e a manter vários aspectos da cashrut. A taxa de casamentos mistos era consideravelmente baixa, pois costumavam se casar e criar seus filhos dentro de suas comunidades de origem. Após a subida de Stalin ao poder, o número de judeus ashquenazitas aumentou consideravelmente no Uzbequistão, pois o ditador forçou o exílio de milhares de judeus russos para as repúblicas da Ásia Central.

Durante a 2a Guerra Mundial, o Uzbequistão acolheu várias centenas de milhares de famílias soviéticas que conseguiam fugir das invasões nazistas. Isso acabou acelerando a “russificação” da república, principalmente de sua capital, Tashkent. Mais de mais um milhão de judeus do Leste europeu também se refugiaram no Uzbequistão, dos quais cerca de 200 mil lá permaneceram após o término da guerra.

Aos poucos foi-se formando uma nova comunidade ashquenazi. Essa separação entre os judeus de Bukhara e os ashquenazim é claramente expressa nas baixas taxas de casamentos mistos entre eles. Os judeus da Europa Oriental, mais do que os de Bukhara, tinham a tendência a se aproximar estrutural e culturalmente da cultura europeia e, por isso, se assimilaram mais à população russa uzbeque.

Durante o período soviético, a população muçulmana local participou de vários episódios antissemitas – como libelos de sangue contra os judeus, em 1926, 1930, 1961 e 1962. O antissemitismo cresceu após a Guerra dos Seis Dias, de 1967, e os judeus eram forçados a participar de manifestações anti-Israel.

Uzbequistão

No dia 31 de agosto de 1991, o Uzbequistão declarou a sua independência. Com a dissolução da União Soviética, foram aliviadas as restrições à emigração e os judeus começaram a partir, em massa.

Dos 94.900 judeus que lá viviam à época, 51.400 viviam em Tashkent. Cerca de 8.000 judeus de Bukhara já haviam emigrado para Israel entre 1972 e 1975. Um pequeno contingente de 2.000 judeus emigrou para os Estados Unidos, especialmente para Nova York. Na década de 1980 ocorre uma segunda onda de emigração judaico-búkhara para Israel e Nova York, que se tornaria um terceiro centro da comunidade judaica dessa origem.

Com a abertura do país, muitas organizações judaicas sem fins lucrativos iniciaram operações na região para ensinar e orientar os que ainda não haviam emigrado e reconectá-los com o mundo judaico. Entre essas organizações, destacam-se a Agência Judaica, o Bnei Akiva, o Joint Distribution Committee e o Midrash Sefaradi. O Chabad-Lubavitch também atuava firmemente na região com seus inúmeros programas, além de oficiar serviços nas sinagogas, dar aulas de nossa religião e tradições e manter a mikvê.

Apesar de 88% da população uzbeque de 24.7 milhões ser muçulmana, a religião e a política têm-se mantido separadas. As relações com Israel são amigáveis e este país presta várias formas de auxílio ao Uzbequistão.

As ameaças reais provêm dos muçulmanos fundamentalistas nos vizinhos Tadjiquistão e Afeganistão. Em anos recentes, vários ataques terroristas, na forma de carros-bomba, têm sacudido Tashkent. No mesmo dia, em 2004, um suicida-bomba atacou as embaixadas dos EUA e de Israel, em Tashkent, matando um guarda uzbeque na Embaixada de Israel.

Em 2007, o número de judeus no outrora populoso centro judaico de Tashkent já baixara para 5.000. Eram em sua maioria ashquenazim. Atualmente, restam cerca de 4.200 judeus, principalmente em Bukhara, Samarkand e Tashkent, havendo em todo o país apenas 12 sinagogas. Em Samarkand vivem 2.000 judeus e há duas sinagogas na cidade, ao passo que em Bukhara são apenas 100-150 pessoas – meros vestígios de uma comunidade numerosa que sempre guardou seu Judaísmo e suas tradições.

1Os judeus mizrachim (do hebraico “orientais”) são judeus originários das comunidades do Oriente Médio. Nesta categoria incluem-se os judeus não-sefarditas do mundo árabe.

2Rota da Seda - Uma série de rotas interligadas através da Ásia do Sul, usadas no comércio entre o Oriente e a Europa.

3Tamerlan, do turcomano Timur-i-Lenk (ou “Timur, o Coxo”), de seu verdadeiro nome Tīmur ibn Taragay Barlas, foi o último dos grandes conquistadores nômades da Ásia Central de origem turco-mongol.

4Abul Hasan Ali Ibn Husain Ibn Ali Al-Masudi, conhecido como Almaçudi (c. 888 - Cairo 957), combinou história e geografia em sua obra sobre as suas viagens na Europa e Oriente Médio.

5O Reino Judaico dos Khazar, um dos grandes reinos que existiu do século 8 até o 10 e que, ao sucumbir, levou consigo a sua história.

6 Khorasan, região histórica que englobava partes dos atuais Irã, Uzbequistão, Afeganistão, Tadjiquistão e Turcomenistão.

7 Canato era a entidade política governada por um Khan, ou senhor tribal, entre os mongóis e os turcos.

8O Grande Expurgo ou Grande Terror foi uma violenta campanha de repressão política na União Soviética, entre 1936 e 1938, de autoria de Josef Stalin, Secretário Geral do Partido Comunista.

BIBLIOGRAFIA

Cooper, Alanna E. Bukharan Jews and the Dynamics of Global Judaism (Sephardi and Mizrahi Studies). Indiana University Press. Kindle Edition.

Uzbekistan, Encyclopaedia Judaica, Second Edition, 2007

Jews of Bukhara, Encyclopaedia Judaica, Second Edition, 2007