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Sinagoga no Egito recupera seu esplendor Interior da Sinagoga Eliyahu Hanavi

Sinagoga no Egito recupera seu esplendor

Na cidade de Alexandria, nos dias 14 a 16 de janeiro deste ano de 2020, mais de 180 judeus de origem egípcia participaram de momentos emocionantes celebrando o Shabat na recém-restaurada Sinagoga Eliyahu Hanavi.

Edição 107 - Abril de 2020


Descrito pelos presentes como “um Shabat muito festivo, de orações e músicas litúrgicas tradicionais muito, muito emocionantes”, o serviço foi parte das comemorações da reabertura, alguns dias antes, da sinagoga fechada desde 2012 por motivos de segurança.

“Pela primeira vez em décadas nós nos sentamos, para um serviço religioso, nos lugares que nossos pais ocupavam… Há décadas que a prece Lechá Dodi não ressoava entre estas colunas, com tantos judeus reunidos”, disse Alec Nacamuli. Nascido em Alexandria e membro do Conselho da Nebi Daniel Association, organização com sede na França, Nacamuli tem trabalhado na preservação do patrimônio judaico no Egito e foi o responsável pela comitiva que visitou o país.

A reinauguração oficial da Eliyahu Hanavi, testemunha da outrora pujante comunidade que vivia na cidade, foi realizada em 10 de janeiro último.

A cidade conta atualmente com apenas oito judeus, em sua maioria, senhoras idosas.

A milenar presença judaica em Alexandria

A relação entre os judeus e o Egito é muito antiga. Foi o local do primeiro exílio dos Filhos de Israel, que lá permanecem 210 anos. Escravizados, são libertados por Moshé, provavelmente no início do século 13 aEC.

Os judeus somente voltariam a se estabelecer, em grande número, no Egito, após a o país ter sido conquistado por Alexandre, o Grande, em 332 aEC. Dentre todas as cidades que Alexandre fundou, nenhuma se comparava à magnificência de Alexandria. Até o final do século 1 desta Era, a rica e educada comunidade judaica de Alexandria era uma das maiores do mundo e inúmeros de seus membros ocuparam importantes cargos no governo. Eles constituíam mais de um terço da população da cidade e o bairro judaico era tão extenso, que se acreditava que lá vivessem mais judeus do que em Jerusalém. As sinagogas, espalhadas por toda a cidade, eram em grande número.

A importância da comunidade judaica egípcia prevaleceu até a chamada Guerra da Diáspora, no ano de 115-117, quando os romanos lutaram contra a população judaica local. Roma praticamente aniquilou a comunidade de Alexandria, a mais culta e numerosa da Diáspora, destruindo suas sinagogas e tendo as propriedades judaicas sido confiscadas pelas autoridades romanas. Mas a comunidade se reergueria sob o domínio árabe. Rabi Benjamin de Tudela, encontrou 12 mil judeus vivendo no Cairo e 3 mil em Alexandria.

Quando os mamelucos, em meados do século 13, tomam o poder no Egito e empreendem sérias medidas discriminatórias contra os dhimmis, cidadãos de 2ª classe, milhares de judeus deixam o país em direção de lugares mais acolhedores. O italiano Meshullam da Volterra, que visitou o Egito em 1481, relata ter encontrado apenas 800 famílias judias no Cairo e somente 61 em Alexandria.

Essa cidade volta a florescer, passando a ser a capital comercial do país. A partir do final do século 18, atraídos pelas novas oportunidades comerciais, milhares de imigrantes, entre eles muitos judeus, estabelecem-se na cidade. E no final do século seguinte, Alexandria era o mais importante centro comercial e financeiro do Egito.

Para a comunidade judaica, o final do século 19 foi uma época áurea, pois o comércio internacional estava, grandemente, nas mãos de não-muçulmanos, europeus, judeus e cristãos.

A comunidade judaica egípcia que, em 1800, contava com cinco mil pessoas, salta para 25 mil em 1897. Com uma comunidade de 10 mil pessoas, Alexandria ultrapassa numericamente a do Cairo, que tinha nove mil. Em 1907 havia quadruplicado o número de judeus de Alexandria. A comunidade mantinha inúmeras instituições beneficentes, um moderno hospital judaico, um orfanato e um lar de idosos, além de várias sinagogas.

A mais famosa era a Sinagoga Eliyahu Hanavi. Mencionada em 1354 num relato de um viajante, é destruída pelos canhões de Napoleão e reconstruída em 1850.

A partir da década de 1930, começam a aparecer no Egito manifestações abertas contra os judeus. Eram o resultado do crescente nacionalismo árabe, infectado por violento antissionismo e consequente antissemitismo. Em abril e março de 1933, milhares de egípcios foram às ruas de Alexandria, do Cairo e de outras cidades para protestar contra as políticas antissemitas nazistas. Mas a situação dos judeus piora em 1940, com a ocorrência de violentos ataques.

Nos primeiros anos da 2ª Guerra Mundial a comunidade judaica do Egito observava, temerosa, a proximidade do exército alemão de Rommel e a simpatia do governo egípcio pela Alemanha nazista. Em julho de 1942, quando, em seu avanço sobre o Egito, Rommel se aproxima de Alexandria, milhares de judeus fogem da cidade. Porém o avanço nazista é detido pelas forças britânicas na batalha de El-Alamein. Em novembro, os exércitos anglo-americanos desembarcam no Magrebe e, em maio de 1943, derrotados, os alemães abandonam a África.

Nos anos de 1940-1946 os judeus egípcios chegam a seu apogeu financeiro, vivenciando um verdadeiro boom econômico. Durante a 2ª Guerra, crescem ainda mais o nacionalismo árabe e o pan-arabismo entre as populações muçulmanas e grupos militantes, como a Sociedade da Fraternidade Muçulmana, que já era poderosa força popular. No final da Guerra, a concatenação de uma série de forças e eventos deu início a um processo que, em tempo relativamente curto, minou a posição das comunidades judaicas no mundo árabe e levou à sua total desintegração. Um forte antissionismo tomara conta de todo o mundo árabe e o Egito foi palco de distúrbios.

Em 1945, a comunidade judaica, composta de 65 mil pessoas, concentrada majoritariamente em Alexandria e no Cairo, era uma das mais urbanizadas e com o maior grau de instrução de todo o mundo árabe. Nesse ano, a de Alexandria foi sacudida por violentas ações antissemitas. No dia de 2 novembro daquele ano, maciças demonstrações organizadas por grupos nacionalistas islâmicos ocorreram em Alexandria, Cairo e em outras cidades. Centenas de pessoas ficaram feridas e um policial morreu. Em Alexandria, a violência provocou a morte de seis pessoas, cinco das quais eram judias, e feriu outras 15.

A proclamação do Estado de Israel, em maio de 1948, deteriorou ainda mais a situação da comunidade. Após o Egito, juntamente com as demais nações árabes, atacar o recém-criado Estado, aviões de combate de Israel bombardearam Alexandria e Cairo levando as manifestações anti judaicas ao seu pico. Para os judeus, a situação se tornava insustentável, o que fez com que entre 1948 e 1952 por volta de 24 mil deixassem o Egito.

Na Guerra de Suez o governo egípcio declarou que, como todos os judeus eram sionistas, inevitavelmente eram “inimigos do Estado”. Deviam, portanto, ser expulsos do país. Cerca de 30 mil judeus, 60% da comunidade, deixaram o Egito. Na véspera da Guerra dos Seis Dias, em 1967, somente lá restavam entre 2.500 e 3 mil.

Hoje, vivem no Egito apenas uma centena de judeus. Apesar do Tratado de Paz com Israel em março de 1979, durante esse tempo todo o antissionismo é um tópico quase diário na mídia egípcia.

Restaurando a Sinagoga Eliyahu Hanavi

Uma das maiores do Oriente Médio, a Sinagoga Eliyahu Hanavi é uma das duas sinagogas ainda existentes na cidade. Como vimos acima, a sinagoga data do século 14 e foi reconstruída em 1850. Essa reconstrução contou com doações da dinastia Mohammad Ali. Com capacidade para 700 pessoas, funcionou precariamente até meados de 2012, quando foi fechada por razões de segurança. Desde então, o edifício foi-se deteriorando ainda mais até que, em 2017, o Ministério das Antiguidades do Egito destinou recursos para reparos e restauração do edifício. A obra faz parte da política de recuperação da herança cultural e religiosa do país para promover a indústria do turismo e custou US$ 6,2 milhões.

Em 2018, a Eliyahu Hanavi foi incluída no World Monuments Watch, com o intuito de manter viva a memória da outrora florescente comunidade judaica egípcia. A restauração da sinagoga foi ampla e lhe restituiu o esplendor. Incluiu a fachada, a decoração interna e externa e o sistema de iluminação. Em seu interior, pode-se ver o piso de mármore e as imensas colunas cor-de-rosa no salão principal. Nas cadeiras, placas com o nome dos fiéis que costumavam participar dos serviços religiosos e festividades, além de uma ala para mulheres. Espaços abertos no piso permitem visualizar as estruturas das construções anteriores.

Para os judeus egípcios, a Eliyahu Hanavi ainda é o símbolo do seu legado comunitário. Para o governo, uma ferramenta para demonstrar a pluralidade histórica nacional, que permitiu que diversas etnias e comunidades religiosas outrora vivessem e trabalhassem juntas.

“Estou muito orgulhosa do que fez meu país”, afirmou Magda Haroun, presidente da Comunidade Judaica do Cairo, durante a cerimônia de reinauguração da Eliyahu Hanavi. Com lágrimas nos olhos, ela disse que tem lutado por anos para preservar a herança judaica no Egito e nunca imaginou que o governo destinaria tantos recursos para reconstruir o edifício. “Eu serei a última mulher judia do Egito a fechar a porta da sinagoga”. Ela relembra o que lhe disse sua mãe, em 2017, do alto de seus 91 anos: “Os judeus viviam no Egito desde a época dos faraós. Você quer que desapareçam séculos de História? ”.

Sentada em um dos bancos de madeira restaurados, Yolanda Mizrahi diz ser a única da sua família que não deixou o país. “Este é meu país, eu pertenço a este lugar. Por que deveria partir? Espero que a minha família venha visitar a nossa sinagoga, em breve”. Para ela, o principal responsável pela revitalização da Eliyahu Hanavi é o presidente Abdel Fattah al-Sissi. “Se não fosse por ele”, diz, “esta restauração jamais aconteceria”. Em 2018, o chefe da nação determinou como prioridade de seu governo a preservação dos locais de orações dos judeus e coptas cristãos.

Volta às origens

A ideia de organizar a visita de judeus de origem egípcia à sua terra natal surgiu quando foi anunciado, há três anos, o projeto de restauração da sinagoga. Sob forte esquema de segurança, a delegação participou, na sexta-feira à noite, do serviço religioso na Eliyahu Hanavi. Antes do serviço foi colocada uma mezuzá no umbral interno da porta principal.

Entre os membros da comitiva, o rabino Andrew Baker, dos EUA, e o filho do último rabino de Alexandria, rabino Yosef Nefussi. Presentes também ao Shabat, o embaixador norte-americano no Egito, Jonathan Cohen, e o ex-embaixador israelense David Govrin e adidos culturais de vários países. Para o kidush tradicional, vinho e chalot foram trazidos de Israel. No sábado foi realizado um serviço de Shacharit completo, com as preces tradicionais e a leitura da Torá. Na ocasião, 12 dos cerca de 60 Sifrei Torá guardados no local foram retirados do Hechal (ou Aron HaCodesh, para os judeus ashquenazim).

Vinda da França, Inglaterra, Israel e Estados Unidos, entre outros países, a delegação visitou, como parte do programa oficial, os três cemitérios judaicos da cidade: um no bairro de Mazarita e dois em Chatby. Por iniciativa da Nebi Daniel Association, os três locais passaram por uma grande limpeza, algo que não acontecia há 40 anos. Levana Zamir, presidente da Associação de Judeus do Egito em Israel, fez parte do grupo. Nascida no Cairo, veio com sua filha e seus dois netos, coordenando uma delegação de 20 pessoas. Segundo ela, os Sifrei Torá são uma homenagem às 12 tribos de Israel e permaneceram fechados durante décadas, até aquele sábado, 15 de janeiro de 2020. Em entrevistas a jornalistas estrangeiros, disse, mal contendo as lágrimas, disse que jamais imaginou ver, um dia, seu neto naquele local, carregando um Sefer Torá, com seu talit nos ombros. No entanto, apesar da iniciativa governamental de restaurar a sinagoga e preservar o patrimônio judaico no país, há, ainda, alguns pontos delicados no relacionamento entre os judeus que deixaram o Egito nas décadas de 1950 e 1960 e as autoridades. Um dos temas é o fato do governo não liberar o acesso aos registros comunitários do passado, como, por exemplo, livros com registros de nascimentos, óbitos e casamentos.

Durante o Império Otomano, todos os eventos ligados ao ciclo da vida eram registrados no Rabinato Central das comunidades. Nos grandes centros, como Alexandria e Cairo, os registros são anteriores a 1830. Há três anos foram todos levados ao Arquivo Nacional Egípcio, ao qual ninguém tem acesso. Através de seu conteúdo, os judeus de origem egípcia podem acessar suas certidões de nascimento, ketubot e seus atestados de óbitos, entre outros. Isso permite traçar a genealogia das famílias e outros. São documentos que constituem uma coleção rara, referente a 150 anos de história da comunidade judaica. A Nebi Daniel Association tem-se dedicado, nos últimos tempos, a obter cópias digitais desses documentos, mas enfrenta entraves com as autoridades.

Apesar desse embate, Levana Zamir diz estar otimista quanto às perspectivas da preservação da memória judaica no país. Sob a presidência de Hosni Mubarak, diz ela, quase toda a memória judaica foi eliminada e a geração de jovens egípcios atualmente entre 20 e 30 anos não tem a menor ideia da participação dos judeus na história de seu país.

“Al-Sissi, como Anuar el-Sadat, conseguirá mudar este quadro e também melhorar as relações com o governo israelense. Gradativamente, o presidente está conseguindo manter um bom relacionamento com Israel, mas a população ainda não está pronta para aceitar o Estado Judeu”, afirma Levana Zamir. Prova da dificuldade, no tocante a esse assunto, é o fato de o governo ter recusado o visto para 25 israelenses que desejavam integrar a comitiva. Ainda assim, ela acredita que, ao reconhecer seu passado judaico, o Egito estará mais aberto a aceitar seus vizinhos sionistas. “Daqui a 200 ou 500 anos, o Egito ainda preservará todos os monumentos judaicos. Isto é importante porque as futuras gerações saberão que os judeus estiveram aqui”, finalizou.