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Shearith Israel, a primeira comunidade americana Foto Ilustrativa

Shearith Israel, a primeira comunidade americana

Os 23 judeus, em sua maioria de origem espanhola ou portuguesa, chegados em 1654 a Nova Amsterdã após uma série de peripécias, foram os precursores da primeira comunidade judaica na América do Norte.Chamada de Shearith Israel, a congregação que fundaram é, até hoje, uma das mais ativas e tradicionais da cidade de Nova York e mesmo dos Estados Unidos.

Edição 46 - Setembro de 2004


Desde seu desembarque, os judeus foram recebidos com hostilidade por Peter Stuyvesant, governador holandês da colônia, e tiveram que lutar pelo direito de lá se estabelecer. Membro devoto da Reforma holandesa, Stuyvesant não queria permitir sua permanência na região, afirmando que destruiriam seu caráter cristão através da prática de sua "abominável religião". Sua pobreza, ressaltava, seria uma mancha para a coletividade local.

Stuyvesant expressou seus sentimentos em uma carta enviada à Companhia das Índias Ocidentais, pedindo autorização para expulsá-los. Se, por um lado, o governador organizava esforços para impedir sua permanência na colônia, pelo outro, a comunidade judaica em Amsterdã mobilizava-se para que ele não atingisse seus objetivos. Na época, os sefaraditas de Amsterdã eram prósperos e atuantes. A Holanda, que por mais de 80 anos travara uma guerra contra a violência católico-espanhola, tornara-se, desde o final do séc. XVI, um refúgio seguro para os judeus ibéricos. Estes passaram a se estabelecer em Amsterdã por volta de 1590, atraídos pelo nascimento das Províncias Unidas dos Países Baixos como nação protestante e pela Declaração de Utrecht, segundo a qual "todo cidadão terá liberdade para praticar sua religião".

Os judeus holandeses encaminharam uma petição à Companhia, ressaltando que, há décadas, eram leais aos interesses da Holanda. Eram, também, úteis para o país no âmbito de sua expansão colonial e do comércio internacional, em especial com a Espanha, Portugal, Inglaterra e França. Os signatários do documento enfatizavam, ainda, que havia vários judeus entre os principais acionistas da Companhia. A pressão feita em Amsterdã logo surtiu efeito e, em abril de 1655, o governador Stuyvesant recebeu notificação da Companhia de que "estas pessoas (os judeus) podem viajar e comercializar.... e viver e lá permanecer (na colônia)".

Naquele mesmo ano outras cinco famílias e três homens solteiros chegaram à Nova Amsterdã, vindos diretamente da Holanda. Em melhor situação econômica do que os foragidos de Recife, estavam dispostos a organizar uma comunidade e oficiar os serviços religiosos de acordo com suas tradições.

Apesar de receberem autorização para se estabelecer em Nova Amsterdã, foram-lhes impostas algumas restrições e as primeiras gerações da comunidade judaica norte-americana precisaram de muita coragem e tenacidade para eliminar gradativamente essas limitações, valendo-se sempre de recursos legais. Em 1655, os judeus de Nova Amsterdã solicitaram o direito de servir na Guarda Colonial - a que o governador se opunha - e tiveram sua reivindicação aceita. Para Asser Levy, um dos refugiados do Saint Catherine, ao fazer tal pedido pretendia-se mostrar que eles também poderiam trabalhar pelo bem comum.

Congregação Shearith Israel

Em 1655, um ano após a chegada dos primeiros judeus, foi fundada a Congregação Shearith Israel - inicialmente chamada de Congregação Shearith Jacob - e com sua formação foram plantadas as sementes do modelo comunitário que se expandiria pelos EUA, através dos séculos. Foram definidos regras de conduta, metas e objetivos religiosos e culturais. Até 1825, a Shearith Israel era a única comunidade judaica de Nova York.

Como a maioria dos fundadores e pioneiros da nova Congregação eram ligados à comunidade judaico-portuguesa de Amsterdã, foi montada na colônia uma estrutura comunitária similar à existente na conceituada Sinagoga Portuguesa daquela cidade.

No mesmo ano, uma nova solicitação é encaminhada: a permissão de seguirem livremente sua religião. A reivindicação foi aceita, desde que exercitassem tal direito dentro de suas casas. Não poderiam construir sinagogas. Aceitaram, pois pela Lei judaica, podiam realizar serviços religiosos nas residências. Careciam de um lugar para construir um cemitério. A seguir, pedem autorização para comprar terras para esse fim e o pedido é aprovado no outro ano.

Quando os ingleses ocuparam Nova Amsterdã, em 1664, os judeus já tinham alguns direitos básicos e viviam em relativa igualdade com os cidadãos de fé cristã. As autoridades britânicas mantiveram o status quo da comunidade, sem, no entanto, ampliar seus direitos. A Carta sobre Liberdade da Colônia, de 1683, garantia o direito de fazer preces em locais públicos apenas aos cristãos. Dois anos mais tarde, a comunidade fez uma petição nesse sentido, sendo o pedido rejeitado.

Nas primeiras décadas do século XVIII, começou também a mudar o perfil da comunidade de Nova York e da América do Norte, como um todo. A maioria dos que chegavam via Inglaterra eram asquenazitas, da Europa Central e do Leste. Segundo documentos da Congregação de Nova York, datados de 1722, dos 37 membros da entidade apenas 15 eram sefaraditas. Apesar disso, a congregação continuou fiel à tradição sefaradita, sendo até hoje a sinagoga de rito hispano-português da cidade.

Até 1730, quando foi erguida a primeira sinagoga na Mill Street (atualmente chamada South William Street), a congregação funcionou em imóveis alugados. Este primeiro templo judaico, em Nova York, era um prédio simples, de tijolos. Com o crescimento da comunidade, o local ficou pequeno para abrigar todos os membros e, em 1818, iniciou-se a construção da segunda sinagoga, na mesma rua. Tinha 167 lugares para homens e 133 para mulheres. Também feita de pedra e tijolo, foi recoberta por uma camada de cimento romano. Em 1834, a Congregação construiu uma terceira sinagoga, na Crosby Street, que funcionou até 1860. As casas de oração foram acompanhando a migração da comunidade judaica pela cidade. Assim, em 1860, a entidade deu início ao projeto do templo na rua 19, a oeste da 5ª Avenida, que funcionou até 1897. Era a mais alta construção visível a partir da rua 14. Com a mudança do perfil do bairro, cada vez mais comercial, seus membros saíram da região em busca de outras vizinhanças.

Acompanhando o crescimento de Nova York e a conseqüente mudança da população em direção ao norte da cidade, a Congregação Shearith Israel decidiu construir o magnífico edifício, onde se encontra até hoje, na rua 70, esquina com a avenida Central Park West. Seu arquiteto foi Arnold Brunner, judeu nascido nos Estados Unidos e com brilhante carreira. O estilo da edificação segue o padrão costumeiro na Espanha e Portugal. A tebá (o altar) fica no centro do salão. Segundo a tradição, o tampo da mesa de leitura da tebá é proveniente da original que existia na sinagoga da Mill Street, realçando a continuidade, geração após geração, de que tanto se orgulham na Shearith Israel. Os degraus que levam ao Hechal, Aron ha-Kodesh, e a parede que o circundam são em mármore. As janelas são ricos vitrais artísticos oriundos do Ateliê Louis Tiffany. À entrada da sinagoga, há duas grandes pedras de moinho originárias da rua Mill (moinho, em inglês), especialmente trazidas como que a recordar as raízes históricas da comunidade com a cidade.

Hoje, sob a liderança do ilustre rabino Marc Angel, a Congregação Shearith Israel continua fiel à tradição sefardita e muito atuante na vida comunitária e intelectual da cidade. Seus associados e freqüentadores a consideram uma instituição antiga, sempre voltada para o futuro.

Assistência social

Desde os primeiros anos de sua criação, a Congregação preocupava-se em atender as necessidades da comunidade, desde o nascimento até a morte. Era responsável pela educação tanto religiosa como laica de seus membros, pelo fornecimento de carne casher durante o ano e todos os alimentos especiais para Pessach, além de desempenhar várias outras funções comunitárias.

Cuidar dos necessitados, sempre foi parte intrínseca da tradição judaica. Segundo Mark Twain, "os judeus poderiam ser chamados de os mais benevolentes dentre todos os seres humanos. Suas instituições beneficentes são mantidas com verbas dos próprios judeus. Eles não fazem alarde sobre isto e tudo é feito silenciosamente; eles não nos incomodam com pedidos de contribuições e nos servem de exemplo".

Em 1728, os estatutos da congregação já incluíam uma cláusula segundo a qual o presidente da entidade (o Parnáss) podia dar semanalmente, por um total de até 12 semanas, uma determinada soma a qualquer pobre que procurasse a instituição em busca de assistência. Em 1785 foi criada a Sociedade para Atos de Caridade (Hebrá le-Guemilut Hassadim). Seu objetivo era garantir recursos financeiros, combustível para aquecimento e medicamentos para os necessitados, além de contribuir para a manutenção do cemitério. Em 1790, todas essas atividades foram centralizadas na nova sede da Congregação Shearith Israel, na rua Mill. Em 1800, a congregação passou a garantir uma pensão para os deficientes físicos e, em 1802, foi fundada a Sociedade para a Caridade e Verdade (Hebrá le-Hessed ve-Emet). Ainda em funcionamento, é a mais antiga entidade filantrópica judaica de Nova York. Seu objetivo principal continua sendo cuidar dos mortos e oferecer conforto aos enlutados. A caridade praticada pela comunidade judaica estendeu-se ao longo dos anos a outros grupos religiosos.

Até 1825, Shearith Israel era a única congregação judaica da cidade, responsável por toda a assistência aos membros da comunidade.Nesse ano, houve uma cisão na entidade, surgindo daí a Bnai Jeshurun, que foi o ponto de partida para a multiplicação de novas congregações e instituições asquenazitas. Era a conseqüência natural do aumento das levas imigratórias, pois uma única sinagoga não comportaria todos os judeus de Nova York. Com o decorrer dos anos, aumentavam os números da comunidade judaica da cidade e naturalmente outras entidades surgiram para dividir com a instituição pioneira sua nobre missão. Segundo relatório da prefeitura de Nova York, de 1858, apenas três judeus haviam procurado auxílio junto a órgãos municipais nos três anos anteriores e nenhum deles era filiado a uma entidade judaica. O número de judeus na cidade chegava então a 40 mil.

Esse aumento na população trouxe também outras necessidades, além das básicas de sobrevivência. Foram criados, então, hospitais, lares de idosos, instituições especiais para deficientes e orfanatos. Em 1852, um membro da Shearith Israel, Sampson Simson, organizou um grupo para lançar as bases para a fundação do Hospital Judaico de Nova York. Em 1866 a instituição adotou o nome de Mount Sinai Hospital, tornando-se um dos principais centros médicos da cidade. O próprio Simson doou dois lotes na rua 28 para a construção do prédio. Em 1884, o líder religioso Henry Pereira Mendes e outros líderes judaicos iniciaram uma campanha para arrecadar fundos para a criação do Hospital Montefiore. Mendes também foi o fundador da Escola Lexington para Deficientes Auditivos.

A Congregação Shearith Israel participou dos esforços pela fundação de outras instituições que se tornariam também um marco de referência em Nova York.

Bibliografia:

· Angel, Rabbi Marc D., Remnant of Israel,A Portrait of America's First Jewish, Congregation Shearith Israel, Riverside Book Company, Inc