Morashá
Os milagres de Purim se repetem através da história Foto Ilustrativa

Os milagres de Purim se repetem através da história

O milagre de Purim, quando os judeus foram salvos do extermínio iminente, planejado pelo infame Haman, na Pérsia do rei Assuero, repetiu-se ao longo da história judaica.

Edição 43 - Dezembro de 2003


A partir desses acontecimentos criaram sua tradição, seguida por seus descendentes, de comemorar o aniversário do milagre da mesma forma como é comemorado o Purim tradicional, com uma Seudá(refeição festiva) anual, como se fosse uma Seudat mitzvá, uma comemoração especial, com orações e comidas especiais (conforme atestado por Yam shel Shlomo, Bava Kamma 37; Chayei Adam 155:41).

Tanto os acontecimentos como as celebrações são conhecidas na história judaica como "Purim" especiais. Historiadores registram quase uma centena desses, cada qual comemorado por um país ou comunidade. Neste artigo de Morashá, contam-se três histórias singulares.

O Purim de Basra

Basra é a segunda maior cidade do Iraque, próxima da capital, Bagdá. O assentamento judaico na região data de mais de mil anos. Há aproximadamente dois séculos, antes do grande êxodo da comunidade judaica do Iraque, seus membros foram beneficiados por um milagre tão grandioso, que destinaram umPurim especial, em comemoração ao acontecimento.

Esse milagre ocorreu no reinado de Suleiman Pasha, que governou Basra com justiça e rigor, tratando os judeus com cordialidade. Sob a orientação de seu líder, Rabi Jacob ben Aaron, a comunidade judaica floresceu, até um certo dia do mês de Nissan, no ano de 5534 (1774). Naquela data, Karim Khan, o vizir do Xá da Pérsia, chegou com um grande exército e sitiou a cidade. Suleiman Pasha lutou contra Karim Khan, mas não o venceu. Uma grande escassez de alimentos se espalhou por Basra e a cidade não tinha mais como se defender. No 27º dia de Nissan, a cidade caiu em mãos dos invasores. Os soldados vencedores roubaram e pilharam a cidade e muitas mulheres judias atiraram-se nas fogueiras, para escapar à crueldade dos bárbaros errantes. 

No primeiro dia do mês de Iyar, Karim Khan fez conhecer o regulamento que impôs a Basra, em meio ao qual pesados tributos aos indivíduos, principalmente à comunidade judaica, tomando seus líderes como reféns. Rabi Jacob ben Aaron, sua esposa e filhos foram enviados como prisioneiros do Xá para Shiraz, juntamente com Suleiman e sua família. E, enquanto Karim Khan e seus homens embebe-davam-se, a cidade de Basra desesperava-se.

Então, os judeus locais se reuniram em sua sinagoga, proclamando seu arrependimento, chorando e rogando a D’us para salvá-los das mãos do malvado Karim Khan e seus asseclas. E D’us ouviu seus lamentos.

O coração dos reis e legisladores está nas mãos de D’us, segundo os ensinamentos judaicos. D’us fortaleceu o vaidoso coração de Karim Khan para que procurasse mais glória e conquistas. E este foi à luta contra as tribos árabes vizinhas, mas seu exército foi derrotado e recuou para Basra, com grandes baixas. Formou um novo contingente e voltou ao combate contra os árabes. Mas estes prepararam uma emboscada, massacrando grande parte de seus homens. Karim Khan conseguiu fugir com sua mulher e retornou a Basra com o que restara de seu exército. O vizir persa não perdeu tempo em reunir novas forças para lutar contra os árabes. No entanto, seus combatentes não tinham mais condições de lutar. Pelo contrário, uniram-se para conspirar o assassinato de seu ex-comandante, Karim Khan. No 27º dia de Adar, 13 dias depois da data do Purim de Esther, o malvado vizir foi encontrado morto, envenenado pelas mãos de seus próprios empregados.

As notícias sobre a morte de Khan e a derrota de seus exércitos chegaram ao Xá. Ele ordenou que o que restara de seu contingente deixasse Basra ao cair da noite e voltasse à Pérsia, em segredo.

No segundo dia de Nissan, em 5535 (1775), os judeus de Basra, ao acordar, descobriram que nenhum homem de Karim Khan ficara na cidade. Foi grande sua alegria diante daquela miraculosa libertação das mãos de tão terrível inimigo. Reuniram-se em sua sinagoga para agradecer a D’us pelo milagre e resolveram observar aquela data, ano após ano, como o "Dia do Milagre".

Um rabino e cabalista muito conceituado viera deEretz Israel visitar Basra naquela época. Fora enviado como mensageiro especial da comunidade judaica de Hebron para conseguir algum aporte financeiro para os pobres e necessitados da antiga cidade. Seu nome era Rabi Jacob Elyashar (era o avô do rabino chefe de Jerusalém, Rabi Jacob Saul Elyashar). Rabi Jacob Elyashar compôs um pergaminho especial para os judeus de Basra, para ser recitado na sinagoga naquele "Dia do Milagre" e para ser seguido de uma comemoração especial, uma Seudá, e de oferendas aos pobres, como é costume em Purim.
Os judeus de Basra aceitaram de bom grado todas as suas sugestões e as incorporaram às leis da comunidade e, desde então, observam o segundo dia de Nissan como um Purim especial, o 
Purim de Basra .