Morashá
Os judeus em Beirute Foto Ilustrativa

Os judeus em Beirute

Apesar de a presença judaica na região que hoje é o Líbano remontar à época bíblica, não há informações precisas de quando os judeus começaram a viver em Beirute. sabe-se, porém, que já no 2o século a.E.C. havia judeus que viviam próximo à cidade e, provavelmente, nela também.

Edição 62 - Setembro de 2008


A Beirute moderna foi erguida próximo à antiga cidade fundada na planície costeira, por volta do 3o milênio antes da era comum. Seus fundadores eram um povo canaanita de língua semita a quem os gregos apelidaram de fenícios.

A cidade, chamada de Bêrut, palavra fenícia que significa "os poços", localizava-se na nascente do rio de mesmo nome.

Os fenícios se haviam estabelecido por volta do 4o milênio na planície costeira do Mar Mediterrâneo e nas montanhas do Líbano, região rica em árvores coníferas, principalmente o majestoso cedro-do-líbano, que crescia nas florestas da cadeia montanhosa que se ergue paralela ao Mar Mediterrâneo. A estratégica localização geográfica e as velozes embarcações que construíram permitiram aos fenícios dominar o mar e monopolizar o comércio ao longo de todo o Mediterrâneo, durante séculos, tornando-se os intermediários comerciais entre a Ásia e o mundo da região mediterrânea.

A primeira referência histórica a Bêrut (também chamada Berytus, Berite, Birutu ou Biruna) data aproximadamente do século 14 a.E.C., quando é mencionada em tábulas com escrita cuneiforme descobertas em Tel a-Amarna, no Egito, conhecidas como as "Cartas de Amarna". Nestas, o rei de Beirute pede auxílio militar ao faraó Akenaten.

Apesar de não se saber ao certo quando os judeus começaram a viver em Bêrut, pois são poucas as informações sobre a cidade durante o período fenício, sabe-se que sua presença na região que hoje é o Líbano remonta à época bíblica. Segundo a tradição, nos arredores de Saida está enterrado Zebulun, filho de Jacob; e em Sijod está Aholiab, filho de Ahisamach, que trabalhou com Betzalel no deserto, na construção do Tabernáculo. No Tanach e no Livro de Josué, as montanhas do Líbano são mencionadas demarcando a fronteira norte da Terra Prometida (Deuteronômio, 1;7-11-24; e Josué, 1:4; 9;1). Também no Cântico dos Cânticos há uma poética descrição de sua flora e fauna. E em várias passagens da Torá o nome Beerot é mencionado.

Acredita-se que os judeus se tenham estabelecido na região por volta do ano 1000 a.E.C. Na época, o rei David, então soberano de Israel, firmara uma aliança comercial com o rei Hirão, de Tiro. Com isso, mercadores judeus passaram a percorrer com os fenícios o Mediterrâneo, chegando às costas atlânticas da Península Ibérica e ao norte da África. Ao subir ao trono, Salomão, filho e herdeiro do rei David, contou com a ajuda do rei Hirão para construir um porto e uma frota mercantil em Ezion-Ghezer. A madeira que Salomão empregou para erguer o Templo Sagrado de Jerusalém provinha dos tão decantados cedros do Líbano.

Durante toda a Antigüidade a Fenícia foi invadida e dominada por diferentes povos. Os assírios, em 875 a.E.C.; os babilônios, em 612 a.E.C.; e, em 538 a.E.C., os persas, que ao assumir o controle da região passam a utilizar a engenharia naval fenícia para dominar o Mediterrâneo. Em 333 a.E.C., Alexandre, o Grande, conquista a Fenícia integrando-a à civilização helena.

Há evidências de que já no 2o século a.E.C. havia alguns vivendo próximo à cidade e, provavelmente, nela também. Continuavam lá quando, em 64 a.E.C., Roma conquista a Fenícia.

Sob o domínio romano inicia-se um ciclo de prosperidade em Beirute, assim como em outras cidades fenícias, entre as quais Biblos, Sidon e Tiro. Seus portos tornaram-se entreposto para produtos importados da Síria, Pérsia e Índia, de onde eram exportados artigos regionais apreciados em Roma, como a madeira de cedro, perfumes, jóias e vinhos. Rapidamente Beirute se torna uma cidade romana, onde viviam oficiais de duas legiões romanas. Em 14 a.E.C., o imperador Augusto a declara colônia romana, dando-lhe o nome de Julia Augusta Felix Berytus. Alvo de um importante programa de obras públicas implementado pelo rei Herodes, que governava áreas ao redor do Monte Líbano, a cidade se desenvolveu bastante. Tal política foi mantida até Agripa II, sétimo e último rei da dinastia herodiana, para descontentamento da população judaica que desaprovava que tanto dinheiro fosse gasto em uma cidade pagã.

Foi para Beirute que o general romano Tito se dirigiu após tomar Jerusalém e esmagar a Primeira Grande Revolta Judaica, levando consigo milhares de prisioneiros judeus. Durante os jogos romanos que patrocinava na cidade, ele ordenou a morte de grande número de judeus feitos prisioneiros durante a revolta. A cidade se transformou em ponto intermediário para os milhares de outros que eram levados para Roma ou para outras partes do Império Romano, como escravos.

Nessa época, além de se tornar um importante porto, a cidade ficou conhecida por ser centro de estudos jurídicos, para onde vários dignitários de Roma iam em busca de aprimoramento de seus conhecimentos.

Com a divisão do Império Romano no final do século 4, o Líbano passa a integrar o Império Bizantino. No século seguinte, as atividades econômicas e intelectuais continuaram florescendo, sendo o cristianismo adotado por grande parte da população. Nas montanhas, muitos aderiram aos ensinamentos de São Marun, sendo por isso chamados de cristãos maronitas. Foi também nesse período que a região deixou de ser chamada Fenícia, passando a Monte Líbano ou simplesmente Líbano. Os fenícios chamavam as montanhas de Libnah por causa da neve que cobria seus picos.

Até o século 5, raras são as menções aos judeus de Beirute. Em "Crônicas de Josué, o Estilita", de autoria de um monge do convento de Zunkin, há referências à sinagoga da cidade. Sabe-se que, na época, já havia uma comunidade judaica local e que a sinagoga que ergueram foi destruída por um terremoto, no ano de 502. Entre 551 e 555, uma sucessão de terremotos abalou a costa fenícia e Beirute foi reduzida a escombros, perdendo a importância adquirida sob a égide de Roma.

Sob o Islã

No ano de 636, Beirute caiu nas mãos dos exércitos islâmicos, que rapidamente dominaram toda a costa, mas não o Monte Líbano. Não conseguiram, tampouco, que a maioria da população se convertesse ao Islã. Segundo certos historiadores árabes, nem sempre a região era sequer considerada parte do Império do Islã. Ainda assim, a invasão islâmica mudou os costumes e a língua dos habitantes da região, inclusive dos judeus. Estes, ao adotarem o idioma e modos árabes, passam a ser chamados, como em outras partes do Oriente Médio, de musta'aribin. Sob domínio árabe, ainda que com algumas restrições, a situação dos judeus teve significativa melhora, principalmente durante o governo da dinastia omíada (635 a 755).

Proclamada a Primeira Cruzada, o Líbano torna-se a principal rota dos cruzados rumo a Jerusalém. Quando, em 1110, Beirute cai em suas mãos, viviam na cidade 35 famílias judias. Como entreposto cruzado, floresceu o comércio entre Beirute e portos italianos. Informações sobre a comunidade judaica da cidade podem ser encontradas nos relatos de viagem de Rabi Benjamin de Tudela (entre 1163 e 1173), nos quais afirma ter encontrado 50 judeus em Beirute, que ele chama de Beerot, e 20 em Saida. Também no final do século 11, Abiathar Ben Elijah incluiu Beirute e Biblos (também chamada de Gebal) entre as cidades sob jurisdição do Gaon de Eretz Israel. Documentos do mesmo período encontrados na Guenizá do Cairo revelam que os judeus do Líbano mantinham estreitos contatos com outras comunidades judaicas do Oriente Médio, principalmente através de casamentos com judeus do Egito e da Síria.

Durante a Idade Média, a região se viu envolvida nas lutas entre cristãos e muçulmanos pelo domínio da Terra Santa, mudando repetidamente de mãos - ora dominada pelos árabes, ora pelos cristãos. Beirute volta definitivamente às mãos muçulmanas em 1291, quando o sultão mameluco Malik a-Ashraf (Khalil) captura a cidade dos cruzados. Segundo Rabi Isaac de Acco, nessa ocasião muitos judeus foram assassinados. O restante do Líbano volta ao controle muçulmano em 1297, com a expulsão dos cristãos pelos mamelucos. A partir de então, Beirute se torna um dos principais portos para os mercadores de especiarias oriundos de Veneza e outras cidades-estados italianos.

Na Idade Média, Beirute foi ponto de passagem para os judeus da Europa que iam para Eretz Israel e, segundo uma tradição local, por volta de 1300 havia em Beirute uma sinagoga e um cemitério. E após a expulsão da Espanha, em 1492, vários judeus se estabeleceram na cidade. Em relato de Rabi Moses Basola, que visitou Beirute em 1512, havia na cidade 12 famílias oriundas da Sicília.

Domínio otomano

Em 1516, em sua campanha por expansão territorial, os turcos otomanos conquistaram o Líbano, que passou a fazer parte da Síria Otomana, província que incluía a atual Síria, a então Palestina, a Jordânia, parte do Iraque e inúmeras províncias da Turquia. A atitude otomana acerca das minorias étnico-religiosas do império se baseava em um sistema pelo qual cada grupo religioso se organizava em comunidades próprias e autônomas. Principalmente no Líbano, a comunidade judaica e a cristã se tornaram dois estados dentro de um estado maior.

No século 17, após quase um século de estagnação, Beirute ressurgiu como grande exportador de seda libanesa para a Europa, principalmente para Itália e França. A primeira grande onda migratória judaica para o Líbano ocorreu em 1710, com a chegada de judeus sefaraditas vindos da Europa e de outros países islâmicos, que acabaram por lá fincar raízes, principalmente nas montanhas do Chouf.

Em um segundo momento, instalaram-se em Beirute judeus sefaraditas vindos principalmente da Itália, França e Áustria. Chamados de franj, vinham atraídos pelas oportunidades comerciais que a cidade oferecia. Curiosamente, em Beirute o número de judeus orientais era pequeno, pois preferiam se estabelecer em Saida ou Trípoli, portos mais importantes na época do que Beirute.

A partir de 1799, os franj instalaram-se em um bairro de Beirute localizado entre a Igreja católica de Saint-Elie e a Mesquita Assaf. Nesse bairro, que passa a ser chamado Haret el yahoud, ou seja, bairro dos judeus, foi construída a sinagoga Mesguab Ladek, por volta de 1807, que seria demolida no final da década de 1920. Muitos acreditam, erroneamente, ser Wadi Abou Jamil o antigo bairro judeu de Beirute, mas foi somente por volta de 1869 que os judeus começaram a se instalar na área, na época fora dos muros da cidade.

A presença judaica existente é atestada pelos relatos do rabino David d'Bet Hillel, que a visitou por volta de 1824, e do rabino Moses Farhi, chefe da comunidade judaica de Damasco, em 1830. Ambos relatam ter encontrado 15 famílias e descrevem o bairro judaico com suas ruas estreitas e casas de paredes grossas, o comércio ativo e a sinagoga pequena, porém bem cuidada, com limoeiros no jardim.

A partir das últimas décadas do século 18 e, ainda mais, após 1831, quando o egípcio Muhammad Ali Pacha conquistou a Síria Otomana, o comércio com a Europa floresceu e Beirute entrou em novo período de crescimento. Os judeus, que em sua grande maioria trabalhavam no comércio ou em atividades ligadas ao porto, viveram um período de prosperidade. No ano de 1840 viviam em Beirute 575 judeus. Mas, como o levantamento tinha finalidade fiscal, não se sabe se representava a comunidade, como um todo, incluindo mulheres e crianças, ou apenas os chefes de família. O ano de 1840 é marcado pelo início, no Monte Líbano, dos conflitos entre drusos e maronitas, que, 20 anos mais tarde, resultariam em sangrenta guerra civil, e pelo primeiro impacto anti-semita sentido na comunidade judaico-libanesa.

Em acirrada concorrência econômica com os judeus, os cristãos levantinos haviam introduzido em todo o mundo árabe intenso sentimento anti-judaico, de cunho europeu. O resultado foi o surgimento de acusações de assassinato ritual em Rodes e em Damasco, em 1840, e em 1848, novamente em Damasco (ver "O Caso Damasco", Morashá edição 60). Como conseqüência dessas manifestações anti-semitas, aumentou a migração judaica para o Líbano, região mais tolerante do que as áreas vizinhas.

Mas nem este país ficou imune à crescente hostilidade anti-judaica. Naquele mesmo 1840, os judeus de Chouf são acusados de assassinato ritual. Após o desaparecimento de uma criança em Deir al-Qamar, na véspera de Pessach, nove destacados membros da comunidade são presos e o fantasma de um massacre ronda o ambiente. A acusação só não encontrou simpatia entre os drusos. No fim, a criança foi encontrada morta em meio a arbustos; mas nem o criminoso nem a causa da morte foram conhecidos. A hostilidade contra os judeus se espalhou pelo país e a comunidade judaica de Beirute foi salva da violência devido à firme intervenção dos cônsules da Holanda e da Prússia.

O caso acabou sendo considerado um incidente isolado, sem maiores conseqüências. É importante, no entanto, ressaltar que tudo se deu em um contexto caracterizado pelo crescente nacionalismo étnico e a emergente concorrrência entre os judeus e os recém-chegados greco-ortodoxos, além de um gradativo senso de insegurança que terminou por afetar, de forma muito negativa, a comunidade judaica.

O ano de 1860 foi palco de grande turbulência social na história do judaísmo libanês. Nas Montanhas Chouf, a total desintegração das relações entre maronitas e drusos resultou na guerra civil de 1860, que culminou com o massacre de cerca de mil cristãos pelos drusos. A França, tradicional protetora dos maronitas, enviou uma força expedicionária a Beirute, sob o comando do Imperador Napoleão III. Um dos resultados do conflito foi a criação de um novo estatuto otomano, "o Regulamento", que entrou em vigor em 1864, institucionalizando o sistema político que caracteriza o Líbano desde então.

Os vinte anos de lutas nas Montanhas Chouf provocaram o êxodo de muitos de seus habitantes, que deixaram a região para se estabelecer ao redor de Beirute. Os judeus não foram exceção, deixando a região a partir de 1850. Parte deles se estabeleceu em Saida, outros, em Hasbaia. Mas o maior grupo se radicou em Beirute, atraído pelas oportunidades econômicas e a já existente comunidade judaica.

Àquela altura, Beirute atravessava um processo de transição, passando de um pequeno porto a uma cidade com amplo potencial de crescimento e intensa atividade mercantil. Em 1886 a cidade se torna a capital da província, que incluía toda a costa da Síria e a então Palestina.

Os judeus participaram intensamente desse processo de modernização e, desde o final do século 19, vinha aumentando o número de judeus em Beirute. Em 1880 eram 1.000; em 1889, 1.500 e, em 1901, mais de 5.000. Nesse período os judeus começam a se estabelecer em Wadi Abou Jamil, área que se tornou o centro religioso, social e econômico da comunidade. Apesar dos ataques cristãos ao bairro, em 1862 e 1890 após as acusações de libelos de sangue, a comunidade judaica de Beirute continuava florescendo.

No campo educacional, a primeira escola da Alliance Israélite Universelle para meninos foi inaugurada em 1869 e, em 1878, uma para meninas. Criada em 1860, na França, a instituição visava prover um sistema educacional nos moldes do francês, a exemplo do que vinha fazendo em todo o Oriente Médio. O impacto da Alliance não deve ser subestimado, pois ao levar os jovens a apreciar a cultura francesa, a instituição foi responsável por moldar uma identidade francófila entre os judeus libaneses.

Em 1874, o rabino Zaki Cohen funda uma escola que combinava estudos religiosos com os mais altos padrões de educação secular e o ensino de vários idiomas. Chamada de Tiferet Israel, era procurada não somente por judeus libaneses, mas também por famílias abastadas de Alepo e Damasco, que para lá enviavam os filhos. Na época, havia em Beirute uma sinagoga e 12 Batei Midrash. Além de preencher seu tradicional papel religioso e cultural, as sinagogas eram importante veículo de integração social. Ao analisar-se o local onde os judeus de Beirute ergueram suas sinagogas, percebe-se que elas documentam a vida e o crescimento da comunidade. Como exemplo, a construção de uma sinagoga de Aley, em 1890, e uma Bhamdoun, em 1915, pois era nestas cidadezinhas nas montanhas que os judeus de Beirute costumavam passar os quentes e úmidos meses de verão, as Grandes Festas, só retornando a Beirute depois de Sucot.

Na virada do século, Beirute era uma cidade fervilhante, alcunhada "a Paris do Oriente Médio". Os judeus da cidade uniam, confiantes, seu futuro ao moderno estado multicultural que emergia no Líbano.

Bibliografia:

Kristen E. Schulze,The Jews of Lebanon: Between Coexistence and Conflict, Sussex Academic Press

Beirut, Encyclopedia Judaica Second Edition, Volume 3,

Artigo de Richard Gottheil e Samuel Krauss, "Beirut, Syria" , JewishEncyclopedia.com

Fred Anzarouth, artigo "Les Juifs du Liban", www.farhi.org/