Morashá
OS JUDEUS DO IRAQUE Foto Ilustrativa

OS JUDEUS DO IRAQUE

A história dos judeus do Iraque tem mais de 2.700 anos, constituindo uma de nossas mais antigas comunidades no mundo. Atualmente conhecida como Iraque, a região situada entre os rios Tigre e Eufrates, no Crescente Fértil, era, como indica essa denomi

Edição 40 - Março de 2003


Persas, gregos, árabes e turcos se sucederam no domínio da área e talvez essa seja a razão pela qual os judeus locais se autodefinem, muitas vezes, como “judeus babilônicos”. 
Nas palavras da Torá, a própria história do povo judeu teria começado nessa região. Foi na cidade de Ur, na Mesopotâmia, que nasceu nosso primeiro patriarca, Abraão, e Sarah, sua mulher. E da mesma região vieram as esposas de Isaac e Jacob.

Na antiguidade

Apesar de alguns historiadores acreditarem que a presença judaica na região teve início em 722 a. E.C. – quando o Reino de Israel foi derrotado pelos assírios e sua população, as Dez Tribos, dispersa – há maior evidência de que tenha sido somente em 586 a.E.C., após a derrota do Reino de Judá por Nabucodonosor II, que um grande contingente de judeus passou a morar na região. O exército babilônico, por ele chefiado, conquistou Jerusalém, incendiando o Primeiro Templo e destruindo a cidade. A maioria da população, cerca de 40 mil judeus, foi deportada para a Babilônia. Levaram consigo rolos de Torá, e suas Leis e tradições. Iniciava-se a “Diáspora babilônica“, o Galut Bavel tão decantado em nossas orações e em nossa literatura, que historicamente durou até 538 a.E.C., quando o novo governante da Babilônia o monarca persa, Ciro, o Grande, permitiu aos exilados da Judéia voltarem a pátria .

Sabe-se que no Império Babilônico os judeus não eram escravizados nem tratados com crueldade. Estabeleceram-se em comunidades compactas, onde refizeram sua vida mantendo sua crença e práticas religiosas. Foi nesta época que os judeus adotaram o aramaico como língua do povo e instituíram vários dos costumes que perduram até hoje. Acredita-se que durante esse exílio os judeus tenham atingido um alto grau de desenvolvimento. Quando, por volta de 539 a.E.C., o rei persa Ciro, o Grande, conquistou a região e colocou um fim ao império babilônico, deu aos exilados judeus permissão de voltar a Jerusalém e lá reconstruir o Templo. O Livro de Ezra atesta que 42 mil judeus voltaram para a Judéia. Mas apesar de todos ansiarem pelo retorno, como o comprovam os versos litúrgicos: “... ao pé dos rios da Babilônia sentamos e choramos ao nos lembrar de Sion...” e “... Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que fique esquecida a minha mão direita...”, muitos judeus optaram por não voltar para a Terra de Israel e permaneceram na Babilônia, onde fincaram sólidas raízes. A presença da comunidade judaica babilônica perduraria até a emigração dos judeus iraquianos para Israel, em nosso séc. 20.

A Era Comum

Mais de quinhentos anos depois, já no séc. I de nossa era – tendo sobrevivido aos exércitos de Alexandre o Grande, ao domínio grego e ao jugo do Império Romano – a Babilônia, na época sob o domínio dos partas, ressurge como o grande centro intelectual judaico. Em 40 desta era, os partas – um dos povos que compunham a Pérsia – conquistaram e passaram a dominar esse país e a Babilônia, enquanto a Judéia continuou parte do Império Romano. A opressão dos judeus sob o jugo romano foi o grande propulsor para o crescimento da comunidade judaica na Babilônia, que chega a superar a da Judéia no final do século I.

Desde essa época até o século II, a situação na Judéia continua marcada por revoltas e perseguições. A primeira revolta, no ano 70, provocou a destruição do Segundo Templo. A segunda, liderada por Bar Kochba (135 E.C.), teve conseqüências ainda mais graves, com a morte de milhares de judeus, sendo os remanescentes levados como escravos. Foi o início da Diáspora. Entre várias outras sanções que lhes foram impostas, uma, muito grave, foi o decreto do imperador Adriano colocando o judaísmo na ilegalidade. Muitos judeus, entre eles vários sábios, perseguidos pelas tropas romanas deixam a Judéia e voltam a se estabelecer na Babilônia. Esta, com o declínio das instituições judaicas na terra de Israel, firma-se como o mais importante centro isolado de ensino judaico do mundo, assim permanecendo até o início do séc. XI.

Império Persa volta a dominar a Babilônia

Após terem vencido os partas em 226, os persas voltam a assumir o governo da Babilônia. No séc III da E.C., os judeus gozam de autonomia religiosa, sob a liderança do Exilarca, o Resh Galuta, “Príncipe do Cativeiro”. Líder oficial da comunidade judaica desde seus primórdios, descendente da Casa de David, é ele quem estimula o estabelecimento de academias rabínicas na Babilônia Central. Nessa época são fundadas as academias de Sura, ao sul do que é hoje Bagdá, e de Pumbedita. Em seu auge, essas ieshivot centralizavam toda a vida judaica. Os nomes de Sura e Pumbedita e seus eruditos são reverenciados até o presente.

No séc. IV continuam a florescer os estudos rabínicos. Entre os maiores sábios estão Abaie e Rava, este último também conhecido como Rav Aba. É no final desse século que se inicia, na academia de Sura, a compilação do material para o “Talmud Babilônico”. Este rico cabedal de conhecimento é praticamente completado por volta do ano 530 da nossa era, passando a constituir orientação segura sobre o judaísmo para a diáspora, irradiando e influenciando, com seus ensinamentos, todas as futuras gerações judaicas.

O Domínio do Islã

Entre os anos de 630-640, progressivamente toda a Babilônia cai sob o controle árabe, sendo o islamismo proclamado religião oficial na região. Devido à escassez de fontes judaicas e à limitada menção nos escritos muçulmanos, poucas são as informações sobre a história de nosso povo nos dois primeiros séculos do Império Islâmico. Sabe-se, no entanto, que ao conquistarem a Babilônia, em cerca de 638, os árabes mudam o nome da região para Iraque. Os judeus, sempre rápidos em se adaptar às contingências circunstanciais, aceitam o domínio árabe que, por sua vez, reconhece a religião que praticavam e confirma a autoridade do Exilarca, que os representava na corte do califa. O árabe passa a ser usado pelos judeus, que deixam de lado o aramaico em seus escritos.

Os muçulmanos, por considerarem os judeus e os cristãos “os Povos do Livro”, legalizam a presença destas minorias em seus vastos domínios. No período do Califado (632-1057), foi instituído um código de leis - Estatuto Dhimmis, obrigando judeus e cristãos a pagar certas taxas e impostos para que lhes fosse permitido viver em terras muçulmanas, sem aceitar o Corão . Pelos Estatutos Dhimmis, tendo pagado as devidas taxas, judeus e cristãos poderiam lá residir e manter o exercício livre de suas habilidades profissionais, apesar de serem considerados, por opção própria (isto é, não aceitando Alá e o Corão), “cidadãos de segunda classe”.

Bagdá

A cidade de Bagdá, próxima ao reino da antiga Babilônia, tornou-se o centro do Califado por volta de 762 da era comum, transformando-se rapidamente em uma cidade esplendorosa. Acompanhando esse ritmo e valendo-se da tranqüilidade e do sistema de autogoverno que os califas lhes proporcionavam, as comunidades judaicas também vivenciaram um período de grande prosperidade e desenvolvimento. Sua afluente população incluía em seu seio banqueiros, médicos, engenheiros, astrônomos, lingüistas tradutores, entre outros.

Essa prosperidade atinge seu ponto culminante durante o reinado de Harun al-Rashid, no início do século IX. Nesse período, Bagdá viu aumentar seu contingente de estudiosos e senhores de grandes riquezas. Tornou-se um grande centro comercial, científico e artístico. Também nesse período para lá se transferiram os dois grandes centros educacionais judeus, as ieshivot de Sura e Pumbedita, cada uma liderada por um Gaon (eminência, em hebraico). O título usado pelos diretores das academias da Babilônia do séc. VI ao séc. XI denota a sua liderança espiritual como guardiões da tradição de autoridade emanada do Talmud Babilônico. Respondiam perguntas formuladas por judeus de todo o mundo sobre o significado dos textos talmúdicos, iniciando assim a célebre “literatura das Responsas”. Eram estes Gaonim que, ao lado do Exilarca, governavam todos os aspectos da vida comunitária.

Foi justamente a importância de Bagdá como centro de estudo judaico e de grande erudição o que fez com que a autoridade dos Gaonim fosse aceita pelos judeus do mundo todo. Os primeiros textos sobre leis e preceitos religiosos foram elaborados na cidade e de lá enviados para outras comunidades em diferentes países. O primeiro livro de rezas foi preparado especialmente para as comunidades da Espanha e do Cairo.

Essa autoridade suprema dos Gaonim em questões religiosas continuou até os séculos X - XI, quando surgiram novos centros de estudos judaicos na África do Norte, na Europa cristã e na Espanha moura. Segundo os historiadores, talvez uma das maiores contribuições do período gaônico tenha sido o desenvolvimento do método de ensino do Talmud, ainda utilizado nos tempos contemporâneos.

A história continua e sucedem-se os conquistadores. Em 945, a cidade de Bagdá é conquistada por muçulmanos shiitas, para ser depois tomada pelos turcos, por volta de 1058.

Assim que Bagdá foi atacada por conquistadores estrangeiros, iniciou-se um período de decadência e corrupção interna. A liderança judaica local também foi afetada e, apesar de a comunidade continuar a prosperar, houve um enfraquecimento da liderança espiritual. Somente no século XII, o poder do Exilarca volta a crescer junto ao califado. Um texto desse período revela a sua importância: “Cavaleiros, judeus e não judeus, escoltavam-no toda quinta-feira quando ele ia visitar o grande califa. Arautos seguiam à sua frente, proclamando: ‘Abram o caminho para o nosso senhor, o filho de David’. Ele está montado em um cavalo e veste roupas de seda...o califa se levanta e o encaminha ao trono...e todos os príncipes maometanos levantam-se diante dele”.

Segundo um relato de 1170 de Benjamim de Tudela, cerca de 40 mil judeus viviam pacificamente em Bagdá. A comunidade possuía 28 sinagogas e dez colégios religiosos. Outros relatos do mesmo período dão conta de que a comunidade judaica era composta por médicos, perfumistas, lojistas e acadêmicos, entre outras profissões.

A era áurea de Bagdá encerrou-se definitivamente com a conquista da região por Hulagu, um neto do Gengis Khan, em 1258. Os exércitos mongóis saquearam a cidade, massacrando, sem piedade, sua população. Se, inicialmente, os conquistadores preservaram a população judaica, até indicando um judeu para o cargo de governador supremo da Babilônia , a situação foi-se alterando à medida que os mongóis se convertiam ao islamismo.

A dominação continua se alternando entre persas e turcos. A população judaica a todos sobrevive, apesar de sua vida ter ora períodos de tranqüilidade, ora de perseguições.

Império Otomano

Na Baixa Idade Média (século XI ao XV) os otomanos, procedentes das regiões armênias, iniciaram destemidas conquistas. Em 1453, depois da tomar Constantinopla, conquistaram o Islã e suas grandes concentrações urbanas. Em 1534, os turcos-otomanos tomaram Bagdá, lá permanecendo por quatro séculos. Há poucas informações detalhadas sobre a mesma até meados do século XVI, quando grupos de judeus que fugiam da Inquisição refugiaram-se na outrora suntuosa cidade dos califas. Foi somente a partir dessa época que para lá retornaram em números significativos. Encontraram uma Bagdá bem diferente. Os institutos de estudos dirigidos pelos gaonim haviam desaparecido, assim como também o cargo de “Príncipe do Cativeiro”, com todas as honras garantidas pelos califas. Em seu lugar, foi instituído o cargo de Nassi, isto é, presidente da comunidade.

Bagdá, no entanto, ainda mantinha uma posição estratégica enquanto rota de comércio. Pela cidade passavam mercadorias vindas da Europa rumo ao Golfo Pérsico, além das caravanas que, atravessando o deserto de Alepo, na Síria, buscavam o Mediterrâneo e a Europa, garantindo-lhe o status de importante centro comercial. A cidade prosperava, levando consigo, nesse ímpeto, os judeus, cujas fortunas aumentaram consideravelmente durante o império turco-otomano.

Quando o sultão Suleimã, o Magnífico, entrou em Bagdá, em 1534, vinha acompanhado por um médico e vários estudiosos judeus. No entanto, apesar da tolerância do soberano, cada cidade tinha um governante local e o tratamento destinado à população judaica dependia de suas idéias e desejos. As perseguições das autoridades não eram, no entanto, o único problema enfrentado pela comunidade. As molés-tias e as intempéries climáticas também os afetavam. Em 1742, uma epidemia matou quase todos os mais importantes rabinos da cidade e os membros do Beth Din. O novo líder espiritual vindo de Alepo também caiu vitimado pela moléstia. Cinco famílias oriundas da mesma cidade conseguiram sobreviver e ajudaram a aumentar a população judaica local, que decrescera sensivelmente. 

A Era Moderna

Assim sendo, em função das mudanças na relação entre judeus e governantes que variavam a cada novo califa, a partir do século XIX os judeus começaram a buscar outros locais para viver, entre eles a Índia, Pérsia e também Alepo, antes de finalmente chegarem à Europa e, posteriormente, às Américas. Os que permaneceram em Bagdá, porém, tentaram fazer reviver o brilho do passado, chegando a fundar um instituto de ensino superior, o Beth Zilkha, em 1840. Foi nesse local que estudaram rabinos que, anos mais tarde, deslocaram-se para outros países, no desempenho de sua função. Grande parte dos rabinos sefaraditas de Israel é oriunda do Iraque. A instrução, no entanto, manteve-se restrita a determinados círculos e o papel de difundir o ensino entre a população coube às escolas ocidentais, da rede da conhecida “Alliance Israélite Universelle”. Como resultado, o ensino laico substituiu gradativamente a educação religiosa.

No início do século XX viviam no Iraque mais de 80 mil judeus, dois terços dos quais em Bagdá. Em 1908, o governo turco fez uma série de reformas, concedendo aos judeus igualdade de direitos. A partir de então, poderiam ocupar cadeiras no parlamento e trabalhar em instituições públicas nas cidades de Bagdá, Basra e Mosul. Os mercadores ampliaram suas atividades e, pela primeira vez em sua história, a comunidade judaica da região vislumbrava um futuro no qual seus membros não mais seriam considerados “cidadãos de segunda classe”. Quando a Grã-Bretanha assumiu o mandato sobre a região, depois da Primeira Guerra Mundial, criou o Reino de Iraque. O rei Faisal, o novo monarca imposto pelo Mandato Britânico, concedeu liberdade religiosa, de educação e de trabalho para todos os judeus de Bagdá, os quais, segundo ele, tiveram papel determinante para o desenvolvimento e progresso da região. Constituíam cerca de 25% da população de Bagdá e controlavam o comércio da cidade. Muitos foram indicados para cargos de confiança no governo e outros tantos tornaram-se representantes no Parlamento e no Senado. No entanto, esse período de tranqüilidade para os judeus terminou com a morte do rei Fasal em 1932, um ano após a independência do Iraque.

A bonança terminou com a ascensão ao poder de seu filho Ghazi, que o sucedeu e não nutria os mesmos sentimentos pelos judeus. Coincidentemente, no mesmo período, Hitler chegava ao poder, sendo seu livro “Mein Kampf” traduzido para o árabe e uma embaixada alemã era aberta no Iraque. Rapidamente começaram as perseguições contra todas as minorias, não apenas a judia. 

O governo de Ghazi foi vítima de um golpe de estado em 1936, mas o ódio contra a população judaica se perpetrou através dos anos, como decorrência da crescente simpatia oficial pelas idéias e táticas nazistas. Atentados a bombas contra instalações judaicas tornaram-se cada vez mais comuns, sob o pretexto de abrigarem atividades sionistas – o que era totalmente proibido no Iraque . Ademais, em 1939, Bagdá tornou-se o refúgio do abertamente anti-semita e totalmente pró-Alemanha Raschid Ali, o Grande Mufti de Jerusalém.

Em seu ápice, na década de 1940, a comunidade judaica do Iraque totalizava 130 mil pessoas, que despontavam em cargos governamentais, no comércio, na medicina e nas artes. Viviam, em sua maioria, em Bagdá, e a segunda maior concentração de população ocorria na cidade portuária de Basra. Nos anos que antecederam a II Guerra Mundial, mais da metade dos importadores e exportadores do Iraque eram judeus, segundo Itamar Levin, autor do livro “Locked Doors: The Seizure of Jewish Property in Arab Countries” (A portas trancadas: o confisco das propriedades de judeus nos países árabes). A comunidade orgulhava-se, também, de seus quatro grandes colégios judeus, que formava seus alunos em inglês, árabe, francês e hebraico. 

Em 1941, simpatizantes do nazismo e do Grande Mufti incentivaram uma rebelião contra o governo iraquiano, partidário da Grã Bretanha. Derrotado, o Mufti fugiu para Berlim. Apesar da derrota e da repressão a seus adeptos, um violento pogrom tomou conta de Bagdá. As tropas britânicas na região recusaram-se a intervir, alegando não ter recebido ordens para tal. Foi uma das datas mais sangrentas na história de violência contra a população judaica do país. Cerca de 180 pessoas foram assassinadas e mais de mil feridas por uma multidão armada, com a complacência da polícia e do exército. A violência desses eventos levou muitos judeus a deixaram o Iraque, rumo à Índia, Pérsia, Indonésia e Cingapura, onde, graças a seus contatos comerciais, algumas comunidades de judeus iraquianos conseguiram estabelecer-se. 

Tempos modernos

Considerada uma das comunidades judaicas mais antigas do mundo, cuja origem remonta a quase 2.700 anos, os judeus do Iraque têm sido vítima de perseguições constantes pelos governos que se sucederam no poder. A partir do violento pogrom de 1941 e, mais especificamente, após a criação do Estado de Israel, em 1948, uma certeza tomou conta dos judeus iraquianos: sua vida, já bastante difícil, tornar-se-ia cada vez mais complicada. As medidas adotadas pelas autoridades nos anos seguintes infelizmente o comprovaram.

Em 1948, havia aproximadamente 150 mil judeus no Iraque, mas a perseguição orientada pelo governo forçou-os a fugir e, segundo os dados do The Jerusalem Post de 28 de setembro de 2002, atualmente sobraram apenas 38 judeus em Bagdá e mais uma meia dúzia no norte do Iraque, região controlada pelos curdos.

Os judeus iraquianos foram, em sua maioria, para Israel, apesar de o Iraque congelar todo o patrimônio dos que para lá se dirigiam. As autoridades permitiam a partida dos judeus devido à pressão internacional, aliada ao desejo de apossar-se dos seus bens e à idéia de que a absorção de grandes contingentes causaria o colapso do jovem Estado Judeu, relata Itamar Levin na obra acima citada. Hoje em dia, uma das mais ricas famílias judias do Iraque, que era proprietária do terreno onde fica o palácio presidencial de Saddam Hussein, vive praticamente na miséria. Os bens judeus confiscados pelo Iraque são avaliados em mais de US$ 4 bilhões, em termos atuais, conta o autor.

Entre as determinações impostas pelo Iraque aos judeus estavam restrições de caráter econômico e de liberdade pessoal, além da constante violência física incentivada pela retórica anti-semita, disfarçada de anti-sionismo. A situação tornou-se tão grave que, em 1949 e 1951, o governo do recém criado Estado de Israel ordenou a realização das operações “Ezra” e “Nehe-mias”, com o objetivo de resgatar os judeus daquele país. Cerca de 104 mil foram evacuados e mais 20 mil conseguiram sair clandestinamente através da fronteira com o Irã.

Em represália, em 1952, os judeus foram proibidos de emigrar e, a partir de 1960, de vender suas propriedades, além de serem obrigados a ostentar uma estrela amarela em seus cartões de identidade – medida semelhante à adotada durante a II Guerra Mundial, quando os nazistas os obrigavam a colocar uma estrela amarela em suas roupas. Foram-lhes também vedados os cargos públicos.Tiveram seus bens confiscados, seus negócios fechados, seus telefones desligados e as autorizações de viagem canceladas, além de serem mantidos em prisão domiciliar por longos períodos, de acordo com o humor das autoridades iraquianas.

A Guerra de Seis Dias de 1967 fez recrudescer ainda mais o anti-semitismo, que chegou ao ápice em 1969. Naquele ano, o julgamento e posterior enforcamento público de onze judeus, acusados de pertencer a uma rede de espionagem, provocou forte condenação internacional. O governo, no entanto, negou as acusações de anti-semitismo, afirmando que “apenas enforcara 11 espiões”. O mais chocante no episódio foi o fato de as autoridades terem convocado a população para assistir o enforcamento, conclamando-os a “vir para se divertir”. Cerca de 500 mil pessoas – homens, mulheres e crianças – desfilaram e dançaram diante dos corpos expostos, cantando “morte a Israel” e “morte a todos os traidores”.

No início da década de 1970, as autoridades permitiram a saída dos judeus que ainda estavam no país. No entanto, muitos do que haviam permanecido eram muito idosos e já não tinham condições de partir. Raramente eram realizados casamentos e bar-mitzvot. O último casamento foi realizado em 1980. Em 1991 só restavam no Iraque 150 judeus. O último rabino morreu em 1996. Os rituais fúnebres não puderam ser realizados, pois ninguém os conhecia. Atualmente há apenas uma sinagoga aberta no Iraque, na cidade de Bataween, outrora um dos principais bairros judaicos de Bagdá. 

Até hoje, apesar de poderem seguir a sua religião, os pouquíssimos judeus que restam ainda são proibidos de ocupar cargos públicos ou trabalhar em empresas estatais. A retórica anti-semita e antiisraelense se manteve até os dias atuais. Nos discursos oficiais, os judeus são denominados de “descendentes de macacos e porcos e adoradores do tirano infiel”. Durante a Guerra do Golfo, em 1991, os membros remanescentes da comunidade continuaram proibidos de viajar e de manter contatos com grupos judaicos do exterior. Agora, com a nova Guerra no Iraque, os poucos judeus que ainda lá vivem se perguntam qual será o seu destino.

Os judeus do Iraque têm um antigo ditado:  “Bagdá é um barril de ouro, mas em seu interior, há uma serpente”.  Alguns dos judeus que saíram do Iraque vêem o ouro; outros vêem a serpente.  Mas, pensando melhor, devem ser unânimes no fato de que jamais haverá um futuro judeu no Iraque. 

N.R.: Esta matéria foi ilustrada com fotos antigas. Infelizmente o regime iraquiano não permite que locais judaicos, nem mesmo as sinagogas, sejam fotografados, as fotos de 1994 são de judeus do Curdistão ao norte do Iraque.


Bibliografia:
• Stillman, Norman A., The Jews of Arab Lands in Modern Times, Ed. The Jewish Publication Society
• Gubbay, Lucien e Levy, Abraham, The Sephardim - Their Glorious Tradition from the Babylonian Exile to the Present Day, Ed. Carnell Limited
• Levin, Itamar, Locked Doors: The Seizure of Jewish Property in Arab Countries.