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OS JUDEUS DA ÁFRICA DO SUL Foto Ilustrativa

OS JUDEUS DA ÁFRICA DO SUL

O judaísmo continua forte e vibrante na África do Sul. Grande parte da comunidade sente-se profundamente enraizada e participante do processo de desenvolvimento da democracia no país. É uma população culta que desempenha um papel fundamental para a vida econômica local. Como a maioria da população sul-africana.

Edição 30 - Setembro de 2000


Estes e outros dados fazem parte de uma pesquisa realizada entre junho e outubro de 1998 na comunidade judaica da África do Sul e da qual participaram mil pessoas cuja idade média era 45 anos, assim distribuídas: 464 homens e 536 mulheres. Dentre os entrevistados, 86% nasceram na África do Sul; e 94% eram cidadãos sul-africanos. Geograficamente, 650 viviam em Joanesburgo, 250 em Cidade do Cabo e 50 em Durban. A pesquisa foi elaborada com base em um estudo de 1995 que analisou as atitudes sociais e políticas dos judeus britânicos. A população judaica atual é estimada em 90 mil pessoas.

A história dos judeus na África do Sul remonta aos meados do século XIX, com a chegada de imigrantes vindos da Inglaterra, Holanda, e Alemanha. Em 1841, fundaram a primeira entidade judaica na região - a Sociedade da Comunidade Judaica da Cidade do Cabo, precursora da Congregação Hebraica da Cidade do Cabo. Dedicavam-se, então, à exportação de produtos agrícolas (lã, mohair, peles e vinhos). A descoberta de diamantes em 1860 e, duas décadas mais tarde, de ouro atraíram novos imigrantes da Europa Oriental, principalmente da Lituânia. Muitos vieram através da Rodésia (atual Zimbabwe e Zâmbia).

Ainda no século XIX foi fundada uma comunidade judaica em Joanesburgo e um número considerável de recém-chegados se instalou incialmente nos distritos rurais, como vendedores ambulantes, para depois se transformarem em donos de lojas nos vilarejos e pequenas cidades. Uma das principais contribuições da imigração do leste europeu foi o fortalecimento da identidade judaica na região. Ao chegarem, os novos imigrantes trouxeram consigo suas crenças religiosas e tradição, sua cultura e sua profunda ligação com o sionismo.

Assim, em 1898, foi fundada a Federação Sionista Sul-Africana (em inglês South African Zionist Federation - SAZF), que passou a coordenar todas as atividades de caráter sionista no país; em 1912, o Conselho Judaico para Transvaal e Natal (fundado em 1903) e o Conselho Judaico para a Colônia do Cabo (criado em 1904) uniram-se formando o Conselho Judaico Sul-Africano, que se tornou conhecido como Board, da nomenclatura em inglês South African Jewish Board of Deputies. Como voz oficial da comunidade, o "Board" tornou-se o representante dos judeus junto às autoridades sul-africanas.

Dos judeus que imigraram para a África do Sul vindos da Europa Oriental na segunda metade do século XIX, a maioria fugindo das repressões e dos pogroms em sua terra natal, 70% eram litvaks (judeus lituanos). Este fato mudou o caráter da comunidade judaica sul-africana, permeando-a com o pragmatismo litvak, reverenciando os estudos e especialmente despertando uma grande devoção pelo sionismo.

Os judeus da África do Sul tinham uma situação econômica estável que lhes permitia arrecadar fundos significativos para a causa sionista. Das comunidades judaicas sul-africanas partia o maior número de imigrantes rumo a Israel, se comparado com outros núcleos do chamado mundo livre. A Federação Sionista da África do Sul sempre foi considerada um modelo em termos de atuação. De modo geral, os judeus recém-chegados foram bem recebidos pelos fazendeiros Afrikaners (Boer), adeptos do calvinismo.

A segunda geração de imigrantes trocou a zona rural pelos centros urbanos nos quais havia mais oportunidades e melhores condições para educar seus filhos em ambiente judaico organizado. Nos centros urbanos, os judeus foram pioneiros em métodos modernos de comércio, dominando rapidamente alguns campos da indústria, principalmente na área têxtil e de confecção.

Como foi mencionado anteriormente, a descoberta dos campos diamantíferos de Kimberley, na década de 1860, seguida pela dos campos auríferos do Rand vinte anos depois, mudou o rumo da economia sul-africana, inaugurando assim uma era de riqueza interna e mineral.

O que passou a diferenciar a África do Sul dos demais países mineradores foi o surgimento de uma nova instituição, a Casa de mineração que passou a concentrar reivindicações do setor e arrecadar altas somas destinando-as à mineração e à busca e ao uso de novas tecnologias.

Foi neste setor da economia que muitos judeus encontraram o caminho da prosperidade, através do seu envolvimento com pedras preciosas (especialmente diamantes e ouro e prata maciços). Desempenhavam um papel de destaque tanto nas minas de túneis e galerias como no sistema financeiro que levantava o capital para a prospecção. Homens como Alfred Beit, Louis Cohen, Lionel Phillips, Julius Wehrner, Barney Barnato e Cecil Rhodes tornaram-se famosos no setor de mineração. Estes dois últimos criaram a "De Beers and Consolidated Mines" que ainda é um dos nomes fortes do mercado mundial de diamantes. Foram alguns dos muitos que ajudaram a transformar a África do Sul na maior e mais rica economia de minério do mundo. Uma segunda geração de financistas das minas, encabeçada por Ernest Oppenheimer e seu filho Harry, consolidou e expandiu o empreendimento da área.

As comunidades judaicas se estruturaram melhor durante os primeiros anos do século XX, período no qual foi criado o Board. Nesta época, não era fácil ser judeu na África do Sul. O anti-semitismo era muito disseminado no seio da população branca. Um sistema de cotas firmado em 1930 e reforçado em 1937 passou a bloquear praticamente toda imigração judaica ao país. Durante a Segunda Guerra Mundial, movimentos afrikaners pró-nazistas fizeram campanha contra a entrada da África do Sul no conflito ao lado dos aliados. Em 1948, com a ascensão ao poder do Partido Nacional, entra em vigor a legislação racista conhecida como Apartheid que não é somente hostil aos direitos dos negros, mas é também abertamente anti-judaica.

Vida em comunidade

Os judeus sul-africanos são parte de uma sociedade multiracial complexa. Representam 0,5% da população total e 3% da população branca (européia). A maioria dos judeus brancos são identificados como um grupo de língua inglesa, com cultura, língua e estilo de vida urbana. O Partido Nacional representa a maioria dos brancos afrikaners e apoiou a criação do Estado de Israel nas Nações Unidas. Com esta atitude, os medos iniciais dos judeus quanto à sua estabilidade no país se dissiparam.

A comunidade judaica sul-africana é praticamente toda ashkenazita, com uma pequena porcentagem sefaradita na Cidade do Cabo. Possui representantes locais da maioria das organizações judaicas e sionistas do mundo. Os cinco principais movimentos judaicos para jovens são Habonim, Betar, B'nai Akiva, B'nai B'rith e Maguinim (Progressistas). A maioria dos membros da comunidade recebeu uma formação religiosa e judaica na sua juventude.

Quase todos participaram de um movimento juvenil ou de uma escola. Atualmente, 60% das crianças frequentam escolas judaicas de período integral mais de 50% dos jovens freqüentam colégios secundários judaicos. A maioria das escolas tem uma orientação ortodoxa. A comunidade possui seus próprios professores de hebraico e seus próprios rabinos. Há uma academia "Lubavitch Torá" em Joanesburgo e algumas universidades como a de Cidade do Cabo oferecem estudos judaicos. Os casamentos mistos são quase inexistentes.

Cerca de 97% dos mil judeus entrevistados consideram muito importante permanecer fiéis à sua herança, participar e se interessar pela cultura e vida religiosa judaicas, 80% são afiliados a sinagogas ortodoxas - há 65 no país. Aproximadamente 10% são afiliados ao Movimento Progressista e um número menor ao Massorti (Conservador). O rabino-chefe da Federação Ortodoxa é a autoridade judaica mais reconhecida. A comida casher é facilmente encontrada e há vários restaurantes e hotéis casher em todo o país.

Os judeus e o Apartheid

Os judeus estavam entre os fortes oponentes do Apartheid e os. mais engajados e politizados atuavam nos meios políticos, com exceção da extrema direita. A comunidade não se envolvia na política nacional, mas a grande maioria de seus membros votou a favor do fim do Apartheid.

Podemos encontrar algumas pessoas que se destacaram particularmente como defensores da causa dos negros, como a Prêmio Nobel de Literatura Nadine Gordimer, ou o roqueiro "zulu branco" Johnny Clegg. Eram pessoas que viviam um pouco à margem da comunidade, mas sempre assumiram veementemente o seu judaísmo.

Em 1985 foram criadas duas associações judaicas - uma em Cidade do Cabo e outra em Joanesburgo - para defender maior justiça social e os direitos dos negros. À medida que a repressão governamental torna-se cada vez mais intolerável, os protestos tornam-se cada vez mais comuns no seio da comunidade judaica. O Board condena oficialmente o Apartheid e os judeus passaram a apoiar ativamente o processo político que levou ao fim do Apartheid.


A partir de então o Board se envolve em uma nova missão: "Trabalhar para melhorar as relações humanas entre os judeus e os outros povos da África do Sul, com base no respeito mútuo, na compreensão e na boa vontade". É por isso que a instituição se engaja no que definiu de "luta por uma nova África do Sul, onde cada um será livre dos preconceitos da intolerância e da discriminação". O Board, nos seus documentos oficiais, "saudou as mudanças políticas ocorridas na África do Sul e a instituição de um governo não-racista e democrático", acolhendo "com entusiasmo" a perspectiva de uma república multirracial pertencente a todos os cidadãos.

Os dirigentes negros elogiaram as organizações judaicas e os judeus que os ajudaram em sua luta. Após a sua eleição em 1994, o presidente Nelson Mandela expressou simpatia e compreensão em relação aos problemas judaicos e pediu que a comunidade o ajudasse a reconstruir a África do Sul. Atualmente o Board representa as principais organizações e congregações judaicas do país e é reconhecido pelo governo como representante oficial do judaísmo africano.

Orgulhosos cidadãos de uma democracia multirracial, os judeus sul-africanos se questionam a respeito do seu futuro. Cerca de 80% do eleitorado judeu, segundo a pesquisa de 98, vota com os democratas. Os judeus da África do Sul não sofrem nenhuma pressão política ou econômica, e o anti-semitismo morreu junto com a queda de Hitler.

Mas, segundo a pesquisa, é difícil sentirem-se seguros em um país onde os problemas raciais não foram ainda resolvidos e o futuro é imprevisível. Noventa por cento dos judeus entrevistados declaram que a segurança é cada vez menor. A metade das pessoas que pensam em emigrar cita a insegurança como razão principal, e os outros alegam que é uma das razões. Seus países de destino são, por ordem, Israel, Estados Unidos, Inglaterra e Austrália.

Apesar da situação, uma maioria de judeus (72%) declara querer continuar a viver na África do Sul. Quando perguntados sobre como vêm o futuro da comunidade judaica sul-africana, as respostas são divididas entre o otimismo e o pessimismo. Mais de 87% dos judeus interrogados concordaram com a seguinte afirmação: "É possível que a maioria dos jovens judeus com menos de 30 anos não acredite ter futuro na África do Sul". Este dado por si só é mais eloqüente que qualquer discurso.

Agosto de 2000

O líder palestino Yasser Arafat conseguiu em agosto último o apoio oficial da África do Sul para a criação de um estado palestino independente. O apoio foi obtido durante um giro diplomático que o líder palestino está fazendo em busca do reconhecimento internacional às suas reivindicações. Após se reunir com o presidente sul-africano Thabo Mbeki, Arafat pediu ao ex-presidente Nelson Mandela que participasse como mediador nas negociações com Israel. O líder do movimento anti-Apartheid prometeu ajudar.?

Bibliografia:
Comay, John, The Diaspora Story of Jews.
Encyclopedia Judaica
Sasson, H.H. Ben, A History of the Jewish People
Beker, Avi, Jewish Communities of the World
Wheatcroft, Geoffrey, The Randlords: the Men who made South Africa
Gregory, Theodore, Ernest Oppenheimer and the Economic Development of South Africa
Lange, Nicholas de, Atlas of the Jewish World
L'Arche, junho de 2000


As maiores cidades

• Cidade do Cabo: Fundada em 1841, conta atualmente com 25 mil judeus. É a mais antiga comunidade do país e possui uma excelente infra-estrutura religiosa, incluindo doze sinagogas ortodoxas e progressistas, escolas organizações de bem-estar e assistência social, um museu e várias livrarias judaicos. Possui, ainda, jornais e revistas judaicos semanais, quinzenais e mensais, destacando-se o quinzenal Jewish Affairs, publicado pelo Board. Em Cidade do Cabo há vários restaurantes casher, açougue, mercados e hotéis que servem comida casher, entre os quais o prestigioso "Culliman Inn". O vinhedo "Zaandwijk Winery" é o único e grande produtor e fornecedor de vinho casher local.

• Joanesburgo: É a maior comunidade judaica da África do Sul, com 60 mil membros. Por motivos de segurança, os judeus praticamente desertaram do antigo centro de negócios para se refugiar na periferia norte. Com todas as lojas à venda, os camelôs invadiram as calçadas do centro para expor sua mercadoria. A sinagoga da "Rua Mooi" foi fundada pelos lituanos do shtetl de Poswohl, que foi declarada monumento nacional. Há também um memorial do Holocausto no cemitério de West-Park, além de vários museus judaicos.

• Durban: é uma cidade balneária e cosmopolita. Oficialmente fundada em 1883, a comunidade possui atualmente 3.100 judeus, incluindo personalidades como Nathaliel Isaacs, que foi o principal emissário ao lado do rei "zulu" Chaka; e Felix Hollander, o prefeito de Durban. A cidade tem três grandes e a revista mensal Hashalom relata os principais acontecimentos locais. Há numerosas atividades e programações das instituições judaicas e sionistas como a Wizo e a B'nai B'rith.

• Oudtshoorn: a cidade de Oudtshoorn, no semi-árido "Little Karoo", é conhecida como a "Jerusalém da África". Os judeus lituanos foram os pioneiros na criação de avestruz e fizeram de Oudtshoorn a capital mundial de penas de avestruz. A sinagoga The English Shul, edificada em 1888, ainda funciona. A segunda sinagoga, The Griene Shul, reconstruída e reinaugurada continua a funcionar em ocasiões especiais. O Museu Nei abriga a magnífica cúpula em forma de arco que foi preservada em uma seção judaica especial.