Morashá
O Gueto de Bolonha Foto Ilustrativa

O Gueto de Bolonha

por por Arnaldo Niskier

Na Itália, quando procurava o caminho para visitar a Universidade de Bolonha, provavelmente a mais antiga do mundo (de 1088), surgiu à minha frente a placa desafiadora: “Museu Hebraico”. Não resisti à tentação e virei à esquerda, como indicava a seta, para realizar uma comovente visita ao passado daquela região.

Edição 73 - Setembro de 2011


Ali existiu a Sinagoga do Gueto de Bolonha. Em 1593, os judeus foram expulsos, deixando para trás experiências vividas desde 1353. Em 1482 vieram à luz publicações como o Livro dos Salmos e Os Princípios da Torá, delarga utilização na comunidade. Há lembranças das atividades exercidas pelos rabinos Samuel Archivolti, Azariá de Rossi, Yakov Mantino e Obadia Sforno. As luzes culturais do Povo de Israel se estendiam às cidades de Ferrara, Modena e Parma.

A ideia do gueto foi retomada após a Lei Racial de 1938, em pleno regime fascista. A Itália assinala a existência de dez guetos e a história registra a deportação de 83 judeus bolonheses para campos de concentração, na 2a Guerra Mundial, apesar da resistência da população local, não favorável a essa violência, que incluiu o rabino Alberto (Avraham) Orvieto. No grupo havia médicos e intelectuais que despertavam a cobiça de outros povos, como era o caso da Inglaterra, ávida pela conquista de cérebros e profissionais privilegiados.

Dos 1022 judeus enviados da Itália ao campo de concentração de Auschwitz, somente 17 sobreviveram e regressaram aos seus lares, após o fim da guerra, como se conta, de forma admirável, no livro “A trégua’”, escrito por Primo Levi, um desses sobreviventes (a tradução para a língua portuguesa foi feita pelo acadêmico Marco Lucchesi).

Voltemos ao Museu Hebraico, muito bem dotado de relíquias de toda natureza, diferentes invólucros de Sifrei Torá, moedas de época, instrumentos, roupas típicas etc. Chamou nossa atenção a enorme lápide em que se encontram os nomes dos que foram deportados das cidades de Bolonha, Ferrara, Modena, Reggio, Corregio e Parma. Anotamos alguns sobrenomes: Arbib, Cividali, Mortara, Pinto, Rocca, Ventura, Ravena, Tedeschi, Padova, Levi, Melli, Zamorani e outros.

Deve-se considerar ainda a assimilação havida, com receio das perseguições. Mas isso não impediu a existência da sinagoga, também conhecida como “a escola de todos”. Ali se desenvolviam atividades de difusão do monoteísmo e a Bíblia tornou-se fundamental elemento de instrução de todos os seus frequentadores, alimentados por uma forte presença da literatura rabínica, na cidade que, por si só, em virtude da Universidade pioneira no mundo, era conhecida como “a douta” (La Dotta). A sinagoga foi bombardeada em 1943, consequência lamentável da Guerra.

Como se viu, no Museu Hebraico, a identidade em geral pôde ser mantida graças a quatro áreas de interesse: as identidades religiosa, linguística, cultural e política. Os judeus, apesar das conquistas científicas, jamais abriram mão da tradição. A língua hebraica, de uso superior a 3 mil anos, foi elemento cultural da maior importância, permitindo a manutenção da homogeneidade do povo do livro, como se viu em Bolonha.

Arnaldo Niskier é Doutor em Educação, integrante da Academia Brasileira de Letras e presidente do CIEE/RJ