Morashá
O desaparecimento de uma antiga comunidade judaica Foto Ilustrativa

O desaparecimento de uma antiga comunidade judaica

Em menos de meio século, a antiga comunidade judaica líbia, que sobrevivera durante séculos de domínio estrangeiro e fervor islâmico, foi definhando até se extinguir por completo.

Edição 74 - Dezembro de 2011


No final da década de 1920, os judeus que viviam na Líbia eram economicamente prósperos e politicamente estáveis. Pode-se dizer que o lento, mas inexorável declínio da comunidade judaica líbia teve início com a mudança de atitude das autoridades coloniais italianas.

O marechal Pietro Badoglio, que assumiu em 1927 o cargo de governador da Líbia, foi o primeiro a adotar uma postura “assimilacionista” em relação aos judeus líbios. Ele queria “modernizá-los” através de uma série de reformas. A atitude italiana provoca a ira entre os judeus, que notam nas autoridades coloniais uma postura diferente em relação aos árabes.

Entre as reformas, a mais polêmica foi a questão do Shabat. Na Líbia, mesmo entre os judeus mais “modernos”, era profundo o respeito pelas leis judaicas e, quando as autoridades italianas passam a atacar o cumprimento do Shabat, as relações com o governo colonial tornam-se tensas. O primeiro alvo foram os alunos judeus. Após decretar que as escolas deviam fechar apenas aos domingos, Badoglio exige o comparecimento dos judeus às aulas aos sábados.

Em 1934, quando o marechal Ítalo Balbo é nomeado governador, a comunidade sente-se aliviada, pois os judeus italianos o consideravam um amigo. No entanto, com o passar do tempo, ele se alinha com a política assimilacionista de seu antecessor. Por trás dessa atitude estava seu plano de transformar a Líbia em um estado economicamente desenvolvido. Ao constatar as péssimas condições de vida dos judeus que viviam no Hara de Trípoli, decide obrigá-los a se adaptar às exigências da vida moderna, fazendo-os abandonar atitudes consideradas “antiquadas e anacrônicas”.

Mais uma vez, o Shabat foi o alvo inicial. Em Trípoli e em outras cidades o comércio estava, em grande parte, nas mãos de judeus; e, em novembro de 1935, eles são surpreendidos por um decreto que permite às lojas instaladas na parte nova de Trípoli fechar apenas aos domingos. No final do ano seguinte, o decreto passa a incluir toda a cidade. Imediatamente os judeus protestaram e houve confrontos. A resposta das autoridades italianas foi dura: os que se recusaram a abrir as lojas no sábado perderam sua licença e, num macabro espetáculo, dois comerciantes são açoitados publicamente.

Mussolini e os judeus da Líbia

Muito se tem debatido sobre o posicionamento do fascismo italiano face aos judeus. Basicamente, era um reflexo das atitudes ambíguas de Mussolini em relação ao nosso povo, na maior parte das vezesditadas por um oportunismo político. De acordo com o historiador italiano De Felice, Mussolini não tinha especial antipatia pelos judeus, nem tampouco simpatia. Nutria um antissemitismo “tradicional”, que não teve significado político até ele estreitar suas relações com a Alemanha nazista. Ainda em 1937, o boletim oficial da política externa italiana, Informazione Diplomatica, afirmava que “o governo fascista jamais pensou, nem pensa em adotar medidas políticas, econômicas ou morais contrárias aos judeus”. E, em março daquele mesmo ano, em sua viagem a Trípoli, Mussolini garantiu à comunidade judaica que “seu governo sempre respeitaria as tradições e os direitos religiosos dos judeus”. Mas, com o estreitamento das relações com Hitler, há uma drástica mudança. Em julho de 1938 o regime fascista publica o Manifesto della Razza, e, em setembro, promulga as primeiras leis raciais que deveriam ser aplicadas tanto na Itália como na Líbia.

As leis raciais colocavam os judeus da Líbia numa posição de inferioridade não apenas em relação aos italianos, mas também aos árabes. Os primeiros a serem afetados pelas novas leis foram os judeus italianos, que foram expulsos do país. Outras medidas seguiram-se: judeus que trabalhavam em escolas, bancos, repartições e instituições públicas foram demitidos sem compensação; a palavra “judeu” passou a constar nos documentos; bens pertencentes a eles deviam ser registrados com a Polícia da África. Nessa primeira fase, os menos afetados foram os judeus líbios, pois o governador Balbo convencera Mussolini a não aplicá-las. Ao justificar o pedido afirmara temer uma crise econômica, já que os judeus exerciam atividades e funções que, dificilmente, poderiam ser assumidas por árabes ou italianos.

As vésperas da 2ª Guerra, viviam no país cerca de 30 mil judeus, 22 mil dos quais na Tripolitânia. Havia outros 3.653 na Cirenaica, 3.369 na Misurata e 873 em Derna. Esses números não incluíam os de outras nacionalidades.

A 2ª Guerra Mundial
 
Os anos de guerra foram muito difíceis para toda a população tripolitana, pois a cidade sofreu intensos bombardeios. O bairro e o cemitério judaico, onde os italianos instalaram artilharia antiaérea, foram particularmente atingidos. Muitos membros da comunidade perderam a vida, outros tantos foram feridos; residências, lojas e sinagogas foram destruídas. Com a entrada da Itália na guerra, os judeus da Líbia encontraram-se à mercê dos nazistas. Mas nada aconteceu, pois, ao chegar à Líbia, os alemães se viram obrigados a utilizar serviços e recursos de propriedade judaica, tendo que “adiar” qualquer tipo de “Solução Final” para a comunidade judaica local.

Em setembro de 1940, as forças italianas baseadas no país atacam os ingleses estacionados no Egito. Logo a seguir, num bem-sucedido contra-ataque, forças britânicas avançaram até os portos líbios de Bardia e Tobruk. A luta pela África foi feroz e o território líbio torna-se palco de combates decisivos. Entre dezembro de 1940 e janeiro de 1943 os ingleses conseguem ocupar a Cirenaica por duas vezes, sendo repelidos pelas forças do Eixo lideradas pelo general alemão Rommel. Após as duas retiradas das forças britânicas, os judeus, principalmente os de Benghazi, acusados de simpatizar com os aliados, são punidos severamente.

Junto com as forças de Sua Majestade, entraram na Cirenaica os Voluntários Judeus do 8º Exércitoda Palestina. Os jovens soldados do Ishuv encontraram uma comunidade passando extrema necessidade e imediatamente procuraram ajudar. Em Benghazi, por exemplo, chegaram a distribuir os alimentos que os italianos haviam deixado para trás, e, em muitos casos, a dividir suas rações com as crianças.

A situação dos judeus líbios piora sensivelmente a partir de 1942. Todas as leis raciais vigentes na Itália são estendidas à Líbia, inclusive as referentes ao recrutamento para trabalhos forçados, e novas restrições são impostas pelo governo colonial. Mussolini ordena, também, a construção de campos de concentração no interior da Tripolitânia, onde deviam ser deportados os judeus líbios. Era a política de sfollamento, que pode ser traduzida como “dispersão” ou “remoção”, executada de acordo com a cidadania de cada grupo. Judeus franceses foram deportados para campos em Túnis ou Argélia, e os ingleses para campos na Itália, sendo transferidos, em 1943, após a ocupação alemã, para Innsbruck e Bergen-Belsen.

Os judeus líbios foram basicamente enviados para dois campos na Tripolitânia – o de Giado e o de Sidi Azzaz. Foi cruel a atitude dos fascistas em Giado – de onde, até junho de 1942, foram deportados 2.584 judeus, a maioria dos que viviam na província de Cirenaica. A falta de alimentos e as doenças resultaram na maior perda de vidas de todas as comunidades judaicas no Oriente Médio e norte da África durante a 2ª Guerra Mundial. Quando os ingleses libertaram o campo, em janeiro de 1943, mais de um quinto dos internos estavam mortos.

Três mil judeus de Trípoli acabaram sendo enviados para Sidi Azzaz. Internados em regime de trabalho forçado foram relativamente bem tratados pelos fascistas, em grande parte graças aos esforços de Moshe Hadad, um engenheiro de Trípoli que se empenhou para tornar suportável a vida de seu povo.

Os ingleses e as Unidades Judaicas

Em janeiro de 1943, quando as tropas britânicas entraram em Trípoli, os judeus os receberam como libertadores. A comunidade estava econômica, social e psicologicamente arrasada. A fome e o tifo ainda ameaçavam ceifar mais vidas. Os judeus presos em campos de concentração careciam de ajuda para recomeçar a vida. Os que voltaram para Benghazi – a comunidade que mais sofreu durante a guerra – encontraram suas casas saqueadas e as lojas destruídas.

Apoiados financeiramente por organizações judaicas internacionais, os ingleses agiram rapidamente para aliviar o sofrimento da comunidade líbia. Eles também atendem o pedido da Agência Judaica de revogar imediatamente as leis raciais, no entanto, as medidas discriminatórias contra os judeus já tinham deixado marcas indeléveis.

Unidades judaicas da Palestina que haviam lutado ao lado dos ingleses também ficaram estacionadas no país. Os soldados do Ishuv logo perceberam que a comunidade só conseguiria se reerguer se a vida comunitária fosse reorganizada. Passam, então, a servir de elemento de ligação entre a comunidade e as autoridades britânicas. Ademais, enviavam relatórios sobre as condições dos judeus líbios e de suas atividades à Agência Judaica e à Haganá. Os soldados passam a solicitar apoio da Agência Judaica principalmente para o trabalho na área de educação, na qual concentraram todo o seu empenho. Eles mesmos abriram escolas, seminários para formação de professores e movimentos juvenis. Criaram, ainda, condições para facilitar a imigração ilegal, principalmente entre os jovens.

O trabalho desenvolvido durante os dois anos em que esses soldados ficaram na Líbia fortaleceram os vínculos entre a comunidade e o Ishuv, eabriram o caminho para que os emissários da Agência Judaica preparassem os judeus para a aliá.

O pogrom de 1945

Em novembro de 1945 um terrível pogrom abalou a comunidade. No ano anterior, com o agravamento da situação econômica, crescera entre as camadas mais pobres da população árabe um forte ressentimento contra os judeus. Esse ressentimento, alimentado por grupos nacionalistas líbios vinculados a extremistas egípcios, transformou-se em ódio.

No dia 31 de outubro as autoridades britânicas receberam a informação de que os judeus de Benghazi seriam alvo de ataques, porém nada aconteceu, pois a tensão foi dissipada pelo Grand Qadi. Mas a violência que explode no dia 2 de novembro no Egito volta a atiçar os ânimos das massas.

No final da tarde do domingo dia 4, judeus são atacados em Trípoli, simultaneamente, em diferentes partes da cidade. Uma fonte oficial britânica descreveu a violência como “brutal e selvagem”. Apesar de repetidos apelos por parte das lideranças judaicas e árabes, os ingleses intervieram apenas três dias mais tarde, na noite do dia 6.

O pogrom deixou 140 judeus e cinco árabes mortos, além de 450 feridos. A maioria dos mortos, homens, mulheres, velhos e crianças, haviam sido assassinados de forma brutal: esquartejados, decapitados, jogados de janelas e alguns até queimados vivos. A fúria árabe devastou 747 lojas e 575 casas; cerca de 4 mil judeus ficaram desabrigados e outros tantos reduzidos à pobreza. Os danos para a comunidade foram incalculáveis: dez sinagogas foram profanadas e queimadas, 35 Sefarim e mais de 2 mil livros sagrados destruídos e 89 mil kg de objetos do culto em prata, saqueados.

A esperança e confiança em relação aos ingleses se havia transformado em amargura ao constatar que nada haviam feito para impedir o pogrom nem tampouco para sufocá-lo de imediato. Era cada vez mais evidente o tratamento preferencial da administração inglesa em relação aos árabes. As relações entre judeus e árabes também sofreram uma guinada radical. A comunidade judaica percebera que as gerações árabes mais velhas não poderiam controlar os nacionalistas, e se algum judeu ainda atinha a ilusão de que um dia poderiam ser restabelecidas a amizade e cooperação mútuas, a violência de 1948 jogou-a por terra abaixo.

O pogrom de 1948

O clima em Trípoli era tenso em junho de 1948. Os jornais locais haviam publicado notícias sobre a proclamação do Estado de Israel e sobre sua invasão pelos exércitos de cinco países árabes. A opinião geral era que os árabes venceriam rapidamente, mas quando o exército do nascente estado rechaça os invasores, os ânimos muçulmanos se inflamam.

No dia 12 de junho de 1948, explode mais uma vez em Trípoli a violência contra os judeus. Do bairro onde vivia a população árabe mais pobre, partiu uma multidão armada em direção ao Hara Kebira, bairro judaico da Cidade Velha. Entre a turba havia milhares de tunisianos que haviam deixado seu país para lutar contra Israel, mas acabaram presos na área. Ao chegar às portas do Hara, os árabes foram recebidos por jovens armados – homens, mulheres e até mesmo crianças. Após o pogrom de 1945, o Ishuv enviara à Líbia um membro do Palmach, Israel Gur, para ensinar táticas de defesa aos jovens da comunidade. Rechaçada, a multidão árabe seguiu então para a cidade nova, onde não fora organizada a defesa judaica. Os agressores saquearam lojas e residências judias, deixando mortos e feridos. A polícia interveio prontamente e, na tarde do dia seguinte, a ordem havia sido restabelecida em Trípoli. No entanto, a violência continuou em outras cidades e vilarejos da Tripolitânia.

O pogrom acabara com toda a esperança e os judeus compreenderam que não havia mais lugar para eles no país. Deixar a Líbia tornou-se a maior preocupação e viam Israel como sua única alternativa. Essa porta, no entanto, ficou legalmente fechada pelas autoridades britânicas até fevereiro de 1949, quando, após intensas pressões, os ingleses permitiram-lhes partir diretamente da Líbia para Eretz Israel.

Milhares estavam ansiosos para sair. Segundo estimativas da Agência Judaica, a aliá dos judeus líbios deveria beirar os 6 mil por ano. Mas, a comunidade alertou a Israel que o número seria muito maior. O pan-arabismo e pan-islamismo líbio agravara ainda mais os temores judaicos acerca de seu futuro em um estado líbio independente. Quase toda a população judaica da Líbia – cerca de 30 mil pessoas – queria abandonar o país. A partir de outubro do mesmo ano, cerca de 3 mil judeus por mês deixavam a Líbia com destino a Israel.
 
Quando, em novembro de 1949, as Nações Unidas aprovam a independência da Líbia – que seria declarada em janeiro de 1952 – tornou-se de máxima urgência organizar a rápida emigração em massa. Os sinais do que estava para vir já eram claros. Às vésperas da independência, o primeiro-ministro Muntasser chegou a afirmar que “não via futuro para os judeus na Líbia”. 

No dia 25 de dezembro de 1951 foi declarada a independência do Reino Unido da Líbia, como passaria a ser chamado o novo país. Graças ao apoio britânico, Sayyid Idris al-Sanusi, emir de Cirenaica e líder dos Sanusi, sobe ao trono com o nome de Idris I.

Para o Congresso Judaico Mundial, a independência líbia marcou “o desaparecimento gradual de uma antiga comunidade judaica”. Os números confirmam essa previsão, pois entre os anos de 1949-52, 30 mil judeus deixaram o país. Mais de 90% foram para Israel, enquanto outros se estabeleceram na Itália, França e Inglaterra. Em 1952, haviam permanecido apenas uns milhares de judeus mais abastados – 3.500 em Trípoli e uns 400 em Benghazi.

Vida judaica no Reino da Líbia

As primeiras duas décadas após a independência foram marcadas por um forte nacionalismo e por uma série de políticas antissemitas e anti-Israel por parte do novo governo, cuja preocupação era manter a frágil unidade de suas forças políticas. O rei Idris sabia que qualquer aproximação com a comunidade judaica seria prejudicial para suas relações com grupos nacionalistas.

Desde o início, ficou claro que as promessas feitas antes da independência seriam abandonadas, e que governo líbio não iria incluir nenhum judeu na vida política. Embora os que haviam ficado no país procurassem viver dentro de certa normalidade, era impossível ignorar a realidade e tampouco os virulentos ataques na mídia, que se referia a eles como “enviados de Tel Aviv” que estariam “explorando os recursos líbios para ajudar Israel”.

Logo após a instalação do novo governo, a emigração para Israel foi dificultada e, assim como as viagens, seus contatos postais também sofreram restrições até que foram totalmente proibidos, em 1954. A condição econômica dos judeus acabou por se deteriorar em consequência das inúmeras restrições no âmbito comercial. Em 1953, quando a Líbia se tornou membro da Liga Árabe, o governo passou a adotar as políticas anti-judaicas de outros estados-membros. Um ano depois, o Macabi foi fechado, assim como todas as instituições educacionais judaicas e, quatro anos mais tarde, a comunidade judaica da Tripolitânia era dissolvida.

As pressões crescem no final da década de 1950. O governo obriga o registro de todos os judeus que tivessem parentes em Israel e, em seguida, coloca “sob sua custódia” todas as propriedades pertencentes a pessoas residentes em Israel. Tornaram-se corriqueiras as incursões noturnas realizadas por oficiais do governo às residências de judeus para inspecionar a correspondência. Se fosse encontrada alguma carta de Israel, ou sequer com caracteres hebraicos, o dono da casa era preso.

No início da década seguinte os judeus viram restritas ainda mais suas liberdades civis e religiosas. Eles não tinham direito a voto, tampouco a passaporte nem a certificado de nacionalidade; tampouco podiam ocupar cargos públicos. Ademais, uma nova lei dava ao governo a autoridade para se apossar das “propriedades de determinados judeus”. Estes também se viram proibidos, em 1958, de se beneficiar da descoberta de jazidas de petróleo na Líbia, pois o governo pressionou as empresas a empregar apenas mão-de-obra líbio-árabe.

No verão de 1963, a comunidade testemunhou um evento horrível. Halfalla Nahum, de 84 anos, um dos judeus mais proeminentes do país, foi assassinado em sua residência, em Trípoli. Uma gangue árabe foi treinada por agentes estrangeiros para atacar especificamente as personalidades judias.

O êxodo

A partida dos últimos judeus da Líbia em 1967 foi a culminação dos anos de crescente nacionalismo, das políticas anti-judaicas e anti-Israel adotadas por um governo fraco que tentava apaziguar os nacionalistas influenciados por Nasser.

Para os judeus da Líbia, a florescente economia e a confiança no rei que, apesar de tudo se mostrava amigo, fizeram com que permanecessem até então no país, apesar da progressiva deterioração de sua situação. A guerra árabe-israelense de 1967 foi apenas o gatilho para o inevitável.

Em todo o mundo árabe, durante o mês de maio, a mídia deslanchara uma campanha contra os judeus e Israel. Em junho, as mesquitas incitavam ao jihad contra eles.

O dia 5 de junho iniciou-se normalmente em Trípoli, mas com o passar das horas, quando as notícias sobre o ataque de caças israelenses e a aniquilação da força aérea egípcia se ouviram no rádio, o que se iniciara como demonstrações da “Semana da Causa Palestina” logo se transformou em violentos ataques aos judeus. Uma multidão enfurecida lançou-se contra lojas e residências judaicas, provocando incêndios, destruição e massacres. No mesmo dia, mais de 60% da vida comunitária e das propriedades foram destruídas, dez pessoas foram mortas e muitos foram vítima de descontrolada violência.

Ao perceber que a situação estava fora de controle, o governo procurou retirar os judeus da cena. Os que viviam no Hara foram levados por militares em custódia protetora, para fora da cidade, e outros se protegeram com barricadas em suas próprias casas, com reforço policial. Contudo, a situação em Trípoli era caótica e em Benghazi em nada diferia. Em 11 de junho, um avião com 130 passageiros, em sua maioria judeus, aterrissou em Roma. Um dos passageiros declarou ao descer do avião: “Estamos vivos por milagre. Desde o irromper da guerra, os líbios não nos deram trégua. Vieram atrás de nós mesmo em nossas casas, por trás das barricadas...”.

Preocupado com a situação, o presidente da comunidade judaica enviou uma carta ao primeiro-ministro líbio sugerindo que permitisse aos judeus deixar o país “até que os ânimos se acalmassem”. A carta, ao que tudo indica, serviu para dar ao governo uma saída “honrosa” do impasse no qual se encontrava. O governo sabia que para restaurar a ordem no país teria que expulsar os judeus, mas temia as repercussões no Ocidente a esse tipo de ação.

Assim sendo, no dia 20 de junho, a polícia passou em todas as casas judias para recolher documentos e, assim, emitir vistos de saída e documentos de viagem para todos os que quiseram partir. O governo dera ordem ao Departamento de Emigração para trabalhar, sem interrupção, e atender todos os pedidos de viagem.

Cerca de 5 mil judeus, praticamente toda a comunidade, deixaram a Líbia para a Itália em 1967. Em virtude dos conflitos, os primeiros vôos organizados pelo governo começaram a partir no final de junho. Acredita-se que para pagar a evacuação o governo líbio tenha utilizado os fundos que a comunidade judaica tinha “em custódia”.

Muitos dos que partiram ainda se iludiam, julgando que sua ausência seria temporária e que, em algum momento futuro, retornariam para lá continuar a vida. Ou, na pior das hipóteses, voltariam para liquidar suas propriedades. No entanto, ficou claro nos meses que se seguiram que a vida judaica na Líbia chegara ao fim, definitivamente.

O golpe de Kadafi

Em 1º de setembro de 1969, Muamar Kadafi, um tenente do exército, armou um golpe durante uma ausência do rei Ídris. As consequências da tomada de poder por Kadafi logo se tornaram óbvias tanto para os poucos judeus que haviam ficado como para aqueles que um dia pretendiam voltar. Em novembro do mesmo ano, os judeus líbios sofreram violência física e abuso enquanto os de nacionalidade estrangeira foram espancados e levados à prisão.

Logo após o golpe, a mídia inicia uma campanha exigindo o confisco de todos os bens de judeus que tinham deixado o país. El-Raid, que se tornara o órgão oficial do novo governo, escreve: “Confisquem os bens dos judeus... e removam seus cemitérios imediatamente, jogando nas profundezas do oceano os corpos de seus mortos... Somente assim o ódio do povo líbio na Líbia poderá ser saciado”.

Os cemitérios judaicos foram de fato aplanados sem dar às famílias a oportunidade de remover os despojos de seus entes queridos. Eram quatro cemitérios em Trípoli, um em Benghazi e 16 em pequenas cidades. Com esse ato, o regime de Kadafi apagou para sempre o passado judaico da Líbia. Pode-se dizer o mesmo das 78 sinagogas que foram convertidas em mesquitas ou, como no caso da Sinagoga Central de Benghazi, em uma igreja copta. Outras 84 sinagogas foram destruídas – 64 em Trípoli, três em Benghazi e 17 em cidades do interior.

Em 1970, o regime de Kadafi introduz novas leis para fortalecer a posse sobre as propriedades de judeus. O ditador líbio chegou a prometer uma indenização pelo confisco dos bens judaicos, tanto os particulares como os comunitários, com títulos do governo pagáveis em 15 anos. No entanto, já transcorreram 41 anos e nenhum judeu recebeu qualquer ressarcimento .

Em 10 de outubro de 2003, a Líbia viu o último judeu abandonar seu território. Rina Debash, uma senhora de 81 anos que vivia em um asilo em Trípoli, finalmente recebeu permissão para partir, depois que seu sobrinho, David Gerbi, psicanalista que vive em Roma, interveio junto às autoridade italianas e líbias.

David Gerbi retornou à Líbia, este ano de 2011. Depois da morte de Khadafi, com a subida ao poder do Conselho Nacional de Transição, ele tentou reabrir a Sinagoga Dar Bishi em Benghazi, fechada desde 1967. Mas, sua ação provocou um forte protesto popular, na véspera do último Yom Kipur. Após a tentativa de invasão do hotel em que ele estava hospedado por manifestantes que portavam cartazes com dizeres como “Não há lugar para os judeus na Líbia”, o Conselho Nacional de Transição pediu que ele deixasse o país.

Até hoje, diferentemente de outros países do Oriente Médio e Norte da África onde ainda vivem alguns judeus, na Líbia não restou um judeu sequer.

Bibliografia:
Prof. Roumani,Maurice M., The Jews of Libya: Coexistence, Persecution, Resettlement, Sussex Academic Press, 2008.
Prof. Roumani,Maurice M., The Final Exodus of the Libyan Jews in 1967, artigo publicado no Jewish Political Studies Review 19:3-4, 2007
Lybia: An Extinct Jewish Community, Beth Hatefutsoth, The Nahum Goldmann Museum of the Jewish Diaspora.
De Felice, Renzo, Storia degli ebrei italiani sotto il fascismo, Einaudi, 1993