Morashá
O Brilho das sinagogas de Veneza Foto Ilustrativa

O Brilho das sinagogas de Veneza

No gueto de Veneza, cinco sinagogas barroco-renascentistas retratam a chamada Idade de Ouro do judaísmo veneziano. A suntuosidade de seus interiores provoca intensa emoção nos visitantes.

Edição 51 - Dezembro de 2005


Dentro do gueto, no perímetro composto por três bairros interligados - Ghetto Nuovo, Vecchio e Nuovissimo - os judeus criaram uma comunidade heterogênea composta por italianos, franceses, asquenazitas, levantinos, espanhóis e portugueses, assim como conversos e visitantes chegados de todas as partes do mundo judaico.

A falta de espaço era um problema geral. Um recente estudo arquitetônico ressalta o fato de que, durante alguns períodos, não haver espaço suficiente para todos os seus habitantes se deitarem ao mesmo tempo. Segundo os dados mais conservadores - pois há quem sugira números que chegam ao triplo destes - em 1560 havia 1.424 judeus vivendo no gueto. No século seguinte esse número teria chegado a 1.600. Impossibilitado de se expandir horizontalmente, o gueto cresceu para cima. Os prédios tornaram-se mais altos e os apartamentos, menores. Andares eram construídos acima dos já existentes e as casas de dois pisos viram-se acrescidas de até oito andares - em certos casos, com um pé direito de menos de dois metros de altura.

Se a riqueza dividia o gueto horizontalmente, determinando em que andar alguém podia viver e de quantos metros podia dispor, a etnia o dividia verticalmente e determinava como um judeu passava seu dia. Para as autoridades venezianas, eles estavam separados em duas Nações: os alemães e os levantinos-ponentinos. Mas esta divisão legal não refletia a complexidade da comunidade. A Nação Alemã incluía, além de judeus asquenazitas originários de países de língua alemã, também italianos e franceses. Os levantinos e ponentinos constituíram cada um sua própria comunidade. Longe de estimular a uniformidade, os estreitos perímetros do gueto parecem ter levado cada grupo a uma reiteração de suas diferenças culturais, formando uma pequena sociedade dentro de outra.

As sinagogas, chamadas de Scuole (literalmente, escolas, "casas de ensino"), constituíam o centro da vida do gueto e do judeu veneziano. Era para onde todos se dirigiam, diariamente, após serem despertados pelo "Shomer la-Boker" (guardião da manhã), com uma batida na porta, antes do amanhecer. E cada grupo estabeleceu uma sinagoga, centro de convergência e principal manifestação de sua identidade.

As primeiras sinagogas do Ghetto Nuovo foram construídas nos andares mais altos. Em parte por questões de segurança, mas também porque a solução atendia as especificações da lei judaica e as determinações da Sereníssima. Pela lei judaica, uma sinagoga deve ser construída "na parte alta da cidade", num local onde o céu e as estrelas sejam visíveis para os freqüentadores do Beit Haknesset. A localização satisfazia também as imposições venezianas, que exigiam que nas fachadas não houvesse qualquer decoração indicativa de uma sinagoga. As autoridades venezianas exigiam, ainda, que em seu interior não fossem usados materiais "nobres", como o mármore; mas apenas os considerados "pobres", como a madeira, e as pinturas trompe d'oeil, imitando o marmorizado.

O barroco chegou a Veneza no século XVI, determinando, grandemente, o estilo de edifícios, igrejas e também das sinagogas da cidade. Na arquitetura barroca, na busca da emoção e harmonia, os artistas lançavam mão principalmente de cores, texturas, jogos de luz e sombra, além de buscar o melhor aproveitamento do espaço. Grandes janelas permitiam a entrada de luz natural. Pinturas nos tetos e nas paredes davam uma incrível ilusão de movimento e ampliação de espaço, produzindo efeitos visuais de intensa beleza, que podem ser admirados até hoje nas sinagogas venezianas.

Ao atravessar a ponte e entrar no Ghetto Nuovo pelo escuro "sottoportego", uma passagem subterrânea tipicamente veneziana, chega-se ao Campo do Gueto Novo, a ampla praça em volta da qual estão três sinagogas, localizadas no topo dos edifícios pré-existentes e conectadas por uma série de passagens que sobreviveram aos séculos. Têm fachadas discretas, mas interiores belíssimos, jóias raras da arquitetura renascentista barroca.

Os judeus asquenazitas inauguraram a Scuola Grande Tedesca, a primeira sinagoga do gueto, em 1528-29, como atesta uma inscrição em hebraico. Atualmente quase nada resta da obra original do século XVI, de um arquiteto anônimo, pois foi amplamente restaurada em 1732-33 e, novamente, em 1860. O que hoje se pode admirar são elementos decorativos dos séculos XVII e XVIII. A sala do culto tem o formato de um trapézio e é bastante harmoniosa, graças ao uso de recursos visuais e arquitetônicos. Ao se olhar atentamente a sacada da elegante e suntuosa galeria das mulheres, percebe-se que o efeito oval foi conseguido através de técnicas de trompe d'oeil, que minimizam o formato assimétrico da sala. Recentemente restaurada, a galeria é uma verdadeira preciosidade, com suas colunas estilizadas, em madeira folheada a ouro. Todas as paredes da sala, na parte inferior, são revestidas de cerejeira trabalhada, enquanto a parte superior é de faux marble, ou seja, uma pintura que imita o mármore. Para dar maior unidade ao conjunto, por todo o perímetro da sala estão escritos os Dez Mandamentos, em letras douradas e fundo vermelho.

Magníficos são o Aron ha-Codesh e a Bimá, ambos folheados a ouro. A porta da Arca é decorada em um relevo, estilizado retratando a árvore da vida. No projeto inicial, que seguia a tradição asquenazita, a Bimá estava no centro do recinto, mas durante a reforma do fim do século XVIII esta foi colocada na frente, bem diante do Aron Ha-Codesh, adotando a tradição seguida por todas as sinagogas venezianas. A Scuola Tedesca funcionou regularmente até 1917 e, atualmente, é pouco usada. Passou por várias restaurações, tendo sido a mais recente entre 1975 e 1979.

A alguns metros da Grande Scuola Tedesca pode-se notar uma pequena cúpula no alto de um edifício - é a Scuola Canton, erguida em 1531-32. Foi provavelmente fundada por judeus da Provença, que decidiram separar-se dos asquenazim alemães. O nome Canton parece também indicar que eram judeus franceses, pois num antigo mapa de Paris, do século XVII, o gueto dos judeus é chamado Canton des Juifs. A sinagoga foi reformada em 1736, quando se introduziu a estrutura barroca e os elementos em estilo rococó.

O interior da Sinagoga Canton é harmônico e elegante. O ângulo de entrada de luz natural, que penetra através das grandes janelas, foi cuidadosamente estudado para que seus reflexos produzissem o efeito chiaroscuro, tipicamente barroco. Oito medalhões com temas bíblicos, pintados em têmpera, podem ser vistos ao longo das paredes de madeira entalhada e dourada. A Arca Sagrada e a Bimá são folheadas a ouro, ricamente decoradas e mais sofisticadas, em seus enfeites, do que na Scuola Tedesca. Atenção especial foi dada aos detalhes e às cores. Esta foi a primeira sinagoga a posicionar a Bimá (também chamada de Tebá) e a Arca, uma em frente à outra, nas duas extremidades da sala. Este tipo de organização do espaço interno, encontrado nas sinagogas da Provença, sul da França, foi adotado em Veneza. A Scuola Canton foi reaberta ao público em 1989, depois de uma longa restauração iniciada vinte anos antes.

A Scuola Italiana, terceira sinagoga do Ghetto Nuovo, foi fundada em 1575. Congregava os judeus italianos que queriam seguir seu próprio rito. Restaurada em 1739-40, é a menos elaborada e a mais austera das sinagogas de Veneza. É, contudo, a mais proporcional e de maior luminosidade. Na madeira de suas paredes há inscrições em ouro sobre pedra preta.

É no Ghetto Vecchio, no Campiello delle Scuole, que estão localizadas as duas sinagogas sefaraditas: Scuola Grande Spagnola, dos ponentinos, e Scuola Levantina. Nada resta das sinagogas originais, do século XVI, e o que se pode admirar, hoje, data da metade do século XVII, quando foram reconstruídas. Infelizmente, nenhum documento ou inscrição dá a data exata de sua construção.

A elegância exterior destas casas de oração reflete a época de calma e estabilidade vivida pelos judeus de Veneza, no século XVII. Um cronista inglês que visitou o Gueto Vecchio, em 1607, descreveu os judeus da Nação Levantina-Ponentina da seguinte forma: "... entre muitas mulheres judias, algumas eram as mais lindas que eu vi em minha vida... e tão elegantes com seus vestidos... suas correntes de ouro e seus anéis com pedras preciosas, com as quais certas condessas inglesas teriam dificuldades de competir. Vestiam roupas com longas e maravilhosas caudas, como as usadas por princesas... isto mostra a riqueza de alguns desses judeus...".

Segundo a tradição oral, a Scuola Levantina foi erguida em 1538, três anos antes do ingresso oficial dos judeus dessa origem no Ghetto Vecchio, no mesmo local que está ainda hoje. Um documento de 1680 atesta a demolição da sinagoga de então para a construção de uma de maiores dimensões.

Edifício mais elegante de todo o gueto, foi a única projetada e erguida para ser sinagoga. Estudiosos acreditam que a Scuola Levantina foi idealizada e construída por Baldassare Longhena, o mais famoso arquiteto veneziano do século XVII. Seu estilo está presente na fachada, mais grandiosa do que a de qualquer outra no gueto. A sala principal, retangular e muito luminosa, é extraordinariamente rica em elementos decorativos, cujo uso era, até então, proibido por lei. A Bimá e o teto são de nogueira tingida de preto. As paredes, decoradas com dourações tipicamente barrocas, são revestidas de tecido adamascado, de cor vermelha. A suntuosa Arca Sagrada, ornada com mármores raros e colunas de mármore cinza, em estilo corinto, lembra a da Scuola Spagnola. Colocada em frente à Arca está a Bimá, que constitui a estrutura mais imponente de toda a sinagoga. A tradição a atribui ao italiano Andrea Brustolon, famoso mestre no entalhe do ébano, cuja obra é a expressão do rococó veneziano.

No andar térreo do edifício da Scuola Levantina funciona um midrash: a Scuola Luzzatto, construída em 1836. Localizada originalmente no Ghetto Nuovo, foi transferida para esse local. Sua Arca Sagrada, ao gosto renascentista e folheada a ouro sobre fundo verde é, provavelmente, a mais antiga do gueto. Foi restaurada pela primeira vez em 1950 e, posteriormente, entre 1974 e 1981, graças à organização nova-iorquina "Save Venice".

A Scuola Grande Spagnola, a de maior porte e mais conhecida dentre as sinagogas venezianas, está localizada no fim da pequena praça Campiello delle Scuole. Esta sinagoga, da Nação Ponentina, foi fundada por volta de 1580, porém, infelizmente não há documentos ou placas comemorativas que possam atestar com exatidão essa data. Foi reconstruída na primeira metade do século XVII e o historiador Cecil Roth, baseado em uma tradição oral, situa a data da atual sinagoga em 1635.A fachada, de linhas simples mas elegantes, não prepara os visitantes para a sua harmoniosa beleza. Sua impressionante suntuosidade revela a mão de um grande arquiteto. Estudiosos concordam que o projeto e obra são de Baldassare Longhena ou de seu círculo de discípulos e colaboradores. Da Scuola Longhenina é seguramente a magnífica Arca, feita em madeira folhada a ouro e mármore. Suas portas, datadas de 1755, são cobertas por uma parochet (cortina) que pode ser de brocado ou veludo, ricamente bordados. A Bimá, em madeira entalhada e colunas de mármore, localiza-se, como nas demais sinagogas da cidade, na parede em frente à Arca. Particularmente linda é a decoração do teto, com relevos em madeira e gesso e lindos candelabros de bronze. A galeria das mulheres, inspirada na arquitetura dos teatros venezianos, confere unidade e harmonia à sala de culto. Seu formato elíptico permite que suas freqüentadoras acompanhem as orações.

A sinagoga vem sendo usada ininterruptamente, até hoje. Era em seu interior que a comunidade recebia importantes delegações estrangeiras, príncipes e dignitários. Quando as diferentes nações se uniram para formar a comunidade judaica, a Scuola Spagnola se tornou o centro oficial da vida comunitária. Atualmente é usada na primavera e verão, quando o clima é ameno. No inverno é feito um rodízio com a Scuola Levantina, a única com aquecimento interno. Numa das paredes da entrada está a lista dos judeus deportados e exterminados pelos nazistas.

O gueto inclui também o Museu Judaico, onde podem ser vistos objetos rituais feitos ou usados em Veneza, no passado, entre os quais kearot para Pessach e bessamin (caixas de especiarias) para a cerimônia da Havdalá, ao término do Shabat. O Museu é responsável também pela manutenção de três das cinco sinagogas do gueto, entre as quais, a Scuola Tedesca, localizada à sua esquerda.

O gueto abriga ainda o lar de idosos Casa di Riposo, hoje com apenas dez residentes. Ao lado desse asilo está o Memorial do Holocausto, projetado pelo escultor Arbit Blatas. Na praça próxima à instituição, os nazistas reuniam os judeus para a "Grande Viagem". Um dos monumentos é um painel de bronze representando o Último Trem; e o outro, também nesse metal, revela a brutalidade dos asseclas de Hitler contra os judeus indefesos.

Bibliografia:

· Roberta Curiel e Bernard Dov Cooperman,

· The Gueto of Venice, Photographs by Graziano Arici ,Tauris Parke Books,

· Jarasse, Dominique, Synagogues ,Adam Biro