Morashá
Judeus no Irã (1ª parte) Foto Ilustrativa

Judeus no Irã (1ª parte)

A saga dos judeus do Irã é um dos capítulos mais importantes e mais obscuros da história judaica. Acredita-se que 25 mil ainda vivem no país, governados por um presidente que não se cansa de repetir que o Holocausto não passa de mito e que não esconde seu ódio contra Israel.

Edição 78 - Dezembro de 2012


Localizado no sudoeste da Ásia, o Irã ou Pérsia, como o país era denominado no Ocidente até1935, foi berço de vários impérios poderosos. Foram os gregos clássicos os primeiros a usar o termo Pérsia, derivado do nome de uma região ao sul do Irã chamada de Pars ou Fars, indicando todo o planalto iraniano.

O interesse pela história do Irã, em geral, e dos judeus iranianos, em particular, tem crescido à medida que o país se torna o epicentro das preocupações e atenções do mundo. A riqueza do material e a limitação de espaço torna difícil traçar a história dessa milenar comunidade em uma única edição, que, portanto será publicada em duas partes.

Nos anos em que o Xá Reza Pahlevi reinava sobre o país, época de ouro dos judeus iranianos, lá viviam cerca de 80mil judeus e constituía então a comunidade mais próspera do mundo judaico. Com o advento da Revolução Iraniana, em 1979, e a subida dos aiatolás ao poder, 60% dos judeus deixaram o Irã. Apesar do crescente interesse, são poucos os estudos acadêmicos abrangentes sobre a vida dos judeus iranianos, cuja presença no país data de mais de 2.700 anos. Importantes eventos da história judaica ocorreram em território iraniano ou enquanto a Terra de Israel estava sob domínio persa. Poucos, porém, foram os períodos de bem-estar e tranquilidade.  Atualmente se tem procurado resgatar a história desses judeus. A publicação do livro Esther's Children, a portrait of Iranian Jews, em 2002, faz parte deste esforço. No entanto, uma das obras mais abrangentes já publicadas chama-se “História dos Judeus no Irã” (Tarikh-e-Yahus-e Iran), de 1960, do respeitado historiador judeu iraniano, Habib Levy. Se já eram escassas as informações sobre o passado desta comunidade milenar, desde 2008, então, são pouquíssimas as informações sobre os judeus que vivem no Irã.

Os primeiros judeus

A civilização persa, na realidade, englobou diversos povos que habitaram o planalto iraniano desde o 2º milênio a.E.C.. Durante o 1º milênio antes da Era Comum, ondas de invasores (tribos árias indo-europeias) chegaram ao Planalto, e alguns se fixaram na região: os medas ao Norte, os parsas ao Sul e os partos a Leste.

A maior parte das informações que temos sobre a antiga da Pérsia proveem de inscrições em estelas e monumentos de assírios, egípcios e babilônios, de obras de autores gregos – Heródoto, Ctésias, Políbio e Estrabão –, pois as guerras entre os persas e os gregos se estenderam por vários séculos; dos arquivos dos administradores de províncias sob domínio persa, os sátrapas; e doTanach. Os livros de Ezra e Neemias, de Isaías e de Daniel mencionam a Pérsia e, na Meguilat Esther, temos várias descrições sobre a vida no Império persa na época.

Há inúmeras tradições que situam a origem da diáspora judaica em terras iranianas no início do século 8 a.E.C., quando o Império Assírio investe contra o Reino de Israel. O ano de 722 a.E.C. marcou a derrota final de Israel pelos assírios e a deportação de toda a sua população. De acordo com a tradição, os judeus cativos foram-se assentando em vários lugares, entre outros, em “cidades da Média”(Reis II 17:6). (Algumas cidades do Reino dos Medas – ou Reino da Média, eram então vassalas da Assíria.)

O domínio assírio acabou um século mais tarde, com o aparecimento do Império Neobabilônico. Em 611 a.E.C., após o Reino de Judá se render aos babilônios, 10 mil de seus mais notáveis cidadãos são deportados para a Babilônia. O Livro de Esther relata que Mordechai e Esther descendiam de um desses judeus. Vinte anos mais tarde, os exércitos babilônicos de Nabucodonosor II marcham novamente contra Judá. No ano de 590 a.E.C., entram em Jerusalém, destroem o Grande Templo e levam, novamente, os judeus cativos para a Babilônia. Nem todos, porém, lá ficaram – alguns se assentaram em outros locais, entre eles, a Média e a Pérsia.

O império de Nabucodonosor, como previra o profeta Daniel, tinha seus dias contados. Em 539 a.E.C., Ciro de Anshan entra vitorioso na Babilônia. Há uma tradição que afirma que, na ocasião, Ciro teria contado com a ajuda dos judeus da cidade.

Descendente da dinastia aquemênida, Ciro, o Grande, era rei de Fars ou Persis, um pequeno reino no sudoeste do Irã quando começou a estender seus domínios. O Império Persa por ele estabelecido duraria até 330 a.EC. e foi o maior de toda a história do Oriente. Como era costume persa, o Rei dos Reis, como era chamdo o imperador, governava seus dominios a partir de várias capitais: Pasárgada, Susa e Ecbátana, sendo Persépolis a capital religiosa.

Ciro, o Grande, tem um papel importante na história de nosso povo. Para os judeus da época, era a pessoa designada por D’us para cumprir a profecia do profeta Jeremias (29:14), segundo a qual os judeus seriam resgatados de todas as nações e poderiam voltar para a Terra de Israel.

De fato, o famoso “Édito de Ciro” (538 a.EC) deu aos judeus exilados permissão para retornar a Eretz Israel, reconstruir o Templo e sua vida nacional. No Livro de Ezra está mencionado o Édito de Ciro (Ezra 1:2-4) e a permissão que o Rei dos Reis deu para que os utensílios de ouro e prata roubados por Nabucodonosor do Templo fossem devolvidos aos judeus e levados de volta a Jerusalém.

No entanto, apesar de livres para voltar à Terra de Israel, nem todos os judeus o fizeram – alguns preferiram permanecer em solo babilônico, outros seguiram os exércitos de Ciro até a Pérsia. Segundo uma tradição, o profeta Daniel também foi para a Pérsia, onde se tornou influente na corte, tendo passado o restante de sua vida em Susa.

Outros imperadores aquemênidas estenderam sua proteção sobre o Povo Judeu. Foi graças à intervenção de Dario, que governou de 522 a 486 a.E.C., que foi concluída a construção do Templo, e foi Artaxerxes quem enviou a Jerusalém os Profetas Ezra e Neemias, ambos importantes na corte persa.
A gratidão dos judeus foi expressa nas subsequentes gerações através de uma determinação da Mishná, segundo a qual uma representação de Susa, a capital dos reis persas, deveria ser colocada no portão oriental do Templo de Jerusalém para lembrar aos judeus sua libertação e a tolerância dos aquemênidas.

No período aquemênida, são estabelecidas inúmeras comunidades judaicas no planalto iraniano e na Babilônia, que, por muitos séculos, foi uma província do Império Persa. Como relata o Livro de Esther, na época do rei Xerxes I, filho de Dario, o Grande, que governou de 486 a 465 a.E.C, havia judeus em “todas as províncias do rei... espalhados entre todos os povos do Império Persa” (Esther 3:8). A maioria vivia, no entanto, em Susa e na província de Pars, especialmente em Shiraz, Luristan e Hamadan. Os judeus de Pars superavam em número os da Babilônia. Havia membros da comunidade também em Isfahan e, segundo a tradição, eram descendentes da tribo de Judá.

A história de Esther

Lida em Purim, a Meguilat Esther, o Livro de Esther, além de relatar acontecimentos ocorridos durante o reino de Xerxes I – a quem se refere como o Rei Achashverosh – revela em detalhes a vida dos judeus no Império Persa.

Com o florescimento da civilização persa, principalmente durante os reinados de Ciro e Dario, os judeus, bem integrados na vida do reino, haviam expandido suas atividades comerciais por todo o Império. Sua influência política era considerável e contavam com a proteção do rei. Muitos tinham cargos na própria Corte e o Livro de Esther relata que “Mordechai era consultado pelo Rei”. No Livro de Esther temos ainda a descrição da corte do rei Xerxes e a magnífica festa real realizada em 484 a.E.C., três anos após ele subir ao trono, na qual estavam presentes os governantes de cada uma das nações então sob domínio persa.

De acordo com o historiador Habib Levy, a saga de Esther e Mordechai não é ficção nem lenda, mas um episódio histórico narrado no estilo bíblico. Em seu livro ele aponta o fato de ser essa, também, a opinião de um historiador iraniano, que assim escreveu em sua obra, Iran-eBastan: “As informações presentes nas histórias de Esther e Mordechai coincidem com as fornecidas por historiadores gregos. A extensão do império da Índia à Etiópia é fato histórico. Os sete conselheiros (incluindo Haman) são os sete juízes imperiais mencionados por Heródoto. E, de acordo com a descrição dos historiadores gregos, o rei Achashverosh e Xerxes são a mesma pessoa “(Pirniya, Iran-eBastan, 1:903).

De acordo com Levy, quando Esther se tornou rainha, Xerxes (Achashverosh) já estava no poder há sete anos, e que 12 anos haviam transcorrido quando Haman pediu ao soberano permissão para aniquilar todos os judeus do Império. A Meguilá conta, ainda, que quando Mordechai, tio da Rainha Esther, toma conhecimento do decreto de genocídio que estava por se abater sobre os judeus persas, pede à sobrinha que interceda junto ao rei, tentando anulá-lo. O Livro relata como ela consegue convencer o rei a salvar os judeus e como o monarca acaba ordenando a execução de Haman. Para que essa milagrosa salvação nunca fosse esquecida por nosso povo, Esther e Mordechai escreveram a Meguilat Esther, que é lida, desde então, por todos os judeus no dia festivo de Purim. Segundo a tradição, após a morte do rei, Esther e Mordechai se mudaram para Hamadan, onde faleceram. Seus túmulos se tornaram um ponto de peregrinação judaica.

O segundo grande Império Persa

Com a derrota dos persas por Alexandre, o Grande, em 333 a.E.C., a dinastia aquemênida chega ao fim. Após a morte do conquistador, a parte oriental de seu império, incluindo a Pérsia, fica sob domínio selêucida. O domínio sobre o Irã foi de curta duração e, diferentemente de outros países, os persas não assimilaram a cultura grega, como outros povos.

Um século após a morte de Alexandre, uma revolta contra os selêucidas na Pártia, região ao nordeste do Irã, cria as bases para o estabelecimento de uma nova dinastia persa. Em seu apogeu, o Império Parta, que durou cerca de 500 anos – de 247 a.E.C.a 224 E.C., estendia-se das margens setentrionais do Eufrates até o leste do Irã, dominando, inclusive, a célebre Rota da Seda, uma rota comercial que ligava a Europa à China.

De acordo com um historiador iraniano, citado por Habib Levy, os partas “demonstravam tolerância em relação às religiões estrangeiras e eram particularmente gentis com a Nação Judaica” (Pirniya, Tarik-e Iran). Durante o período parta, a maioria dos judeus vivia confortavelmente e muitos prosperaram. Desempenharam importante papel no comércio internacional e chegaram a controlar a Rota da Seda.

Autores como Philo e Flávio Josefo, entre outros, atestam em suas obras a existência de grandes comunidades judaicas além do Eufrates e Tigre. Em sua obra, Flávio Josefo faz referência “aos judeus na Babilônia, Média e em outras províncias mais distantes”, afirmando que era “uma imensa multidão, não estimada em números”. A população judaica do império era a maior de toda a Diáspora. Viviam principalmente nas cidades, em alguma das quais chegavam a ser maioria. Na Mesopotâmia e na Babilônia – então províncias persas – havia centros onde toda a população era judia.

As comunidades judaicas tinham certa independência em relação a questões internas que eram decididas por um conselho reconhecido pelo Estado, mas a autoridade suprema para os judeus do Império era o Resh Galuta, “Príncipe do Cativeiro”, que vivia na Babilônia, e a quem os não judeus chamavam de “Príncipe dos Judeus”.

As relações políticas entre os partas e os judeus eram estreitas, tendo eles, em várias ocasiões, lutado lado a lado com os partas contra os romanos. Roma considerava o Império Parta seu arqui-inimigo, pois impedia sua expansão para o Leste além da Capadócia. Após o fatídico ano de 70, quando os romanos arrasaram a cidade de Jerusalém e seu Templo, os judeus sob domínio parta se uniram a eles na luta contra Roma.

O terceiro Império Persa

Uma nova dinastia, os sassânidas, vão tomar o poder em 224 E.C., dominando a região até 651 E.C.O fundador do Império Sassânida, Ardashir I, enfrentou os romanos com vigor renovado e, para conseguir o apoio da população, logo depois de assumir o trono declarou o zoroastrismo1 a religião do Estado e concedeu grande poder ao clero zoroastra – cujos integrantes eram chamados Magi.

Era grande o contingente de judeus que viviam no Irã, pois o Império Persa era mais estável e seguro para quem vinha do Império Romano do Ocidente, que entrara em colapso, e do domínio bizantino, onde os judeus eram perseguidos. Ademais, em várias ocasiões, os reis sassânidas transferiram para a região do atual Irã as populações judaicas de territórios adjacentes. No ano de 364, por exemplo, o rei Sapor II transferiu 7 mil judeus para a província de Isfahan.

Sob os sassânidas, a vida judaica era relativamente confortável e muitos chegaram a ocupar altos cargos no governo. No entanto, é nesse período que surgem os primeiros sintomas da intolerância que iria marcar daí para frente a história dos judeus do Irã. A liberdade religiosa e pessoal que desfrutaram a partir de Ciro, o Grande, desapareceu. Não apenas o zoroastrismo tornara-se a religião oficial, mas também é adotada a crença de que seguidores de outras religiões eram “poluidores do mundo”. Cabia aos seguidores da “verdadeira” fé, os zoroastras, combater e destruir os “infiéis e os hereges“.

Uma política cada vez mais repressiva é adotada contra todos os que não seguiam o zoroastrismo, cuja intensidade dependia do poder e da influência dos Magi sobre o Rei. Por volta do século 3, são registradas as primeiras perseguições contra os judeus. O Talmud cita Rav, um dos grandes mestres da comunidade judaica da Babilônia na época, ao afirmar que “os persas estão destruindo sinagogas“ (Yoma, 10 a). Contudo, ainda eram casos isolados.

A posição dos judeus era, no entanto, melhor do que a dos cristãos, a quem os sassânidas suspeitavam que nutrissem simpatia por seu arqui-inimigo – Roma. Ademais, havia judeus que possuíam grandes fortunas, e, além de poder emprestar vultosas somas ao Rei dos Reis, podiam comprar “proteção“ e favores do Rei e seus dignitários, como reza a tradição persa.

O reinado de Yazdgered I (século 5) foi um dos raros momentos de tranquilidade judaica. O Rei tentou minorar o forte fanatismo religioso da população, garantindo maior liberdade às demais crenças. De acordo com a tradição judaica e persa, Yazdgered I tinha uma esposa judia, filha de um “Príncipe dos Judeus”, de nome Shushana ou Shushandokht, como é chamada pelos persas, que ficou famosa na história de nosso povo por seus esforços em consolidar a vida comunitária judaica.

Mas, quando Yazdgerd II sobe ao trono, em meados do século 5, ao trono, a perseguição aos judeus e cristãos assume proporções e crueldade até então jamais vistas na história do Irã. Ele chegou a proibir aos judeus respeitar o Shabat. Metade da população judaica de Isfahan foi massacrada e as crianças levadas pelo clero zoroastra para servir nos Templos do Fogo.

Primeiro período islâmico

A derrota, em 642, do exército sassânida diante dos invasores árabes muçulmanos, marcou o fim da independência nacional e política da Pérsia.

A chegada do Islã transforma o Irã em todos seus aspectos: políticos, religiosos, sociais e culturais. Politicamente, o país torna-se uma província do grande Império Árabe-islâmico e seu desenvolvimento é ditado pelos califas omíadas e os abássidas, de Damasco e Bagdá, respectivamente.

O islamismo passa a ser a religião de Estado e a Sharia, a lei islâmica, dita doravante a vida da população. Os adeptos do zoroastrismo tornam-se uma minoria religiosa, assim como judeus, cristãos, budistas e maniqueístas.

Todas as minorias religiosas do Irã recebem a condição de dhimmis. O Islã permite aos não muçulmanos viver em domínios islâmicos, desde que reconhecerem a supremacia do Islã e do Estado islâmico que, em troca, garantia-lhes a vida, a propriedade e o direito de praticar sua religião. Em contrapartida, os dhimmis tinham que cumprir uma série de obrigações e pagar tributos especiais, sendo que o mais importante era o jizya. As medidas discriminatórias e o rigor com o qual eram aplicadas, no entanto, variavam muito, dependendo do fanatismo e dos interesses dos governantes.

Gradualmente, a população iraniana adota a religião dos conquistadores,
e já em meados do século 9, a maioria era muçulmana sunita2. Na nova ordem social estabelecida não apenas as minorias, mas os muçulmanos xiitas eram inferiorizados. No entanto, apesar da conversão, o persa é mantido como a língua vernacular por toda a população, fato que foi crucial para a futura determinação cultural do pais.

Durante os primeiros seis séculos de domínio islâmico sobre a Pérsia, o contingente de judeus do país experimentou uma expansão sem precedentes. Como atestam relatos de geógrafos e historiadores árabes e de fontes rabínicas, havia judeus em todas as províncias da Pérsia, sendo as comunidades de Isfashan e Hamadan os centros do judaismo persa.
Os judeus participavam ativamente da vida econômica e comercial do país. Eram comerciantes, banqueiros, lojistas, joalheiros, produtores de vinho. Com o rápido crescimento do comércio internacional sob os abássidas – que governaram o Império Islâmico de 750 até 1258 – emerge uma próspera classe de comerciantes judeus nos principais centros da Diáspora persa-babilônica, como Ahwaz, Isfahan e Shiraz. E, a partir do século 10, há judeus atuando no setor financeiro, muitos a serviço de califas e vizires. Os banqueiros da Corte realizavam grandes operações e vultosos empréstimos, inclusive para o
Rei dos Reis.

Temos informações sobre a população judaica do Irã do século 12, graças aos relatos de dois viajantes – Benjamin de Tudela e Pethahiah de Regensburg. Segundo Tudela, havia, entre outros, 30 mil vivendo em Hamadan, 15 mil em Isfahan, 10 mil em Shiraz e 25 mil em Shiraz e Amadiya, 4 mil em Tabaristan, 7 mil em Susa, 4 mil em Hulvan, 80 mil em Ghazni, 50 mil em Samarkand, na região do Golfo Pérsico.

Em termos comunitários o Resh Galuta, a partir de entãoindicado pelos governantes islâmicos, e os Gaonim das academias talmúdicas na Babilônia ainda eram reconhecidos como as autoridades religiosas supremas pelos judeus persas. Eram eles que indicavam rabinos e dayanim (juízes), e esclareciam dúvidas sobre a Lei judaica. Em sua obra,Tudela atesta que as lideranças judaicas na Babilônia exerciam um poder considerável sobre todas as comunidades ao leste dos rios Tigre e Eufrates.

A queda do califado abássida, em 1258, perante Hulag Khan, neto de Genghis Khan, que conquistou grande parte do sudeste asiático, resultou em uma mudança fundamental na situação dos judeus da Diáspora persa. Os novos governantes abolem a divisão entre muçulmanos e as outras minorias e colocam todas as religiões no mesmo patamar.

Os judeus persas passaram a atuar ativamente no governo, sendo que alguns chegaram a ter grande poder e influência. O clima favorável do período permitiu o desabrochar da literatura judeu-persa, a língua persa escrita em caracteres hebraicos.

Segundo período islâmico

No século 16, quando da ascensão de uma nova dinastia, os safavid, em torno de 30 mil judeus viviam “em todas as cidades da Pérsia”. Haviam sobrevivido, embora enfraquecidos e numericamente reduzidos, às campanhas devastadoras de Tamarleão, o último dos grandes conquistadores da Ásia Central, cujos exércitos haviam arrasado comunidades inteiras.

O período safavid resultou em mudanças religiosas, políticas e sociais que afetaram todos os segmentos da população iraniana, inclusive os judeus. O Xá Esma’il I, fundador da dinastia, fez do xiismo a religião estatal e iniciou a política de conversão forçada da maioria da população sunita. E, o clero xiita – representado pelos mullahs – passa a ter poder e influência praticamente ilimitados em cada esfera da vida.

O poder do clero xiita continuou até 1922 e, após um intervalo de 50 anos, quando os Pahlavi governavam o Irã, voltaram a ter total poder em 1979, com a Revolução Islâmica, e estão no poder até hoje. Foram praticamente 250 anos de teocracia xiita no Irã.

Para os judeus, era o início de tempos difíceis. Os xiitas iranianos fizeram da crença na “impureza ritual” – najas – de todos os infiéis, e, em particular dos judeus, a pedra fundamental de seu relacionamento interreligioso. Historiadores acreditam que a obsessão com o “perigo” de um muçulmano “poluir-se”, tornar-se ritualmente impuro, por causa da “impureza” de um indivíduo de um outro grupo, é virtualmente limitada ao xiismo iraniano e foi influenciada pelas práticas do zoroastrismo. A partir daí e até os dias de hoje, o preconceito de que os judeus são najas fez da vida da comunidade judaica persa uma sequência de humilhações e perseguições.

Com a subida ao trono do Xá Abbas I (1571-1629), a Pérsia saiu do isolamento em que se encontrava. O Xá centralizou o poder, modernizou seu exército e manteve estreitas relações políticas e econômicas com países da Europa. Foi também durante seu reinado que a identidade xiita do estado nacional se consolidou e há esporádicas pressões para forçar as minorias religiosas a se converterem ao Islã.

O fato da Pérsia ter-se tornado um estado nacionalista teve implicações sobre a vida judaica do país. Os vínculos oficiais que as comunidades tinham com as autoridades judaicas da Babilônia foram rompidos. E os judeus de Isfahan, capital da dinastia safavid, assumiram a liderança religiosa e cultural dos judeus persas.

O Rabino-Chefe da cidade, representante oficial perante as autoridades, já não era mais indicado pelo Gaon de Bagdá, como em séculos anteriores. Na época, a população judaica de Isfahan era a maior do país, e havia pelo menos três sinagogas na cidade. Em Kashan havia dez e pode-se presumir que havia pelo menos uma casa de oração em cada vilarejo ou cidade onde havia presença judaica.

O século 17 foi um período de grande sofrimento para os judeus. Uma crônica em judeu-persa de Babai ben Lotf, Ketab e-anusi, descreve detalhadamente as perseguições que sofreram entre 1617 e 1662, com especial ênfase os eventos ocorridos em Kashan, sua cidade natal. Como ocorrera na capital, Isfahan, o Xá deu-lhes a opção de serem devorados por animais ou de se tornarem muçulmanos xiitas. Em sua obra Babai ben Lotf relata como os judeus eram levados às mesquitas, onde deviam recitar a Shahada, profissão islâmica de fé. Após a conversão forçada, eram então chamados de muçulmanos novos e liberados de todas as obrigações que recaíam sobre os judeus, inclusive do pagamento dos altos impostos. Muitos, no entanto, continuavam a seguir secretamente o judaísmo, passando a ter uma vida dupla. Ainda, segundo Babai ben Lotf, as conversões foram de curta duração e, com a subida ao poder do Xá Safi I (1629-1642), os judeus recebem autorização para retornar abertamente à sua religião. A perseguição, no entanto, continuou.

Mais uma vez os judeus da Pérsia recebem a ordem de se converter, e, durante seis anos, tornam-se anussim. Houve algumas comunidades que escaparam dessa onda de anussut – conversões forçadas. Os de Yazd, por exemplo, salvaram-se graças à intervenção das autoridade muçulmanas locais, que reconheciam a importância dos altos impostos pagos pelos judeus para a economia da cidade. Fica claro na obra de Babai ben Lotf que o período de anussut (conversões forçadas) deixou as comunidades judaicas do Irã espiritual e materialmente empobrecidas. Pois, nesse período, é, também, estabelecido o precedente dos judeus terem que pagar às autoridades enormes somas para manter sua liberdade religiosa e, em muitos casos, para que suas vidas fossem poupadas. Cansados de serem perseguidos, muitos deixam o Irã e se estabelecem no Afeganistão, Turkistão, Samarkand e Bukara, e Índia, ao Leste, e Kurdistão e Egito, a Oeste.

Outra crônica em judeu-persa escrita pelo neto de Babai ben Lotf, Babi ben Farhad, Katab-e sargozasht-e kashan dar bab-e ibri va-guyimi-ye-sani, (O Livro dos eventos em Kashan referentes aosjudeus; sua segunda conversão) nos relata o drama e a breve conversão dos judeus de Kashan, entre 1721 e 1731. Babai ben Farhad, que testemunhou a queda da dinastia safavid, a invasão do Irã pelo Afeganistão, pelos russos e pelos otomanos, relata o grande desespero que tomou conta dos judeus nessa época conturbada. No entanto, ainda havia inúmeras comunidades judaicas espalhadas pelo reino que conseguiram manter uma estrutura comunitária autônoma.

No final do período safavid, os mojtaheds (eminentes estudiosos da lei xiita) tornaram-se ainda mais poderosos e independentes do Xá. Reivindicando a prerrogativa de representar os Doze Imãs (Imames) e, portanto, sendo a única fonte legítima de autoridade no reino.

Com o fortalecimento dos mojtaheds e seu virtual domínio de todos os aspectos da vida no Irã, para os judeus, o século 19 foi uma sequência ininterrupta de sofrimento, pois a crença em sua “impureza” – juhud-e najas, levou as autoridades a colocar em vigor uma repulsiva legislação. As leis compiladas durante o reinado de Abbas II, que impunham limitações humilhantes a cada um dos aspectos da vida judaica, acabaram por isolar a população, deixando-a praticamente sem nenhum direito e proteção legal. Havia leis para prevenir qualquer tipo de contato físico entre judeus e muçulmanos, entre outras, proibindo os judeus de andar no meio da rua, usar os banhos públicos muçulmanos, ter lojas nos bazares, entrar em lojas pertencentes a muçulmanos, em especial padarias, tocar qualquer os alimentos e as posses de um muçulmano, comprar frutas frescas.

Havia leis cujo objetivo era rebaixá-los e humilhá-los, como por exemplo: não podiam usar roupas bonitas ou a cor branca,e eram obrigados a usar um turbante diferente do resto da população e um sinal vermelho nas roupas. As casas também deviam ser humildes e as portas de entradas pequenas e baixas para que fossem obrigados se curvar ao entrar. Se um muçulmano insultasse um judeu, esse devia baixar a cabeça e permanecer em silêncio, e, no caso de matar um judeu, a punição para o muçulmano era o pagamento de uma pequena multa. Um judeu convertido ao islamismo poderia ser o único herdeiro de um patrimônio familiar, excluindo os demais familiares que não se haviam convertido ao islamismo xiita. A mais “peculiar” era de que quando chovia, os judeus não podiam sair de casa, pois a chuva que caía sobre um judeu iria “transferir” a impureza aos muçulmanos. Eram obrigados, também, a viver em bairros habitados somente por judeus – os mahalleh, mas isso era inevitável, pois as inúmeras restrições tornavam praticamente impossível e perigoso, para os judeus, viverem fora dos bairros que lhes eram destinados.

Os contatos entre a comunidade persa e o mundo judaico eram esporádicos. Isolados e perseguidos, acreditavam que ninguém parecia se importar com sua sorte. No entanto, na segunda metade do século 19, conseguem um aliado poderoso: os judeus da Europa Ocidental. A partir dessa intervenção, o judaísmo persa começa um novo período de sua história.

 

1         Zoroastrismo -Religião fundada na antiga Pérsia pelo profeta Zaratrusta, a quem os gregos chamavam de Zoroastro, tem seus fundamentos fixados no Avesta e admite a existência de duas divindades (dualismo), representando o Bem (Aúra-Masda) e o Mal (Arimã).

2         Há uma profunda divisão entre muçulmanos xiitas e sunitas, o maior grupo islâmico, e uma diferença entre as crenças e práticas dos dois grupos. Os “sunitas” são seguidores da “Sunnah” – os ensinamentos do Profeta Muhammad, tal como relatada por seus companheiros. A palavra xiita (Shi’a em árabe) é a abreviação da frase histórica “Sh?'atu 'Al?”, cujo significado é “seguidor”, “facção” ou “partido” de Ali, genro de Muhammad, que acreditavam ser a única liderança legítima.

Bibliografia:
Sarshar, Houman, ( editor ) Esther’s Children: A Portrait
of Iranian Jews,The Center for Iranian Jewish Oral
History, 2002
Levy,Habib, Ebrami, Hooshang e Maschke,
George W. Comprehensive History of the Jews of Iran: The Outset of the Diaspora, Mazda Pub, 1999