Morashá
Judeus na Ucrânia no século 20 Foto Ilustrativa

Judeus na Ucrânia no século 20

No início do século 20, os judeus viviam em quase todas as cidades da Ucrânia. Segundo o primeiro censo geral, realizado no Império Russo em 1897, 1 milhão e 930 mil judeus viviam no território da atual Ucrânia sob o domínio dos czares, representando 9,2% do total da população. Os maiores grupos populacionais viviam no oeste e sudoeste do país. Mais de um terço da população judaica da Ucrânia Ocidental e Central ainda vivia em shtetls, onde era maioria absoluta.

Edição 85 - Setembro de 2014


No início do século 20, a Rússia czarista passava por uma grave crise político-social. O império, que desde o final do século 19 vivia uma abrupta transição do feudalismo para o capitalismo e uma rápida industrialização, ainda era governado por uma monarquia autocrática, sistema político arcaico que se chocava com o modelo econômico de capitalismo. Ademais, eram insustentáveis as desigualdades entre a privilegiada e poderosa classe de nobres e o restante da população do Império, composta em sua maioria por camponeses paupérrimos que, até sua emancipação, em 1861, haviam vivido em regime feudal de servidão.

A falta de condições de sobrevivência no campo levara um número cada vez maior deles a abandonar a zona rural. Nas cidades, eles se juntavam às fileiras das descontentes massas operárias urbanas submetidas a condições de trabalho e de vida extremamente duras. A burguesia também estava insatisfeita com o status quo, em especial face aos entraves impostos pelo governo às suas atividades e a falta de acesso à vida política. E, à medida que as ideologias socialistas e liberais iam permeando o país, crescia a convicção de que a situação econômica e social só seria resolvida através de radicais mudanças políticas.

A situação dos judeus russos era a mais precária. Além da pobreza e dos problemas econômicos e sociais, o antissemitismo e os pogroms eram sancionados pelo governo czarista. Os que moravam no território da atual Ucrânia não eram exceção, pelo contrário, pois o ódio dos ucranianos pelos judeus conseguia superar o antissemitismo russo.

Os pogroms de 1881-1884, ocorridos em grande parte em terras ucranianas, e as Leis de Maio haviam abalado profundamente os judeus de todo o Império. Ademais, o czar Nicolau II manipulava o sentimento antijudaico das massas, tentando convencê-los de que todos os “males da Rússia” eram causados pelos judeus. Panfletos e jornais com propaganda antissemita eram impressos, em sua maioria, nas tipografias do governo, inclusive os famigerados Protocolos dos Sábios de Sião, que eram distribuídos por todo o Império.

Entre os judeus também crescia a convicção de que sua situação só melhoraria se houvesse uma mudança política. O despertar social das massas judaicas deu origem a um grande número de partidos socialistas judeus. Entre eles, o Bund e o Poalei Tsion (Trabalhadores de Sion), um partido socialista-sionista. Surge também o Movimento Autonomista (também conhecido como Nacionalismo da Diáspora). Sua meta era criar uma forma secular e modernizada de autonomia nacional judaica na Ucrânia do século 20.

Havia muitos judeus, porém, que acreditavam que não havia futuro para os judeus no Leste Europeu, qualquer que fosse o sistema político. Acreditavam que os judeus só poderiam viver dignamente em Eretz Israel. Os primeiros passos do sionismo moderno foram, efetivamente, dados na Ucrânia, articulados principalmente pelo Movimento Bilu1. Em Odessa, o Movimento Sionista funda uma influente organização, que atraiu grupos de jovens intelectuais de todas as partes da Zona de Residência2. Odessa, que contava com uma numerosa e influente comunidade, tornara-se um centro intelectual judaico. Um grande número de intelectuais e ativistas se reunia em torno do Movimento Sionista e participava ativamente no trabalho de suas instituições. Entre os pensadores sionistas da época se destacavam Lev Pinsker e Achad Ha’am.

A Revolução de 1905

No ano de1905, o descontentamento, as greves e as manifestações que se alastraram por todo Império czarista culminaram na Revolução Russa de 1905. Em janeiro daquele ano, uma marcha espontânea, contando com mais de um milhão de pessoas, dirigiu-se ao Palácio de Inverno do czar Nicolau II, em São Petersburgo. Os manifestantes reivindicavam, entre outros pontos, liberdades civis e o fim da censura. Os guardas do palácio metralharam os manifestantes para impedir que a multidão se aproximasse, originando um terrível massacre que ficou conhecido como “Domingo Sangrento”.

Diante do clima de revolta, o czar lançou um manifesto que garantia liberdades civis básicas e criava a Duma – uma Assembleia Legislativa que congregava representantes de todas as classes sociais e permitia a ação de partidos políticos. Dois anos antes, em 1903, ainda na clandestinidade, o Partido Operário Social Democrata Russo (POSDR), o mais importante dentre os partidos russos, havia-se dividido em dois: o Partido Menchevique e o Bolchevique. Esse acontecimento foi crucial para o futuro da Rússia. Mais moderado, o Partido Menchevique adotara uma interpretação ortodoxa do pensamento marxista e defendia uma reforma política e econômica gradual, com o apoio da burguesia. Por outro lado, o Partido Bolchevique, mais radical e majoritário, defendia uma revolução proletária na qual o governo seria diretamente controlado pelos trabalhadores.

Para os judeus, a crise de 1905 teve consequências dramáticas. O governo czarista passou a instigar a violência contra os judeus e, bandos de rua armados (as Centúrias Negras) atacaram judeus em dezenas de cidades e vilarejos. No período de 1903 a 1907 ocorreram 691 pogroms que deixaram milhares de vítimas. Cerca de 660 ocorreram na Ucrânia e Bessarábia, o mais violento em Kiev. Na época viviam em Kiev cerca de 80 mil judeus. A violência só cessou em 1907, mas continuou a campanha antissemita do governo czarista, incitando o ódio aos judeus.

O caso Beilis

O Caso Beilis, ocorrido na Ucrânia entre 1911 e 1913, foi uma clara demonstração dos sentimentos antijudaicos do governo czarista. No dia de Tisha B’Av de 1911, Mendel Beilis, um judeu de Kiev, é preso sob a acusação de matar um jovem cristão por “motivos religiosos”. A prisão ocorreu dois meses após ter sido encontrado o corpo mutilado de um garoto cristão de 12 anos, Andrei Yushchinsky. Os verdadeiros assassinos – uma gangue de ladrões – já estavam na custódia da polícia, no entanto, as forças reacionárias haviam conseguido que o então ministro da Justiça, I.G. Schcheglovitov, declarasse que o assassinato havia sido perpetrado por “razões religiosas”. A Procuradoria de Kiev manda libertar os verdadeiros assassinos e, publicamente, acusa Beilis e todo o Povo Judeu pelo crime hediondo. Nicolau II, ao receber a notícia da prisão de Beilis, demonstra, publicamente, sua profunda satisfação em saber que um judeu fora acusado.

A imprensa de direita orquestra uma intensa campanha difamatória contra os judeus. Não era a primeira vez, nem a última, que as autoridades os usavam como bode expiatório, nem tampouco era a primeira vez que explorava uma acusação para fins políticos. Mas nunca antes uma campanha de difamação atingira tamanha intensidade. Em outubro de 1913, logo após Yom Kipur, inicia-se, em Kiev, o julgamento de Beilis. Supreendentemente, porém, e apesar das pressões e manipulações, um júri popular, composto em sua maioria por camponeses, declara Beilis inocente. Mas as suspeitas de que os judeus eram “maus e traidores” estavam profundamente arraigadas no subconsciente da população.

A 1ª Guerra Mundial

A Ucrânia foi palco de sangrentas batalhas durante a 1ª Guerra, com intensos combates na Ucrânia Ocidental. A entrada da Rússia na Guerra acelerou o colapso do Império Czarista. Os exércitos do czar, que não estavam preparados para enfrentar o poderio militar da Alemanha, sofrem uma derrota atrás da outra. Na frente ucraniana, à medida que as forças russas iam debandando, seus soldados atacavam as populações judaicas.

Em fevereiro de 1917, a miséria e as derrotas sofridas nos campos de batalha levaram o povo a se revoltar. Em 15 de março, as forças de oposição (liberais, burguesas e socialistas) depuseram Nicolau II, dando início à Revolução Russa de 1917. Nessa primeira fase, conhecida como Revolução de Fevereiro ou Revolução Branca, foi estabelecida uma república de cunho liberal. Mas teve vida curta, pois, em novembro daquele mesmo ano, o Partido Bolchevique derrubou o governo provisório. A Revolução de Outubro, como é chamada, impôs o governo socialista soviético.

A implantação do regime bolchevique desencadeou uma guerra civil. Para os judeus, com a Revolução Bolchevique foram abolidas as restrições que os confinavam à “Zona de Residência”. Apesar dos bolcheviques serem contrários à religião – fosse ela cristã ou judaica – eles se opunham, em teoria, ao antissemitismo e a qualquer forma de discriminação contra os judeus ou contra qualquer outra minoria. Em 1918 o Conselho dos Comissários do Povo adotou um decreto condenando todo tipo de antissemitismo e conclamando os operários e camponeses a combatê-lo.

Uma batalha pela Ucrânia – 1917 a 1921

A 1ª Guerra Mundial viu o colapso dos Impérios Austríaco e Russo e o crescimento do movimento nacional pela autodeterminação da Ucrânia. Logo após a Revolução Bolchevique inicia-se, na Ucrânia, uma luta militar pelo controle da região entre forças ucranianas nacionalistas pró-independência e os bolcheviques ucranianos que queriam estabelecer na região o domínio soviético. Uma luta semelhante à que hoje está sendo travada na região.

Do conflito participaram, também, forças militares de outras nações: o Exército Branco anti-bolchevique e o Exército Vermelho que se enfrentavam na guerra civil russa, os exércitos da Alemanha, da Áustria-Hungria e da Polônia, além de vários bandos anarquistas de cossacos.

Os ucranianos nacionalistas estabeleceram-se em Kiev, onde criaram um Conselho Nacional (Rada), que, em janeiro de 1918, proclamou a independência da República Nacional da Ucrânia (RNU) e sua separação da Rússia. As facções ucranianas bolcheviques, no entanto, boicotaram as iniciativas do governo e instigaram conflitos armados, querendo estabelecer o poder soviético na região.

Em dezembro de 1917, um exército de 30 mil homens da Guarda Vermelha3 russa pôs-se em marcha em direção à Ucrânia para ajudar as facções pró-soviéticas.

A República Socialista Soviética da Ucrânia(RSSU), pró-soviética, é criada em 1919, tendo Cracóvia, ou Kharkiv, como capital. Naquele mesmo ano, o território ucraniano é invadido a leste pelos soviéticos e, em 1920, a oeste pela Polônia. Em 1921, o Exército Vermelho já havia conquistado dois terços da Ucrânia e a RNU é anexada à RSSU.

A luta pela independência nacional ucraniana terminou com uma Ucrânia dividida e subjugada por outras nações. A República Socialista Soviética da Ucrânia passa a integrar a ex-URSS. E a Polônia anexa a República Nacional do Oeste da Ucrânia, inclusive Lviv, que havia sido criada na Galícia, em 1918.

Com esse desmembramento do território ucraniano, um número considerável de judeus ficou sob domínio polonês, mas a grande maioria, mais de 1,5 milhão, ficam sob domínio soviético.

Os judeus e a guerra pela independência

A guerra pela independênciaconstitui um capítulo especial na história dos judeus da Ucrânia. Muitos haviam aderido ao movimento nacionalista ucraniano, o que fez com que fosse substancial a participação judaica na luta pela independência ucraniana. Na Galícia Oriental, por exemplo, ucranianos e judeus lutaram conjuntamente contra as forças polonesas.

Os partidos políticos judaicos das mais diferentes ideologias – dos socialistas judaicos aos revisionistas sionistas – uniram-se à Rada. Querendo melhorar as relações com a população judaica, e manter seu apoio na luta pela independência, políticos ucranianos comprometeram-se a dar aos judeus igualdade plena, direitos comunitários e individuais, e uma autonomia comunitária. Prometeram, também, a indicação de um ministro de Assuntos Judaicos no Gabinete ucraniano, a destinação de uma parcela de impostos estaduais para programas educacionais judaicos e outros propósitos, e a declaração do iídiche como um idioma oficial do Estado.

Após a declaração de independência da República Nacional da Ucrânia, os judeus passaram a ser representados na Rada por 50 delegados; foi estabelecida uma Secretaria de Assuntos Judaicos, nomeado um ministro e aprovada uma lei sobre “autonomia pessoal nacional”. Mas, em julho de 1918, a autonomia foi revogada e a Secretaria dissolvida.

Ademais, desde outubro de 1917 uma onda de violência contra a população judaica alastrara-se por toda Ucrânia, só terminando em maio de 1921. Nesse período, foram atacadas 530 comunidades judaicas, na sequência de 887 pogroms, e mais de 156 mil judeus foram brutalmente assassinados. Todas as facções que lutaram durante a guerra pela independência da Ucrânia participaram, em maior ou menor grau da violência, mas a maior parte dos pogroms, cerca de 40%, foram perpetrados por tropas ucranianas.

Durante o governo nacionalista de Symon Petliura (1919-1920), os pogroms foram uma constante. Ao invés de coibir suas tropas, Petliura fechou os olhos para a violência antijudaica. Em 1926, ele foi assassinado em Paris, onde se refugiara, por um judeu da Bessarábia, Sholem Shvartsbard, que o considerava responsável pelos pogroms. Após um julgamento polêmico e controverso, ele foi libertado. (Ver Morashá 77). Hoje na Ucrânia Petliura é considerado um herói nacional que lutou pela independência ucraniana.

A Guerra Civil de 1918-21 trouxe em seu bojo a maior violência, não vista desde o século 17, contra os judeus da Ucrânia. E, apesar desses horrores hoje parecerem mínimos perante o terror do Holocausto, e, serem às vezes relegados ao esquecimento, foram das piores catástrofes da História Judaica.

Poder soviético

Sob domínio soviético, a República Ucraniana Socialista Soviética, a Ucrânia, passou a ser uma das 15 repúblicas, que, em 1922, formaram a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Era a segunda mais poderosa república, econômica e politicamente, superada apenas pela República Socialista Federativa Soviética da Rússia. No entanto, apesar disso, ou talvez por causa disso, era vítima de um tratamento particularmente duro por parte do governo central.

Viviam, então, na Ucrânia 1,5 milhão de judeus, que representavam cerca de 5% da população total. E, apesar de 300 mil judeus terem deixado a República para se estabelecer em outras partes da então União Soviética, representavam 60% do total dos judeus que viviam na URSS.

Era grande o número deles nos grandes centros urbanos, principalmente, em Kiev, Mykolaiv, Kharkiv, Donetsk, Odessa e Dnipropetrovs, que abrigava então a segunda maior população judaica da Ucrânia, depois de Kiev. Na década de 1920, os judeus já representavam 22% da população urbana ucraniana.

O iídiche era o idioma falado por 97% dos judeus locais em 1897 e, em 1926, 76,3 % ainda o consideravam a língua-materna. Nos primeiros anos do domínio soviético, a Ucrânia (juntamente com a Bielorrússia) tornou-se um centro de cultura iídiche desprovida de qualquer conteúdo religioso. Escolas, teatros, jornais e editoras foram fundados como, também, o “Instituto Judaico de Cultura Proletária na Ucrânia”, vinculado à Academia Ucraniana de Ciências. Coleções judaicas etnográficas foram criadas e ampliadas. No final da década de 1930, durante os expurgos stalinistas, quase todas essas instituições foram eliminadas.

A Ucrânia sempre foi vista com desconfiança por Moscou. Os líderes soviéticos sabiam que a nacionalidade e a língua ucraniana eram um elemento de grande peso, e que teriam que enfrentar uma contínua resistência e incessantes insurreições, a menos que fizessem grandes concessões à autonomia cultural ucraniana.

No início da década de 1920, o regime soviético, querendo harmonizar seu relacionamento com as repúblicas da ex-URSS, adotou uma política chamada korenizatsiya, cujo significado era “nativização” ou, no sentido literal, “arrancar raízes”. Sob o lema “nacionalista em sua forma, mas socialista em seu conteúdo”, encorajava o desenvolvimento das artes e da cultura das diversas minorias, principalmente dos idiomas reprimidos pelos governos czaristas. Permitia, também, às lideranças locais, ocuparem postos administrativos nos governos e na burocracia das respectivas repúblicas. O objetivo era prevenir o desenvolvimento de movimentos antissoviéticos.

Apesar da ideologia marxista questionar a legitimidade de uma identidade nacional judaica, os judeus foram incluídos na korenizatsiya. Essa política gerou conflito entre os judeus e os ucranianos. Sendo eles a nacionalidade predominante, os soviéticos encorajaram a “ucranização” da República. Entre outros, o idioma ucraniano tornou-se o idioma oficial e aumentou o percentual de ucranianos no Partido Comunista local.

Os judeus optaram por se aproximar dos russos, uma minoria nessa república, mas a nacionalidade dominante na então URSS. Essa aproximação e o fato de muitos judeus terem tido participação na Revolução Russa fez com que eles passassem a ser associados com os bolcheviques e a opressão soviética. Surge, então, mais um elemento no imaginário antissemita ucraniano: a figura do “judeu-bolchevique”, isto é, do “opressor judeu-comunista”.

Era Stalinista
1927 a 1953

A partir da subida ao poder de Joseph Stalin, em 1927, a ex-URSS sofreu uma transformação radical. Stalin procurou reformar a sociedade através de um planejamento econômico agressivo realizado através de planos quinquenais, que visavam a coletivização da agricultura e uma industrialização de base acelerada.

Com poder quase ilimitado, seu governo, um brutal regime totalitário, foi marcado por execuções e expurgos múltiplos. Há historiadores que acreditam que o número de vítimas da era stalinista pode ter chegado a 20 milhões. Todas as armas eram utilizadas para eliminar os “inimigos”. Se verdadeiros ou imaginários, isto era irrelevante; a sobrevivência do sistema de poder criado por Lênin e Stalin dependia de sua existência.

Para Stalin, a Ucrânia tornou-se um laboratório de testes para o processo de reestruturação soviética. Ademais, ele estava decidido a eliminar o sentimento nacionalista ucraniano, que considerava uma ameaça ao regime, e pôr um fim “ao problema da lealdade ucraniana dividida”.

É indiscutível o antissemitismo de Stalin, bem como a sua determinação de se livrar, de alguma forma, dos judeus enquanto judeus. Mas, até a década de 1940, ele manteve uma atitude pública cautelosa, já que muitos dos principais bolcheviques eram judeus ou casados com judias. O que não o impediu, no entanto, de perseguir qualquer manifestação do espirito judaico.

Em 1929, Stalin dá início a uma campanha contra a cultura ucraniana e judaica, reprimindo brutalmente os aspectos “nacionais” das duas culturas. O russo, por exemplo, substituiu o ucraniano em todos os estabelecimentos oficiais. Os judeus viram suas instituições culturais, teatros e escolas serem fechados; e as publicações judaicas reduzidas ao mínimo. As atividades religiosas e sionistas tiveram que ir para a clandestinidade. No final da década de 1930, a maioria dos envolvidos na propagação da religião judaica ou do sionismo haviam sido presas.

As perseguições contra opositores políticos, intelectuais e escritores – judeus e não judeus – atingiram proporções absurdas. Milhares foram presos, enviados ao exílio ou executados. Após ter retirado de circulação todas as pessoas que poderiam se transformar em líderes de qualquer movimento de resistência, Stalin passa a atacar o campesinato, o real núcleo das tradições ucranianas. A “guerra” travada contra os camponeses ucranianos era, de certa forma, empreendida contra a consciência nacional ucraniana.

Em 1928, ele implantou uma política de requisição compulsória de cereais, que autorizava o governo a se apropriar de todo o cereal cultivado pelos camponeses, pagando um preço muito abaixo dos custos de produção. Em seguida, deu início à coletivização forçada das propriedades agrícolas. Foi na Ucrânia que a política de coletivização deparou-se com a mais violenta resistência – que não impediu, entretanto, que o processo já estivesse praticamente completo por volta de 1932.

Stalin também impôs metas de produção e de confisco de grãos, se fosse necessário, para atingir tais metas, que só poderiam ser alcançadas caso os ucranianos parassem de se alimentar. O resultado não deve surpreender: a fome se alastrou e por volta de 5 milhões4 de ucranianos morreram de fome entre 1932-1933.

Ainda na década de 1930, as autoridades soviéticas estabeleceram quatro distritos judaicos autônomos no sul da Ucrânia e na Crimeia. Foram implantadas amplas fazendas coletivas, cujos membros eram, em sua maioria, judeus. Sua criação causou mais uma vez um grande atrito entre judeus e nacionalistas ucranianos. As fazendas funcionaram até a 2ª Guerra Mundial, quando forças alemãs as ocuparam e mataram seus habitantes.

A Shoá

Na Ucrânia, entre 1,4 e 1,5 milhão homens, mulheres e crianças foram assassinados – a maioria executados a tiros pelos Einsatzgruppen5.

Para os judeus da República Ucraniana, o pesadelo nazista teve início no dia 22 de junho de 1941, quando a Alemanha deu início à Operação Barbarossa, a invasão da União Soviética. Esse acontecimento foi decisivo no Holocausto, pois deu início ao genocídio sistemático de judeus, com a destruição metódica e organizada de comunidades inteiras, mesmo antes de entrarem em funcionamento as câmaras de gás.

O avanço para o Leste das forças nazistas foi rápido; em apenas dois meses conquistaram a Ucrânia, o leste da Polônia, a Letônia, Estônia e Lituânia, a Bielorrússia e o oeste da República Russa. À medida que os alemães avançavam e forças soviéticas batiam em retirada, milhões de militares e civis – judeus e não judeus – eram evacuados ou fugiam mais para o Leste. Mas nem todos conseguiram. Historiadores acreditam que cerca de 2,4 milhões de judeus – em sua maioria mulheres, idosos e crianças – ficaram presos nas áreas sob domínio nazista.

A Ucrânia foi a primeira das repúblicas soviéticas a ser ocupada pelos nazistas – Kiev caiu em 19 de setembro. À véspera da invasão viviam na República Ucraniana Socialista Soviética (incluindo os recém-anexados territórios da Galícia Oriental e Volínia Ocidental) aproximadamente 2,3 milhões de judeus. Como grande parte deles viviam na região ocidental, eles não conseguiram escapar antes da chegada da Wehrmacht, tampouco conseguiram fugir os judeus que viviam nos shtetls. Apenas os que estavam no sul e na parte oriental da Ucrânia tiveram tempo de fugir. Até recentemente, não havia sido possível confirmar os números. As poucas informações se deviam, em grande parte, à política soviética que procurava ignorar o fato de que a maioria das vítimas dos massacres era composta por judeus.

Desde os primeiros dias da ocupação da Ucrânia, os nazistas iniciaram a perseguição e matança de judeus. Unidades de Einsatzgruppen, passaram a cercar judeus, comunistas e outros grupos e a executá-los a tiros. Eles contavam com a ativa e entusiástica colaboração da população. Os alemães sabiam que, no Leste Europeu, durante séculos, os judeus haviam sido odiados e amaldiçoados, perseguidos e mortos e uma das “tarefas” dos Einsatzgruppen era organizar, entre a população local, grupos de assassinos. Estavam confiantes de que os antissemitas poderiam facilmente perpetrar assassinatos em massa, e estavam absolutamente certos. Sem tal participação, teria sido impossível que as matanças atingissem a escala que de fato tiveram.

Em toda a Ucrânia, antes mesmo de os nazistas iniciarem a matança, a população local foi responsável por sangrentos pogroms. Para muitos ucranianos a invasão nazista foi vista como a libertação do jugo soviético, na percepção de muitos, o “opressor judeu-comunista”. Ainda não se tem certeza se a eclosão desta violência fez parte nas discussões pré-invasão entre a Inteligência Alemã (Abwehr) e membros da Organização de Nacionalistas da Ucrânia (OUN), liderada por Stepan Bandera6. Sob a liderança militante de Bandera, a OUN organizou as Waffen SS Ucranianas da Galícia e as Divisões Nichtengall e Roland, que participaram do assassinato de judeus. (Em 2010, o ex-presidente ucraniano Yushchenko elevou Stepan Bandera a “herói da Ucrânia”, que é hoje o maior ícone político da direita nacionalista). Além desses grupos militantes, milhares de ucranianos se voluntariaram para ajudar os nazistas participando da perseguição e do assassinato de judeus. Milhares se tornaram guardas nos campos de extermínio. O fato de a polícia alemã ter mais de 120 mil membros da polícia ucraniana à sua disposição, permitiu aos nazistas, rapidamente, identificar e reunir os judeus em grandes grupos que, a seguir, eram conduzidos para locais ermos onde, um a um, família após família – homens e mulheres, velhos e crianças – eram mortos a tiros.

Poucos foram os ucranianos que protestaram, entre eles, Andrei Sheptytsky, da Igreja Grego-Católica-Ucraniana, que condenou publicamente a violência contra os judeus e resgatou crianças, escondendo-as em sua rede de conventos e mosteiros.

Em novembro de 1941, dois terços da Ucrânia estavam sob a administração civil alemã – o Reichskommissariat Ukraine (RKU). Rapidamente, os nazistas impuseram sobre os judeus as medidas adotadas em outros países, colocando-os fora da jurisdição da lei e obrigando-os a usar a Estrela de David. Os homens eram levados aos campos de trabalho forçados e foram criados guetos na Ucrânia Ocidental. Quando os judeus eram despojados pelos alemães de seus pertences, ucranianos tentavam se aproveitar da situação, passando a se apossar e saquear propriedades de judeus.

O primeiro assassinato em massa de mulheres e crianças ocorreu em julho de 1941, em Ostrih, na Volínia. O genocídio assumiu uma nova dimensão após o massacre organizado em agosto pelo líder SS, Friedrich Jeckeln, em Kamianets-Podilskyi. Entre os dias 27 e 29 desse mês, os nazistas mataram a tiros 23.600 judeus. Em setembro, os assassinatos em massa continuaram na Ucrânia Oriental. O maior massacre aconteceu em Babi Yar, ravina nos arredores de Kiev, onde mais de 30 mil judeus foram assassinados.

Na primavera de 1942, os nazistas passaram a “organizar” os que haviam sobrevivido às chacinas – a maioria na Ucrânia Ocidental, de acordo com sua capacidade de trabalho. Consequentemente, intensificou-se o assassinato de mulheres e crianças. Judeus da Galícia selecionados para destruição foram deportados no campo da morte em Betzec, e recomeçaram as execuções em massa na Volínia e em Podília e na região de Mykolaiv. Em julho de 1942, aproximadamente 600 mil judeus ainda estavam vivos. Mas, a maioria foi vítima da campanha de assassinatos executada entre julho e novembro daquele mesmo ano.

O terror nazista pegara os judeus ucranianos totalmente desprevenidos. Essa foi a principal razão pela qual os nazistas não enfrentaram maiores obstáculos durante a primeira onda de matança. Mas, a situação mudou em 1942, principalmente durante os ataques aos guetos. Houve tentativas de fuga em massa em direção às florestas e, quando ficou claro que os nazistas pretendiam liquidar os guetos, iniciou-se a resistência armada, inicialmente. na Volínia Ocidental e, em 1943, também na Galícia.

De 1944 a 1991

No final da guerra, pouco restara da comunidade judaica ucraniana e os judeus que sobreviveram defrontaram-se com um violento antissemitismo ao tentarem recuperar suas casas e propriedades.

A preservação pública da memória do Holocausto durou pouco, desaparecendo completamente das comemorações oficiais. Os anos do pós-guerra foram caracterizados pelo silêncio oficial soviético em relação ao sofrimento singular dos judeus durante o Holocausto. As autoridade davam ênfase ao mito da “Grande Guerra Patriótica” e aos comunistas mortos, negligenciando completamente o fato da identidade judaica de 1,5 milhão de vítimas. A linha oficial referia-se a eles como os “pacíficos cidadãos soviéticos”. Foi somente a partir do final de 1980 que começaram a surgir esforços governamentais e, posteriormente, públicos para manter a memória do Holocausto e integrar esse período à história da Ucrânia.

Na Ucrânia, o antissemitismo oficial, algumas vezes encoberto com um leve verniz de anti-sionismo, assim como da população em geral, era especialmente proeminente. Em 1963, por exemplo, a Academia de Ciências da Ucrânia publicou um trabalho de Trokhym Kichko, Iudaizmbez prykras (Judaísmo sem Embelezamento), uma obra abertamente antissemita.

No início de 1960, dissidentes ucranianos e judeus intensificavam suas atividades, os primeiros pedindo mudanças políticas e os últimos defendendo a livre emigração para Israel. Embora suas demandas fossem diferentes, a necessidade por mudanças era algo que os dois grupos compartilhavam e havia contatos informais entre os movimentos.

Com o início da Era da Glasnost, o movimento ucraniano predominante na luta por mudanças era o Rukh, que adotara uma postura amistosa em relação aos judeus da Ucrânia quanto do Estado de Israel. Quando, em maio de 1990, o Pamiat, organização de extrema direita russa, clamou pela violência antissemita, o Rukh fez uma exitosa campanha contra tais ataques, convencendo muitos ucranianos judeus de que o movimento nacional democrático merecia o seu apoio.

Após 1991

A Ucrânia tornou-se oficialmente independente em 1991, com o colapso da então União Soviética. Ao longo dos anos 1990, o país enfrentou uma dura trajetória na transição da economia socialista planificada para uma de mercado.

No final do período soviético, os judeus tinham começado a emigrar rapidamente, principalmente para os Estados Unidos e Israel. Segundo o censo de 2001, cerca de 380 mil judeus escolheram partir. Representavam três quartos da população judaica do país.

No entanto, o judaísmo ucraniano mostrava impressionante vitalidade.  Uma comunidade forte permaneceu em Kiev, inicialmente organizada sob a liderança de Yaakov Dov Bleich, um chassídico americano que se tornou rabino-chefe da Ucrânia durante os últimos anos de dominação soviética. Uma rede de escolas judaicas e sinagogas surgiu nos centros mais importantes, principalmente em Kiev, L’viv e Dnipropetrovs’k, e muitos edifícios que haviam sido confiscados pelo regime da URSS foram devolvidos à comunidade. Jornais judaicos em russo circulavam e instituições culturais foram reavivadas, como o Museum Tkuma do Holocausto e o Centro de Pesquisa em Dnipropetrovs’k.

A comunidade judaica ucraniana é hoje uma das mais numerosas da Europa. Vivem no país cerca de 70 mil judeus praticantes e mais de 300 mil ucranianos têm origem judaica. Até a atual crise Ucrânia versus Rússia, eles constituíam uma comunidade florescente. Mas, a crise política que está dilacerando o país também esta afetando a vida dos judeus. Muitos se perguntam até que ponto as lutas internas vão alimentar o enraizado antissemitismo ucraniano, e se serão obrigado a deixar o país...

BIBLIOGRAFIA
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Meir,Natan M. Kiev, Jewish Metropolis: A History, 1859-1914 (The Modern Jewish Experience), Ed. Indiana University Press, 2010

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 Movimento Bilu – um acrônimo do versículo bíblico de Isaías: Beit Ya’akov Lechu Venelcha (“Ó Casa de Yaakov, subamos (à Terra de Israel)”, era um movimento cujo objetivo era a colonização agrícola da Terra de Israel.
2 Zona de Residência - Zona de assentamento judeu na Rússia Imperial (1791-1917). Este termo designava uma determinada região do Império Russo destinada exclusivamente aos judeus, sendo a sua residência proibida no restante da Rússia.
3  Guarda Vermelha ou Exército Vermelho é o nome abreviado do “Exército Vermelho dos Operários e dos Camponeses”. Criado por Leon Trotsky, bolchevique, durante a guerra civil russa, foi desmantelado em 1991. O nome faz referência à cor vermelha, símbolo do socialismo, e ao sangue derramado pela classe operária em sua luta contra o capitalismo.
4  De  acordo com os dados oficiais do governo ucraniano foram 7 milhões
5 Einsatzgruppen - esquadrões especiais homicidas preparados pelos líderes da SS em antecipação à invasão.