Morashá
Judeus na moda e nos negócios do Rio Imperial Representação do embarque da Familia Real para o Brasil, no cais de Belém, 29/11/1807. Pintura de Nicolas Louis Albert de LaRiva, Óleo sobre tela. Museu Nacional dos Coches, Lisboa

Judeus na moda e nos negócios do Rio Imperial

por Maria Luiza Tucci Carneiro

No próximo ano de 2022 iremos comemorar o bicentenário da proclamação da independência do Brasil, então colônia de Portugal, ocorrida em 7 de setembro de 1822. Este processo é distinto daquele vivenciado pelas demais colônias da América, porque aqui a Família Real Portuguesa ficou instalada de 1808 a 1820, dificultando a alteração do status político de colônia para nação independente. Nessa época, a rainha de Portugal era D. Maria, e D. João VI, o príncipe regente, a quem coube a decisão de trazer a família e a Corte portuguesa para a colônia.

Edição 113 - Dezembro de 2021


Com a chegada da Família Real ao Brasil, em 1808, seguida da abertura dos portos, assim como da assinatura do Tratado de Amizade e Paz com a Inglaterra, em 1810, centenas de imigrantes judeus começaram a ingressar no Brasil, contribuindo para diversificar as atividades econômicas, intelectuais e culturais até então atrofiadas pelo controle imposto pelo Império Colonial português.

Atualizados com as novidades europeias no campo da moda, das artes, da economia e das ciências, esses imigrantes judeus acarretaram importantes mudanças na vida econômica, social e política do país. A liberdade de religião garantida em um dos artigos desse tratado incentivou a vinda de cidadãos não-católicos, dentre os quais estavam os protestantes ingleses e os judeus franceses. O mesmo aconteceu após a assinatura do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação, em 1826, que permitia a liberdade de consciência em matéria religiosa, direito de propriedade e isenção do serviço militar obrigatório, de empréstimo forçado e de requisições militares, além de garantir liberdade de residência e de comércio e navegação em todos os portos brasileiros. Entre 1808 e 1889 – longo período em que permaneceram no Brasil o príncipe Regente D. João VI e os imperadores D. Pedro I e D. Pedro II – formou-se, na cidade do Rio de Janeiro, uma importante comunidade judaica dita “moderna”, que ampliou o círculo dos cristãos-novos também chamados de conversos, ali presentes desde os tempos coloniais.

A população do Rio de Janeiro, no início do século 18, era de cerca de 20 mil habitantes, incluindo os escravos. E, ainda que seja difícil calcular a população de origem judaica, no Rio de Janeiro, à época, já que até então não existiam censos, essa presença não era insignificante.

Segundo pesquisas realizadas por Lina Gorenstein, cerca de 325 cristãos-novos foram presos no Rio de Janeiro entre 1703 e 1740, e enviados para Lisboa, onde foram julgados como hereges pela Inquisição. Com base nos processos inquisitoriais, essa historiadora descobriu que muitos cristãos-novos atuavam como comerciantes e, até mesmo, ocupavam cargos públicos, apesar das restrições contidas nos Estatutos de Pureza de Sangue impostos pela legislação e pela Igreja Católica portuguesa. Em sua maioria, eles se destacavam no mundo dos negócios como corretores e negociantes e, nas profissões liberais, como médicos, advogados, militares e, educadores. Vários deles frequentaram o círculo de estudantes brasileiros inscritos nos cursos de Medicina e Direito da Universidade de Coimbra.

No Rio de Janeiro, concentravam-se na zona nobre da cidade, principalmente nos trechos entre a Rua da Cruz, a Rua do Ouvidor próxima à Sé, no caminho para o Campo de Santana (hoje Praça da República), bem como na Rua da Misericórdia, Rua da Quitanda, Rua das Flores, Rua do Sucucurará e na Rua Direita, sendo esta a de maior movimento comercial. Outros se instalaram em pequenas chácaras nos arredores do núcleo urbano, onde viviam como abastados senhores de engenho e, até mesmo, como simples lavradores de cana e mandioca.

A partir da primeira década do século 19, este perfil da população judaica do Rio de Janeiro começou a ser alterado. A cidade – transformada em capital do Império – metamorfoseou-se para receber a Corte portuguesa e as grandes levas de estrangeiros que ali chegavam para investir nos novos rumos da economia, cultura e política brasileiras. Muitos eram comerciantes, empresários, eruditos, artistas, educadores, naturalistas, cientistas e profissionais liberais. Podemos afirmar que desde 1815, imigrantes franceses provenientes da Alsácia e Lorena começaram a chegar no Brasil, mas ainda de forma esporádica, aumentando o afluxo em 1871 com a anexação da Alsácia-Lorena pela Alemanha. Alguns vislumbraram o Brasil como refúgio político e, dentre esses, destacou-se Joachim Lebreton (1760-1819), que fora expulso por Napoleão do cargo de secretário perpétuo da Classe de Belas-Artes do Institut de France. Lebreton aportou no Rio de Janeiro em março de 1816, liderando a Missão Artística Francesa, integrada por Jean-Baptiste Debret e Nicolas-Antoine Taunay, dentre outros artistas que iriam documentar o cotidiano do Rio de Janeiro.

Profissionais judeus franceses e ingleses misturaram-se à elite de fala portuguesa e à massa de negros escravos, recompondo, diariamente, o visual citadino. Um mosaico de nacionalidades e interesses começou a se delinear no novo contexto da cidade. Firmas importadoras gerenciadas por proprietários judeus passaram a atender os gostos sofisticados da aristocracia, ávida para ter pianos importados, champagne, roupas de seda, papéis aveludados nas paredes, chocolates, bijuterias, cristais e porcelanas da mais fina qualidade. Aliás, o valor social e a qualidade do estabelecimento comercial se faziam através da ligação com uma matriz internacional (geralmente em Londres e Paris) ou pelo fato da loja atender o consumo sofisticado das Suas Majestades Imperiais – SS.MM.II, tema que será o principal objeto deste artigo: os círculos dos judeus que serviam à Família e à Corte imperiais.

Segundo pesquisas realizadas por Fania Fridman, o grupo radicado na capital do Império constituiu o chamado “Bairro Arábe” (ou “Turquia Pequena”), compreendido pelas ruas da Alfândega, Buenos Aires, Senhor dos Passos e Tomé de Sousa, e ali organizaram a primeira entidade comunitária, por volta de 1840, a União Israelita Shel Guemilut Hassadim, em plena atividade até hoje, primeiramente na esquina da Praça da República com a Rua Senhor dos Passos, mudando-se, em 1866, para a Rua da Alfândega, 358, e há décadas, para Botafogo. Muitos galgaram as trilhas do sucesso chegando a ostentar o brasão imperial nos seus “cartões de visita” e em suas notas fiscais. Essa proximidade se fez notar com os imperadores D. Pedro I e D. Pedro II, ambos simpáticos e identificados com a maneira de ser da comunidade judaica local.

Para além da escravidão que preenchia todos os caminhos do Rio de Janeiro, a vida na Corte Imperial nos remete ao luxo da moda, ao requinte dos móveis e às residências sofisticadas. Grande parte dos comerciantes franceses concentravam-se no Distrito de Sacramento, local privilegiado para moradias, associações e comércio. No entanto, era no centro da capital do Império que a elite com sua escravaria transitava, exibindo seus coches, seu vestuário e seu poder.

Grandes armazéns e lojas sedutoras é o que não faltava. Dentre os importantes comerciantes judeus próximos à Família Real estavam Bernard Wallerstein e Samuel Phillips. O francês Wallerstein, conhecido como o “Rei da Moda” e o “Carlos Magno da Rua do Ouvidor”, celebrizou-se por seus leilões de jóias, objetos de decoração, cristais, sedas, calçados, camisas e papéis de parede, atendendo às preferências da Casa Imperial. A firma B. Wallerstein e Cia alcançou grande projeção social sendo, inclusive, citada pelo médico e escritor Joaquim Manuel de Macedo (1838-1905) em suas Memórias da Rua do Ouvidor. Interessante lembrar que o papel de parede importado era um dos grandes modismos ditados pela corte imperial do século 19. Eles transformavam o visual das residências imperiais e dos magníficos salões onde a nata da sociedade cortesã se reunia para ouvir recitais de piano, instrumento transformado em “mercadoria-fetiche”. De valor ostentatório, o piano era comercializado pelas grandes firmas importadoras de instrumentos musicais.

A firma de Wallerstein apresentava-se como fornecedora das casas de SS.MM.II. e se especializava em papeis pintados, dourados e aveludados com ricas paisagens, obras de ouro lavradas com rara perfeição, pêndulos artísticos, sedas, florões, pinhas de cristal, porcelanas, vidros, candelabros, charutos de Havana e do melhor vinho de Champagne conhecido naquela corte.

Por volta de 1850, Wallerstein alterou sua razão social ao aceitar como sócio M. Masset. Esta loja era a preferida da corte. Naquele mesmo armazém, as mulheres podiam assinar o Jornal das Senhoras, que informava sobre a chegada de vestidos prontos do estrangeiro e os “inimitáveis, lindíssimos” cortes de seda das mais variadas cores. Sabe-se que a loja funcionou até 1859 e, em 3 de janeiro de 1861, o Diário do Rio de Janeiro anunciava, com pesar, a morte de Wallerstein, em Paris.

Entre 1824-1842 atuou também no Rio de Janeiro a firma Samuel, Phillips & Cia. cujos proprietários judeus eram, assim como Wallerstein, próximos da família imperial. Os Phillips tinham suas raízes na Alemanha, sendo que, no século 19, dirigiram-se à Inglaterra onde se uniram, por casamento, à família Samuel. Seus descendentes radicaram-se no Rio de Janeiro, mesmo antes do Tratado de 1810 que confirmou a liberação dos portos brasileiros às nações amigas. Desde então, ganharam grande visibilidade. Em 1826, a firma ingressou como representante da Companhia Britannica e Estrangeira Alliança, de Seguros de Vida e Fogo, com um capital de cinco milhões de libras esterlinas. Além de servir ao Imperador, Samuel, Phillipps & Cia atuava também junto ao governo inglês intermediando taxas mais atrativas para os empréstimos brasileiros. Mantinha estreitas ligações com os banqueiros Rothschild, judeus ingleses, dentre os quais os barões Leonel de Rothschild, Antony Rothschild e Mayer Rothschild, que, em 1859, receberam a comenda da Ordem da Rosa, título de prestígio entre a nobreza brasileira. O fato da firma Samuel, Phillips & Cia também ser exportadora de café, couros e outros produtos brasileiros e importadora de armamentos destinados à Armada brasileira, explica seu envolvimento, em 1832, com um projeto inovador para aqueles tempos em que a estrada de ferro despontava como símbolo de modernidade. Até então, a única estrada de ferro desse tipo havia sido contruída na Inglaterra, apenas dois anos antes, ligando Liverpool a Manchester. A proposta, sustentada em parceria pela firma Aguiar, Viúva, Filhos & Cia., era construir um caminho “de ferro” por “terra ou por rios, ou ambos, ligando o Porto de Santos à Porto Feliz e suas ramificações”. O porto de Santos era, desde aquela época, o principal porto escoador da produção agrícola paulista, onde o café despontava como gênero de exportação.

Por ocasião da abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831 – em nome de seu filho Pedro de Alcântara, com apenas cinco anos de idade – a firma Samuel, Phillips & Cia tornou-se procuradora geral da família imperial cuidando, em distintos momentos, da venda de imóveis e doações mediante procuração assinada por D. Pedro I em 11 de abril, quatro dias após a sua abdicação. Nesse documento aparecia o nome de José Buschental, judeu alsaciano, financista, casado com Maria Benedita de Castro Pereira, irmã da Marquesa dos Santos, figura conhecida da Corte, à qual atendera por ocasião do aumento da dívida externa brasileira, na primeira metade do século 19.

Mesmo após o embarque para Portugal do imperador D. Pedro I e da imperatriz Amélia Augusta Eugênia Napoleona de Leuchtemberg–Beauharnais, acompanhados de vários membros da Família Real, o Rio de Janeiro não perdeu o seu glamour. Em meio ao burburinho do comércio carioca, duas lojas chamam a nossa atenção: A Judia, na Rua Uruguaiana, que comercializava fazendas, modas e armarinho por atacado e varejo, tendo como proprietário o marroquino Benjamin Messod Benzaquen, que vivia no Brasil desde 1879. Negociante naturalizado brasileiro, Benzaquen integrou as diretorias da Sociedade União Israelita do Brasil, em 1886, da Sociedade Israelita Shel Guemilut Hassadim, em 1888, e da Sociedade do Rito Portuguez, em 1888 e 1889.

A outra loja era conhecida como “Loja das Judias” ou Dois Oceanos, localizada na Rua do Ouvidor, numa casa quase fronteira à “Loja da Madame Gorda”, ironias do linguajar popular. O proprietário – judeu alsaciano cujo nome não identificamos – era, segundo Joaquim Manuel de Macedo, “pai de três bonitas filhas, três judias jovens, solteiras e espertas, que eram as principais recomendações da loja”. Em sua crônica, Macedo recupera as várias aplicações do verbo judiar procurandodetalhar a postura das jovens judias reconhecidas pela fama de namoradeiras e que, como tais, judiavam dos moços soberbos, frequentadores da Rua do Ouvidor. Uma “judiação”, afirma o cronista, repetindo a expressão jurídica medieval e racista, hoje em desuso por atribuir aos judeus uma atitude criminosa, nitidamente antissemita.

Nessa época, a Rua do Ouvidor era o ponto alto da moda e do luxo no Rio de Janeiro, uma espécie de passarela por onde todos desfilavam, uma verdadeira vitrine enfeitada para agradar aos estrangeiros e à elite da terra. Entre as “vitrines” cobiçadas, estava a loja de flores artesanais de Sarah Conseil, pioneira nesta especialidade desde 1873: flores confeccionadas em seda, rendas, plumas, escamas de peixe e asas de borboletas, delicadamente arrematadas com lantejoulas, pérolas, fitas de veludo, etc. Segundo pesquisas realizadas por Egon e Frida Wolff, Marcos Rosenwald, junto com Sarah Conseil, e com o inglês Allan D. Gordon e o alemão Alberto Landsberg, fundou, em 1884, a firma M. Rosenwald, Gordon & C., para o comércio de flores artificiais e congêneres, com sede no Rio de Janeiro, à Rua do Ouvidor. Sarah Conseil casara-se em 1871 com Marcos Rosenwald, sócio de Maurice e David Bloch, e fundador do Banco Predial e da Empresa Predial.

A partir do Segundo Reinado, o modismo de comprar nas lojas Wallerstein e Lecarriere já havia passado. As grandes costureiras atendiam agora na Rua da Quitanda, enquanto na Rua do Ouvidor brilhava a Mme. Ottiker, “modista-costureira” de Sua Alteza, a Princesa Imperial Senhora Condessa d’ Eu, da Mme. Guion e da Mme. Gudin. Os artigos de moda eram vendidos nas lojas de Mme. Cretan, à Rua do Ouvidor, esquina dos Latoeiros.

D. Pedro II, por sua vez, era servido pela firma “Gabriel & Segrè”, agraciado com o título de “Alfaiate de Sua Majestade”, com permissão para colocar o brasão das armas imperiais no frontispício do estabelecimento.

Essa empresa pertenciaa um grupo dejudeus italianos, dentre os quais destacavam-se vários escritores, militares e professores. Importante ressaltar que, a partir dos anos de 1850, D. Pedro II, dando-se conta do simbolismo das casacas e roupas pretas, deixou de portar uniformes militares para usar gradativamente as casacas, reafirmando assim sua imagem de imperador-cidadão combinada com a de monarca ilustrado e moderno. Enfim, vestia-se “como um imperador de seu tempo, um representante à altura da casa de Bragança”. Era assim que o imperador gostava de ser retratado: vestindo casaca e calça pretas, camisa branca, gravata, relógio de ouro e comendas, sua vestimenta preferida neste país tropical.

Outros imigrantes judeus devem ser lembrados por suas presenças marcantes nos tempos do Império, dentre os quais François Leon Cohn, corretor de gêneros alimentícios cuja firma Cohn e Filho funcionava na Rua da Alfândega. Seu filho, Francisco Leão Cohn, desligou-se dos negócios para seguir carreira militar. Tornou-se Tenente-Coronel da Guarda Nacional, sendo agraciado com as comendas da Ordem de Cristo e da Ordem da Rosa, por sua participação na guerra contra o Paraguai (1865-1870). Por ocasião do seu embarque para aquele país, enquanto encarregado de um dos batalhões do primeiro contingente do Rio de Janeiro, Cohn foi quem recebeu a bandeira brasileira das mãos do próprio imperador.

Na década de 1860, destacaram-se também os irmãos Henrique, Charles e George Nathan, conhecidos corretores do Rio de Janeiro. Em fevereiro de 1855, a imprensa registrou a entrada de Charles Nathan (1865-1870) em terras brasileiras, entre vários outros ingleses embarcados no paquete Great Western. Em abril de 1866, o Diário do Rio de Janeiro anunciou o lançamento da obraEsposição do Contador Público, de Charles Nathan, reverenciada como “de grande utilidade ao commercio, por isso que nella se descreve os defeitos do processo de fallencia, e os meios de remedial-os [sic]...”.

A fantástica imagem da Baía da Guanabara veiculada nos impressos das companhias de navegação e revistas ilustradas alimentava o slogan do “Rio de Janeiro, cidade maravilhosa”. Enquanto porto de desembarque e capital do Brasil, o Rio de Janeiro se prestava também como parada provisória para aqueles que se dirigiam para outros estados brasileiros.

Em 1891, atuavam nos meios comerciais e financeiros do Rio de Janeiro vários judeus de origem européia, dentre os quais estavam Isidore e Marx Haas, Abraham Amzalak, Emmanuel Israel Salomon, A. Landesberg, A. Dreyfus, Elkin Hime e seu filho Harold. Em 1872, a firma Hime, Zenha & Silveira se destacava entre os contratos de sociedades arroladas no Diário do Rio de Janeiro. Foi como diretor da Casa de Correcção da Corte que, em maio de 1874 e novembro de 1875, Elkin Hime foi recebido no Paço Imperial, ao lado de comendadores, viscondes, barões, deputados, doutores e conselheiros de SS. MM. II.

Harold Elkin Hime (1842-1890) era filho de Elkin e Frances Hime, família inglesa judaica radicada no Rio de Janeiro há mais de 50 anos. Em 1842, Elkin Hime atuava como corretor para compra e venda de mercadorias com escritório na rua da Alfândega e, posteriormente, na Praça do Comércio.

Em 1855, os corretores Elkin Hime (natural de Liverpool) e George Huston (natural de Londres) têm seus nomes citados no “Mappa dos estrangeiros naturalisados que têm feito declarações na Ilma. Câmara Municipal da Corte”, arrolados como de religião hebraica e/ou israelita. Em 1865 encontramos seus nomes relacionados entre os doadores do Asylo de Inválidos da Pátria, fato que os coloca como cidadãos integrados e partícipes do seu grupo comunitário e envolvidos com os problemas da sociedade mais ampla.Hime, além de fazer parte do conselho do Banco Comercial do Rio de Janeiro em janeiro de 1873, foi indicado conselheiro da Sociedade de Beneficiência Israelita, ao lado de Arthur Aron, G. Nathan e Ludwig Rée, em 1879.

Atrelado ao nome de Hime, vem o de seu cunhado Isey Levi, jornalista e criador das Taboas de Juros, amplamente divulgadas pela imprensa carioca quando de sua publicação, em Bruxelas. Estas tabelas facilitavam os cálculos de juros sobre qualquer quantia.

Os irmãos Isidore e Arthur Haas, oriundos da Alsácia-Lorena, foram importantes comerciantes da comunidade judaico-francesa atuando no ramo de importação. Isidore desembarcou no Brasil, proveniente de Nova Iorque, estabelecendo-se no Rio de Janeiro desde 1879. Em 1883, aparece como sócio da firma I. & Hass Irmãos, sediada na rua do Hospício, dedicada à importação de velas, louças, artigos de armarinhos, máquinas para lavoura de café e cana e para fábricas. Era representante da casa francesa Egrot Granjes Sucres, de aparelhos para destilação de açúcar. Mais tarde abriu uma serraria em Grama (Paraíba do Sul) e a Mate Laranjeiras, no sul do país. Isidore, por sua vez, integrou várias diretorias das sociedades filantrópicas União Israelita do Brasil e Communauté Israélite, sendo ainda membro do Conselho da Câmara do Comércio Franco-Brasileira, do Comitê Centenário da Tomada da Bastilha, além de tesoureiro da Alliance Française. Alguns imigrantes dedicaram-se ao comércio de carne verde, vendendo certas partes do gado para os judeus observantes. Há registros de que a firma A. Levy e Cia requereu, em dezembro de 1892, o abate de carnes verdes junto ao Conselho Municipal do Rio de Janeiro.

Outra figura de destaque na comunidade judaica carioca foi Abraham Amzalak, filho da triestina Anna Levi e do rabino inglês de Gibraltar, Isaac Amzalak, dono de armazéns e armador bem-sucedido, radicado na Bahia desde 1829. Abraham teve três filhas (Mary, Simi e Ester) que ficaram conhecidas como as “três graças”, sendo uma delas a musa inspiradora do poeta Castro Alves (1847-1871) que compôs, em Salvador, o poema A Hebréia. Neste poema, Castro Alves a exalta como uma “pomba d’esperança”, um “lírio do vale oriental, brilhante”, “o orvalho oriental”. Aquela brilhante hebreia, segundo Castro Alves, é o “lótus que cai para o chão pendido”.

Mary Roberta Amzalak (1854-1932) casou-se, em 1873, com o imigrante parisiense, de origem portuguesa, Dr. Samuel Edouard da Costa Mesquita (1837-1894), dentista do Imperador D. Pedro I.

Em 1870, Simi Amzalak (1851-1920) casou-se com Albert Henschel, fotógrafo teuto-brasileiro, nascido em Berlim em 13 de junho de 1827. Sabe-se que Henschel provinha de uma família de gravadores, reunindo seu pai, Moritz e três tios que, em Berlim, se assinavam como Irmãos Henschel. Ele tinha 37 anos quando desembarcou no porto de Recife, em maio de 1866, acompanhado de Carl Heinrich Gutzlaff. Nesse mesmo ano, abriu a Photographia Allemã em sociedade com seu irmão José. Ao longo de 16 anos, Henschel manteve intensa atividade no país, com quatro ateliês instalados em Recife (1866), Salvador (c. 1868), Rio de Janeiro (1870) e São Paulo (1882). Henschel ficou conhecido por produzir retratos de estúdio, dentre os quais crianças, fotografias de paisagens e imagens etnográficas, com destaque para a série de retratos de africanos e afrodescendentes.

Em 23 de setembro, SS.MM.II visitaram a Photographia Allemã, onde se fizeram retratar. Em 7 dezembro de 1874, a firma recebeu o título de Photographos da Casa Imperial, estando assim habilitados a retratar o cotidiano da monarquia brasileira durante o Segundo Império, inclusive fotografando o imperador D. Pedro II e sua família.Albert Henschel faleceu em 30 de junho de 1882 e está enterrado no setor judaico do Cemitério de São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro.

Em meio aos franceses, judeus de outras tantas nacionalidades somaram suas diversidades para compôr o mosaico da comunidade judaica no Rio de Janeiro. Entre estes estava o dinamarquês Emmanuel Israel Salomon, que­, além de banqueiro, trabalhava como corretor de fundos públicos, assim como Albert Landsberg, que chegou ao Brasil no século 19, via Alemanha. Este era descendente de uma família de rabinos da Polônia cujas raízes remontam até Salomon Kaliphari, médico espanhol que havia saído da Espanha após a expulsão dos judeus pelos Reis Católicos Fernando e Isabel, decretada em 1492. Os Landsberg são hoje reconhecidos por sua contribuição à indústria naval brasileira.

No comércio carioca destacaram-se também: Maximiliano Nothmann, radicado no Rio de Janeiro desde 1871 e proprietário da firma Nothmann & C., instalada na rua do Ouvidor. O local era apresentado como um “depósito internacional de machinas de costuras de Singer, Howe, entre outras marcas, sob o nome de Princeza Imperial”. Vendia também “machinas a vapor, serras circulares, moinhos, tornos, motores e caixas de gelo”. Em 1891, Nothmann foi indicado peloo Brasilianische Bank für Deutschland para fornecer ao Comitê Central para Ajuda aos Judeus Russos, com sede em Berlim, as diretrizes para um projeto de colonização judaica planejada na América Latina, concretizado 12 anos mais tarde pelo Barão de Hirsch, em terras do Rio Grande do Sul.

Enfim, diante das grandes transformações urbanas, econômicas e culturais registradas a partir de 1810, podemos afirmar que os imigrantes judeus contribuíram para acelerar o processo de modernização da sociedade brasileira. Após o Tratado da Amizade, que estendeu privilégios aos não católicos, a comunidade judaica teve seu perfil ampliado com a presença de sefarditas e asquenazitas de múltiplas nacionalidades. Caracterizados pelas diferenças herdadas das suas comunidades de origem e pelas conquistas de novos status na comunidade de acolhimento, os judeus formaram redes de sociabilidade integrando-se ao cotidiano do país. Adaptados à vida nos trópicos, identificados com o cosmopolitismo proporcionado pela presença da Corte no Rio de Janeiro e familiarizados com os padrões sociais dominantes, os judeus alteraram seus modos de vestir, de preparar seus alimentos e de falar, sem perder os elementos constitutivos de sua judeidade. Ao preservarem os valores essenciais ao judaísmo, contribuíram para a construção do humanismo cívico e do bem comum, expandido-se por todas as áreas do conhecimento. Importante papel tiveram suas associações filantrópicas, congregações religiosas e comitês de auxílio aos recém-chegados e aos mais pobres. Entre a Regência, Império e a República, eles abriram novos caminhos para a implementação dos ideais de liberdade, igualdade, dignidade da pessoa humana e da justiça, infelizmente tão desrespeitados neste século 21.

Maria Luiza Tucci Carneiro é historiadora e professora do Departamento de História, FFLCH- Universidade de São Paulo. Autora dos livros: Cidadão do Mundo: o Brasil diante do Holocausto e dos judeus refugiados do nazifascismo (Perspectiva, 2020); Dez mitos sobre os Judeus (Ateliê Editorial, 2ed. 2020); Judeus e Judaísmo na obra de Lasar Segall, em coautoria com Celso Lafer (Ateliê Editorial, 2004), dentre outros.

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