Morashá
Judeus e a China: antigas civilizações em uma nova era Foto Ilustrativa

Judeus e a China: antigas civilizações em uma nova era

Antigas civilizações em uma nova era. A definição compõe o título de um estudo publicado em 2004 por um pesquisador de Israel, Shalom Salomon Wald, sobre as relações entre a China e o povo judeu, que, depois de séculos de contatos em diferentes momentos históricos, vivem um período pródigo em novidades.

Edição 61 - Julho de 2008


O século 21 modela-se com a meteórica ascensão da economia chinesa e com o fortalecimento da influência global de Pequim, enquanto, depois de décadas de afastamento, a presença judaica se reorganiza no país mais populoso do planeta.

Em março passado, Xangai testemunhou o primeiro casamento realizado na sinagoga Ohel Rachel após praticamente seis décadas. "Para nós, estar aqui nesta noite é muito emocionante e estimulante, e esperamos ter muitos outros eventos neste local", declarou Uri Gutman, cônsul israelense na metrópole chinesa. A cerimônia ocorreu após negociações com as autoridades locais, pois o prédio da sinagoga, construído em 1920, é administrado atualmente pelo Ministério da Educação de Xangai, que usa o espaço, algumas vezes, como auditório.

Serviços religiosos são, eventualmente, permitidos na sinagoga Ohel Rachel, mas há décadas lá não ocorria um casamento. O primeiro serviço religioso, desde 1952, aconteceu em 1999, em Rosh Hashaná, quando cerca de 120 judeus se reuniram no local para a chegada do Ano Novo.

A Ohel Moishe, outra sinagoga de Xangai fechada durante os tempos da ortodoxia comunista, passou por um processo de reformas para se transformar em museu judaico. Trata-se de mais um sinal do renascimento da vida comunitária na China e, em particular, em Xangai, onde estimativas apontam uma população judaica em torno de 2 mil pessoas, estrangeiros que vieram trabalhar na metrópole de 20 milhões de habitantes.

A volta da presença judaica em Xangai guarda singular importância histórica. A metrópole se transformou, nas décadas de 1930 e 1940, em um dos destinos dos judeus que fugiam dos horrores do nazismo. A comunidade judaica xangaiense data da abertura da cidade ao comércio internacional, no século 19, com famílias oriundas, sobretudo, do Iraque (Bagdá) e da Índia (Bombaim). Também chegaram à metrópole, um dos centros urbanos mais cosmopolitas da Ásia na primeira metade do século passado, judeus russos que fugiam de perseguições czaristas e, também, do avanço bolchevique.

Em 1937, o Japão invadiu a China e, quatro anos depois, impôs em Xangai a criação de um gueto para grande parte da comunidade judaica: os cidadãos de países das forças aliadas antinazistas e para os refugiados oriundos da Alemanha, Áustria ou Polônia. Ao final da guerra, a metrópole chinesa abrigava cerca de 24 mil judeus, comunidade que desapareceu após a chegada dos comunistas ao poder em Pequim, em 1949. A emigração judaica buscou, principalmente, Israel, Estados Unidos, Austrália e Hong-Kong.

Em junho passado, a pequena comunidade de Xangai teve mais um importante evento: foi lançado um banco de dados com nome e história dos refugiados que encontraram abrigo na China. O trabalho começou com 600 nomes e estima chegar em breve a 10 mil. "Esperamos que esse banco de dados seja alimentado por fontes de todo o mundo", afirmou Shen Xiaoning, vice-prefeito de Xangai, segundo relatou o jornal israelense Haaretz.

Instalado no museu da sinagoga Ohel Moishe, o banco de dados conta com apoio dos governos de Israel e da China. Empresas israelenses doaram recursos para a iniciativa, em uma cidade que chegou a testemunhar, no período pré-comunismo, a construção de diversas sinagogas. Entre 1904 e 1939, Xangai contou com 12 revistas judaicas em inglês, alemão e russo.

O renascimento da vida judaica na China do Partido Comunista, que começou a abrir a economia em 1978, verifica-se, também, na capital, Pequim. Em 2007, foi inaugurado o primeiro restaurante casher da cidade, o Dini's, que oferece um cardápio recheado de especialidades asquenazitas e sefaraditas, para uma clientela composta também por chineses. "Guefilte fish é difícil de vender. Na China, comer peixe frio não soa muito bem", explicou Zhao Haixia, subgerente do restaurante, à agência de notícias Associated Press (AP).

Os Jogos Olímpicos, em agosto, também vão oferecer comida casher a seus 17 mil participantes, entre atletas e outros integrantes das delegações. "Esperamos servir entre 300 e 400 refeições por dia, mais do que o dobro do que me disseram que foi servido em Atenas", declarou à AP o rabino Shimon Freundlich, que também trabalha no restaurante Dini's, ao lado de uma equipe formada principalmente por chineses.

Além de Xangai e Pequim, com cerca de 1,5 mil judeus, a China abriga uma comunidade judaica em Guangzhou (Cantão), com cerca de 500 integrantes. Em Hong-Kong, que voltou ao domínio chinês em 1997, após mais de 150 anos de colonialismo britânico, vivem cerca de 4 mil judeus. A presença judaica na China, hoje em reorganização, tem raízes bastante profundas, começando no século 8. Comerciantes judeus viajaram pela Rota da Seda, para chegar à cidade de Kaifeng, onde, em 1163, surgiu a primeira sinagoga da região. A comunidade chegou a contabilizar 5 mil integrantes no século 17, para entrar em um período de dificuldades, como a morte do último rabino em meados do século 19. Por volta de 1860, a sinagoga de Kaifeng, depois de enfrentar as enchentes freqüentes na região, foi finalmente demolida.

Durante a dinastia Ming (século 14 a 17), um imperador chinês deu aos judeus sobrenomes locais, como Ai, Gao, Jin, Li, Zhang, Shi e Zhau. Atualmente, estima-se que entre 500 e mil habitantes de Kaifeng, cidade com 4,8 milhões de habitantes, apontam suas ligações com antepassados judeus. O museu municipal de Kaifeng apresenta algumas peças do século 15 que eram da comunidade judaica, enquanto outros objetos estão no Museu Britânico, em Londres, e no Museu Real de Ontário, no Canadá. Apreciar passagens da vida judaica no Extremo Oriente também é possível em Harbin, cidade localizada no nordeste da China e onde uma sinagoga construída em 1917 transformou-se em museu. Os dois andares do prédio, segundo relato publicado no ano passado pelo Haaretz, trazem fotos em preto e branco de uma colorida vida comunitária, com atividades assistenciais, movimento sionista e iniciativas culturais que atingiram seu momento mais intensos entre 1917 e 1930.

Os primeiros judeus chegaram a Harbin em 1898 para trabalhar na construção da ferrovia Trans-siberiana, ligação entre Moscou e Pequim, e, também, para fugir de perseguições do czarismo.

A Revolução Russa de 1917 representou mais uma onda de imigração judaica ao nordeste da China, e a comunidade de Harbin chegou a contabilizar 25 mil integrantes. Entre seus membros, Bella e Mordechai, pais do primeiro-ministro israelense Ehud Olmert, que fizeram aliá para Israel, em 1930.

No ano seguinte, o Japão invadiu a Manchúria, região onde fica Harbin. Judeus passaram a deixar a cidade, em direção a Xangai, Israel ou outros países. Em 1963, as instituições judaicas da cidade foram oficialmente fechadas e, em 1985, morreu o último judeu da comunidade de Harbin, escreveu Shiri Lev Ari, do Haaretz, que visitou a cidade chinesa em 2007.

Harbin também simboliza hoje a recuperação dos laços entre a China e a vida judaica. Inaugurado em 1903, o cemitério judaico da cidade, com 583 lápides que trazem inscrições em russo e em iídiche, passou por reformas pouco depois que Israel e China estabeleceram laços diplomáticos, em 1992.

"Esses locais são testemunhos da amizade entre os povos judeu e chinês e têm a intenção de contribuir para o fortalecimento dos laços entre os dois Estados", disse ao Haaretz Ko Wey, chefe da Academia de Ciências Sociais da região de Harbin. "Chineses e judeus são nações antigas, com longa história. Ambos sofreram perseguição e tortura", declarou Ko Wey, para destacar, ainda, a produção científica e intelectual judaica e chinesa ao longo da história.

A China passa por um profundo processo de transformações em sua economia, em uma estratégia desenhada pelo líder comunista Deng Xiaoping. A alquimia significa implementar reformas econômicas cada vez mais liberalizantes, mantendo o poder político concentrado nas mãos do Partido Comunista. No plano externo, as idéias de Deng sustentam a necessidade de intensificar a integração chinesa à comunidade internacional, em contraste com o isolamento diplomático que marcou boa parte da era Mao Tsetung (1949-1976), modelada pela ortodoxia ideológica.

A nova era na China alimenta debates sobre os rumos do século 21. Em maio, durante as comemorações de Yom Haatzmaut (Dia da Independência), Israel hospedou a Conferência Presidencial "Enfrentando o Amanhã", que apresentava uma lista de convidados com 13 chefes de Estado e mais de 3 mil nomes. O evento ofereceu uma extensa lista de debates para analisar o que presidente israelense, Shimon Peres, chamou de os "três amanhãs": o futuro global, de Israel e do povo judeu. Um dos painéis trouxe o título "Como pode o povo judeu fortalecer sua amizade com o gigante chinês" e reuniu estudiosos como Zhong Zhiqing, especialista em literatura da Academia Chinesa de Ciências Sociais em Pequim; Zhang Ping, que leciona chinês na Universidade de Tel Aviv; Fu Youde, professor de Estudos Judaicos da Universidade de Shandong (leste da China); rabino Marvin Tokayer, que trabalhou muitos anos em países asiáticos; e Shalom Salomon Wald, pesquisador do Instituto de Planejamento de Políticas do Povo Judeu, centro de estudos de Jerusalém que se encarregou de organizar a conferência presidencial.

Durante o debate, várias idéias surgiram, como a apresentada por Zhong Zhiping, para o uso da literatura como forma de aproximação entre chineses e judeus. Há vários caminhos a percorrer no atual processo de intensificação dos laços entre os dois povos. Afinal, estamos diante de uma nova era e de duas antigas civilizações.

O jornalista Jaime Spitzcovsky é editor do site www.primapagina.com.br. Foi editor internacional e correspondente em Moscou e em Pequim.