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Córdoba, berço da Idade de Ouro Foto Ilustrativa

Córdoba, berço da Idade de Ouro

Córdoba desempenhou papel central na história judaica. Foi nesse centro urbano, berço de uma das mais influentes e prósperas comunidades da idade média, que, no século x, lançaram-se as bases para a chamada 'idade do ouro' do judaísmo espanhol.

Edição 49 - Junho de 2005


Córdoba atingiu sua maior glória quando, após a conquista de grande parte da Península Ibérica pelos exércitos islâmicos - no início do século VIII, tornou-se capital do Califado Omíada, o reino mouro de El-Andalus. Sob domínio dos Califas, Córdoba desenvolveu brilho próprio, floresceu e se tornou requintado centro das civilizações muçulmana e judaica, um dos grandes núcleos urbanos e culturais do mundo ocidental da época.

A comunidade judaica de Córdoba tomou parte ativa em sua prosperidade e em seu desenvolvimento, tornando-se a mais populosa e rica fora da Babilônia. Foi nesta cidade que, no século X, Hasdai Ibn Shaprut lançou as bases da era que seria conhecida como a "Idade de Ouro" do judaísmo espanhol. O estudo e o saber eram incentivados em todas as áreas, sábios e eruditos judeus gozavam de privilégios e honras tanto no seio da comunidade judaica como no da muçulmana. As mais brilhantes mentes judaicas da época - eruditos, sábios, lingüistas, filósofos e médicos judeus - montaram a cena para o espetáculo que foi a Espanha judaica da Idade Média. Foi em Córdoba que nasceu Maimônides, o grande Rambam, em 1135, uma das mais brilhantes mentes de todos os tempos. Ao descrever a cidade em carta enviada a Joseph, rei dos Cazares, Ibn Shaprut escreve: "A terra é rica, com rios abundantes, nascentes e aquedutos; uma terra de grãos, azeite e vinho, frutas e todas as espécies deliciosas; agradáveis jardins e pomares, árvores frutíferas de todos os tipos, incluindo aquelas cujas folhas são alimentadas pelos bichos da seda...".

Os primórdios da cidade: domínio romano e visigodo

Fundada pelos romanos no sul da Península ibérica, na região chamada de Andaluzia, por volta de 206 a.E.C., Córdoba está situada no ponto mais navegável do rio Guadalquivir. A Andaluzia é uma das mais lindas regiões da Espanha. Suas costas são banhadas pelo Mediterrâneo e só o estreito de Gibraltar a separa da África. Por estas características, serviu como zona de trânsito entre continentes e culturas, ao longo dos séculos. Além do mais, o solo fértil e o clima úmido fizeram da região o celeiro romano. A região era também produtora de minerais e famosa por suas minas de ouro e prata. Córdoba, estrategicamente situada, era o principal porto de onde embarcavam todas as mercadorias com destino a Roma. A beleza da região e o fascínio que sempre exerceu sobre os que lá viviam podem ser compreendidos através de uma antiga e popular lenda muçulmana. Segundo esta, quando Alá estava criando o mundo, a Andaluzia fez cinco pedidos: céus claros, um mar com diversas espécies de peixes, árvores de diferentes frutos, mulheres bonitas e um governo justo. Alá lhe teria concedido todos os pedidos, exceto o último, dizendo que se assim fizesse, a Andaluzia seria rival do paraíso.

Início da vida dos judeus na Espanha

O início da vida judaica na Espanha é envolto em mistério e lendas. Segundo as tradições sefaraditas, os judeus se estabeleceram na Península Ibérica durante o período bíblico. Acredita-se que o túmulo de Adoniram, um dos generais do rei Salomão, estaria localizado em algum ponto da região de Murviedro, no sudeste da Espanha. De acordo com outra tradição que se mantém até hoje, algumas famílias de Cohanim teriam sido deportadas para Andaluzia, pelos babilônios, no ano de 586 a.E.C. Há quem acredite que se estabeleceram nas redondezas de Sevilha ou na área perto de Granada. Ademais, afirmam nossos sábios que o termo "Sefarad", mencionado no Livro de Ovádia, é uma referência à área da chamada Ispamia ou Espanha. Não há duvida, porém, de que nos primeiros séculos da Era Comum já houvesse, na Espanha, comunidades judaicas estabelecidas, uma ramificação da vasta diáspora judaica que se espalhara por todo o império romano.

Com a destruição do Templo de Jerusalém, em 70 desta era, a emigração para a Europa intensificou-se, chegando ao seu apogeu após a repressão da Revolta Judaica, em 135. Forçados a deixar a Judéia e a se dispersar, os judeus avançaram em direção à costa mediterrânea, construindo assentamentos na Itália, no norte da Espanha e no sul da costa africana.

Há fortes indícios de que durante as campanhas romanas contra a Judéia, lideradas por Tito e Adriano, 80 mil judeus tenham sido levados como escravos para Sefarad. O primeiro lugar no qual se estabeleceram, após serem resgatados por seus correligionários que lá viviam, foi a Andaluzia.

A Hispania ou Ispamia, sendo uma das províncias mais prósperas do Império Romano, sempre atraiu os judeus. As descobertas arqueológicas lá encontradas indicam claramente que estes viviam organizados em comunidades e que, mesmo mantendo suas leis, tradições e cultura, foram influenciados pelas sociedades em que se inseriam. Documentos dos primeiros concílios da Igreja indicam que os judeus viviam livremente entre seus vizinhos. Assim, a tolerância era fato concreto e, enquanto persistiu, a vida judaica floresceu na Espanha e no restante do Império Romano.

Sua deterioração começou no século IV, quando o imperador Constantino torna o cristianismo religião do império. À época, já corria célere a decadência do Império Romano e a Europa Ocidental começava a ser invadida pelas diferentes tribos germânicas. Era inevitável a confrontação entre a nova religião estatal e o judaísmo, pois o cristianismo se intitulava sucessor desta última e também seu "rival". Converter-se ao judaísmo passou a ser considerado crime e aos judeus cada vez mais se impunham legislações restritivas. Aos ataques verbais contra os judeus somaram-se atos contra propriedades e até mesmo integridade física. Foi o início da decadência social forçada dos judeus, que os deixou na posição em que seriam mantidos durante toda a Idade Média: a de párias sociais demonizados.

No século V, a Península caiu em mãos dos visigodos, um grupo de tribos bárbaras germânicas. Os séculos de dominação por esses povos são considerados os mais obscuros da história judaica. Não há documentos nossos do período que possam revelar os detalhes da vida dos judeus; tudo o que se sabe é originário de fontes não judaicas, principalmente de códigos legais dos reis e das leis dos Concílios Eclesiásticos visigodos. Da forma e na freqüência com que os judeus e seus assuntos eram abordados, fica muito claro que constituíam uma população vasta e influente.

Sabe-se que em um primeiro momento os judeus foram tolerados pelos governantes visigodos por seu papel como intermediários entre a nova elite estrangeira e a população local. Mas depois que o rei Recarred I converteu-se ao catolicismo, em 587, passaram a ser marginalizados através de legislações cada vez mais discriminatórias. O antijudaísmo tornou-se política de Estado.

A situação se tornou insustentável quando, no ano de 613, durante o III Concílio de Toledo, o rei Sisebut assinou um decreto determinando a conversão forçada de todos os judeus. Milhares foram mortos, outros expulsos ou batizados à força. Esta foi a primeira experiência de conversão em massa. É também o início do cripto-judaísmo: forçados a se batizar, os judeus passaram a viver secretamente seu judaísmo, preservando sua religião e identidade, apesar da perseguição. Turvavam-se os céus para os judeus da Espanha.

No ano de 711, a expansão árabe iniciada após a morte de Maomé atingira a Península Ibérica. Tarik ibn Ziyad, general e governador da faixa ocidental do Magrebe, atravessou o estreito de Gibraltar e, à frente de um exército misto de árabes e berberes (povo nativo da África do Norte), venceu o visigodo Rodrigo, rei da Espanha. E Al-Andaluz, denominação árabe da Espanha muçulmana, passou a fazer parte do Império Islâmico.

Vida comunitária no reinado islâmico

A invasão da Espanha, em 711, pelos exércitos muçulmanos foi vista com bons olhos pelos judeus da região. Na realidade, quando os mouros chegaram à Península Ibérica, já não havia judeus declarados na área, pois todos haviam sido mortos, expulsos ou batizados à força. Com a entrada dos mouros, os judeus secretos, pejorativamente chamados de "marranos", retiraram a máscara cristã e voltaram a viver abertamente seu judaísmo. Após a conquista muçulmana, Al-Andaluz começou a receber ondas migratórias sucessivas de judeus vindo da África, do Oriente e das demais partes da Europa. A dinastia omíada, que acabou com o domínio visigodo e se manteve no poder durante quase três séculos, foi responsável pelo surgimento de uma civilização sofisticada. Córdoba foi escolhida como capital do Califado em razão de sua localização estratégica e da fertilidade de suas terras, ideais para a agricultura.

Ao torná-la sua capital, os Califas omíadas fizeram da cidade e da região um centro cultural e intelectual que contrastava fortemente com o obscurantismo vigente no restante do continente europeu, sob domínio cristão. Sob os omíadas, judeus, cristãos e muçulmanos conviveram em harmonia. E foi este ambiente de tolerância que possibilitou um florescimento cultural, científico e econômico e a criação de uma rica cultura cosmopolita e secular.

Considerados mais estetas do que burocratas, os primeiros príncipes omíadas trouxeram para sua capital talentosos arquitetos e cientistas, fundando escolas e academias de estudos. Construíram palácios e mesquitas, mantiveram hospitais e centros para tratamento psiquiátrico, dando a Córdoba o perfil que a transformou em uma das cidades mais belas e importantes de todo o continente europeu, rivalizando com outros importante centros do Império Islâmico, como Bagdá e Damasco.

Independência do Califado de Córdoba

Nas primeira décadas do século X, um acontecimento geopolítico marca o início de uma nova era para os judeus espanhóis. No ano de 929, o Califa Abd-ar-Rahman III rompe com o Califado Central e declara o Califado de Córdoba independente de Bagdá e da autoridade religiosa muçulmana do Oriente. Governante liberal e tolerante, tanto na forma de pensar quanto na de agir, queria tornar seu reino um importante centro econômico e cultural. Sabia que para atingir tal objetivo era indispensável que reinasse a paz e a harmonia. Como primeira medida, pacificou as diferentes facções guerreiras muçulmanas que lutavam na Península. Simultaneamente, adotou atitudes conciliatórias em relação às minorias sob seu domínio, especialmente os cristãos, oferecendo-lhes, entre outras, a oportunidade de participar dos assuntos de Estado e garantindo-lhes liberdade religiosa.

Durante seu reinado, Córdoba tornou-se a primeira economia urbana e comercial a florescer na Europa, depois do desaparecimento do Império Romano. Um apaixonado pela filosofia, poesia, teologia e ciências seculares, Rahman III estimulou e patrocinou o conhecimento sob todas as formas e em todas as áreas. Sem medir esforços, importou livros de Bagdá e recrutou sábios, poetas, filósofos, historiadores e músicos. Construiu uma infra-estrutura composta de bibliotecas, centros de pesquisa e estudos, criando a tradição intelectual e o sistema educacional que tornariam a Espanha centro de referência pelos quatro séculos seguintes. A Universidade de Córdoba tornara-se a maior do mundo. Na época, Córdoba abrigava cerca de 400 mil habitantes, aproximadamente 700 mesquitas, 60 mil palácios e 3 mil banhos públicos dentro dos limites urbanos, ruas pavimentadas e iluminadas. Por trás da austeridade da fachada das casas, o luxo beirava a opulência, com jardins floridos e fontes de água corrente. Havia 70 bibliotecas, sendo que a do Califa possuía quase 400 mil volumes, uma equipe própria de pesquisadores e encadernadores. Possuía, ainda, escolas de arquitetura e centros especializados para tradução das obras clássicas ao árabe.

Os judeus também participaram desta época de prosperidade econômica e efervescência cultural. Os Califas omíadas, particularmente Abd-ar-Rahman III, consideravam os judeus um segmento útil e leal da população e os tratavam com dignidade e respeito. Livres para exercer qualquer atividade cultural ou econômica, estes ingressaram em vários setores da economia, incluindo o comércio, as finanças e as profissões liberais. Tornaram-se médicos famosos, poetas ilustres, filósofos, astrônomos, cartógrafos de renome e também diplomatas e generais.

A relação que a comunidade judaica estabelecera com os Califas trouxe para os judeus sefaraditas um estilo de vida agradável e produtivo. As residências dos judeus mais abastados mantinham um alto padrão de beleza e requinte. Em pouco tempo, o Califado atraiu judeus de outras partes. Confrontados com uma discriminação opressiva além de conversões forçadas, no Império Bizantino, e rompantes de fundamentalismo islâmico em outras regiões do Império Muçulmano, milhares de judeus se estabeleceram em Córdoba, assim como nas cidades de Granada, Sevilha, Lucena e Toledo. O judaísmo andaluz, tendo Córdoba como seu epicentro, entrou na chamada Idade de Ouro da cultura judaica, no século X.

O grande responsável pelo trabalho de base que permitiria o florescimento da cultura judaica foi Hasdai Ibn Shaprut (915-970), médico, diplomata, um dos homens de confiança do Califa Abd-ar-Rahman III e líder da comunidade judaica de Córdoba. Foi o responsável pela fundação da famosa Yeshivá de Córdoba, que seria dirigida por Rabi Moshe ben Hanoch. Foi nessa época que os laços que prendiam os judeus sefaraditas às autoridades gaônicas da Babilônia começaram a se afrouxar e Córdoba se tornou independente do protecionismo religioso e intelectual da comunidade da Babilônia. Os séculos X e XI em Córdoba foram marcados pela proliferação de instituições acadêmicas judaicas. Astrólogos, astrônomos, calígrafos, filólogos e filósofos compuseram o perfil de um grupo para o qual eram essenciais as leis e as tradições judaicas, assim como o humanismo e a educação.

Desmembramento do Califado

Apesar de sua prosperidade, a supremacia do Califado de Córdoba não era sólida e ventos desfavoráveis estavam prestes a derrubá-lo do poder. No ano de 1013, primitivos berberes muçulmanos tomaram Córdoba, saqueando-a e fazendo desmoronar a dinastia dos Califas omíadas. Começava, então, para a cidade, um período de declínio gradativo, intercalado por períodos de glória. Judeus proeminentes foram assassinados; no entanto, até o século XIV, a cidade continuou a ser o principal centro judaico. O esplendor da sinagoga datada do período, 1315, confirma este fato.

O desmembramento do Califado omíada e a ausência de um poder forte durante todo o século XI permitiram o estabelecimento, na Andaluzia, de uma série de pequenos estados islâmicos que variavam em extensão, recursos e poder. Nas décadas que fecharam o século XI, os almorávidas, dinastia berbere islâmica do norte da África, dominaram a Espanha. Violentos e imprevisíveis, constituíam uma ameaça para as comunidades judaicas. No século XII, outra dinastia berbere, os almôadas, invadiu a região, iniciando na Andaluzia uma nova onda de fundamentalismo. O fanatismo religioso e a intolerância desses novos líderes muçulmanos trouxeram insatisfação à população em geral e grande sofrimento e destruição para as comunidades judaicas do sul da Espanha. Fecharam sinagogas e yeshivot. E, à exemplo do que ocorrera durante a dominação dos visigodos, os judeus foram obrigados a se converter - desta vez ao islamismo - sob a ponta da espada. A emigração de boa parte dos judeus da Andaluzia a partir do século XII, provocada pela intolerância de seus governantes, fez a cultura judaico-hispânica perder o antigo brilho.

Muitos judeus, entre os quais Maimônides, nascido em Córdoba em 1135, fugiram para a África à procura de regimes mais tolerantes; outros foram para o norte da Espanha, então sob domínio cristão. Sentiam-se mais seguros entre os cristãos, que, naquele momento, receberam-nos de braços abertos. Os que ficaram na Andaluzia, como tinham muito a oferecer aos novos conquistadores, em particular na área administrativa e diplomática, com o tempo conseguiram reconquistar tratamento mais favorável.

Fim do domínio Islâmico na Andaluzia

A entrada dos almôadas na Espanha adiou, mas não conseguiu impedir a queda dos reinos muçulmanos na Andaluzia, frente ao ímpeto dos exércitos cristãos em sua campanha para reconquistar a região. Em 1236, Córdoba foi reconquistada pelos cristãos que passaram a ver a comunidade judaica como "um escândalo contra o cristianismo". Se a Andaluzia foi o local onde primeiro se estabeleceram os judeus, foi também o primeiro do qual foram expulsos. Os violentos pogroms, que marcaram o início do fim da vida dos judeus na Espanha, ocorreram em Sevilha, em 1391. Foi lá também que a Inquisição foi instituída.

Os reis Isabela e Fernando usaram Córdoba como seu quartel-general na luta contra os mouros e o Tribunal da Inquisição estabelecido na cidade era especialmente cruel em suas ações. Em 1483, quase dez anos antes do "Edito de Expulsão", os judeus foram expulsos da Andaluzia. Era o fim da comunidade judaica de Córdoba.

Quando, em 1492, Granada, último reduto muçulmano, foi reconquistado pelos exércitos cristãos, os reis espanhóis expulsaram, no mesmo ano, todos os judeus de seus territórios. A opção era se converterem ou deixar a Espanha. Encerrava-se a gloriosa vida judaica em Sefarad.Os judeus espanhóis se espalharam pelo mundo, levando consigo sua cultura e tradições, que perduram até nossos dias.

Nunca mais houve uma comunidade judaica em Córdoba. Mesmo após os judeus terem iniciado a volta à Espanha, a partir do final do século XIX, o número de judeus na cidade é insignificante. Somente nas últimas décadas, surgem sinais de que os espanhóis estão iniciando o resgate, ainda que tímido e incipiente, da cultura e das contribuições judaicas à história de Andaluzia.