Morashá
A Rússia czarista e os judeus Foto Ilustrativa

A Rússia czarista e os judeus

Era em território pertencente ao império russo que, nos séculos 18 e 19, vivia grande parte dos judeus do mundo. Tinham a vida marcada por sofrimento e miséria. Discriminação e violência eram uma constante, pois a política imperial e os ensinamentos da igreja russo-ortodoxa tinham incorporado em seu âmago virulento anti-semitismo.

Edição 53 - Junho de 2006


O regime czarista foi um dos piores e mais persistentes exemplos de autocracia da História. Os soberanos russos exerciam poder absoluto e ilimitado sobre seus súditos. No século 19 ainda existia na Rússia uma ordem pré-moderna de classes sociais legalmente separadas, de um lado, privilégios aristocráticos e, de outro, um sistema legalizado de servidão. Este Império, o maior do mundo, estendia-se das margens do rio Vístula às estepes da Sibéria e do mar Negro até o Báltico. Dentre todas as minorias étnicas que viviam sob o jugo czarista, a mais hostilizada era a judaica. Desde os primórdios até sua queda, esse regime autocrático via os judeus como forasteiros inaceitáveis. Em 1917, às vésperas da Revolução Bolchevista, a comunidade judaica russa levava o triste selo de a mais oprimida do mundo.

Presença judaica

É muito antiga a presença judaica na vasta região dominada pelos czares. Na Armênia e Geórgia, tradições locais relacionam sua chegada às Dez Tribos de Israel. Sabe-se também que desde tempos helênicos, os judeus eram ativos nos territórios fronteiriços russos. Há documentos que atestam sua presença já na época do Império Romano, sabendo-se que nos séculos 4 e 5 havia entre 10 a 30 mil judeus na Armênia e Criméia. Durante toda a Idade Média, os judeus desempenharam intensa atividade como comerciantes, em vasta faixa territorial na Euro-Ásia. Na primeira metade do século 8, o Reino dos Cazares se convertera ao judaísmo e, mesmo após a queda desse reino, no século 10, ainda havia judeus vivendo no Principado de Kiev.

Foi a partir do século 14 que o Principado de Moscou passou a liderar o processo de formação do futuro Império Russo e há documentos de 1471 que confirmam a presença de uma população judaica relativamente pequena neste Principado. No início do século16, todos os territórios russos estavam unidos sob a hegemonia moscovita e seus governantes, que incorporaram a ideologia imperial bizantina e as crenças da Igreja Greco-ortodoxa, passaram a usar o título de "Czares" e "Soberanos de todas as Rússias".

Já no final da Idade Média, com a subida ao trono do Czar Ivan IV, o Terrível (1530-84), os judeus foram oficialmente excluídos de todo o território russo. Déspota e sanguinário, Ivan IV proibiu a entrada de qualquer judeu em suas terras, ordenando que, se encontrados, fossem afogados os que se recusassem à conversão - ou seja, só viveria em solo russo o judeu que deixasse de sê-lo.

Este fato levou à maciça instalação de judeus na Polônia, Lituânia e na Ucrânia, onde, a partir do fim do século 15, floresceram numerosas e pujantes comunidades. Mas, no final do século 18, a Polônia deixa de existir como país soberano, sendo dividida entre seus poderosos vizinhos, Rússia, Áustria e Prússia, em 1772, 1793 e 1795, respectivamente. Parte substancial do território polonês é anexada pelo Império Russo e centenas de milhares de judeus tornam-se, de uma hora para outra, súditos indesejáveis dos czares.

Desde o início, os objetivos dos czares foram: não permitir que as massas judaicas vivessem no coração da Rússia; torná-los economicamente "úteis" e absorvê-los religiosa e culturalmente.

A política czarista era caracterizada por uma mistura de esforços para "regenerá-los", russificando-os e os obrigando a se "amalgamar" com a população cristã, e medidas discriminatórias. Os maus-tratos, a hostilidade e o desprezo eram uma constante.

A encarcerização: Território do Acordo

Em 1762, sobe ao trono a Czarina Catarina II, a Grande. Imbuída das idéias do Iluminismo apóia, durante seu reinado, o comércio, as artes e ciências, e, destaque seja feito, publica uma Carta de Tolerância Religiosa que englobava os súditos muçulmanos e cristãos não-ortodoxos. Mas, deixa claro, desde o início, que seus ideais liberais não abrangiam os judeus. Um de seus primeiros atos, ao subir ao trono, foi permitir aos estrangeiros a livre circulação em seu Império. Havia, porém, uma exceção: os judeus. A Czarina queria evitar a "nefasta" influência que eles poderiam exercer sobre as massas russas.

Em 1772, após a primeira anexação de território polonês, Catarina II concedeu aos judeus o direito de residência, para, pouco depois, barrar sua entrada no "solo da Mãe Rússia". Pressionada por comerciantes cristãos de Moscou, que queriam impedir a atuação de negociantes judeus, em 1791 proibiu aos judeus de se estabelecerem na Rússia Central.

Mas, foi em 1794 que a Czarina promulgou um decreto que marcaria profundamente a história dos judeus do Império Russo. Determinou seu confinamento na chamada "Zona de Residência" ou "Território do Acordo" - em russo, Cherta Osedlosti. Com um milhão de km2, ou seja, 4% do Império, esta área incluía a antiga Polônia, Ucrânia, Bielorrússia e Lituânia. Mais de 90% dos judeus do Império passaram a viver na Cherta, passando a ser a maioria em muitas cidadezinhas e vilarejos, os famosos shtetls. Nem mesmo podiam aventurar-se temporariamente fora da área delimitada, a não ser com permissão especial e de curta validade, cuja obtenção era extremamente difícil. Apenas era concedida a poucos privilegiados. Tampouco lhes era permitido escolher a área onde viver, ainda que dentro do Território. E, durante todo o século 19, o governo czarista foi restringindo, cada vez mais, os locais onde era permitido aos judeus viverem. No início do século 20, 94% dos judeus ainda viviam dentro da Cherta, tendo esse confinamento forçado prevalecido até a queda do regime czarista, em 1917.

O Estatuto dos Judeus

No início de seu reinado, Alexandre I, neto de Catarina, que governou de 1801 até 1825, iniciou uma série de reformas. Um de seus projetos foi melhorar a condição dos judeus, integrando-os na vida russa. Na época, a população judaica era de cerca de 1 milhão de pessoas.

Em 1804, promulga o "Estatuto dos Judeus", que perdurou praticamente inalterado por meio século. Segundo as determinações desse conjunto de leis, os judeus passaram a ter acesso a escolas e universidades russas, mas esta aparente benevolência nada mais era que outra tentativa de "amalgamá-los", educando-os dentro dos valores cristãos. O estatuto atacava as bases econômicas da população judaica, proibindo-a de arrendar terras, comercializar bebidas alcoólicas, inclusive dirigir tabernas. Determinava também a expulsão de judeus dos pequenos vilarejos do Território. Os judeus deviam viver em centros urbanos ou se tornar agricultores em terras cedidas pelo governo, no sul da Rússia.

O governo czarista queria convencer a população cristã de que a miséria e desumana escravização dos servos não eram conseqüência de sua exploração por nobres latifundiários, mas sim "resultado" das atividades econômicas dos judeus.

Nenhum dos objetivos de Alexandre I se concretizou. A agricultura não atraía os judeus e nada conseguia fazê-los se converterem. Eles repudiaram todas as medidas que visavam sua "russificação". Sua profunda religiosidade lhes era fonte de consolo e determinava todos os aspectos de seu cotidiano. Ademais, a vida primitiva e miserável dos camponeses russos, iletrados e supersticiosos, não tinha atração alguma para eles. Mesmo as expulsões não se concretizaram porque o Czar temia a Napoleão e seu exército. Ciente dos direitos que o imperador francês concedera aos judeus, temia que, caso Napoleão invadisse a Rússia, certamente este último firmaria uma aliança com os judeus russos. Mas tal fato não aconteceu: quando os exércitos franceses invadiram a Rússia, os judeus não cooperaram com os invasores. Apesar disso, como "recompensa" por sua lealdade, o governo czarista intensificou sua hostilidade.

Decretos cantonais

É difícil dizer qual dos czares russos foi pior para os judeus. Mas, não há dúvida de que Nicolau I, sucessor de Alexandre I, que governou de 1825 até 1855, iniciou um dos períodos mais sombrios da história de nossos irmãos. Seu governo foi marcado por um autoritarismo absoluto, uma ortodoxia religiosa e um nacionalismo extremados. Odiava todas as minorias e sua hostilidade e desprezo pelos judeus eram exacerbados.

Em agosto de 1827, Nicolau I promulgou um decreto que fez estremecer o coração judaico. Era uma "reinterpretação" da lei do alistamento militar, obrigatório para todos os homens do Império a partir de 18 anos, com a duração de 25 anos. Os famigerados "Decretos cantonais", como ficaram conhecidos, determinavam que os jovens judeus se alistassem aos 12 anos e, até completarem 18 anos, vivessem em escolas "cantonais" (o nome veio da palavra "cantão", que significava acampamento militar). Eram horrendas as condições de vida dos meninos nessas escolas: apanhavam e passavam fome. Não podiam rezar em hebraico, eram obrigados a se desfazer de todos seus pertences religiosos e a assistir missas e aulas da religião cristã. O objetivo era convertê-los. Se resistiam às pressões psicológicas, eram submetidos a cruéis castigos. Houve casos de unidades inteiras de "cantonistas" forçadas ao batismo em massa. Havia recrutas que preferiam a morte ao batismo. Uma vez recrutados, suas famílias não esperavam ver os filhos novamente; muitos morriam e os que sobreviviam, convertiam-se, na maioria. Mas, um dos mais cruéis aspectos do decreto era que recaía sobre a própria comunidade judaica a obrigação de fornecer seus recrutas. As injustiças decorrentes e a luta heróica dos judeus contra os "Decretos cantonais" viraram o amargo tema central do folclore judaico-russo.

Em 1835, Nicolau I reduziu ainda mais drasticamente a área de residência permitida aos judeus dentro da Cherta. O Czar proibiu também o uso de vestuário tradicional judaico e do uso da língua iídiche. Querendo impulsionar a "educação moral" dos judeus, determinou que fossem queimados publicamente milhares de livros em hebraico e iídiche. Não satisfeito, Nicolau I fomentou a cisão dentro das comunidades judaicas, criando situações tais que colocassem os seguidores da Haskalá (Iluminismo judaico) contra os chassidim e os ortodoxos.

Mas, apesar de todas as discriminações e perseguições, os judeus permaneciam fiéis à sua herança e isso forçou o império russo a uma abordagem mais "científica", concebida a partir de 1840. O governo determinou a criação pela Coroa de escolas judaicas em toda a Zona de Residência. Para tentar minimizar a desconfiança dos judeus, a implementação do projeto ficou a cargo de um jovem judeu alemão, Max Lillienthal. Caberia a ele convencer os judeus de enviarem seus filhos às Escolas da Coroa - tarefa nada fácil, especialmente porque na época o governo intensificara as medidas antijudaicas. O grande incentivo era a isenção do recrutamento militar para todo jovem que freqüentasse tais escolas. Mesmo assim, eram poucos os que se matriculavam e o número caiu ainda mais quando, em 1844, os temores dos judeus se confirmaram. Isso se deu quando tomaram conhecimento de um memorando confidencial que reafirmava as intenções do Czar "cujo objetivo para educar os judeus era trazê-los mais perto do cristianismo".

Falsa esperança

Somente com a subida ao trono do Czar Alexandre II (que reinou de 1855 até 1881), a situação dos judeus apresentou alguma melhora. Tomando posse em clima de descontentamento social, o novo governante prometera a todos os súditos "educação, justiça, tolerância e tratamento humanitário". Aclamado como o "Czar Libertador", Alexandre II iniciou reformas para implantar um sistema de produção capitalista. A Rússia ainda era uma nação agrícola, que preservava as injustiças feudais de servidão. O Czar começou a incentivar a indústria, o comércio e a construção de uma rede de estradas de ferro. Em 1861, emancipou os 47 milhões de servos russos.

Ninguém tinha mais esperanças no novo Czar do que os 3 milhões de judeus que viviam na Cherta. Alexandre II, que reduzira para 6 anos o odiado alistamento compulsório, e aboliu o "acantonamento" dos jovens judeus. Se os judeus tivessem compreendido as atitudes do Czar a seu respeito, teriam sido menos otimistas. Alexandre II tinha horror à idéia de igualdade civil para os judeus, mas sabia de que a época exigia alguma melhora em seu status. Acreditava que eles deviam "conquistar" privilégios através de uma "melhoria moral". Decidiu russificá-los usando métodos mais modernos, não mais penalizando os judeus "inúteis", mas, pelo contrário, premiando os considerados "úteis".

O governo czarista dividia os judeus entre "úteis" e "inúteis". A primeira categoria abrangia grandes comerciantes, banqueiros, os que tinham curso superior, artistas e artesãos qualificados. Em 1865, permitiu aos " úteis" estabelecerem-se na própria Rússia, pois queria que o capital e o talento judaicos fossem usados para o desenvolvimento da economia de seu império.

Comunidades judaicas formadas por grandes comerciantes, financistas, industriais, artistas, acadêmicos surgiram em Varsóvia, Lodz, Vilna, Odessa, São Petersburgo e Moscou. Vestiam-se seguindo os padrões ocidentais, falavam russo e seus filhos freqüentavam escolas russas, mas, ainda assim, muitos adotaram as idéias da Haskalá.

Nas duas últimas décadas do governo de Alexandre II, a Rússia vivenciou um impressionante desenvolvimento econômico. A produção industrial aumentou, assim como o comércio internacional. Centenas de ferrovias foram construídas e o sistema financeiro se expandiu. Empresários judeus destacavam-se no comércio e no sistema bancário. Graças a seu acesso ao capital e às relações internacionais, os judeus estabeleceram as bases do moderno sistema financeiro da Rússia. Foram responsáveis pela construção e financiamento de 75 % do sistema ferroviário. Os irmãos Poliakov, agraciados pelo Czar Alexandre II com títulos de nobreza, construíram as primeiras ferrovias do império e fundaram o Banco de Moscou. Os barões Guinsburg, pai e filho, fundadores do Banco Guinsburg de São Petersburgo e grandes investidores nas minas de ouro da Sibéria, foram algumas das mais importantes personalidades da época.

Mas, nuvens pretas novamente avizinhavam-se da população judaica. Na década de 1870, após esmagar uma rebelião polonesa, Alexandre II deu uma guinada reacionária. O Czar e seus ministros se tornaram adeptos das idéias do nacionalismo eslavo, uma nova corrente de pensamento reacionário que pregava uma volta aos valores russos e desprezava qualquer idéia liberal da Europa Ocidental.

Como era de se esperar, os judeus foram os grandes alvos da nova política. Até início do século 20, foi-se gradualmente acumulando contra eles uma enorme massa de legislação discriminatória. Ademais, parte da população russa não via com bons olhos o sucesso econômico e o aumento da visibilidade social dos judeus. A alegação favorita de todo anti-semita - a de que "o país estava prestes a ser dominado pelos judeus e que a pátria e o povo precisavam ser protegidos" - toma corpo em todo o império.

No fim do reinado de Alexandre II, 4 milhões de judeus viviam na Rússia.

As "Leis de Maio"

As esperanças dos judeus de que a situação melhorasse acabaram abruptamente quando, em março de 1881, o Czar foi assassinado por revolucionários; seu filho, Alexandre III, sobe ao trono, governando de 1881 até 1894. O fato de haver entre os responsáveis uma jovem judia, deu margem a um recrudescimento da propaganda anti-semita. A mídia passou a escrever acerca de uma "conspiração secreta judaica contra a Rússia". Para piorar o panorama, o novo Czar entregara as rédeas do governo a Konstantin Pobedonostzev. Arqui-reacionário nacionalista, procurador geral do Santo Sínodo, autoridade suprema da Igreja Ortodoxa Russa, Pobedonostzev acreditava que só um governo nacionalista forte e absolutista poderia salvar o país.

Instalou-se um regime de terror policial e as minorias étnicas foram alvo de nova campanha de russificação. Em relação aos judeus, o governo determinou que deviam ser isolados ainda mais da vida russa e identificados e responsabilizados como "a raiz de todos os males da Rússia". O anti-semitismo - que permeava todas as classes sociais, inclusive as elites intelectuais - era um ingrediente básico da ideologia de Pobedonostzev. Para ele, os judeus da Rússia tinham apenas três opções: "emigrar, morrer ou se converter".

No dia da coroação de Alexandre III, explodiu uma onda de pogroms sanguinários que se alastraram, "espontaneamente", durante a primavera e verão russos de 1881, no sul da Rússia e Ucrânia. As comunidades de Odessa, Kiev, Balta e, em seguida, todos os shtetls da "Zona de Residência", mais de cem, foram assaltadas, suas propriedades destruídas, ocorrendo ademais assassinatos. A polícia sempre assumia uma postura apática e há provas de que o anti-semitismo era "patrocinado" pelo governo. Era a polícia secreta do Czar que, além de organizar inúmeras caças aos judeus, imprimia e distribuía folhetos incitando as massas. Rumores à época afirmavam que o Czar via os pogroms com bons olhos.

Apesar dos protestos e da indignação internacional, o governo do Czar não modificou sua política anti-judaica. Em outubro de 1881 foi promulgada uma legislação anti-semita conhecida como "As Leis de Maio". O pretexto que as "justificava" foram os pogroms, segundo o governo, "resultado direto da indignação popular contra os judeus, cabendo, portanto, ao Czar restringir as atividades de tal minoria". Na época, a Rússia era o único país da Europa onde o anti-semitismo era política oficial e, nos trinta anos que se seguiram, as ações anti-judaicas apenas se multiplicaram.

As Leis de Maio limitavam drasticamente o ingresso de judeus em várias profissões, assim como ao sistema educacional russo e às universidades. Reduziram a área do Território onde podiam viver. Com sua expulsão dos vilarejos, a vida judaica nos shtetls chegava ao fim. Ocorreram deportações em massa de judeus. Mais de dez mil foram expulsos de Moscou, em seguida de São Petersburgo e Carkov. Mais de 40% de toda a população judaica fora reduzida à miséria. O desespero tomou conta dos judeus e centenas de milhares deixaram a Rússia, levando consigo nada mais que a roupa do corpo. Estima-se, em média, que de cada 1.000 judeus, 156 emigraram entre 1898 e 1914.

O Czar dos Pogroms

Quando subiu ao trono Nicolau II (1895-1918), último da dinastia dos Romanovs, conhecido na história judaica como o Czar dos Pogroms, iniciava-se mais um período negro e marcado por extremo sofrimento judaico. O Czar resolveu tentar "afogar a Revolução Bolchevista no sangue judeu". Entre 1903 e 1907, a violência se reacendeu. Os pogroms - 284 durante o período - são incentivados pelo governo e, em abril de 1903, ocorre o sangrento pogrom de Kishinev. (Morashá 40)

A Revolução de 1905 foi um marco na história da Rússia, assinalando o início do fim do regime czarista. Temendo ser deposto, Nicolau II atende, contrariado, algumas das exigências das massas insatisfeitas: promulga a Constituição e cria a Duna, o parlamento russo.

Ansioso por recuperar seu poder absolutista e esvaziar a revolução, o Czar buscava um "bode expiatório" para levar a culpa pelos males da Rússia. A escolha foi fácil. A estratégia era convencer os camponeses de que o movimento revolucionário era um movimento judaico, que visava destruir toda a Rússia. Acreditavam o Czar e seus partidários que, se a revolução pudesse ser desacreditada, as massas se iriam voltar para seu Czar em busca de proteção contra o inimigo comum.

Em outubro de 1905, 660 comunidades judaicas foram atacadas. Somente em Odessa, 300 judeus foram mortos e dezenas de milhares perderam todos os seus bens. Um grupo paramilitar, chamado "Centúrias Negras" (braço armado da Liga do Povo Russo), foi organizado para acabar com a oposição ao czarismo. Estava pronta a contra-ofensiva que deteria a Revolução. A Liga do Povo Russo foi o primeiro instrumento moderno do anti-semitismo russo. Seu alvo eram todos os judeus, indiscriminadamente. Entre as pessoas assassinadas havia burgueses liberais e industriais proeminentes.

Para atiçar ainda mais o ódio contra os judeus, o governo passou a publicar e distribuir panfletos incendiários. Entre 1903 e 1916, foram distribuídas 14 milhões de cópias de 2.873 panfletos anti-semitas. Muitos eram impressos nos escritórios do Ministério do Interior. Um destes, que se tornaria o documento anti-semita mais lido da história - Os Protocolos dos Sábios de Sião - também foi forjado e publicado pela polícia secreta russa.O famigerado panfleto "afirmava" que tais protocolos eram anotações de uma reunião sigilosa de líderes mundiais judeus, que supostamente acontecia uma vez a cada cem anos, a fim de organizar a manipulação e o controle do mundo, no século seguinte. Os Protocolos eram e, infelizmente, ainda são usados como "prova" de que "o mundo é dominado pelos judeus". Apesar de serem desmascarados como óbvia fraude, poucos anos após sua primeira publicação, não cessaram de ser lidos por anti-semitas.

Foi ainda durante o reinado de Nicolau II, em 1911, que o "Caso Beilis" torna o anti-semitismo russo célebre no mundo todo. (Morashá 42)

Com a crescente devastação da comunidade judaica, considerada a mais oprimida do mundo, as pessoas buscavam uma saída dentro ou fora da Rússia. Desesperados e à procura de um meio para melhorar a situação, muitos judeus aderem aos movimentos anarquistas, comunistas, socialistas e ao movimento Bund. Qualquer tendência lhes servia, desde que pudesse fornecer alguma esperança de mudança. Outros, em massa, preferiram emigrar em busca de local mais acolhedor. Entre 1881 e 1914, cerca de 50 mil judeus deixavam a Rússia por ano, totalizando 2,5 milhões. A maioria dos imigrantes desse período escolheu como destino os Estados Unidos. Apesar dessas maciças levas emigratórias, devido à sua alta taxa de natalidade, a população judaica da Rússia permaneceu constante, cerca de 5 milhões de pessoas. Antes da emigração em massa, os judeus totalizavam de 7 a 8 milhões.

Em 1917 a Revolução Bolchevista pôs fim aos odiado regime czarista. Para muitos judeus, parecia o fim de longo um pesadelo. Mal sabiam que era o início de outro, tão ou mais cruel ainda...

Bibliografia

Sachar, Howard, The Course of Modern Jewish History, Ed. Random House

Johnson, Paul, "História dos Judeus", Editora Imago

Comay, Joan, "The Diaspora Story"

Beilis, Mendel ,"Scapegoat on Trial: The Story of Mendel Beilis"