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A PRESENÇA JUDAICA NA GRÉCIA Foto Ilustrativa

A PRESENÇA JUDAICA NA GRÉCIA

A comunidade judaica grega tem uma longa história, podendo ser considerada a mais antiga da Europa. Os romaniotas, sefardim e ashquenazim que habitavam no país antes da Segunda Guerra Mundial totalizavam mais de 70.000 pessoas.

Edição 39 - Dezembro de 2002


A vida judaica antes da Segunda Guerra

Os romaniotas a população judaica original do Mediterrâneo Oriental, Constantinopla, Bálcãs e Ásia Menor vivem na região desde a Antigüidade. Tanto o historiador e geógrafo grego Strabo, quanto o filósofo judeu Filo, de Alexandria, relatam que existiam, em todo o mundo conhecido nos primeiros séculos da Era Comum, comunidades judaicas organizadas. Na Grécia, sabe-se que existiram inúmeras comunidades na Tessália, Beócia, Macedônia, Etólia, Ática, Argos, Corinto, na maior parte do Peloponésio e nas ilhas de Eubéia e Creta. No primeiro século desta Era, as comunidades judaicas gregas foram visitadas pelo Apóstolo Paulo durante o curso de sua segunda jornada, na qual ele pregou o cristianismo nas sinagogas em Filipos, Tessalonica, Beréia, Atenas e Corinto8.

Durante a era bizantina e nos primórdios da otomana, a presença judaica na Grécia foi mantida, mas pouco se conhece sobre sua vida e seus costumes. Nosso conhecimento advém, na maior parte, das leis e decretos sancionados em perseguição aos judeus ou em sua defesa, bem como dos diários de viajantes, como Benjamin (Ben Jonah) de Tudela, viajante judeu da segunda metade do século XII. Tudela visitou várias comunidades judaico-gregas em Corfu, Arta, Patras, Corinto, Tebes, Egripo (Halkida), Salonica (Tessalonica) e Drama.

O ano de 1492 marcou um importante renascimento da vida judaica na Grécia, pois muitos dos judeus sefarditas expulsos da Espanha e, mais tarde, de Portugal encontraram refúgio nos territórios e cidades gregas do Império Otomano. A demorada luta entre os otomanos e os bizantinos fizera com que a maioria das cidades gregas perdessem suas populações judias. Os otomanos convidaram os judeus para se instalar em sua nova capital, Istambul, de modo a aumentar o contingente populacional e a fazer reviver o seu comércio.

As mudanças territoriais nos Bálcãs, ao longo do início do século 20, introduziram modificações na composição e no caráter das comunidades judaicas da Grécia. Salonica, por exemplo, uma cidade judia durante toda a época otomana, tornou-se parte da Grécia em 1913. Isto resultou numa mudança gradual da personalidade da cidade e em sua transformação de centro multicultural em uma cidade portuária grega. Durante a década de 1930 e, imediatamente antes do estourar da II Guerra Mundial, 31 comunidades judaicas estavam dispersas por toda a Grécia12. A maior destas, Salonica, contava com mais de 50.000 judeus, enquanto outros 20.000 viviam espalhados por todo o país. (Ver tabela 1).

Shoá - o Holocausto na Grécia

A ocupação alemã na Grécia ocorreu gradualmente. Em 1941, a Grécia era dividida em três zonas: alemã, italiana e búlgara15. Os alemães ocuparam a Macedônia Central, uma faixa da Trácia e Creta, onde estavam localizadas as comunidades judaicas de Didimótico, Nea Orestíade, Soufli, Beréia, Edessa e Florina. Os búlgaros ocupavam a Macedônia Oriental e a Trácia, onde situavam-se as comunidades de Cavala, Serres, Drama, Xanti, Comotini e Alexandrópolis. E os italianos ocupavam o restante da Grécia, onde estavam as comunidades judaicas de Castória, Chalkis, Atenas, Patras, Agrinio, Arta, Preveza, Joanina, Corfu, Zante e Rodes.

Inicialmente, a zona italiana constituía um porto seguro para os judeus que foram cautelosos de deixar, a tempo, as zonas de ocupação alemã e búlgara. Os búlgaros reuniram os judeus da Trácia em 3 de março de 1943. Anteriormente, tinham saqueado, de modo organizado, os valores e propriedades comunais e individuais judaicos. Todo o butim acabou nos cofres do Banco Nacional da Bulgária17. Deportaram 4.700 judeus das seguintes cidades em sua zona de ocupação: Cavala (1.800), Serres (596), Drama (780), Alexandrópolis (150), Comitini (819) e Xanti (561)18.

Os alemães deportaram os judeus de sua área de ocupação em 1943. Entre março e agosto de 1943, os alemães deportaram a maioria da população judaica das seguintes cidades da Macedônia e da Trácia Oriental: Florina (372), Beréia (680), Didimótico (970), Nea Orestíada (160), Soufli (32), Caterini (3), Naousa (30), Lagada (50) e Tessalonica (46.091).

Entre 1941 e 1943, os italianos praticamente não adotaram nenhuma medida anti-semita. Pelo contrário, as autoridades italianas, mesmo em Tessalonica, faziam todo o possível para salvar as famílias judias19, concedendo-lhes documentos italianos e ajudando-as a escapar para a zona italiana. Mas, após a queda da zona italiana em mãos alemãs, com a derrota da Itália, em setembro de 1943, os judeus, que até aquela data viviam em relativa segurança, tiveram o mesmo destino que seus demais correligionários. Logo após a tomada pelos alemães da zona italiana, eles se apressaram em executar naquelas regiões a Solução Final, antes do fim da guerra. Em março de 1944, os alemães reuniram os judeus de Atenas e, no final de julho de 1944, tinham conseguido reunir, fuzilar ou afogar os judeus nas cidades e ilhas remanescentes da Grécia. Os alemães deportaram ou assassinaram os judeus das seguintes cidades: Atenas (1.690), Preveza (172), Arta (352), Agrinio e Patras (90), Chalkis (122), Larisa (225), Volos (130), Tricala e Carditsa (50), Castória (763), Joanina (1.860), Iracleion, Creta (800 fuzilados em represália), Chania, Creta (260 afogados próximo à ilha de Folegandros), Corfu (1.800) e Rodes (2.000).

Em setembro de 1944, os alemães deixaram a Grécia, derrotados. Mas, entre 1941 e 1944 haviam aniquilado mais de 87% do judaísmo grego, o que representa o maior percentual de mortes após os números da Polônia.

Vida judaica após a II Guerra Mundial

A Grécia viu-se livre da ocupação alemã em outubro de 1944. A situação dos judeus gregos era lastimável. Talvez seja melhor descrita nas palavras de Hal Lehrman, jornalista que visitou o país em 1945: O judaísmo grego era um microcosmo convulsionado do povo grego, com toda as tensões e pressões que destruíam a nação, acrescidas de algumas outras preciosidades: conflitos entre esquerda e direita, entre deportados e não-deportados, entre sionistas e não-sionistas. Os campos de concentração tinham massacrado a elite do judaísmo. Os mais fortes fisicamente tinham mais condições de sobrevivência. Portanto, a maioria dos que retornaram são gente mais simples e menos comprometida. Da mesma forma que os atormentados gregos, eles desconfiam dos outros e de si mesmos; faltam-lhes liderança e um sentimento de pertinência. Esperavam encontrar uma calorosa acolhida na volta ao lar, mas o governo os ignorou. O historiador Cecil Roth também testemunhou os prejuízos e os saques às propriedades judaicas na Salonica do pós-guerra: Por toda a parte vêem-se vestígios de saques. Encontrei uma criança na rua, sentada em uma cadeira de sinagoga, esculpida com inscrições em hebraico; deram-me um fragmento de um Sefer Torá que fora recortado para ser usado como sola de sapatos; vi carroças no cemitério removendo lápides hebraicas, obedecendo instruções do Diretor do Departamento de Antigüidades da província para a reparação de uma das antigas igrejas locais. Em 1946, mal se encontrava um minian no Shabat. Não havia educação religiosa para as crianças.

A economia grega, despedaçada pelos altos índices de inflação e escassas exportações, trouxe mais empecilhos para os esforços dos judeus de reconstruírem suas vidas e comunidades destroçadas. A economia teve um grande alívio com os Planos Truman e Marshall, entre os anos de 1949 e 1952, o que também permitiu ao governo atingir sua própria estabilidade e a do país23.

O empenho dos judeus em reconstruir suas vidas e suas comunidades teve o apoio do Conselho Central de Comunidades Judaicas da Grécia (Kentriko Israilitiko Symvoulio ou K.I.S.). O K.I.S. foi criado em 194524, em base temporária, com a tarefa de avaliar e reconstruir as comunidades judaicas. Em 1951 adquiriu a condição de permanente25. (Ver tabela 2)

Em março de 1949, fundou-se a Organização de Amparo e Reabilitação dos Judeus Gregos (OPAIE). Todas as propriedades pertencentes aos que tinham perecido na guerra e não tinham parentes até o quarto grau para reclamá-las foram apossadas pela OPAIE.

De forma semelhante à ajuda que existia dentro da Grécia, as comunidades judaicas, digladiando-se para se reerguer, para recuperar propriedades perdidas ou invadidas, bem como para fazer reviver suas instituições comunais, também contavam com o auxílio do American Jewish Joint Distribution Committee, da Agência Judaica e do Congresso Judaico Mundial.

Segundo as atas da conferência realizada em 1946, em Atenas, após a guerra havia 24 cidades ou vilarejos com contingentes judaicos, totalizando aproximadamente 10 mil almas30. O relatório detalhado sobre tais comunidades, elaborado por Canaris Constantinis em nome do recém-criado Conselho Central de Comunidades Judaicas da Grécia, dá-nos um estudo bastante preciso da situação das mesmas no período pós-guerra.

Pelo trabalho de Constantinis, tais comunidades enfrentavam sérios problemas para se reorganizar. Tinham que lidar com o pequeno número de sobreviventes, com o peso psicológico da Shoá, com a falta de bens e fundos, e ainda com a total ausência de quaisquer instituições judaicas operantes, quer fossem religiosas, sociais ou culturais. Tudo isso, fora os problemas generalizados de fome, destruição, inflação e desânimo com os quais se defrontava toda a população da Grécia.

Em 1945, 4.878 judeus estavam cadastrados na Comunidade Judaica de Atenas: ...85% (...) não possuem um teto digno deste nome, grande parte deles são refugiados de outras comunidades, enquanto outros, apesar de atenienses, não podem voltar a suas antigas moradias pois estas foram ocupadas pelos gregos. Ademais, informa-nos uma carta datada de 29/01/1945 e endereçada à Agência Judaica, que muitas famílias possuem apenas uma vestimenta que é usada por todos os membros da família, que se revezam nas saídas à rua, da mesma forma como se revezam, dormindo em turnos, na única cama que possuem. Os signatários da carta, respectivamente presidente e secretário da Comunidade, relatam ter necessidade premente de dinheiro para o sustento e a reabilitação da comunidade. Cópia deste carta foi enviada ao American Jewish Joint Distribution Committee, em Nova York, e ao Kadima (Olei Yavan, associação dos imigrantes da Grécia), em Tel Aviv.

A reabilitação e o restabelecimento da comunidade progrediram a passos largos: após a Guerra, 98% da população necessitava de auxílio; já em 1954, apenas 10% da população judaica era carente33.


Comunidades judaicas da Grécia

Atualmente, as comunidades judaicas gregas dividem-se em três grupos34: a) ativos, b) inativos, e c) dissolvidas.

Segundo a legislação grega35, uma comunidade é considerada ativa quando o número de suas famílias é superior a 20. Se o número for inferior a isso, a comunidade é declarada inativa e a sua diretoria consiste de membros locais e um representante do Conselho Central de Comunidades Judaicas da Grécia (K.I.S.) ou de uma comunidade adjacente (geralmente, de Tessalonica). Quando a população da comunidade cai ao ponto de atingir menos do que cinco famílias, é declarada dissolvida.

a) Comunidades ativas36 são as de Atenas (com uma população de quase 3.000 pessoas), Tessalonica (1.000), Larissa (400), Joanina (55), Kerkyra ou Corfu (40), Triacala (39) e Halkida ou Halkis (35).

b) Comunidades inativas 37 são as de Beréia (declarada inativa em 1970), Cavala (1970), Carditsa (1970) e Rodes (1970), apesar de várias famílias ainda viverem nesses lugares.

c) Comunidades dissolvidas 38 são as de Alexandrópolis ou Dedeagats (dissolvida em 1972), Arta (1959), Didimótico ou Demótica (1987), Drama (1970), Zakyntos ou Zante (1970), Iracleio, Creta (1968), Castória (1972), Comotini ou Gumultzina (1958), Cos ilha perto de Rodes (1970), Lagadas (1958), Nea Orestíada (1970), Xanti (1958), Patra (1991), Preveza (1958), Retymno, Creta (1958), Serres (1957), Florina (1970) e Hania, Creta (1958).