Morashá
A presença hebraica em Cuba Foto Ilustrativa

A presença hebraica em Cuba

Se escrever é um ato de legítima defesa na tentativa de expor a verdade, faz-se imperioso ressaltar que a presença hebraica1 em Cuba se remonta ao próprio instante em que a ilha de Cuba foi descoberta por Cristóbal Colón (1451-1500) ou Colombo, um sobrenome comum entre os judeus italianos.

Edição 71 - Abril de 2011


Recordemos que, há poucos anos apenas, a Igreja Católica se dispunha a canonizar a figura de Colombo com o motivo de celebrar a façanha que foi o descobrimento do Novo Mundo. Mas, uma vez iniciado o processo de pesquisas, o mesmo foi suspenso e posteriormente cancelado. Esta decisão teve muito que ver com a esmagadora evidência da origem judaica do almirante e sua família, oriunda de Mallorca. Deve ter sido desconcertante para aqueles católicos constatar que Colombo jamais iniciou uma travessia nas vésperas do Shabat; e que, antes de mais nada, propôs outra data para a partida de suas naus, já que a data assinalada – o nono dia do mês de Av do calendário judaico – não era propício, pois comemorava a destruição do Templo de Jerusalém.

Tenhamos em mente, também, que a primeira expedição marítima de Colombo, com suas três caravelas, “Niña”, “Pinta” e “Santa Maria”, não se teria podido realizar sem o apoio financeiro de judeus espanhóis, como Gabriel Sánchez, Luis de Santagel e Isaac Abravanel, entre outros. Não nos esqueçamos, tampouco, que os instrumentos náuticos requeridos nesta empreitada foram aperfeiçoados graças à experiência de Joseph Vecinho, cidadão judeu, bem como os desenhos utilizados eram fruto do traço hábil de Rabi Abraham Zacuto.

Entre os tripulantes dessa memorável primeira expedição há outras presenças de valor, às quais não se deu a devida atenção, como foi o caso de Luis Torres, intérprete de Colombo, que dominava o hebraico, o aramaico e algumas línguas arábicas. Sobre outros acompanhantes de Colombo, como Rodrigo de Triana, Rodrigo de Xeres – aquele que avistou terra firme – e os irmãos Vicente e Martín Alonso Pinzón, há quem diga que tenham sido conversos. No caso de Luís Torres, tem-se certeza de que era judeu de nascença, pois praticamente um dia antes de partir na primeira viagem com Colombo, foi rapidamente batizado. Parece-me legítimo especular sobre este novo converso que, do barco Santa Maria, escutou o brado de “terra” de Rodrigo de Xeres. 

Qual seria a emoção que prevaleceu no espírito desse poliglota face ao achado? Em todo caso, naquele 23 de outubro de 1492, os montículos divisados pertenciam à costa norte da província do Oriente, na Baía de Barlay. Mas Colombo, a princípio, acreditou ter chegado a um território cujos habitantes lutavam com o Grande Khan, na Ásia. Em 28 de outubro, quando o almirante pisou em terra, encontrando duas cabanas abandonadas e dois cachorros mudos, escreveu em seu diário a frase que entrou para a História: “Esta es la tierra más fermosa que ojos humanos vieron”.
            
Luís Torres, o homem de confiança do almirante, junto com Rodrigo de Xeres, foram encarregados de adentrar no território em busca de ouro. Torres não encontrou esse metal, mas relatou o caráter amistoso dos habitantes e fez repetida menção a uma atividade estranha quando enrolavam na boca umas folhas secas, nas quais ateavam fogo, para, desta forma, soltar fumaça pela boca. Insisto nos fatos e dizeres de Luís Torres, porque este judeu batizado a todo vapor ficou vivendo na Ilha de Cuba, travando amizade com um cacique que lhe presenteou com terras. Torres rapidamente fundaria um império.

E se dois judeus como Colombo e Torres conseguiram, um, descobrir o Novo Mundo e, outro, passar a povoá-lo, podemos destacar que nem todos os judeus ou conversos que chegaram a Cuba tiveram a mesma sorte que Torres. Pelo contrário, a maioria não conseguiu nessa ilha, cuja geografia foi retocada pelo traço dos anjos, escapar da obsessiva garra da Inquisição. Esta última, desde 1519, esteve firmemente estabelecida em Havana, acusando os conversos de guardarem em segredo seu judaísmo.

Em 1610, quando Cuba ficou sob a jurisdição das leis de Cartagena, soube-se que o rico comerciante Francisco López de León, acusado de “judaizante”, foi executado e sua fortuna confiscada pela “Santa Inquisição”. Obviamente, não foi o único; durante décadas, em Cuba, qualquer um que se suspeitasse judeu, era preso e públicamente queimado na fogueira.
            
Em 1762, os ingleses ocuparam a ilha de Cuba durante 11 meses. Os novos conquistadores eram mais flexíveis que os espanhóis, pois liberaram o comércio e permitiram, também, que alguns judeus acompanhassem o almirante inglês George Pocock em sua frota. Um destes foi Jacobo Frank, comerciante de Nova York, que trabalhou com outros judeus do Caribe, como Hernández de Castro – considerado o “pai da indústria açucareira”. Tanto Frank como De Castro queriam estabelecer laços de união com portos de outras ilhas vizinhas, bem como com a América do Norte e a Europa.

Em 1763, após o Tratado de Paris, a Coroa espanhola retomou o controle da Ilha de Cuba, com o subseqüente poder da Inquisição. Sabe-se que, à época, eram poucos os judeus que viviam em Havana, apesar de que o “Santo Ofício” se negasse a reconhecê-los legalmente. E, apesar de a Inquisição ter-se retirado de Cuba oficialmente em 1824, os judeus holandeses, em sua chegada a Cuba, 30 anos mais tarde, ao fugir depois da expulsão portuguesa, foram forçados ao batismo. Na obcecada resistência espanhola a qualquer mudança, vergonhoso foi o caso do capitão Miranda, pelo simples fato de se atrever a trazer a Cuba uma Bíblia hebraica.

Cabe destacar, também, que, em 1860, a ilha de Cuba produzia 1,7 milhões de toneladas de açúcar. Aproximadamente, isto representava a terça parte do fornecimento mundial. Nas palavras de um destacado economista britânico, Herman Merivale, pronunciadas em 1861 na Universidade de Oxford, “Cuba era a mais rica e mais florescente colônia em mãos do poder europeu”.

Explorar as riquezas desta e de outras colônias era o objetivo espanhol, mas, recordemos que, ainda que a imprensa já houvesse sido introduzida no país em 1720, ainda havia pântanos pelas ruas e era necessário não apenas reconstruí-las, mas criar toda a infra-estrutura de pontes e ruas. O açúcar cubano continua da melhor qualidade possível. Os negociantes de fumo tinham aumentado a produção, pois havia muita mão-de-obra nova dos escravos africanos. Ademais, haviam imigrado todo tipo de europeus – a maioria, espanhóis – e, posteriormente, haitianos. A Cuba chegam chineses – quase todos cantoneses – e jamaicanos, que aumentam de forma impressionante o cultivo do café.

A Revolução Francesa, bem como a Guerra da Independência dos Estados Unidos que a precedeu – sem esquecer as idéias de Rousseau, em seuContrato Social – constituíram os fundamentos ideológicos das transformações que se vão produzir nesse melting pot caribenho, chamado Cuba, desde a segunda metade do século 18. Estas novas idéias democráticas provocaram uma fome de liberdade nos cubanos, que, politicamente, continuavam dependendo da Espanha. A existência da vontade de independência é explicada pelo ideário conspirativo e revolucionário que culminaria com a Guerra dos Trinta Anos (1868-1898), empreendida pelo povo cubano contra o domínio da Espanha sobre a vida pública de Cuba.

A presença judaica na Ilha merece ser destacada nesse momento histórico, pois entre nomes de patriotas combatentes, como Carlos Manuel de Céspedes, José Martí, Antonio Maceo, Máximo Gómez, Ignacio Agramonte Loynaz – faltariam tantos outros ainda – interessa-me ressaltar a importância de outros nomes para fomentar esta “guerra inevitável”2.

Talvez a relação de judeus que lutaram pela independência de Cuba devesse começar com uma quantidade desconhecida de “incontáveis”, porque seus nomes permanecem ignorados e não figuram em nenhuma lista histórica. Mas esses judeus existiram e sabe-se que organizavam em Cayo Hueso equipes para jogar “bola”, base ball, em estádios públicos. O dinheiro arrecadado com as entradas era doado para a compra de armamento para a luta cubana contra o jugo espanhol. Entre alguns nomes conhecidos figuram: Horacio Reubens, o advogado nova-iorquino, íntimo amigo do José Martí; o judeu de origem húngara, Louis Schlesinger, que lutou sob o comando do general cubano Narciso López; bem como o judeu norte-americano August Bondi, também recrutado por Narciso López.

Consignado na Enciclopedia Judaica, aparece outro nome não menos interessante, nessa lista. É o do general Carlos Roloff Mialafofsky, nascido na Polônia, em 1842. Era judeu de religião e era conhecido também como Akiba Roloff, e ainda também como Carlos Hass.Roloff esteve sob o comando do general Máximo Gómez, lutando na província de Las Villas. Como verdadeiro patriota cubano, Roloff se manifestou contra o Pacto de Zanjón e se manteve em pé de guerra até 18 de maio de 1878. Depois, partiu para os Estados Unidos, onde colaborou com José Martí e os emigrados cubanos. Em 1895, quando regressou a Cuba, ocupou a nova chefatura da província de Las Villas até ser designado Secretário de Guerra. Posteriormente, quando foi fundada a República de Cuba, teve sob sua responsabilidade a organização do Arquivo Libertador. Morreu em Guanabacoa, em 17 de maio de 1907.

O historiador Calixto C. Masó esclarece que, pelos serviços prestados a Cuba e, para avaliar a contribuição dos estrangeiros à sua independência, bastaria assinalar o privilégio que a Constituição 
de 1901 outorgou a Máximo Gómez (dominicano), a José Rogelio Castillo (colombiano), a Juan Rius Rivera (porto-riquenho), a José Bo (chinês) e a Carlos Roloff (judeu-polonês): o importante fato de poderem exercer a presidência da República de Cuba.

Consideremos o Real Seminário de San Carlos e o de San Ambrosio, fundados em 1773, onde não era permitida a entrada a quem “não fosse descendente de cristão velhos” e a quem não estivesse “limpo de má raça, como os judeus, mouros..”. Recordemos, também, que, nos últimos anos do século 18, a Espanha ainda proibia a entrada em Cuba de livros editados no estrangeiro porque propagavam doutrinas contrárias à Igreja Católica; bem como, em 1784, os judeus eram excluídos das universidades da Nova Espanha, Peru, Santo Domingo. Posteriormente, na de Havana, o estudante que se inscrevesse na carreira de Direito, também era excluído pelo fato de propagar novas idéias contra os poderes constituídos. Agrada-me, portanto, enfatizar fatos de extraordinária importância.

Na Constituição de Cuba de 1901 se considerou, ainda que simbolicamente, um judeu polonês, Carlos Roloff, para ocupar o cargo de presidente do país. Este fato destaca a vocação de generosidade de um povo, como o cubano, ao pressagiar o exercício de uma vida cívica saudável nesse afã de totalidade includente3.

Migrações

Para prosseguir com as aventuras e desventuras sofridas pelos judeus nesta Ilha, é necessário mencionar certos sucessos conhecidos, mas nem sempre relacionados. O grande historiador cubano Leví Marrero – para quem o judaísmo “é uma fé, um modo de viver; não uma raça nem um grupo tenebroso, nem tampouco uma conspiração anti-cristã” – o processo da imigração judaica em Cuba “foi o resultado direto das duas guerras mundiais”. Para os judeus que buscavam oportunidades econômicas ao fugir da Inquisição, tanto como do anti-semitismo, dos pogroms ou, posteriormente, do nazismo, Cuba, naqueles tempos difíceis, foi, exceto em pouquíssimas exceções, um refúgio muito apreciado. Desfrutar daquele “céu límpido, clima grato” – ou ingrato para outros pela falta do idioma espanhol, da roupa adequada e recursos econômicos –, chegar a esse “solo fértil, economia ativa”, em uma ilha de sol brilhante, parecia a entrada em verdadeiro paraíso. Certamente foi o caso de meus pais4. Minha mãe chegou a Cuba como turista, durante a década de 1920, pois visitava uma amiga de Varsóvia que se casara em Cuba. Nessa viagem, apesar de ter conhecido aquele que seria meu pai, ela, assim como prometera à sua mãe, regressou a Varsóvia. Um ano depois, viajou outra vez a Cuba para desposá-lo.

Nunca esquecerei o que, em certa ocasião, mamãe me revelou sobre sua segunda chegada a Havana. Não me lembro, ao certo, se me disse que fora na rua Muralla ou na Bernaza, pois em ambas eram abundantes as lojas de judeus5. Ela estava em uma loja quando entrou um padre cubano e, ao se deparar casualmente com um conhecido judeu, os dois se deram um abraço fraternal. Para minha mãe aquela cena foi como presenciar um episódio do realismo mágico. Como me explicou, um encontro semelhante nunca teria ocorrido na Varsóvia anti-semita onde vivera. Foi precisamente aquela imagem, gravada em seu coração e sua mente, o que provocou nela a decisão de que Cuba seria, a partir daquele instante, sua pátria amada.

Meu pai chegou a Cuba em março de 1924. Aprendeu a falar o espanhol sem sotaque estrangeiro e o escrevia com perfeição. Em outubro de 1933 foi o primeiro judeu a se diplomar como Procurador Secretário de Justiça da República de Cuba – carreira mais conhecida como Procurador Público. Seu gabinete de advocacia era no edifício La Lonja del Comercio, no coração da cidade, chamado de “La Habana Vieja”.

Certos analistas cubanos costumavam ignorar a presença dos judeus em Cuba. Em geral, suas contribuições são tidas como circunscritas a atividades relacionadas à indústria e ao comércio, excluindo-os da política do país. Trata-se de uma análise inexata. Parece-me indispensável destacar que, no final da década de 1940, meu pai concorreu como vereador No 6 pelo Partido Agrário Nacional. Ainda que pudesse ter ganho pelo voto popular, perdeu; pois seu partido realizou um pacto com um partido rival, pacto esse que implicava em sacrifícios... entre os quais, o cargo de vereador No 6.

Fabio Grobart – pseudônimo de um judeu pertencente ao Partido Comunista de Cuba, chegou a formar parte da mesa diretória do Partido por nomeação interna. Isto causou um profundo impacto entre seus correligionários, ao ponto de converter o homem em verdadeira lenda.

A imigração judaica em Cuba havia tido um firme começo, em pequena escala, quando alguns portugueses provenientes de Curaçao e Panamá chegaram à Ilha. Em 1906, vieram a se juntar a um grupo de judeus, em sua maioria nascidos na Romênia, que se identificaram como norte-americanos. Aproximadamente havia umas cem famílias, e elas foram as que fundaram, em 1906, a primeira organização judaica em Cuba: The United Hebrew Congregation, a mesma que funcionou até 1980. Aliada a esta, nascia em 1917, a sociedade de Damas do Templo Bet Israel.

Às vésperas da 1ª. Guerra Mundial, aportaram também em Cuba imigrantes da Turquia – especificamente de Silibria, perto de Istambul – como também da Síria. Durante 1908, quando o serviço militar se tornou obrigatório na Turquia, os sefarditas desse país decidiram tentar a sorte nessa ilha que vivia uma época de plena expansão açucareira e cujo idioma era o espanhol antigo. Muitos se dispersaram pelas províncias da ilha para vender mercadorias. Esse foi o caso também dos 4.000 judeus provenientes da Europa Oriental, que chegaram em Cuba entre 1925 e 1935 falando russo, polonês e iídiche, idiomas distantes do espanhol que, de pronto, adotaram como seu.

Era inevitável que o encontro entre judeus e cubanos resultasse em uma confrontação que já começara a modificar decisivamente a fisionomia de ambos os grupos. É nesse momento que esses europeus louros, brancos, e os sefarditas de cabelos escuros ou claros se encontram invariavelmente pela primeira vez diante de negros e mulatos cubanos. Como conhecerem-se ou reconhecerem-se se sempre existia uma linha invisível que separava seus hábitos e costumes?

Naquela época, esses encontros eram sinônimos de um tipo de revolução ética e estética que chegou até a modificar todos os hábitos. Cito como exemplo Miriam Gómez, viúva de Guillermo Cabrera Infante (1929-2005). Ela me confidenciou que quando vivia no povoado de Taguasco, na antiga província de Las Villas, avistou, pela primeira vez, a única família judia que se estabeleceu em seu povoado. Aquela menina de cinco anos teve a nítida impressão de que “os marcianos já haviam chegado”. Por quê? Porque aqueles judeus apresentavam certas características: lábios grossos, cabelo crespo, mas rostos muito brancos. De fato, se não eram precisamente marcianos, ela estava convencida de que eram “negros albinos”. Ademais, como era possível que plantassem couve para depois comer? Quem comia couve em Cuba?

Mas, vamos por partes. Antes de se embrenhar em qualquer povoado no interior da Ilha, o judeu que veio para Cuba tinha que cumprir certos trâmites e requisitos. Vejamos por que a chegada dos judeus a Cuba seria inexplicável sem Tiscórnia. Esse local era centro de detenção para os casos complicados por falta de documentos ou de pagamento – ou pelo fato de alguém ter passaportes falsos ou de fornecer endereços inexistentes na Ilha. Tudo isso implicava uma espera prévia em Tiscórnia. O lugar contava com edifícios, camas, lanchonetes com comida a preços baixos e se converteu em uma espécie de limbo onde se acalentava tanto esperança quanto desesperança para aqueles que aguardavam. Os membros do Joint Relief (que funcionou de 1937 até 1948) e da Hias, bem como outros indivíduos que agiam por conta própria – como foi o caso de meu pai – ajudaram aquelas pessoas a se integrarem na vida cubana.

A população judaico-cubana adquire seu desenvolvimento máximo com a construção de centros culturais, de maneira que os antecedentes de temporalidade e impermanência vão-se erradicando; porque os judeus haviam aprendido o espanhol e dele se haviam apossado fazendo-o seu idioma. Ademais, deram-se conta de que seu presente e futuro estavam nessa ilha que lhes dera refúgio. Mas, para desenvolver uma identidade judaica, foi imperativo fundar sinagogas, colégios, jornais, editoras, restaurantes, açougues casher. E tudo isso foi criado.

Menciono alguns exemplos. Em 1906, foram comprados os terrenos para o cemitério judaico em Guanabacoa. A Unión Hebrea Chevet Ahim, cujo primeiro nome foi Unión Israelita Chevet Ahim, surgiu em 1914 e, até 1996, continuou funcionando. Em 1921, quando chegaram a Cuba cerca de dois mil imigrantes, fundou-se o Centro Macabeo. A Unión Sionista de Cuba surgiu em abril de 1924 e fechou suas portas em 1978; o Colegio Teodoro Herzl foi fundado em 1924; o Jewish Committee for Cuba surgiu em 1925 – assim como o Adath Israel, fundado no mesmo ano. O Centro Israelita de Cuba, criado em 1925, fechou em 1950. 

Foram fundados, também, o Yidisher Froien, o Comité Protector de Tuberculosos y Enfermos Mentales, bem como o Colegio Autónomo del Centro Israelita, em 1927, e o Kneset Israel, em 1929. O Hashomer Hatzair e Macabi, em 1933. O Círculo de Escritores y Periodistas Hebreos surgiu em 1936, bem como a Organización de la Cámara Cubano Judía de Comercio. Um ano antes, líderes da comunidade sefardita fundaram a Sociedade Bikur Holim para ajudar os pobres, sendo que o serviço incluía um sistema de cuidados com sua saúde. A Asociación Betar nasce em 1939. Em 1943, aORT organizou concursos entre os imigrantes e industriais.

É importante mencionar que, em 1933, muitos judeus foram presos, sem motivo. Eram tempos turbulentos para todos durante o final do regime de Gerardo Machado Morales (1925-1933) e, como os judeus careciam de uma representação diplomática que os defendesse, criou-se o “Comitê 
Inter-social”, que contava com uma Comissão Jurídica. Esta última, em sua curta vida, pois durou até 1935, teve um papel decisivo em defesa da vida, liberdade e bens dos judeus, atacados por soldados, policiais ou qualquer uma das turbas da época.

Durante o governo de Ramón Grau San Martín (1933-1934) foi promulgada a Lei de Nacionalização do Trabalho, que estipulava como mínimo que 50% dos empregados assalariados em estabelecimentos industriais e comerciais deviam ser cubanos por nascença, o que implicava que poucos estrangeiros podiam, como antes, conseguir um novo emprego. Inexistindo a oferta de trabalho assalariado, decresceu o interesse na imigração. Aqueles que já estavam na Ilha, tiveram que abrir negócios para dar emprego aos familiares próximos recém-chegados.

Em 27 de maio de 1939 ocorreu o trágico incidente com o navio “St. Louis”, que chegou ao porto de La Habana e ficou ancorado até 2 de junho, durante a presidência de Federico Laredo Brú (1936-1940), responsável – ainda que não o único – pela morte, nos fornos crematórios, de 667 passageiros dentre os 937 que estavam a bordo. Apesar das negociações e súplicas, não se conseguiu concretizar nada porque vinham infiltrados no próprio navio seis agentes da Gestapo – fato desconhecido pelo próprio capitão Gustav Schroeder – com a ordem nazista de que aqueles passageiros “não ficariam em terra”. A idéia era provar ao mundo que o destino dos judeus pouco importava. Para meu pai, o episódio foi devastador, pois ainda que ele tivesse batido em todas as portas possíveis e impossíveis, deparou-se com uma recusa intransponível. Nesse navio vinha um seu amigo violinista, e ele não pôde fazer nada por ele nem pelos demais...

Escritores do calibre de um geógrafo e historiador como Leví Marrero (1911-1995) e o Prêmio Cervantes 1991, Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), chegaram a considerar que o “carma coletivo” que as religiões orientais postulam por esse pecado de desumanidade e indiferença, ao rechaçar os passageiros do “St. Louis”, teve repercussão com o castro-comunismo que o povo cubano continua sofrendo, ainda hoje. 
            
Uma parte da imprensa cubana portou-se de forma insensível e indigna nas posturas anti-semitas de suas notícias e editoriais, como foi o caso do “El Diario de la Marina”, ao mentir descaradamente sobre o destino dos passageiros do “St. Louis”. Os diários “Avance” e “Alerta” não ficaram para trás. Este último publicava traduções do escritor nazista Julius Streicher. Mas, a seu favor, o mundialmente reconhecido etnólogo e antropólogo Fernando Ortiz (1881-1969), editor da revista “Ultra” escreveu “Defensa Cubana contra o Racismo Anti-semita”.

Em Cuba circulavam jornais como Havaner Lebn, fundado em abril de 1933, e se lia simultaneamente em iídiche e espanhol durante a década de 1950. Existiu também o Morgen Freiheit. No Havana Post, um jovem cubano, aluno do Colégio Ruston, meu irmão, deu seus primeiros passos na literatura publicando uma série de artigos. A vida seguia seu curso e longe ficou aquele ato em homenagem a Maimônides que, em 1935, foi organizado por Guillermo Belt quando era Prefeito de La Habana.

Em fevereiro de 1939, a intervenção pessoal de Fulgencio Batista permitiu o resgate de sete refugiados judeus. Talvez em algo tenha influído o fato de que seu Ministro García Montes havia trabalhado como advogado para oJoint, defendendo a causa dos refugiados judeus. Vale a pena destacar o seguinte. Apesar de que Fulgencio Batista foi o responsável pela legalização do Partido Comunista em Cuba, sua postura durante a 2ª Guerra Mundial foi contrária à União Soviética quando esta se aliou à Alemanha nazista.

Dois anos após o ataque dos japoneses a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, Batista tomou medidas draconianas com a prisão de simpatizantes com o Eixo (Roma, Tóquio, Berlim). Por exemplo, um fervente admirador de Mussolini e chefe do partido fascista, Antonio Di Gregori Di Vivanco foi detido e preso, bem como o engenheiro alemão Hahn, acusado de ser um ativista da Gestapo. Eles, mais 4.000 cidadãos alemães e 100 japoneses, foram considerados “inimigos da nação” e enviados ao cárcere na Ilha de Pinos.

Em 1947, o Comitê Pan Árabe de Cuba que, durante a guerra apoiou as causas nazistas e falangistas, opõs-se à criação de um Estado judeu. Naquele mesmo ano, o Presidente Ramón Grau San Martín ordenou que o voto de Cuba nas Nações Unidas fosse contrário à criação do Estado de Israel. A pessoa encarregada de emiti-lo foi Ernesto Dihigo. Porém, de acordo com Margalit Bejarano, a opinião pública cubana estava a favor de Israel.

Deve-se levar em conta que o Comitê Central era formado pelo “Centro Israelita”, “Cámara Hebrea del Comercio”, “Chevet Ahim” e “Unión Sionista”, e todas estas associações se fundiram em 1950 com a fundação do “Patronato”, situado no bairro de El Vedado, em Havana. O presidente eleito, Carlos Prío Socarrás (1948-1952) – que reconheceu o Estado de Israel em 14 de janeiro de 1949 – não esteve presente na inauguração do Patronato, mas durante a cerimônia da pedra fundamental do edifício, enviou como seu representante, seu irmão, Antonio. O novo presidente cubano apressou-se em reconhecer o Estado de Israel para apagar a má impressão causada por seu antecessor, com o voto nas Nações Unidas. Como um honroso protesto, nesse mesmo ano, a FEU (Federación Estudiantil Universitaria) estendeu uma manta em toda a extensão das escadarias da entrada da universidade, como sinal de apoio à criação de um Estado judeu na então Palestina.

A relação anteriormente mencionada onde apareceram feitos históricos, além de registrar a fundação e o encerramento de centros religiosos, culturais e humanitários provenientes de judeus de diferentes extratos sociais e políticos – sob qualquer ponto incompleta e sem seguir uma rígida ordem cronológica – revela-nos a aliança e as fricções entre “o judeu” e “o cubano” de uma comunidade sumamente ativa que se veria ameaçada com a imposição do regime castro-comunista.

1   O termo “hebreu” foi utilizado neste ensaio devido ao fato de que nos passaportes cubanos, a título de “Religião”, se escrevia “hebreu” ou “hebréia” – e nunca “judío”-. Coloquialmente, qualquer judeu asquenazita era chamado de “polaco”, enquanto que o sefardita, de “turco”.

2   Citação de José Martí. Aparece na pág. 323 do livro de Calixto C. Masó, Historia de Cuba. “É criminoso aquele que promove em um país a guerra que pode ser evitada, mas também é criminoso aquele que deixa de fomentar a guerra inevitável”.

3 A ironia desta disposição presidencial se contrapôs posteriormente, quando a nenhum judeu foi permitido converter-se em cidadão cubano até o final da década de 1930. Meu pai obteve sua certidão de naturalização como cidadão cubano em 6 de março de 1933. Em 23 de maio de 1937 é promulgado o decreto no. 1021 que estipulava a cobrança de 500 dólares, previamente pagos à empresa marítima em questão, para qualquer estrangeiro que entrasse em Cuba, não como turista. 
4   Meus pais: Helena Zuchowicz, (Varsóvia 1904- Cidade do México 2001) e Miguel Gurwitz Antovil (Riga 1902- Havana 1959) se casaram em 1933 em Havana. Em 1934, chegou ao mundo a autora deste trabalho e, em 1943, meu irmão, Víctor. Depois da 2ª. Guerra, graças ao esforço de meus pais, chegaram a Cuba os únicos sobreviventes da família de minha mãe: sua irmã e irmão menores, acompanhados de suas famílias.
5 Durante 1935, as atividades dos judeus estavam concentradas nas ruas Obispo, San Rafael, Galiano, Bernaza e Muralla.

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Portuondo, Fernando, Cuba Republicana. Las páginas que prohibió Fidel Castro, ,Ed. Capiro, Barcelona, 1984.
 
Nota da redação:
O ensaio La Presencia Hebrea En Cuba foi resultado de uma extensa e primorosa pesquisa realizada por Nedda G. de Anhalt. Em virtude de nossa limitação de espaço, o ensaio será publicado em duas edições. 
Em sua versão original, o texto, escrito em espanhol especialmente para Morashá, continha um grande número de ricas notas de rodapé e uma extensa bibliografia, que nos vimos forçados a editar. A versão completa será publicada em nosso site, após a publicação da segunda parte do artigo, na próxima edição. Contamos com a compreensão dos leitores e, em especial, da autora. 
 
As ilustrações desse artigo foram gentilmente cedidas pela autora do texto,  Nedda G. de Anhalt, pela fotógrafa Noga Bondy, que esteve no início de 2011 em Cuba, pelo Rabino Yossi Alpern que esteve em julho de 1986, e por Dina Kogan.

Nedda G. de Anhalt é escritora, crítica literária e de cinema e colabora com jornais e revistas do país e do exterior. Nasceu em Havana, mas se naturalizou mexicana. Formada em Direito Civil pela Universidade da Havana, e em Literatura pelo Sarah Lawrence College de Nova York, obteve seu Mestrado em Estudos Latino-americanos na Universidade das Américas, no México. Tem mais de 20 títulos publicados, alguns dos quais foram traduzidos ao alemão, inglês, italiano, hebraico, esperanto e turco. Em 2006 ganhou o Prêmio Internacional de Poesia Eugenio Florit, e em 2009, o Prêmio APEIM do México.