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A Crimeia e os judeus Foto Ilustrativa

A Crimeia e os judeus

por por Jaime Spitscovsky

Pivô de uma das crises internacionais mais relevantes das últimas décadas, a península da Crimeia, anexada em março pela Rússia após seis décadas de controle pela Ucrânia, evoca diversos momentos importantes da história judaica.

Edição 83 - Abril de 2014


A presença comunitária remonta ao  século I (EC), e a região representou abrigo para judeus que fugiam de pogroms da era czarista, foi palco de projetos agrícolas de treinamento para o movimento sionista e serviu como pretexto para um dos momentos mais dramáticos do antissemitismo soviético. O ditador  Josef Stalin fabricou a paranoia de que a Crimeia serviria para a criação de um separatismo judaico, com apoio do arqui-inimigo EUA.

A Crimeia se notabilizou ao longo da história por representar uma área estratégica. Trata-se de saída para  o importante mar Negro, cujas águas banham o litoral  de dois gigantes, russos e turcos. Czares e sultões travaram guerras para garantir também um território com solo cultivável. Em 1783, Catarina, a Grande,  impôs o controle russo sobre a região, ao derrotar os rivais otomanos.

Sete décadas mais tarde, eclodiu a Guerra da Crimeia, responsável por envolver o sul da Rússia e se estender até os Bálcãs. Naquele conflito, o império russo tentou ampliar sua hegemonia avançando sobre o decadente poder otomano, mas teve de enfrentar reação responsável por unir britânicos, franceses, e italianos. O czar  Nicolau I testemunhou o fracasso da empreitada militar, que se celebrizou como uma das primeiras “guerras modernas”, com uso intenso de estradas de ferro e telégrafos.
Apesar da derrota, que diversos historiadores classificam como o início da decadência dos czares que levaria à Revolução Bolchevique de 1917, o império russo manteve a península da Crimeia sob seu domínio.  Na região de clima temperado, a presença judaica, registrada há quase vinte séculos, passou a aumentar depois de 1791, após a permissão czarista para o assentamento de judeus.

Os pogroms de 1881e 1882 em outras áreas do império russo impulsionaram a chegada de judeus à Crimeia, atraídos também pela perspectiva da região se transformar num polo para produção e exportação agrícola. A discriminação também era menos intensa do que em áreas do império russo, como Ucrânia ou Bielorrússia, cenário histórico de shttels, a aldeia judaica típica da Europa Oriental. A vida comunitária na península se intensifica a partir do final do século 19, com a organização de vida religiosa e cultural. Em 1897, contabilizavam-se lá mais de 28 mil judeus, cerca de 5% da população.

Nessa época, florescia o movimento sionista, que encontrou na Crimeia uma comunidade interessada em participar ativamente do sonho da reconstrução do Estado judeu. Um dos personagens mais importantes da história do sionismo, Joseph Trumpeldor, buscou aquelas terras às margens do Mar Negro para treinar jovens interessados em aprender técnicas agrícolas que seriam fundamentais para a criação das comunidades judaicas na Terra de Israel, então dominada pelo império otomano. Trumpeldor, nascido na Rússia, morreu em 1920, na batalha pela defesa de Tel Hai, comunidade pioneira localizada na Galileia.Chamada muitas vezes de “parte da Nova Rússia”, por ter sido conquistada pelo império apenas no final do século 18, a Crimeia não escapou das turbulências e da violência que castigaram a região durante a guerra civil ocorrida após a revolução bolchevique de 1917. Comunistas liderados por Vladimir Lênin enfrentaram a resistência do antigo regime czarista, e a península do Mar Negro testemunhou algumas das batalhas mais sangrentas. Houve também significativo êxodo de população civil. Após ter chegado ao ápice demográfico, com 60 mil integrantes, a comunidade judaica viu seu tamanho se reduzir à metade, quando do conflito final entre vermelhos e brancos, em 1921.

O fim do enfrentamento representou um novo impulso para a presença judaica na Crimeia. A derrota dos remanescentes do czarismo não significou estabilidade nos domínios bolcheviques, e muitos judeus do interior da Ucrânia buscaram refúgio na península meridional, à espera da consolidação do regime comunista ou na rota da aliá, aguardando a oportunidade de emigrar para a Terra de Israel. Entre 1922 e 1929, a parte norte da Crimeia abrigou três comunas judaicas.

A década de 1920 reservou momentos fundamentais para a história judaica na península. O norte-americano, agrônomo, Joseph Rosen, de origem judaica, propôs ao governo soviético que reassentasse judeus atingidos por pogroms em áreas da Ucrânia, no solo fértil e no clima mais ameno da Crimeia. O Joint, organização judaica de assistência humanitária, financiaria a empreitada.

O Kremlin aprovou a ideia. Imaginava ganhar assim reforço em bolsões de resistência anticomunista na Crimeia, onde os tártaros, habitantes da região desde a invasão mongol no início da Idade Média, além de ucranianos e descendentes de alemães, ensaiavam movimentos nacionalistas e contrários ao poder soviético. O poderoso Politburo, órgão máximo de decisões do Partido Comunista da URSS, aprovou, em 1923, a criação da Região Autônoma Judaica da Crimeia. Meses depois, a cúpula bolchevique reviu a decisão e, para a “questão judaica”, optou por desenhar uma região na longínqua Birobidjan, próxima à Sibéria e à fronteira com a China.

A Crimeia, no entanto, não saiu do mapa do Joint. A organização angariou recursos junto a filantropos judeus, como Julius Rosenwald, empresário famoso por sua participação na história da Sears, Roebuck & Co., para viabilizar fazendas coletivas judaicas em solo soviético. O censo oficial de 1939 indicou mais de 65 mil judeus vivendo na península (quase 6% da população), dos quais 20 mil em colônias agrícolas.

Os nomes das iniciativas revelavam a riqueza linguística e diferentes influências ideológicas que conseguiram conviver em meio à agitação dos anos 1930. Havia Pobeda (vitória, em russo), Fraylebn (vida livre, em iídiche), e Yidendorf (vilarejo judaico, em iídiche), rótulos mais inspiradores para os judeus comunistas do que os nomes Achdut (unidade, em hebraico) e Herut (liberdade, em hebraico), certamente mais apreciados por aqueles que sonhavam em fazer aliá.

Professor da Universidade de Michigan, Jeffrey Veidlinger, lembrou, em texto recente publicado no site Tablet Magazine, que uma das canções em iídiche mais famosas do período soviético começa com o verso “A caminho de Sebastopol, não muito longe de Simferopol”, referências a duas das mais importantes cidades da Crimeia.  A música celebra uma fazenda coletiva judaica na localidade de Dzhankoy e fala das “conquistas da sovietização”, além de destacar a transformação de judeus comerciantes em agricultores. A propaganda do Kremlin buscava alicerçar as bases de um regime imposto pelo stalinismo.

De Moscou, o ditador Josef Stalin preferia a opção de Birobidjan para a “questão judaica”. Mas, na Crimeia, os judeus comunistas não desistiam de trazer para a península a proposta de uma região em que ganhassem autonomia, ainda que debaixo do guarda-chuva vermelho.

Em 1941, para surpresa de Stalin, os nazistas invadiram a URSS, rompendo um pacto de não-agressão que havia sido assinado dois anos antes. Adolf Hitler desejava manter a frente oriental em silêncio, enquanto avançava sobre o oeste da Europa. O ditador soviético avaliou que poderia dividir com seu inimigo ideológico o espólio dos impérios britânico e francês. Interessados na agricultura da Ucrânia e no petróleo do Cáucaso, fundamentais para a estratégia bélica de Berlim, os hitleristas rasgaram o pacto e mergulharam no solo do império fundado por Lênin.

A aproximação da barbárie nazista levou judeus a buscarem refúgio em paragens no leste da URSS, chegando, por exemplo, ao Cazaquistão e ao Uzbequistão, na Ásia Central. Reorganizaram lá suas fazendas coletivas. Muitos retornaram ao front, para combater no Exército vermelho. Em 1944, os nazistas foram derrotados na península da Crimeia, depois do massacre de cerca de 40 mil judeus na península.

A vitória sobre o nazismo significou o início de uma nova etapa de atrocidades na região. O regime stalinista deportou 180 mil tártaros da Crimeia para a Ásia Central, acusados de colaborar com o invasor hitlerista. Na punição coletiva, calcula-se que quase 50% das vítimas morreram de fome e de doenças durante o deslocamento. Apenas em 1967, o Partido Comunista da URSS reabilitou a população punida, mas manteve restrições a seu retorno à península. Tais limites duraram até os últimos dias da União Soviética, que se desintegrou em 1991.
 
No período stalinista, a Crimeia também esteve presente numa tragédia para o povo judeu. O capítulo começa quando o líder Salomon Mikhoels, do Comitê Judaico Antifascista, se reuniu com o chanceler soviético, Vyacheslav Molotov, para resgatar a ideia de criar uma região de autonomia judaica na Crimeia do pós-guerra. Mikhoels havia retornado de uma viagem aos Estados Unidos, onde, a mando de Stalin, esforçou-se para arrecadar fundos para o esforço de guerra do Kremlin.

Expoente do teatro iídiche, Mikhoels foi ao encontro com Molotov acompanhado do poeta Yitzik Fefer, integrante do Comitê Judaico Antifascista. Os dois saíram da reunião convencidos do apoio de Molotov à ideia, que tinha respaldo do Joint. Em seguida, enviaram a proposta por escrito a Josef Stalin.

Cometeram um equívoco trágico.  O ditador soviético nutria a paranoia de que poderiam ser espiões os soviéticos que haviam entrado em contato com o inimigo. Mikhoels se encaixava na categoria, devido à viagem aos EUA. Além disso, o popular ator e diretor havia ousado desenhar uma proposta para a “questão judaica” com o apoio da comunidade judaica norte-americana. Stalin, logo após a Segunda Guerra Mundial, manifestou a crença de que um conflito armado com os Estados Unidos seria inevitável e num futuro próximo. E, na visão stalinista, “os judeus conspirariam a favor do inimigo”.

Uma onda de antissemitismo varreu a  URSS. Salomon Mikhoels foi assassinado em 12 de janeiro de 1948. Seu corpo foi colocado sob um carro, para simular atropelamento.  A sanha stalinista prendeu o poeta Fefer.  Foi executado em 1952, na prisão de Lubyanka,  sede da NKVD, a antecessora da KGB.

Naquele 12 de agosto, que entrou para a história como a Noite dos Poetas Assassinados, foram também mortos mais doze intelectuais judeus, como Dovid Hofshteyn, Benjamin Zuskin, Peretz Markish e Leyb Kvitko.  A perseguição seguiu com outra fabricação do stalinismo: o Complô dos Médicos.  O Kremlin acusou diversos médicos, em sua maioria judeus, de tentar envenenar lideranças soviéticas. Stalin morreu em 5 de março de 1953, antes do final do julgamento-farsa.  Os acusados foram então libertados. No ano seguinte, Nikita Khruschev, successor de  Stalin, transferiu o controle da Crimeia da Rússia para a Ucrânia. À época, pareceu uma mudança cosmética, já que o fim da União Soviética não despontava no horizonte.  Ao contrário. O regime comunista parecia reforçar seu controle sobre os solos russo e ucraniano, vindo, a mão-de-ferro, de Moscou.

Porém, em 1991, a URSS se desintegrou,  e o império criado por Lênin deu lugar a  15 países independentes, entre eles a Rússia, o maior de todos, e a Ucrânia. E, em março de 2014, o presidente Vladimir Putin, após a Ucrânia iniciar o afastamento da órbita  de influência de Moscou, reanexou a península da Crimeia, sob o argumento de que 60%  dos habitantes são russos e que “corrigia o erro histórico de Khruschev”. Atualmente,  vivem na península cerca de 17 mil judeus.  E que assistem, preocupados, às turbulências  da região e às ameaças antissemitas.

Recentemente, antes da anexação russa, a sinagoga de Simferopol amanheceu pichada, com a inscrição “Morte aos judeus”. Putin afirmou que vai combater o antissemitismo e outras formas de intolerância na Crimeia. Importantíssimo acompanhar, com atenção, uma região com um histórico longo de guerras, tragédias e mortes.

JAIME SPTIZCOVSKY, foi editor internacional e correspondente da Folha de S. Paulo em Moscou e em Pequim.