Morashá
Células-tronco em debate : Rabino Y. David Weitman responde Foto Ilustrativa

Células-tronco em debate : Rabino Y. David Weitman responde

O judaísmo opõe-se à pesquisa e às descobertas científicas? Utilizá-las é interferir na obra Divina?

Edição 50 - Setembro de 2005


Morashá: O judaísmo opõe-se à pesquisa e às descobertas científicas? Utilizá-las é interferir na obra Divina?

Rabino Y. David Weitman: De acordo com o judaísmo, temos permissão e obrigação Divinas de pesquisar a fim de curar o ser humano. Ou seja, isso não se constitui em um desafio à vontade Divina. Nós não achamos que isso seja "brincar de D'us". Pelo contrário, o judaísmo acredita que D'us convidou o ser humano a ser Seu sócio na obra da Criação. O homem, tem o direito e o dever de aperfeiçoar a obra Divina, que, em certos casos, foi deixada inacabada por Ele. De acordo com o judaísmo, é uma obrigação desenvolver este mundo da melhor forma possível para que ele seja proveitoso ao ser humano. A concepção dessa sociedade entre D'us e a humanidade está claramente expressa e definida nas palavras dos nossos grandes vultos, pensadores e legisladores judeus; não há qualquer dúvida a respeito.Tal associação explica a razão pela qual, em todos os séculos, grandes médicos e cientistas judeus se destacaram a ponto de ter participado da descoberta de tantas curas, como antibióticos eficazes contra moléstias infecciosas e outros. E, por essa razão, o judaísmo não tem absolutamente nada contra as novas tecnologias. Somos favoráveis às complexas cirurgias para quem delas necessita, apesar de termos a plena consciência de que a doença proveio dos Céus. Como já foi explanado em outra oportunidade,1 o judaísmo é categórico: o ser humano deve emular D'us quanto ao preceito de curar a doença e aliviar a dor,ao máximo. Todavia, é importante ter em mente que cada descoberta, científica ou tecnológica, pode ser potencialmente uma bênção, ou o oposto. Será uma bênção quando acrescentar dignidade ao homem, e quando realmente reduzir a dor, a doença e a miséria. E será uma maldição, D'us nos livre, quando for usada irresponsavelmente. A ciência e a tecnologia aqui estão para servir à humanidade, e não para se servir dela. Essa é a razão pela qual cada nova descoberta precisa ser analisada pelos grandes sábios judeus, competentes tanto no âmbito da lei (halachá) quanto em matéria científica, a fim de certificar se a novidade transgride algo que seja proibido pela halachá. Tudo para que as conseqüências não vão de encontro ao espírito judaico, e para que haja proveito real ao ser humano, um proveito maior que qualquer eventual prejuízo. Os sábios, obviamente, terão de analisar também se, ao permitir certas descobertas, não estarão encorajando a extrapolação e facilitando que coisas proibidas sejam autorizadas. Checar se não há qualquer contradição com matéria de fé, moral e ética etc. Tudo deverá ser pensado e repensado para que se possa fazer uso da nova descoberta.

Morashá: As descobertas no campo da genética, biomedicina e terapia celular enfraquecem a fé em D'us?

Rabino D. Weitman: Certamente nenhuma descoberta ou novidade científica afeta a fé no Criador do Universo. Todas as tecnologias descobertas são, na verdade, revelações de forças e elementos que já habitavam a natureza da Criação. A diferença é que passamos a usá-las em favor do homem. Não se trata de novas criações. Tanto a tecnologia dos transplantes e a fertilização in vitro quanto a engenharia genética e a clonagem se utilizam de elementos pré-existentes; algo completamente diferente da Criação Divina, esta ex nihilo, a partir do nada.

Por isso, para nós não há diferença alguma entre uma manipulação cirúrgica macroscópica em um órgão precisado de intervenção, e uma manipulação microscópica para aperfeiçoar o blueprint genético. Se é possível curar uma mão ou um olho, por que não tentar corrigir defeitos genéticos, como a síndrome de Down ou a hemofilia, manipulando os genes que as acarretam? Temos tal obrigação, não é proibido. Não somente as novidades científicas mencionadas não diminuem em nada a fé em D'us, mas são exatamente essas revelações fantásticas das maravilhas da natureza que aumentam nossa fé no Criador.

Analisar profundamente a composição genética das criaturas em todos os pormenores que hoje são conhecidos, as leis que regem a célula e seu núcleo, reforça a fé. Demonstra que não há lei sem legislador. Não há a menor possibilidade de que tais maravilhas, tanto no microcosmo como no macrocosmo, tenham ocorrido por acaso.

Assim como descobriram milhões, bilhões de estrelas no céu, o homem logrou adentrar e analisar os milhares de elementos que há na matéria e nas células. Isso apenas pode aumenta a crença em D'us. Como disse o salmista, "Quão grandes são Teus atos, Senhor, muito profundos são Teus pensamentos" (Tehilim 92:6). E Maimônides também ensina em seu códex (Leis dos Fundamentos da Torá, II:1,2): "Como é o caminho para chegar a amar e temer a D'us? Quando o homem meditar sobre as obras e criaturas magníficas e maravilhosas de D'us, vendo Sua sabedoria infinita... e quando ele reflete sobre tais coisas, imediatamente passa a amar e reverenciar o Todo-Poderoso; sabe que é apenas uma pequena e humilde criatura, com uma mente reduzida ante aquela Sabedoria perfeita."

Eu frisaria que as descobertas da genética reforçam isso sobremaneira, pois a grandeza do Criador é percebida exatamente nos elementos ínfimos em que D'us depositou Sua energia e Sua vitalidade. Citando aqui nosso filósofo medieval, Rabi Yehuda HaLevi (século XI), "Mesmo entre as menores criaturas vê-se as maravilhas da Sabedoria Divina, que nenhuma mente pode apreender", e "A sabedoria do Criador e Sua liderança se revelam não menos na criação da formiga e da abelha que na do sol e das constelações" (Kuzari, 1:68; 3:17).

Morashá: Qual é a opinião do judaísmo acerca das pesquisas científicas com as células-tronco?

Rabino D. Weitman: Não há dúvida de que tais pesquisas podem realmente gerar um gigantesco potencial de cura e de aplicação terapêutica. Sabe-se que devido à sua versatilidade, os cientistas esperam um dia poder utilizar tais células na recuperação de tecidos danificados, como em lesões na medula espinhal ou no tratamento de doenças graves, como diabetes, mal de Alzheimer, mal de Parkinson, etc.

As pesquisas em questão aparentemente são essenciais para a cura de muitas enfermidades. Há dois tipos de células-tronco: o das adultas, que podem ser encontradas na medula óssea, no sangue, no cordão umbilical e também em fetos prematuramente expelidos, sendo que o judaísmo não tem nada contra sua utilização (desde que os fetos não provenham de abortamento provocado).

O segundo tipo são células-tronco de tecido embrionário que motivam um grande questionamento: é permitido extraí-las? Porque essa hipótese implica na interrupção do desenvolvimento do embrião, ocasionando a destruição do mesmo.

Morashá: Qual é o status do embrião, pela Torá?

Rabino D. Weitman: Enquanto certos filósofos e determinadas crenças tentam diferenciar entre os vários estágios da fertilização, afirmando que há uma fase de implantação, outra de iniciação da atividade cerebral etc., nós, judeus, consideramos um embrião já implantado na parede uterina como um feto e que já há vida nesse feto.

Por isso, não há possibilidade de se permitir o abortamento com o intuito de pesquisar células-tronco, mesmo nos casos em que tais tecidos fetais possam prover uma terapia que salvará a vida de um paciente. O judaísmo não permite, de forma alguma, sacrificar um feto inocente para salvar uma outra vida. Isso é totalmente impensável e imoral. A única exceção à regra ocorre quando o feto "não-inocente" põe em risco a existência da mãe. Nesse caso, optamos por salvar a mãe, em detrimento do feto (o conceito de rodef, na halachá).

Não é permitido interromper a vida do feto mesmo que esteja nos primeiros 40 dias de gestação, quando é tido pelo Talmud (Yevamot 69b) como "líquido" (esse conceito indica apenas que, em caso de aborto, não serão aplicadas as leis relativas à pureza pós-parto).

A lei judaica proíbe peremptoriamente, com a concordância geral, fazer um aborto voluntário, mesmo no início da gestação.

Morashá: Mas os cientistas alegam que eles poderiam usar os embriões já produzidos em F.I.V. (fertilização in vitro) que foram congelados e estão disponíveis nas clínicas de reprodução, pois de qualquer maneira eles seriam descartados. Será que pré-embriões são considerados seres humanos?

Rabino D. Weitman: Eu prefiro não utilizar o termo "pré-embriões", mas "embriões pré-implantados". Porque embriões, eles já são. Eles são pré-implantados na parede uterina.

Tais embriões, antes da implantação, não são considerados seres humanos. Mas apesar disso, pela lei judaica, já são seres vivos, já há vida neles. Por essa razão, é preciso demonstrar-lhes o respeito devido à vida humana. É certo que personalidade, responsabilidade e direitos iniciam-se apenas quando a criança nasce, mas é dos embriões pré-implantados que surge reconhecidamente o ser humano. É por esse motivo que temos de tratá-los com reverência à vida humana; não podem ser descartados nem ter sua vida interrompida.

Todavia, é importante lembrar que, pela lei judaica, tais embriões pré-implantados não chegam ao estado de feto enquanto não forem depositados no útero. A proibição de assassínio, de se abreviar a vida do próximo, baseada no versículo do Gênese (9:6), "Aquele que derrama sangue humano deverá ter seu próprio sangue derramado por homem, pois D'us fez o homem à Sua imagem", vale apenas a partir do momento em que o feto está dentro do útero da mãe (Talmud, Sanhedrin 57b). Enquanto esse embrião pré-implantado estiver em um petri dish, ou em um meio artificial, ele não conseguirá (sem auxílio externo) desenvolver a vida que possui. Assim, pela Torá, aquele que interrompe a vida de um embrião pré-implantado não é considerado homicida, e também o Shabat não é transgredido para salvar esse embrião. Conseqüentemente, a "sobra" dos embriões que foram criados em tratamentos de infertilidade pelo método F.I.V. (recurso permitido em determinadas circunstâncias), que foi congelada e não será implantada, mas posteriormente descartada, poderia eventualmente ser usada para pesquisas com células-tronco.

Considerando e analisando as opiniões, há, aparentemente, legisladores judeus que não objetam ao aproveitamento desses embriões congelados - criados para fins reprodutivos e que seriam de qualquer forma destruídos - em pesquisas com células-tronco, para descobrir a cura de patologias graves.

(Uma outra conseqüência eventual do que aqui tratamos seria a possibilidade de pais portadores de doenças genéticas fazerem um diagnóstico do embrião pré-implantado, a fim de selecionar geneticamente apenas aqueles intactos, prevenindo o nascimento de crianças defeituosas. Obviamente, sempre é necessário consultar autoridades rabínicas competentes).

Morashá: Então é permitido produzir embriões pré-implantados a fim de obter células-tronco? Qual é a posição clara do judaísmo a respeito? Em que esta difere da posição das outra religiões?

Rabino D. Weitman: Embriões não devem ser criados especificamente com o propósito da pesquisa, em harmonia com tudo o que falamos acima a respeito da vida humana. Apesar de um embrião ainda não ser uma pessoa, contém vida humana. Isso precisa ser respeitado. Não se pode criá-lo apenas para interromper sua vida e usá-lo para pesquisa. O que aparentemente é possível, conforme observamos, uma vez que os embriões pré-implantados (criados para fins reprodutivos) não são fetos, e alguns serão inevitavelmente descartados, é usar estes últimos em pesquisas, tanto na área da infertilidade como no âmbito da cura de enfermidades.

Importante ressaltar neste momento que o tema dos embriões congelados, que são um excesso, uma sobra inevitável, tornou-se uma área nebulosa. Com o avanço tecnológico, vários médicos que praticam a F.I.V. se opõem totalmente à superovulação a que a mulher se submete mediante hormônios poderosos. Muitos deles, inclusive, obtiveram sucesso semelhante investindo apenas no ciclo natural da mulher.

Em relação às outras religiões, a religião católica, tanto romana quanto ortodoxa, considera o embrião pré-implantado como um ser humano, desde a fertilização. Então, para a Igreja católica, pesquisa com esses embriões significa homicídio. Aparentemente, para certas Igrejas protestantes e para o islã, não há objeção à pesquisa com células-tronco, com fins terapêuticos, em embriões pré-implantados.

Morashá: No judaísmo, o princípio da vida geralmente sobrepõe-se ao princípio da lei. Para salvar vidas, pode-se transgredir determinadas leis, tais como o Shabat, Yom Kipur, etc. Por que, então, não produzir embriões apenas para obter células-tronco que resultarão no salvamento de muitas vidas humanas?

Rabino D. Weitman: Efetivamente, tal princípio da halachá, denominado "pikuach nefesh", permite transgredir determinados preceitos com o fito de salvar vidas. Porém, quanto às pesquisas com células-tronco, ainda estamos muito distantes de "salvar vidas". De fato, todos os grandes pesquisadores são unânimes em admitir que ainda não existe qualquer tratamento à base de células-tronco embrionárias. Todavia, os cientistas reconhecem também que dos milhões de células-tronco somente algumas tornar-se-ão células germinativas, capazes de se diferenciar, para serem utilizadas na recuperação de tecidos danificados, por exemplo. Admitem, portanto, que se encontram ainda em fase de pesquisa, na expectativa de que um dia as células embrionárias venham a demonstrar uma capacidade de diferenciação. Então, ainda não podemos falar em cura, em salvação de vidas.

Porém, o que torna essa pesquisa tão polêmica é a necessidade de se destruir os embriões. Assim, conforme os valores judaicos, repito: apesar de ser eventualmente permitida a utilização daqueles embriões que seriam descartados para pesquisas com células-tronco, é terminantemente proibido produzir embriões especialmente para a pesquisa. Tal desrespeito pela vida humana não é sancionado pela Torá. É uma imoralidade. Da mesma forma que não se pode mutilar um ser vivo para salvar outro, o princípio de pikuach nefesh não possibilita interromper ou destruir uma vida humana deliberadamente.

É importante ressaltar que qualquer tratamento para doenças em geral, principalmente as graves, tem de resultar de uma tecnologia moralmente irreprochável. Pois há uma grande diferença do tratamento da infertilidade: o casal que tiver alguma objeção de consciência relativa à ética do procedimento, sempre poderá optar por não ter filhos ou adotá-los. No tratamento de doenças graves, porém, caso o doente ou o médico tenha qualquer objeção de ordem moral, se verá em uma situação insustentável, entre a vida e a morte.

Ao permitir a produção de embriões para fins de pesquisa, estaríamos transformando este mundo em um grande laboratório, uma "fazenda de embriões" que os produz e revende em grande escala para transplantes, indústria farmacêutica, etc. Não podemos esquecer que o embrião existe para gerar filhos, bebês, e não para fabricar "peças de reposição".

Morashá: Mas muitos alegam que, de qualquer forma, a natureza se encarrega de destruir vários embriões mediante abortamentos espontâneos, etc. Não seria o caso de se imitar a natureza, em prol de um bem maior?

Rabino D. Weitman: Tal argumento é insustentável. De fato, pouco tempo atrás, a taxa de mortalidade infantil em certos países era aterradora, mas isso não justifica que lá se façam pesquisas e experiências com crianças recém-nascidas e fetos, a exemplo do que fez o famigerado Mengele, de amaldiçoada memória. O fato de a natureza selecionar e descartar não permite ao homem atentar contra a vida humana.

Morashá: Se células-tronco adultas fossem adequadas às pesquisas científicas, o judaísmo permitiria o uso dos embriões congelados que seriam descartados?

Rabino D. Weitman: Assim como a comunidade científica se satisfaz com pesquisas e experiências com animais, no consenso de todas as religiões e éticas, é obvio que o ideal é evitar a pesquisa com embriões humanos. E, ainda mais obviamente, se as células-tronco adultas fossem adequadas às pesquisas, o judaísmo não permitira a utilização dos embriões produzidos para a reprodução em F.I.V. Aliás, já existem várias pesquisas com células-tronco adultas, tanto da medula óssea como do próprio sangue, com determinadas aplicações bem-sucedidas. Se realmente quisessem, poderiam usar também células-tronco similares às embrionárias a partir de material placentário ou de fetos abortados espontaneamente (com a permissão de seus pais). Isso seria benéfico, mas apesar de não ser um cientista, eu entendo que há um consenso da comunidade científica de que também o uso de células-tronco embrionárias é vital para as pesquisas.

E é exatamente essa área a mais promissora na biologia e na terapia celular. Justamente por tais células embrionárias ainda não terem chegado à diferenciação, os cientistas esperam poder transformá-las, artificialmente, em uma série de tecidos que algum dia venham a ser usados no tratamento de doenças. Células maduras ou adultas que já desenvolveram tecido humano têm sua possibilidade de especialização (a que os cientistas denominam "diferenciação") cada vez mais diminuída, e estão praticamente comprometidas com o desenvolvimento de uma linhagem de células específicas.

Sendo assim, e levando em consideração o consenso da comunidade científica, o judaísmo posicionou-se conforme explanado. Porém, pessoalmente, creio que se todos os recursos existentes e toda a verba destinada às pesquisas fossem direcionados à busca intensiva em células-tronco adultas, provavelmente já conheceríamos uma quantidade bem maior de aplicações clínicas.

Atualmente, há alguns cientistas que advogam ser possível criar células-tronco a partir da célula normal. Isso seria um avanço técnico extraordinário e realmente evitaria todos os debates inflamados acerca dos direitos do embrião.

Morashá: E como fica o uso de embriões clonados para pesquisas com células-tronco?

Rabino D. Weitman: A pergunta refere-se à célebre clonagem terapêutica, mas já que ela consiste igualmente em destruir o embrião para obter as células-tronco, fica automaticamente proibida, conforme já foi explicado. Afora as inúmeras objeções morais a respeito, pois afinal o homem será reduzido a um mero depósito de peças avulsas. E isso é, claro, impensável.

Ao se permitir a clonagem terapêutica, o próximo passo será, inevitavelmente, a permissão da clonagem reprodutiva. Que ninguém se iluda: a pressão será enorme. E apesar de não estarmos preparados para afirmar que a halachá proíbe a técnica da clonagem reprodutiva, seguimos com reservas consideráveis a respeito.

A clonagem, apesar de ainda bastante teórica, ameaça a diversidade genética do ser humano. Transforma-o em mera matéria-prima; é uma demonstração de egoísmo, e gera a rivalidade entre a mãe que forneceu o óvulo e a que deu o núcleo para a transferência nuclear. Isso sem contar a multiplicidade de abortamentos e más-formações até que o resultado desejado seja atingido. A clonagem permite a seleção racista e eugênica da raça humana, promovendo a produção de filhos sem pais, algo totalmente antinatural.

A clonagem, enfim, traz consigo inúmeros problemas e dilemas, como mencionado.1 Não foi à toa que muitas autoridades internacionais convocaram uma moratória da clonagem humana reprodutiva.

Morashá: Apesar de ter exposto a posição judaica de forma clara, percebemos que o Rabino continua preocupado com essas pesquisas. Por quê? O sr. vê algum perigo adiante?

Rabino D. Weitman: Por tudo o que compreendi da questão, devo admitir que realmente continuo preocupado. Porque o grande desafio da biologia moderna e da terapia celular é conseguir fazer com que as células-tronco se diferenciem no tecido que o pesquisador desejar. É tentar diferenciar artificialmente as células-tronco para que venham a se tornar órgãos essenciais à cura, como o pâncreas, fígado, cérebro, coração, etc.

Sendo assim, há aqui alguns obstáculos. As células-tronco adultas, da medula óssea, por exemplo, apresentam o problema de já terem passado por diferenciação. Portanto, elas vão servir apenas para uma certa linhagem de células, não podendo mais ser diferenciadas, pois já são adultas. Além disso, são de difícil localização. Células-tronco encontradas em cordões umbilicais são iguais às de uma criança de um dia, e, nesse caso, consideradas adultas. Células-tronco obtidas a partir de embriões congelados pré-implantados também apresentam contratempos. Primeiramente, provêm de casais, homens e mulheres com problemas de fertilidade, fato que pode dificultar as pesquisas com suas células-tronco. E por serem os embriões congelados, seu estado de indiferenciação primordial vai envelhecendo com o tempo, impedindo que elas sejam mantidas indefinidamente.

Então, quais seriam as células-tronco ideais para a diferenciação em vários tecidos? A conclusão é a seguinte: aquelas provenientes de voluntários que concordarem em ceder óvulos e espermatozóides para a criação desses embriões pré-implantados. Do ponto de vista científico, essas seriam as melhores para a pesquisa porque viriam de doadores saudáveis, não seriam congeladas e ainda não teria havido a diferenciação em linhagens específicas.

Porém, é exatamente aqui que eu detecto o perigo. Estou bastante preocupado com o corre-corre em busca do sucesso, do Nobel. Incomoda-me a perigosa competitividade entre pesquisadores, e, até mesmo, entre nações, para ver quem será o primeiro a obter, na prática, células-tronco diferenciadas em tecidos humanos. Receio que, nesse cenário, os fins venham a justificar os meios. Uma visão pessimista demonstra a possibilidade da criação de um comércio: basta que elementos mal-intencionados passem a remunerar voluntários para que o mundo se torne um mercado de óvulos e de embriões. Já não seriam mais clínicas de fertilização, mas de fabricação de embriões frescos para pesquisas, a preços exorbitantes, com possibilidade, inclusive, de exportação.

Tudo isso me preocupa sobremaneira, pois violenta a santidade da vida, perverte os valores corretos e transforma o ser humano em matéria-prima, D'us nos livre. Haveria, certamente, conseqüências nefastas para a humanidade porque a desvalorização da vida humana sempre acarreta violência, guerras, conflitos, etc. Sem falar do perigo da proliferação descontrolada de células-tronco portadoras de doenças contagiosas, o que poderia provocar verdadeiras tragédias.

Morashá: Então qual seria sua recomendação acerca das pesquisas com células-tronco?

Rabino D. Weitman: O judaísmo, obviamente, não pode proibir às pessoas decentes aquilo que é permitido, por culpa de indivíduos mal-intencionados. Mas, a fim de evitar as armadilhas acima citadas, já que se trata de um tema global que envolve, indubitavelmente, toda a raça humana, carecemos de uma resposta global. Por essa razão, as pesquisas genéticas necessitam regulamentação internacional, principalmente porque ficou óbvio, nas últimas décadas, que todo aquele que não obteve tratamento em determinado país, buscou-o em outro.

A fim de prevenir todos os problemas que mencionamos, precisamos de instituições oficiais que regulamentem tais pesquisas, com regras elaboradas em conjunto por governos, profissionais e representantes da palavra Divina, da ética e da moral, como já vem ocorrendo em alguns países. Porque sem valores morais, a medicina e a pesquisa podem tornar-se extremamente prejudiciais ao homem.

Creio que o exemplo do presidente norte-americano George Bush, que restringiu o uso de dinheiro público federal americano no financiamento da destruição de embriões humanos, é importante e deve ser emulado. É preciso estabelecer normas claras, e que os pesquisadores aceitem limitações. Cito, a propósito, o renomado cientista sul-coreano Woo Sok Hwang, que recentemente obteve algum sucesso em células-tronco, e que, mesmo assim, afirma categoricamente: "Clonar um ser humano é tolice. Não é ético ou seguro, de forma alguma, além de tecnicamente impossível."

Talvez o mais importante seja ter a coragem para proclamar que nem tudo o que a tecnologia nos permite fazer deve ser feito, principalmente em razão de nossa responsabilidade pelas futuras gerações, que serão afetadas por aquilo que hoje realizarmos.

1. 1. Para um melhor entendimento, aconselhamos a leitura da entrevista do Rabino, "Clonagem Humana". Vide Morashá no 33, junho de 2001.

Rabino Y. David Weitman, originário da Bélgica, freqüentou academias talmúdicas em Israel, França e Nova York. Graduou-se juiz de corte rabínica em 1979, ano em que se fixou no Brasil. Em 1990 fundou o Centro Judaico Chabad Morumbi e dois anos depois estabeleceu a Institução Beneficente Israelita Ten Yad, dedicada ao combate à fome e ao resgate da dignidade de pessoas carentes. Reconhecido articulista e palestrante sobre pensamento judaico, misticismo e temas contemporâneos. Rabino Y. David Weitman é o autor de "Bandeirantes Espirituais do Brasil" que descreve a contribuição judaica no Brasil colonial e atua como rabino na Sinagoga Beit Yaacov da Congregação e Beneficência Sefardi Paulista, situada na região de Higienópolis. Professor dinâmico, transmite conceitos tão antigos quanto profundos em uma linguagem clara e acessível, logrando que a autêntica mensagem milenar judaica chegue intacta aos corações de suas audiências.