Morashá
CHANUCÁ E PURIM-A FESTA DOS MILAGRES Capa da Bíblia, Perpignan 1299, Biblioteca Nacional da França

CHANUCÁ E PURIM-A FESTA DOS MILAGRES

E a Ti agradecemos pelos milagres e pela redenção, pelos atos poderosos e pelos atos de salvação, pelo consolo e pelas maravilhas que operaste em prol de nossos antepassados naqueles dias, nesta época...

Edição 31 - Dezembro de 2000


A história de Chanucá

A festa de Chanucá é uma celebração de eventos que ocorreram há cerca de 2.200 anos, em uma época em que o Segundo Templo Sagrado erguia-se em Jerusalém. Apesar de terem os judeus retornado à Terra de Israel, vindos do exílio da Babilônia, e reconstruído o Templo, continuavam sob o jugo impe-rial de potências externas. Primeiro, o Império Persa, seguido dos exércitos conquistadores de Alexandre, o Grande, e, mais tarde, a Dinastia Selêucida de reis gregos cujo reino era sediado na Síria.

O domínio selêucida sobre a Terra de Israel foi benigno, a princípio, até a subida ao poder do rei Antioco IV, que tentou eliminar o judaísmo. Durante seu reinado, o Segundo Templo foi invadido, profanado e saqueado. Antioco colocou um ídolo no Altar sagrado do Templo, fazendo construir ídolos e estátuas em todas as cidades e vilarejos da Terra de Israel. Forçou os judeus a se curvarem diante dos mesmos, sob pena de morte. Muitos judeus que se recusaram a ceder à idolatria e a se assimilar à cultura greco-síria foram massacrados e, aos sobreviventes, impostas severas penas. Antioco também proibiu o povo judeu de respeitar o Shabat, de praticar o rito da circuncisão e de proclamar o início do novo mês pelo calendário judaico, o Rosh Chodesh.

No momento em que o povo judeu parecia sem condições de resistir, um ato de heroísmo desencadeou uma revolta contra Antioco e seu exército. No vilarejo de Modiin, poucos quilômetros a leste de Jerusalém, Matitiahu, patriarca do clã de sacerdotes hasmoneus, e seus cinco filhos, atacaram as tropas greco-sírias, assassinaram os idólatras e destruíram uma estátua. Ao brado de "Aqueles que estão com D'us, que me sigam!", Matitiahu liderou um grupo de libertadores judeus às montanhas, onde se prepararam para empreender uma batalha contra Antioco e seus seguidores.

O exército de Matitiahu, chefiado por seu filho Yehuda ha-Macabi, ou o Macabeu, consistia de apenas 6 mil homens, mas conseguiu mesmo assim vencer uma legião de 47 mil sírios, armados até os dentes. Enfurecido com a derrota, Antioco destacou tropas ainda mais numerosas para aniquilar os macabeus. Em uma batalha decisiva em Bet Tzur, as forças judaicas derrotaram a maior superpotência militar da época. Encaminharam-se, a seguir, para Jerusalém, libertando a cidade e recuperando o Templo.

Após a recaptura do Templo, os judeus limparam-no de todos os ídolos, reconstruíram o altar e reiniciaram os sagrados serviços religiosos. Parte central do serviço diário do Templo era o acender das velas da Menorá, com puro azeite de oliva. Constataram que os sírios haviam profanado todo o óleo, com exceção de um pequeno frasco de azeite com o selo do Sumo Sacerdote. O conteúdo do frasco só era suficiente para um dia e, para se processar o puríssimo azeite necessário para acender a Menorá completa, levaria mais de uma semana. Intrépidos e sobretudo desejosos de agradecer a D'us pela vitória, os macabeus acenderam a lâmpada da Menorá com aquele único frasco de azeite e iniciaram as orações para novamente dedicar aquele recinto sagrado ao Serviço Divino. No entanto, aquele pouco óleo, ao invés de arder apenas por um dia, fez brilhar as chamas da Menorá durante oito dias seguidos. A partir do ano seguinte, nossos sábios instituíram a festa de oito dias, chamada de Chanucá.

O triunfo do espírito

A festividade de Chanucá é primordialmente uma celebração da espiritualidade judaica. Pois, apesar de ser um governante sanguinário, o objetivo de Antioco não era destruir, escravizar nem mesmo exilar o povo judeu, mas sim eliminar a religião judaica. Os greco-sírios não estavam em guerra com o povo físico de Israel, mas com a sua existência espiritual. As tropas de Antioco não destruíram o Templo Sagrado; pelo contrário, tentaram profaná-lo instituindo a idolatria em seu recinto. Eles até permitiam o estudo da Torá, desde que destituído de santidade.

Os três mandamentos da Torá proibidos por Antioco não foram escolhidos aleatoriamente. Ele proibiu exatamente os mandamentos que constituíam o vínculo entre D'us e o povo judeu. Uma das proibições era, como já dissemos, a proclamação do novo mês judaico, Rosh Chodesh, o primeiríssimo mandamento da Torá. Nosso calendário baseia-se na proclamação do novo mês; sem esta não há festividades judaicas. Os greco-sírios, dessa forma, tentavam evitar que os judeus guardassem seus dias santificados pois que serviam para fortalecer sua ligação com D'us.

A segunda proibição referia-se à guarda do Shabat, que de fato é a própria observância religiosa que confirma o pacto de D'us com o povo judeu. Pois que a Torá diz: "E os filhos de Israel guardarão o Shabat, celebrando-o como aliança perpétua em todas as suas gerações. Entre Mim e os filhos de Israel é um sinal para sempre..." (Êxodo 31:16-17).

A terceira proibição recaiu sobre a prática da circuncisão - o rito religioso físico que consagra o pacto eterno entre D'us e os homens judeus. Assim diz a Torá: "Esta é a Minha aliança, que guardareis entre Mim e vós, e a vossa descendência. Todo macho entre vós será circuncidado... e será isso por sinal de aliança entre Mim e vós". (Gênese 17:10-11).

Como os judeus defrontavam-se como uma guerra basicamente contra sua alma judaica, sua reação também foi imbuída de espiritualidade. Antes de sua morte, Matitiahu, o iniciador da revolta judaica, conclamou seus filhos a continuar a luta em defesa da Divina Torá. Seu filho e sucessor, Yehuda, era chamado de "o Macabeu" numa alusão às iniciais das palavras hebraicas "Mi Kamocha Ba'elim Ad-nai" (Quem é como Tu, ó Senhor, dentre os poderes dos Céus?" (Êxodo 15:11). Quando os macabeus foram confrontados pelo esmagador exército de Antioco, exclamaram "Lutaremos até a morte em defesa de nossa alma judaica e de nosso Templo Sagrado!"

Não foi mera coincidência o fato de que, para agradecer a D'us pela vitória e reiniciar os serviços no Templo, os macabeus tivessem acendido as velas no azeite de oliva. A Torá nos ensina que "a alma do homem é a lâmpada de D'us". (Provérbios 20:27). A Torá - que é o meio Divino para acender a alma de seu povo - é também chamada de luz (Provérbios 6:23). E portanto, como os macabeus, nós acendemos os pavios no azeite ou mesmo velas durante a festa de Chanucá para comemorar o triunfo perpétuo da Torá e do espírito judaico, entrelaçados que são para toda a eternidade.

O fato de a quantidade de óleo contida no pequeno frasco tivesse ardido por oito dias foi um sinal Divino com uma clara mensagem. Na tradição judaica, o número sete representa o ciclo natural do tempo: o mundo foi criado em sete dias e, portanto, temos a semana de sete dias. Os mestres da Cabalá explicam que o número oito, no entanto, representa um nível acima da natureza e do tempo. Representa o milagre. O azeite de oliva ardeu milagrosamente durante oito dias, nem um dia a mais nem a menos, para confirmar que a vitória dos macabeus tinha sido inteiramente um milagre de D'us.

Através dos séculos, Chanucá tem representado o triunfo miraculoso de uns poucos justos sobre um grande número de iníqüos. Chanucá nos ensina que com a ajuda de D'us, a força e a pureza do espírito judaico hão de prevalecer contra aqueles que desejam abafá-lo. As luzes de Chanucá simbolizam que a Torá - e sua mensagem de bondade, justiça e devoção a D'us - prevalecerão sempre, em todos os tempos, sobre a escuridão.

A história de Purim

Aproximadamente 200 anos antes do milagre de Chanucá, Assuero, rei da Pérsia, ao oferecer um suntuo-so banquete, pediu que sua mulher, a Rainha Vashti, participasse da festa e publicamente exibisse sua lendária beleza aos convivas reais. Como ela se recusasse, o Rei Assuero a baniu do reino, incumbindo seus ministros de encontrar candidatas de igual beleza para sucedê-la. Uma moça judia, de nome Esther, sobrinha de Mordechai, foi levada diante do Rei. Com sua identidade judaica em segredo, Esther é a escolhida para ser a nova rainha. Pouco depois, Mordechai, tomando conhecimento de uma trama para assassinar o Rei, conta o fato à sobrinha. Esther, por sua vez, alerta Assuero. Os envolvidos foram enforcados e a atitude de Mordechai, que havia salvo a vida do soberano, foi incluída no registro de crônicas reais.

Ao nomear um novo Primeiro Ministro, o Rei Assuero escolhe Haman, o Agaguita, descendente do povo de Amalek, arquiinimigo histórico do povo judeu. Como nos relata o Talmud, Haman trazia em seu pescoço um ídolo, insistindo que os persas se curvassem diante dele. Mordechai, com sua persistente recusa em fazê-lo, provoca a ira de Haman, que jura vingar-se matando todos os judeus da Pérsia. E oferece ao Rei 10 mil moedas de prata em troca da permissão de aniquilá-los. A permissão lhe é concedida e um edito real é divulgado em todo o reino, marcando o dia 13 do mês de Adar, no calendário judaico, para o extermínio dos judeus persas.


Quando Mordechai soube do decreto genocida, pede a Esther que interceda junto ao soberano. Ela responde a Mordechai que ele e todos os judeus devem jejuar e orar durante três dias. Ela também o faria e após este período iria se encontrar com o Rei, correndo mesmo o risco de ser condenada à morte por abordá-lo sem ter sido convocada. Após o jejum de três dias, Esther se dirige a Assuero, que a recebe dizendo que lhe atenderia qualquer pedido. Ela então pede que o Rei e seu Ministro Haman lhe façam companhia em um banquete.

Eis que, certa noite, o Rei, insone, pede a um dos criados que leia algumas passagens do registro de crônicas reais. E o rei ouve o relato da trama para assassiná-lo, da qual fora salvo pelas mãos de Mordechai. Naquela mesma noite, Haman pede a Assuero permissão para enforcar Mordechai por se ter recusado, uma vez mais, a curvar-se diante dele. Antes que o Ministro terminasse de falar, o soberano lhe ordena prestar honras a Mordechai, paramentando-o com vestimentas reais e o fazendo desfilar, montado em cavalo real, por toda a capital da Pérsia.

Alguns dias mais tarde, no banquete que encomendara, a Rainha Esther revela ao Rei sua identidade judaica e anuncia que ela e seu povo estavam prestes a ser exterminados. Identifica Haman como seu arquiinimigo e o soberano manda enforcá-lo na mesma forca que ele preparara para Mordechai. Assuero nomeia então Mordechai para o cargo de Primeiro Ministro, substituindo Haman. E promulga um segundo edito dando aos judeus o direito de combater e mesmo matar qualquer um que tentasse fazer-lhes mal. No dia 13 de Adar - o dia que fora designado para a destruição dos judeus - o povo judeu emergiu vitorioso sobre seus inimigos. Como nos relata a Meguilá: "Para os judeus, surge luz e felicidade, júbilo e glória" (Meguilat Esther 8:16). Os dias seguintes, 14 e 15, ficaram sendo os dias da festa de Purim, em comemoração por terem sido salvos. Mordechai instituiu três práticas entre seu povo, na época de Purim: fazer uma refeição festiva, trocar alimentos e fazer donativos aos pobres.

O dia mais feliz do ano

A festa de Purim é caracterizada por enigmas. Questiona-se por que tanta maldade se teria abatido sobre os judeus simplesmente pelo fato de Mordechai ter-se recusado a se curvar perante Haman. A história de Purim parece ter implícita a mensagem de que os judeus da Pérsia quase foram exterminados em razão de sua lealdade a D'us e à Sua Torá.

No entanto, há ainda um outro enigma, ainda mais surpreendente. O nome de D'us não é mencionado sequer uma vez na Meguilá, lida na sinagoga. Todos os outros livros da Torá contêm inúmeras menções ao nome de D'us.
Isto parece sugerir que D'us estava oculto, não se envolvendo nos acontecimentos relacionados a Purim. Segundo ensinamento do Rebe de Lubavitch, o próprio nome "Esther" sugere algo encoberto, oculto. "Esther" provém da mesma raiz da palavra hebraica "hester", que significa escondido. O Talmud chama a atenção para o seguinte: "Onde aparece na Torá o nome Esther? No versículo em que D'us diz: 'Ocultarei, sim, ocultarei Minha face' (Deuteronômio 31:18)" (Talmud, Chulin, 139b).

E, apesar do encobrimento Divino, em Purim nós Lhe agradecemos pelos milagres e pela salvação, e a festividade é celebrada como o dia mais feliz do calendário judaico. Como se explica isto?

Conta a Meguilá que Haman convenceu o Rei Assuero a permitir o extermínio dos judeus com base na seguinte lógica: "Há um certo povo espalhado em todo o mundo e disperso entre todas as nações que povoam as províncias de seu reino. Suas leis são diferentes das de todos os outros povos". Após ouvir tal explicação, o Rei Assuero assinou o decreto de aniquilação de toda a população judaica em seu vasto império. Os judeus não tinham como escapar, exceto por uma única via: o abandono das leis da Torá e a assimilação à população não judia. No entanto, nem um único judeu escolheu este caminho. Durante todo o tempo em que vigorou o decreto de morte, os judeus permaneceram imutáveis em sua lealdade a D'us. Ao invés de abandonar sua fé, jejuaram e oraram com maior fervor ainda, e as crianças estudavam a Torá abertamente nas ruas da capital da Pérsia.

Como o povo judeu escolheu o caminho sobrenatural e aparentemente ilógico para a sua salvação, D'us lhes respondeu da mesma forma. Sua salvação veio na forma de uma cadeia milagrosa de acontecimentos perfeitamente sincronizados. O Rebe explica desta forma o ensinamento talmúdico sobre o aparente ocultamento de D'us durante os eventos de Purim: quando D'us afirma "Ocultarei, sim, ocultarei Minha face", Ele está afirmando: "Mesmo quando Minha face está oculta (quando Estou aparentemente encoberto) vocês, ainda assim, podem Me encontrar".

Teria sido apenas uma coincidência o fato de a Rainha Vashti não ter acatado a ordem do Rei? Teria sido coincidência o fato de Esther ter sido escolhida para Rainha da Pérsia? E o fato de Mordechai ter tomado conhecimento da trama para matar o Rei? Seria uma coincidência o fato de o Rei não ter podido adormecer e pedir que lessem para ele o registro das crônicas? E o fato de seus serventes terem lido a passagem da trama assassina abortada justamente antes de Haman vir pedir-lhe permissão para enforcar Mordechai? Foi um acaso fortuito o fato de, após três dias de oração e jejum, o Rei ter concedido à Rainha Esther o atendimento a qualquer de seus pedidos? Ou teriam sido todas essas coincidências a mão de D'us trabalhando para salvar o Seu povo e lhes brindar com honrarias e grandiosidade?

No entanto, uma pergunta permanece no ar. Por que razão Purim é o dia mais feliz do ano, mais festivo ainda do que Chanucá? Como vimos acima, a festa de Chanucá foi uma vitória espiritual do povo judeu. Sua alma - e não o seu corpo - estava ameaçado. Portanto, acendemos os pavios no azeite puro de oliva ou então velas para celebrar o triunfo espiritual de nosso povo. A festa de Purim, por outro lado, foi uma vitória física do povo judeu. Era a sua existência física o que estava em perigo. E portanto, os três mandamentos instituídos por Mordechai - uma refeição festiva, o envio de presentes em forma de alimentos e donativos aos necessitados - são atos materiais. Chanucá está associada ao espiritual e Purim, ao mundano. E ademais, um evento sobrenatural ocorreu em Chanucá, confirmando que a vitória do povo judeu fora guiada pela mão de D'us. O mesmo não se pode dizer de Purim. Não houve milagres sobrenaturais, podendo-se atribuir a salvação dos judeus à sorte e à coincidências.

Não deveríamos celebrar um milagre com maior intensidade do que o fazemos quando se trata de eventos fortuitos, mas talvez de pura coincidência? A resposta é não. Chanucá nos ensina que D'us não está vinculado nem à natureza nem a limites; Ele sempre pode brindar-nos com milagres. Purim, no entanto, nos ensina uma lição mais profunda: a de que D'us Se manifesta através dos acontecimentos naturais que vivenciamos todos os dias. E é por isso que Purim é o dia mais feliz do ano. Pois que não há maior alegria do que a percepção de que D'us Infinito, que é sempre Bom e Justo, está ao lado de cada um de nós, a todo tempo e em toda parte, silenciosamente organizando, da melhor forma possível, todos os acontecimentos e situações de nossa vida.

por Tev Djmal