Morashá
Chanucá e a Eternidade do Povo de Israel Foto Ilustrativa

Chanucá e a Eternidade do Povo de Israel

“E (nós Te agradecemos) pelos milagres e pela redenção e pelos feitos poderosos e pelas salvações e pelos feitos extraordinários que Tu realizaste por nossos antepassados naqueles dias, naquele tempo”. (introdução do trecho de Al Hanisim)

Edição 78 - Dezembro de 2012


Nos oito dias de Chanucá, recitamos o trecho Al Hanissim na Amidá e no Bircat HaMazon, a bênção após as refeições. Esta passagem descreve a guerra dos hasmoneus, liderada por Yehudá ha-Macabi: as perseguições religiosas que provocaram sua deflagração, a vitória sobre os greco-sírios e a purificação do Santuário e sua consagração.

É interessante o fato de o trecho Al Hanissim recontar apenas um dos dois milagres que celebramos em Chanucá: a vitória militar, mas não o suprimento de óleo que durou oito dias. Isso é curioso, pois durante os oito dias da festividade, o principal mandamento é o acendimento das velas de Chanucá; mas, ainda assim, a passagem mencionada, que teve a autoria de nossos Sábios, apenas se refere ao triunfo militar dos hasmoneus. Isso indica que a vitória militar dos macabeus é o motivo pela celebração da festa de Chanucá.

O milagre do óleo, por si só, não teve significado muito importante. Muitos fenômenos sobrenaturais ocorreram na História Judaica: nenhum deles justificou a celebração de uma festividade. O significado de o suprimento para um dia ter durado oito reside no fato de ter servido para derrubar a crença de que a vitória dos hasmoneus não foi um milagre Divino, e sim, outro episódio na história da humanidade em que as forças guerrilheiras, lutando em seu próprio território, conseguem expulsar um poder ocupante mais forte. De fato, não fosse pelo milagre do óleo, como poderia o Povo Judeu ter certeza, então e agora, de que sua vitória fora, mesmo, milagrosa? Afinal, há apenas uma geração, testemunhamos duas superpotências serem vencidas pelas guerrilhas: os americanos, no Vietnã, e os soviéticos, no Afeganistão. Teria sido a revolta dos hasmoneus a versão antiga da Guerra do Vietnã, lutada na Terra de Israel? Teriam sido os macabeus semelhantes aos afegãos, que, levados por zelo religioso, conseguiram expulsar os infiéis de sua Pátria?

Para melhor apreciarmos o significado de Chanucá e a milagrosa vitória dos macabeus, é preciso mergulhar no significado da guerra que deflagraram. Por que lutaram? Pelo que lutavam? E o que significou a vitória deles?

Uma vitória milagrosa

Apesar das aparentes semelhanças, a revolta dos macabeus foi muito diferente da guerra dos vietcongues contra os americanos e dos guerreiros Mujahadin contra os soviéticos. Diferentemente desses dois grupos, os macabeus empreenderam uma guerra invencível e, não fora pela intervenção Divina, certamente teriam sido derrotados.

Para melhor apreciar o milagre de Chanucá, é necessário debater o mito histórico, que se tornou popular após a Guerra do Vietnã e a retirada soviética do Afeganistão, de que as guerrilhas que lutam pela liberdade em seu próprio território conseguem, mais cedo ou mais tarde, expulsar os ocupantes, a despeito de sua força.

Ao contrário do que se pensa, os vietnamitas não venceram a Guerra do Vietnã; os americanos a perderam. É verdade que quase 60.000 americanos foram mortos pelos vietnamitas durante o conflito. Mas, estima-se que cerca de 2 milhões de vietnamitas tenham morrido durante a guerra. Mas o mais significativo é que os americanos não perderam uma única batalha. Por que, então, perderam a guerra? Por terem perdido o apoio do povo americano. Mas, se o governo americano não tivesse que enfrentar a oposição doméstica e tivesse ido até o final, lutando como na 2ª Guerra Mundial, seu país teria saído vencedor. A Guerra do Vietnã não foi perdida no Vietnã, mas nos Estados Unidos; foi perdida não nos campos de batalha, mas na mídia e nas universidades.

Quanto à guerra no Afeganistão, não se tratou da heroica vitória que os Mujahadin alegam. É verdade que quase 15.000 soldados soviéticos morreram, mas a baixa entre os afegãos foi de 1 milhão de pessoas. A única razão para a retirada soviética foi o alto custo financeiro e em vidas, sem qualquer benefício prático. E a razão para ter-se tornado um conflito tão oneroso e sangrento não foi a superioridade em combate dos Mujahadin, mas o fato de terem sido equipados com armamento sofisticado e mísseis antiaéreos fornecidos por países, especialmente os Estados Unidos, que queriam fazer sangrar o império soviético. A onda da guerra no Afeganistão somente mudou de curso quando eles começaram a receber armas e apoio dos Estados Unidos. Sem isso, certamente teriam sido derrotados.

Em total contraste com os soldados Mujahadin, os macabeus não tiveram o auxílio de nenhuma superpotência que desejasse a queda do império grego. Eles não tinham armamento sofisticado para enfrentar um inimigo muito superior; tudo o que possuíam era uma grande coragem e fé em D’us. Sua revolta foi muito diferente da Guerra do Vietnã, pois não havia imprensa denunciando o esforço grego de guerra, nem qualquer pressão pública contra as forças gregas para que interrompessem o conflito.

Os macabeus, diferentemente dos vietnamitas, venceram no campo de batalha: tiveram uma clara vitória militar, expulsando um inimigo poderoso de sua terra. E o que é ainda mais impressionante é que essa vitória não contou com o apoio físico nem moral da maioria dos judeus. No início da revolta dos hasmoneus, os macabeus não tinham o apoio da maioria dos judeus na Terra de Israel. Os rebeldes representavam cerca de 10% da população judia. Então, tratava-se de um grupo relativamente pequeno de guerreiros que enfrentaram e venceram um exército poderoso. Foi um milagre que o país não fosse destruído e a população, massacrada. Não há, mesmo, lógica nem racionalidade que explique como os macabeus conseguiram derrotar os gregos, a não ser a realização de que Ness Gadol Hayá Sham – “um grande milagre lá ocorreu”.

Mas, apesar desse grande milagre, como muitas pessoas estão sempre em busca de explicações para os eventos mais improváveis, o milagre do óleo era necessário. Diferentemente da vitória militar, foi um milagre sobrenatural – desafiou as leis do mundo natural. Por ser sobrenatural, serviu para corroborar que o triunfo dos macabeus – que exigiu a participação humana – foi um milagre não menos significativo do que aqueles que D’us opera quando age sozinho e quebra as leis da natureza.

O milagre do óleo serviu outro propósito: revelou por que os macabeus lutaram e o que sua vitória representou, não apenas para sua geração, mas para todas as gerações judias por vir.

Helenismo e assimilação judaica

Para consolidar o poder de seu império, os gregos impuseram a cultura helenista a todas as nações conquistadas. Combatiam outras crenças não por razões religiosas, mas no simples intuito de promover a assimilação. A cultura helenista conseguiu imiscuir-se na cultura local dos vários povos conquistados, inclusive os sidonitas e os filisteus. Como as pessoas esclarecidas não acreditavam em seus próprios deuses – viam seus cultos como mero folclore popular, destituído de qualquer significado – elas não faziam questão de ser fiéis a determinada divindade ou religião. Eram abertas a outras culturas e religiões. Naturalmente, havia diferenças entre os deuses e ritos dos vários povos conquistados pelos gregos – mas como estes nada representavam para eles, não havia conflito nisso. Mesclar todas as culturas e credos era natural, para eles, e até visto com bons olhos, já que fomentava as boas relações entre os povos. Pois, quem não crê em sua religião, não tem por que lutar por ela. Se suas crenças nada significam para si, para que preservá-las?

Quando alguém não crê no caminho que escolheu e seus pares tampouco creem em seu próprio caminho, ainda que diferente, não haverá um problema de convivência entre essas pessoas. Mas esse tipo de tolerância ampla não indica respeito por outros credos, mas uma desvalorização de seus próprios princípios. E é isso o que possibilita a aceitação de ideias estranhas e até contrárias às suas. Na realidade, essa forma de tolerância constitui o ápice da intolerância, pois não tolera a exclusividade. Pretende ser aberta e tolerante, com todas as crenças e culturas, mas exige absoluta conformidade: ninguém pode destacar-se. Essa mentalidade é a antítese do judaísmo. Como ensina o Talmud, o judeu é basicamente definido por sua rejeição à idolatria e ao politeísmo. O princípio fundamental do judaísmo é o relacionamento exclusivo que existe entre D’us, Sua Torá e o Povo Judeu. Os judeus que creem em qualquer poder que não o D’us de Israel ou que mudam as leis e os costumes judaicos, adotando crenças estranhas a nós, estão rejeitando o próprio fundamento do judaísmo.

Apesar da luta judaica contra os gregos dar a impressão de ter sido política e nacionalista, foi outro o verdadeiro motivo para a deflagração da rebelião. Durante séculos, os judeus viveram na Terra de Israel sob o jugo de estrangeiros, portanto, os conceitos de independência e liberdade política nunca foram razões suficientes para levar seu povo à guerra. A revolta judaica deveu-se à atitude grega com seus conquistados. Os gregos exigiam que os judeus fossem abertos a respeito de sua religião – com seus deuses e leis e princípios religiosos – enquanto eles, gregos, estavam preparados para aceitar a sabedoria da Torá. As perseguições religiosas dos gregos não tinham motivação ideológica: não se tratava de uma luta entre duas religiões. Pelo contrário, eles tentaram forçar nossos antepassados a abraçar sua maneira de vida, onde não havia espaço para princípios, ideologia e credo sacrossantos. Os gregos não se preocupavam com a Torá – de fato, eles admiravam seu sábio conteúdo; o que lhes importava era a insistência dos judeus de que a Torá era Divina e que sua integridade não podia ser adulterada. Para os gregos, a oposição judia ao politeísmo e sua recusa em descartar qualquer dos mandamentos da Torá era apenas obstinação por parte de um povo teimoso e obtuso, não aberto a novas ideias. Eles queriam que os judeus abandonassem sua “insensatez” – sua insistência em se considerar um povo único, com leis únicas e exclusivas, que servia a uma Divindade Única. Esperavam que os judeus se comportassem “adequadamente”, como povo “iluminado” que era, permitindo que o judaísmo se inspirasse no helenismo e por ele fosse envolvido.

Mas isso os judeus não podiam aceitar. Diferentemente dos vietcongues que lutaram contra franceses e americanos, eles estavam prontos a aceitar a falta de independência política.
Ao contrário dos soldados Mujahadin do Afeganistão, eles podiam aceitar a presença de “infiéis” em seu território. Mas, em hipótese alguma sacrificariam sua identidade judaica, seu relacionamento com D’us ou a integridade da Torá.

Os judeus e os antigos gregos tinham muitas coisas em comum, além de um profundo apreço pela respectiva sabedoria. Ambos compartilhavam o amor pelo estudo e grande respeito pela mente humana. Os grandes filósofos gregos estudavam os antigos textos judaicos e os Sábios do Talmud, e os Sábios que vieram mais tarde, como Maimônides, expressaram admiração pelo saber e conhecimento grego e a beleza de seu idioma. Poder-se-ia pensar que as culturas judaica e grega pudessem fundir-se, constituindo a maior união entre duas sabedorias. Mas os judeus tinham algo que, diferentemente de outros povos da época, os impossibilitava de viver sob o domínio dos gregos: para nós, judeus, é a sabedoria Divina – não a humana – que detém a Verdade suprema. Acreditamos em valores absolutos, no sagrado e no metafísico; já para os gregos, nenhum valor era sagrado
e absoluto.

Sabedoria Divina e secular

Os judeus se recusaram a permitir que o helenismo se mesclasse com o judaísmo em virtude de um princípio fundamental da fé judaica: a Torá não é a sabedoria do Povo Judeu, mas a Sabedoria de D’us. Isso significa que não é comparável à sabedoria humana. Se a Torá tivesse sido escrita pelos Patriarcas, por Moshé ou pelos Sábios judeus, poderia ser comparada ao conhecimento grego. Mas o judaísmo ensina que os Cinco Livros da Torá foram escritos por D’us e transcritos por Moshé e que os outros livros do Tanach foram escritos pelos profetas, sob direta inspiração Divina.

Os outros trabalhos da Torá – seja os que pertencem a seu lado revelado, como o Talmud, ou a seu lado oculto, como o Zohar – são uma explicação e elucidação da Sabedoria Divina, que foi transmitida por D’us a Moshé no Monte Sinai, e que foi ensinada oralmente, de geração em geração, até que, por fim, foi transcrita. A Torá, portanto, não é apenas a Vontade de D’us – informando-nos como Ele deseja que o homem aja – mas é a Sua Sabedoria – um livro que Ele mesmo escreveu. É, pois, infinitamente superior a tudo o que a mente humana possa compreender e criar. No entanto, o judaísmo não despreza o conhecimento humano – grandes pensadores e filósofos deram grande contribuição ao mundo – mas o saber humano é limitado e falível, como o são todos os seres humanos. Se a Torá tivesse sido escrita por eles, seria permissível criticá-la, mudá-la e até mesmo permeá-la com outras filosofias. Mas os seres humanos não podem adulterar um trabalho de autoria Divina.

Isto dito, podemos entender por que o milagre sobrenatural de Chanucá, que corroborou o milagre natural da vitória militar, envolveu azeite puro, que não havia sido contaminado pelos gregos. A sabedoria da Torá é comparada com o óleo de oliva, que não se mistura com nenhum outro líquido, sempre permanecendo na camada superior. Assim como o azeite, a sabedoria da Torá, sendo Divina, está inevitavelmente acima do conhecimento do homem: devido à sua incomparável superioridade, não pode ser mesclada com nenhuma outra. O milagre do óleo de oliva ritualmente puro nos ensina que a Torá de D’us, que Ele nos confiou, precisa permanecer pura. Não pode ser adulterada nem está aberta a conceitos alheios.

A eternidade do judaísmo e do Povo Judeu

Em comemoração à vitória judaica sobre o helenismo, celebramos Chanucá como a festividade daqueles que foram inspirados e movidos pelo zelo por seu judaísmo. O resultado direto da guerra, que celebramos em Chanucá, foi a sobrevivência de nosso povo e de nossa religião. Se os hasmoneus não tivessem empreendido a guerra, ou a tivessem perdido, podemos pressupor que nosso destino teria sido como a dos demais povos da região – filisteus, amonitas e moabitas – que se assimilaram ao ponto de perder toda a sua identidade e desaparecer do palco da História. A guerra dos macabeus defendeu a preservação da individualidade judaica.

Chanucá é a festa que celebra a eternidade do judaísmo e do nosso povo. A luta dos macabeus ocorreu há milênios, mas os efeitos de sua vitória continuam a reverberar ao longo da História. Guerras, vitórias e derrotas são eventos históricos que, mais cedo ou mais tarde, desaparecem ou se tornam menos importantes, no contexto histórico.

A soberania judaica foi perdida mais de duas vezes, e, durante dois mil anos, os judeus vagaram de país em país. Contudo, pelo fato de a História Judaica ter sido abençoada com judeus como os macabeus, nosso povo continuou vivo, não se assimilando nem se esvaindo do mundo. Se, no entanto, nossa singularidade tivesse sido perdida – se a Torá tivesse sido adulterada – teríamos também desaparecido, ainda que nunca tivéssemos sido exilados de nossa Terra. Se a singularidade de um povo é perdida, pouco importa se este povo tem seu território, sua bandeira ou seu idioma. Sem nossa identidade, nada temos.

Chanucá não é um Dia da Independência Judaica do passado. Não foi uma luta pelo poder ou liberdade política, mas por nossa própria identidade e individualidade. Apesar do que a mídia possa falar sobre o Estado de Israel, para nós, judeus, a guerra não é algo corriqueiro: não mandamos nossos filhos à luta a não ser em última instância. A revolta dos macabeus foi necessária: a sobrevivência do judaísmo e do Povo Judeu estavam em jogo.

Através dos milênios, houve inúmeros judeus que também lutaram para assegurar a sobrevivência de nosso povo. Portanto, quando acendemos as velas de Chanucá, recordamos não apenas os macabeus, sua coragem e sua vitória; mas todos os judeus, através das gerações, que lutaram e se sacrificaram para manter vivo o judaísmo. Quando acendermos as velas, devemos recordar os soldados de Israel, que entregam a vida para proteger o Povo Judeu e assegurar que todos os judeus tenham seu porto seguro no mundo, seu Estado soberano.

Devemos, também, recordar nossos antepassados e nossos Sábios, que com muito esforço e sacrifício ensinaram a Torá, assegurando que jamais fosse esquecida por nosso povo. Mas devemos também recordar os incontáveis heróis anônimos do Povo Judeu – pessoas comuns, na sua aparência, homens, mulheres e crianças – que, apesar de todas as provações e tribulações, permaneceram judeus para que seus descendentes fossem judeus, como eles. As milhões de velas de Chanucá que são acesas, ano após ano, em Israel e na Diáspora, são um tributo a eles. As luzes de Chanucá simbolizam a luz da Torá, que é reflexo da Luz Infinita. A vitória dos macabeus sobre os gregos foi o triunfo da luz sobre a escuridão, do sagrado sobre o mundano, da liberdade de religião sobre a opressão.

Foi dessa luz que o profeta Isaías falou quando proclamou: “Nações se encaminharão para a Tua Luz, e os reis para o brilho do Teu resplendor” (60:3). Essa Luz, que se torna mais forte a cada dia, brevemente porá um fim a toda a escuridão, recebendo o dia em que tudo será luz.

Bibliografia:
Rabi Adin (Even Israel) Steinsaltz, A Stiff-Necked People - Change and Renewal – The Essence of the Jewish Holidays, Festivals, and Days of Remembrance - Maggid Publisher
Rabi Menachem Mendel Schneerson, Mitzvat Ner Chanukah 5738 
Rabi Shneur Zalman M’Liadi, Likutei Amarim (Tanya) 
Karnow,Stanley, Vietnam: A History, Penguin Books
Sorkin, Aaron, Charlie Wilson's War