Morashá
As Luzes de Chanucá e os Mandamentos Divinos Foto Ilustrativa

As Luzes de Chanucá e os Mandamentos Divinos

O mandamento Divino de acender as luzes de Chanucá é semelhante, em dois aspectos, ao mandamento da Mezuzá – o rolo de pergaminho, no qual está escrita a passagem bíblica do Shemá Israel, que é colocado no umbral de uma propriedade judaica.

Edição 70 - Dezembro de 2010


Uma semelhança é que tanto as luzes de Chanucá quanto o rolo de pergaminho devem ser colocados ao lado da porta de casa; e a outra é que ambos devem ficar do lado de fora da casa. Contudo, há também duas diferenças significativas entre esses dois mandamentos.

A primeira diferença é que a Mezuzá precisa ser afixada do lado direito da porta, ao passo que as luzes de Chanucá sãocolocadas ao lado esquerdo da porta. A outra diferença é que apesar de ambas serem colocadas do lado de fora da casa, no caso da Mezuzá isto serve para indicar a entrada: serve para apontar o domínio privado da pessoa, fornecendo bênçãos e proteção a quem nele habita. Em contraposição, as luzes deChanucá destinam-se a brilhar para fora, iluminando, a partir daí, o exterior – o domínio público.

Estes dois aspectos diferenciadores do mandamento das luzes de Chanucá – a dizer, sua colocação do lado esquerdo e no exterior do domínio privado, apontado para o domínio público – estão entrelaçados. O “domínio público”, Reshut HaRabim, que literalmente significa “o domínio dos muitos”, sugere a idéia de multiplicidade e falta de união. De modo similar, o “lado esquerdo” é a denominação dada à fonte de separação e desunião que prevalece no mundo. O “domínio público” e o “lado esquerdo” são entrelaçados , pois representam o grau do distanciamento, da divisão e da alienação dos seres humanos perante D’us.

Mezuzá e os outros Mandamentos Divinos

Como cada mandamento da Torá representa a vontade de D’us, não cabe a nós, seres humanos finitos, decidir quais são mais ou menos importantes. No entanto, não se pode negar que há certos mandamentos que são mais enfatizados pela própria Torá. O da colocação da Mezuzá é um desses; diz-seque sua importância equivale à de todos os demais mandamentos em conjunto. Assim como os mandamentos da colocação dos Tefilin e do ensino e estudo da Torá, o da colocação da Mezuzá aparece no primeiro e segundo parágrafos do Shemá Israel. Sendo que este mandamento engloba dentro de si os demais ordenamentos da Torá, é de se esperar que praticamente todos eles compartilhem as duas características básicas da Mezuzá: a idéia do lado direito – pois a Mezuzá sempre deve ser colocada à direita, no umbral da porta – e o conceito de estar direcionada para dentro, dirigida ao interior de um domínio privado.

De fato, quase todos os mandamentos da Torá compartilham essas duas características. Com poucas exceções, qualquer mandamento a ser cumprido com a mão de uma pessoa, deve ser feito com a mão direita. Por exemplo, quando o Templo Sagrado de Jerusalém estava de pé, uma oferenda era invalidada se a pessoa não a oferecesse com a mão direita. Ademais, assim como a Mezuzá, muitos mandamentos da Torá “dirigem-se para dentro” – ou seja, devem ser realizados em ambientes privados. Quanto aos mandamentos que são realizados em domínio público, eles também podem ser realizados em ambientes privados: não possuem conexão integral com a idéia de um “domínio público”; de fato, não têm conexão com lugar algum.

Já o mandamento das luzes de Chanucá, que é associado com o lado esquerdo e basicamente direcionado ao exterior, é essencialmente diferente dos demais mandamentos da Torá.

Mandamentos positivos e negativos

As diferenças entre a Mezuzá e as luzes de Chanucá são análogas à outra distinção entre os mandamentos da Torá: os positivos e os negativos.

Mandamento positivo é o ato que D’us, através de Sua Torá, ordena ao judeu desempenhar. Exemplos de mandamentos positivos são a colocação de uma Mezuzá; a colocação dos Tefilin; o cumprimento dos preceitos positivos do Shabat, tais como recitar o Kidush sobre um copo de vinho e fazer refeições deleitosas; ensinar e estudar a Torá; e realizar atos de bondade e caridade. A Cabalá explica que no mundo há basicamente três âmbitos espirituais: o sagrado, o permitido e o proibido. Os mandamentos positivos são realizados dentro de dois desses três reinos – o do sagrado e o do permitido. Não é possível cumprir um mandamento positivo dentro do reino do proibido, ou seja, através de um ato ou por meio de um instrumento proscrito pela Torá. Exemplificando: o pergaminho de um rolo da Torá, os de um par de Tefilin ou o de uma Mezuzá não podem ser confeccionados com a pele de um animal não-casher.

Um mandamento positivo é algo que D’us quer que façamos. Já um mandamento negativo é algo que D’us nos proíbe de fazer: são os atos vetados pela Torá, como comer alimentos não-casher, violar as leis doShabat, roubar, cometer adultério, falar mal da vida alheia ou difamar os outros, e comer ou beber em Yom Kipur.

A Torá contém 613 mandamentos básicos: 248 positivos e 365 negativos. É importante observar que nenhum judeu pode, na prática, cumprir todos os 613 mandamentos, porque alguns se aplicam somente aos homens, enquanto outros apenas às mulheres. Ademais, muitos dos mandamentos da Torá se aplicam apenas a uma época em que o Templo Sagrado de Jerusalém estiver de pé.

Contrariamente ao pensamento popular, apesar de Divina, a Torá não é um Código de Leis inflexível, do tipo “tudo ou nada”. Centenas de mandamentos significam centenas de oportunidades para que a pessoa se conecte a D’us, seja fazendo algo que Ele deseje ou se restringindo de fazer algo que Ele proíba.

Cada vez que um judeu realiza um mandamento Divino, ele traz luz espiritual e energia Divina ao mundo na forma da Luz Divina. Por exemplo, cada vez que um judeu usa adequadamente os Tefilin – independentemente de entender o significado desse mandamento ou do fato de seguir ou não os outros mandamentos – ele contribui com uma nova luz ao mundo – ele instila sobre o mundo ainda mais Energia Divina.

 A luz que é atraída pelo cumprimento de um mandamento positivo é internalizada no ato dessa Mitzvá – é contida dentro da mesma. Isto é, o ato contém ou “reveste” a luz Divina da mesma maneira que um corpo “reveste” a alma.

Porém, uma luz que pode ser contida por qualquer coisa, apesar de ser Divina, é finita – já que assume o caráter daquilo que a contém. Exemplificando: uma alma, que é Divina, por não ser limitada pelo físico, pode estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Mas quando está “revestida” por um corpo, ela está limitada por sua vestimenta material; e, com as raras exceções dos indivíduos extraordinários, apenas pode estar em um lugar de cada vez. O mesmo é válido para a luz gerada por um mandamento positivo: trata-se de Luz Divina, e, portanto, infinita em sua origem; mas é contida, e, portanto, limitada pelo mandamento positivo. Este conceito é evidenciado pelo fato de que um mandamento positivo é quase sempre mensurável e temporal: a pessoa reza e estuda a Torá apenas por um tempo determinado; de modo similar, por mais que se doe de Tzedacá , sempre será um montante quantificável e finito. É verdade que o mérito de um mandamento positivo é eterno, por conectar o homem com um Ser Eterno, e porque não há esquecimento para os bons atos na Corte Celestial (diferentemente dos maus atos), mas o bom ato em si raramente é eterno. O mandamento positivo de usar Tefilin, por exemplo, somente se aplica ao período do dia e nunca ao Shabat e Yom Tov. Mesmo o mandamento daMezuzá somente se aplica a uma propriedade pelo período em que um judeu nela habita.

Outra limitação de um mandamento positivo é o fato de que a luz que é trazida ao mundo através de seu cumprimento é restrita a dois domínios – o do sagrado e o do permitido; não pode descer ao reino do proibido. Aquilo que é proscrito pela Torá é o que não pode ser espiritualmente elevado, independentemente de quais sejam as intenções da pessoa. Por exemplo, não se pode fazer Kidush com vinho não-casher; da mesma maneira que não se pode cumprir o mandamento positivo de acender as velas de Shabatse o Shabat já se tiver iniciado. O que a Torá proíbe é, com raras exceções, irredimível.

Na Cabalá, o reino do proibido, que contém tudo aquilo que a Torá nos proíbe, é chamado de Sitrá Achrá – o “outro lado”. Como tudo o mais que existe em nosso mundo, a Sitrá Achrá também é uma criação de D’us e é sustentada por Ele, apesar de conter tudo o que é profano, mau e repugnante. O “outro lado”, por mais repulsivo que seja, foi criado e existe por uma razão muito importante: sem sua escuridão, não seríamos capazes de reconhecer nem apreciar a luz, nem tampouco teríamos o livre arbítrio. A escuridão da Sitrá Achrá é tão poderosa que nada do que lá reside pode ser redimido, nem mesmo através dos mandamentos positivos da Torá. Houve pessoas – grandiosas e sábias e corajosas – que adentraram no reino do proibido com a intenção de elevá-lo. Mas, quase sempre foram derrotadas pela Sitrá Achrá. De fato, o “outro lado” é um domínio espiritual que deve ser evitado, pois a pessoa não pode se envolver com o proibido e o profano pensando sair ilesa.
Enquanto não chegar a Era Messiânica, somente há uma maneira segura de elevar espiritualmente a Sitrá Achrá – o lado da escuridão; e não é através do que fazemos, mas do que não fazemos. A Luz Divina que habita o domínio proibido é liberada apenas quando se realiza um mandamento negativo – abstendo-se de realizar um ato proibido pela Torá. Tal luz é infinita, ainda mais forte do que a luz finita canalizada pelo cumprimento de um mandamento positivo. A luz que habita o reino proibido tem tanta força,não apenas porque não é contida pelas limitações de um ato humano, mas porque apenas uma luz que é verdadeiramente infinita pode descer as profundezas da impureza e brilhar sem que nada a possa esmaecer.

Na verdade, a luz liberada pelo cumprimento de um mandamento negativo, precisamente por ser infinita, não pode ser contida pelo proibido, nem por outro ato qualquer. Como essa luz, diferentemente da luz gerada por um mandamento positivo, não pode ser contida por “vestimentas”, ela somente pode ser liberada ao não realizar ato algum. Os mandamentos negativos, portanto, estão em um nível mais elevado do que os positivos por estarem mais próximos ao reino do oculto e do sagrado.

A superioridade dos mandamentos negativos

Há mais mandamentos negativos do que positivos, na Torá. Os Dez Mandamentos, síntese de todas as leis da Torá, também são negativos, em sua maioria. O fato de o judaísmo ter mais mandamentos negativos do que positivos, nos ensina que a Vontade de D’us é expressa, com mais freqüência , não pelo que fazemos, mas sim pelo que deixamos de fazer.

Um mandamento negativo, diferentemente de um positivo, não cria nada. O que os mandamentos negativos produzem não são resultado de um ato de objetividade e avaliação passível de ser definido. Pelo contrário, criam uma realidade pelo simples fato de restringir a ação. Enquanto os mandamentos positivos causam mudanças no mundo através de intervenção ativa, os negativos são basicamente passivos. De modo superficial, os positivos impressionam mais: expressam força, determinação e generosidade de parte de quem os executa. Já o cumprimento de um mandamento negativo geralmente nem mesmo é aparente. Os mandamentos negativos são realizados discretamente, sem fanfarras. Mas, como ensina o Pirkei Avot, livro sagrado da sabedoria judaica, a pessoa verdadeiramente forte não é aquela que vence os outros, mas a que vence a si mesma. Em nossa limitada visão da realidade, vemos uma pessoa que realiza grandes atos – faz grandes doações à caridade, reza com fervor, domina e ensina os segredos da Torá – e ficamos embevecidos diante dela. Mas, é raro sequer tomarmos conhecimento da pessoa que, sem que ninguém saiba, a não ser D’us, se sacrifica para resistir ao fogo que lhe consome internamente, impelindo-a ao pecado.

O cumprimento de um mandamento negativo requer que se evite danificar ou interferir com a ordem das coisas, a dizer, com a Santidade Divina. Portanto, aderir a um mandamento negativo é permitir que a Luz Divina, ainda que imperceptível, desça sobre a pessoa e sobre o mundo. Os mandamentos negativos são testemunhos mais discretos da fé, mas são bem mais eficazes em termos da vida da alma. Eles reconhecem o poder e a realidade de um D’us presente que não é abertamente revelado. Quem cumpre um mandamento positivo pode estar fazendo-o para que os outros o vejam; mas se alguém se abstém de cometer um pecado, geralmente é apenas D’us – que lê a mente e o coração da pessoa – quem o percebe. Cumprir um mandamento negativo, portanto, é reconhecer que D’us está conosco, aqui e agora – que Ele observa cada um de nós a todo o momento, e que Ele está ciente de nossos pensamentos, palavras e ações. Ademais, são os mandamentos negativos o verdadeiro teste de fé, pois, em geral, eles são muito mais difíceis de serem cumpridos do que os positivos. É muito mais fácil e agradável cumprir o mandamento positivo de rejubilar-se em Sucot – fazendo refeições fartas e festivas com amigos sob a proteção da Sucá – do que cumprir o mandamento negativo de não comer ou beber em Yom Kipur.

Da mesma forma, cumprir os mandamentos positivos do Shabat – fazerKidush sobre um copo de vinho, fazer refeições deliciosas, ir à sinagoga e ouvir a leitura da Torá – requer menos disciplina e coragem do que cumprir os mandamentos negativos do dia sagrado: não fumar, não acender as luzes ou ligar a televisão, não cozinhar ou dirigir veículos.

Isto não deve ser entendido, contudo, como se a Vontade de D’us devesse ser cumprida através de um comportamento passivo e inerte. Se este fosse o caso, a Torá apenas conteria mandamentos negativos. Nossas almas são enviadas ao mundo para elevá-lo – para reparar o que está errado e aprimorar o que está certo. A pessoa que não faz o mal, mas tampouco faz o bem, trai a missão confiada à sua alma pelo Rei do Universo. A lição da superioridade dos mandamentos negativos não é que devemos ser passivos, mas sim que a verdadeira medida da ligação da pessoa a D’us – de quão justa ela é – geralmente reside em sua capacidade de se auto-dominar. Quando uma única pessoa, que não precisa ser santa nem erudita, resiste a uma forte tentação e se abstém de cometer um pecado, ela enfraquece o poder da Sitrá Achrá e faz com que a glória de D’us Infinito brilhe, com intensidade ainda maior, em todos os mundos.

A singularidade das luzes de Chanucá

Similarmente aos mandamentos negativos, o mandamento das luzes deChanucá é do tipo infinito, pois jorra luz sobre o “lado esquerdo” e sobre o “domínio público”, que, como vimos no início deste ensaio , são símbolos de impureza e afastamento de D’us. Mas, a singularidade do mandamento deChanucá está no fato de que o mesmo desfruta de uma vantagem até mesmo sobre os mandamentos negativos, pois, além de trazer luz sobre o “lado esquerdo”, como os demais ordenamentos negativos, ele é executado através de um ato ativo – ou seja, um mandamento positivo: o acender das velas ou do óleo de oliva durante as oito noites da festividade.

A abstenção de cometer um ato proibido é uma negação ao mesmo. Mas as luzes de Chanucá não apenas negam o profano, como o fazem os mandamentos negativos; elas iluminam e purificam o mundo “exterior” – o proibido e o profano – e, ao mesmo tempo, pelo fato de constituírem um mandamento positivo, purificam o mundo “interno” – o permitido. Em outras palavras, as luzes de Chanucá executam os propósitos tanto dos mandamentos positivos quanto dos negativos. 
A singularidade do mandamento das luzes de Chanucá é compartilhada pela própria Torá, que também é luz – a Luz de D’us Infinito. Assim está escrito, “Pois o mandamento Divino é a vela, e a Torá, a luz” (Provérbios 6: 23). Assim como as luzes de Chanucá, o estudo da Torá, cuja luz é infinita, preocupa-se tanto com o permitido quanto com o proibido. Ao estudar os mandamentos positivos da Torá, refinamos e elevamos aquilo que é permitido; ao estudar os negativos, liberamos e elevamos as centelhas de santidade que estão embutidas dentro do reino do proibido.

As luzes de Chanucá e os Tefilin

Os Dez Mandamentos, que são um resumo das leis da Torá, são escritos com 620 caracteres hebraicos, aludindo aos 613 mandamentos bíblicos e aos sete rabínicos. Os sete mandamentos instituídos por nossos Sábios, um dos quais é justamente o das luzes de Chanucá, originam-se dos 613 mandamentos bíblicos.

Portanto, deve haver, entre os 613, um que seja análogo ao das luzes deChanucá – um mandamento que, apesar de ser positivo, também leve a luz Divina para o “lado esquerdo” e para o “domínio público”. E há, de fato, um: o mandamento dos Tefilin. O da mão é usado no braço mais fraco, que, para a maioria das pessoas, é o esquerdo (os canhotos usam o Tefilin no braço direito). 

Zohar, obra fundamental da Cabalá, explica que o Tefilin é usado no braço mais fraco para que o Ietzer ha-Rá, a Inclinação do Mal – o “lado esquerdo do coração”, que é a voz da discórdia emocional da Vontade Divina – seja “amarrado” ao serviço de D’us. Já o Tefilin da cabeça, este é usado descoberto e exposto, para que “todos os povos da Terra vejam que o Nome do Eterno é chamado sobre ti; e eles a ti temerão”. O propósito doTefilin da cabeçaé revelar a santidade Divina a “todos os povos da Terra”, para que eles possam temer a D’us e ser inspirados por aqueles que vivem segundo Sua Palavra.

Assim como o mandamento das luzes de Chanucá, o mandamento da colocação dos Tefilin dirige-se ao “lado esquerdo” (simbolizado pelo Tefilinda mão, que é colocado no braço esquerdo) e ao “domínio público” (simbolizado pelo da cabeça, usado para que “todos os povos da Terra vejam”) – em direção aquilo que fica em oposição e “fora” do reconhecimento, do respeito e temor, e da obediência a D’us.

Como vimos acima, o mandamento da Mezuzá é comparado à Torá como um todo. O mesmo é válido para os mandamentos dos Tefilin e para o estudo da Torá. Assim, pois, que não surpreende o fato de estarem, esses três mandamentos, justapostos nos dois primeiros parágrafos do ShemáIsrael, o preceito fundamental da fé judaica. Mas há uma significativa diferença entre o mandamento da Mezuzá e o dos Tefilin e do estudo da Torá. Diferentemente da Mezuzá, que representa os mandamentos positivos e está associada com o lado direito e com o “domínio privado”, sendo ambossímbolos do sagrado e do permitido, os mandamentos dos Tefilin e do estudo da Torá, bem como as velas de Chanucá, têm o poder de purificar até mesmo o reino do profano e do proibido.

O mandamento dos Tefilin

Shulchan Aruch, o Código da Lei Judaica , decreta que em Chanucá deve-se dar uma quantia a mais de Tzedacá, “tanto em dinheiro quanto em pessoa” – a dizer, tanto material quanto espiritual. Como a Mitzvá de Tefilincompartilha uma conexão especial com as luzes de Chanucá, esta festa é um momento auspicioso para que aquele que não costuma colocar Tefilincomece a fazê-lo. E para aqueles que já o fazem, é o momento de realizarTzedacá espiritual, ajudando o maior número possível de judeus a cumprir este mandamento de tão grande importância.

O judeu não necessita de preparo nem qualificação para colocar Tefilin. Este mandamento é uma obrigação que cabe a qualquer judeu a partir dos 13 anos de idade. Quando um de nós começa a colocar Tefilin ou ajuda outro a cumprir o mandamento, então, como diz o Pirkei Avot, “um mandamento Divino puxa outro”. Se isto é válido para qualquer mandamento, é muito mais para o dos Tefilin, que, como vimos, equivale a todos os demais mandamentos da Torá, combinados. De fato, a importância dos Tefilin é ressaltada pelo fato de que há apenas três mandamentos que são chamados de sinal entre um homem judeu e D’us: a circuncisão, o Shabat e os Tefilin. Os Tefilin não são colocados no Shabat, pois um judeu necessita de dois sinais para manter sua conexão com D’us: o Shabat é um deles, e, portanto, colocar Tefilin nesse dia sagrado seria negar o sétimo dia como sendo um sinal.

No que tange às mulheres, como, de acordo com a Torá, elas estão em um nível espiritual mais elevado do que os homens, elas não necessitam dos sinais dos Tefilin nem da circuncisão.

Quando o judeu assume o mandamento dos Tefilin, além de trazer uma nova luz ao mundo cada vez em que ele os coloca, ele também envia um sinal a D’us Infinito, reforçando, assim, o vínculo existente entre ele e seu Criador. Como resultado, sua sensibilidade espiritual aumentará, e, com o tempo, também aumentará seu cumprimento dos demais mandamentos da Torá.

Os mandamentos de Tefilin e das luzes de Chanucá compartilham outra similaridade: ambos invocam a salvação dos Céus para o Povo Judeu. O milagre de Chanucá foi aparente não apenas porque D’us ajudou o nosso povo a vencer a superpotência da época – um exército enorme, poderoso e aparentemente invencível: “Para Vosso povo, Israel, Vós trabalhaste por uma grande salvação e redenção a partir deste dia” . O milagre foi também o sinal enviado por D’us na esteira da vitória: “Mais tarde Vossos filhos vieram à Vossa Casa mais sagrada, limparam Vosso Templo, purificaram Vosso Santuário e acenderam luzes em Vosso pátio sagrado”. Primeiro, aconteceu um milagre físico – a vitória dos poucos sobre os muitos, da liberdade sobre a tirania – e depois houve o milagre espiritual – o conteúdo de um único recipiente de óleo de oliva ritualmente puro ardeu durante oito dias, significando que a luz triunfara sobre a escuridão.

Como as luzes de Chanucá são tão intimamente relacionadas com o mandamento de Tefilin, inúmeros milagres podem ser conseguidos mediante sua colocação. Sempre que um judeu, não importa seu grau de conhecimento ou observância dos mandamentos, coloca Tefilin, ele alcança – não apenas para si, mas para todo o povo – “salvação e redenção” de nossos inimigos físicos e espirituais, que “a ti temerão”, e deixarão de fazer oposição ao cumprimento dos preceitos judaicos. Mas, também, como conseqüência do cumprimento desse mandamento, “Vossos filhos (hão de vir) à Vossa Casa mais sagrada”, ao Terceiro Templo Sagrado de Jerusalém, que será revelado na Terra brevemente, significando o início de uma era de paz, prosperidade e júbilo para todos os seres humanos.

Bibliografia: 
Rabi Menachem Mendel Schneerson, Likutei Sichot: Vol. V, pgs. 223-227
Rabi Menachem Mendel Schneerson – Maamar Mitzvat Ner Chanucá 5738
Rabi Shneur Zalman de Liadi – Likutei Amarim (Tanya) 
Rabi Shneur Zalman de Liadi – Likutei Torá – BeShalach
Rabi Shmuel Schneerson – Maamar Issa Bemidrash Tillim
Rabbi Jonathan Sacks - Torah Studies: Discourses by the Lubavitcher Rebbe.
Kehot Publication Society
Rabbi Adin (Even Israel) Steinsaltz – The Candle of G-d: Discourses on Chassidic Thought – Jason Aronson
Rabbi Adin (Even Israel) Steinsaltz – Opening the Tanya – Jossey-Bass