Morashá
Não vão acabar nunca com a Praça Onze Foto Ilustrativa

Não vão acabar nunca com a Praça Onze

por por H. James Kutscka

“Vão acabar com a Praça Onze...” Era um grito de alerta cantado.
Efetivamente acabaram com a praça em 1941, mas ela será eternamente lembrada no samba de Herivelto Martins e na memória dos judeus que chegaram ao Rio de Janeiro nas décadas de 1920 e 1930.

Edição 82 - Dezembro de 2013


Praça Onze
Herivelto Martins

Vão acabar com a Praça Onze
Não vai haver mais Escola de Samba, não vai Chora o tamborim Chora o morro inteiro
Favela, Salgueiro Mangueira, Estação Primeira Guardai os vossos pandeiros, guardai
Porque a Escola de Samba não sai.
Adeus, minha Praça Onze, adeus
Já sabemos que vais desaparecer
Leva contigo a nossa recordação
Mas ficarás eternamente em nosso coração E algum dia nova praça nós teremos E o teu passado cantaremos.

 

Esse passado, embora o samba não revele, guarda a recordação de toda uma comunidade judaica que não é lembrada em sua letra, mas que, a seu modo, foi diretamente responsável pela importância do local na história do Rio de Janeiro.

Era para lá que se dirigia a grande maioria dos recém-chegados do Leste europeu. Sabiam que encontrariam gente que falava sua língua e lhes auxiliaria nos primeiros passos nessa terra estranha de frutas tropicais, como a melancia e a banana, e de ritmos de origem africana trazidos pelos negros baianos que, alguns anos mais tarde, redundariam no samba que dá nome a este artigo, e já não pareceria mais tão exótico aos ouvidos dos judeus que aqui chegaram no início dos anos 1920. A Praça Onze era a parte cosmopolita do Rio de Janeiro e ali eram faladas várias línguas, entre as quais preponderavam o hebraico, o iídiche, o polonês e, é claro, o português, com seus mais diversos sotaques. Situava-se entre a Rua Senador Euzébio, ao norte, e a Visconde de Itaúna, ao sul, e entre a Santana, a leste, e Marquês de Pombal, a oeste.

Ao redor desse espaço se concentravam as instituições de auxílio aos imigrantes e era o local onde os que aqui estavam há mais tempo ajudavam os novatos a entender os costumes da terra e, mais rapidamente, a encontrar emprego e se adaptar. Na Praça Onze estavam situados os escritórios dos jornais Dos Idishe Vochenblat (Semanário Israelita), fundado em 1923, Di Idishe Folkstzaitung (A Gazeta Israelita), fundado em 1927, publicação extremamente respeitada, e Di Idishe Presse (A Imprensa Israelita), em 1930, além de clubes de jovens israelitas e sedes de movimentos sionistas. Tudo aparentemente corria bem nos anos vinte para os judeus que para o Brasil se haviam dirigido em busca de liberdade e oportunidade. Não apenas na Praça Onze, mas, em outros municípios próximos ao Rio de Janeiro, houve um número representativo de judeus integrados à sociedade local. O mais importante destes foi Nilópolis, onde foi construída a sinagoga Tiferet Israel, que resistiu até os anos 70, quando foi fechada: um prédio histórico, que merecia ter sido preservado pelas autoridades do município como homenagem a uma comunidade que, com seu trabalho, contribuiu para o desenvolvimento da economia local e, no entanto, se encontra completamente abandonado.

Nilópolis era o primeiro município depois do Rio de Janeiro pela via férrea, onde os judeus que saíam da Praça Onze (que, em meados da década de 20 já começava a ficar superlotada), encontravam terrenos baratos para construir suas casas. Logo, outros municípios situados ao longo da linha da Leopoldina, como Olaria, Ramos, Bonsucesso, Madureira e Méier começaram a receber grandes contingentes de judeus, também provenientes do Rio de janeiro. Tal distribuição não era um acaso aleatório, mas antes uma estratégia geográfica que ainda obedecia a uma marca indelével deixada no inconsciente coletivo de fugas e traumas do passado, que haviam ensinado ao Povo Judeu que era “sempre melhor” estar próximo a uma estrada de ferro que os pudesse tirar rapidamente do local, em caso de alguma ameaça. O Rio de Janeiro não seria para muitos o ponto final de sua epopeia...

A década de 1930 começou mal

Em 1931 surgiram medidas restritivas à imigração. Com a diminuição da chegada de novos imigrantes, o crescimento da comunidade passou a ser vegetativo durante, pelo menos, três anos. Em 1933 começava o movimento nazista brasileiro.

A indecisão do governo brasileiro em apoiar os aliados abria uma brecha para o nascimento de partidos radicais nazistas que tiveram seus quartéis generais principalmente no sul do Brasil, onde uma parte importante da população era, e ainda hoje é, de origem germânica. Esses movimentos não se restringiram somente ao sul do país; havia simpatizantes em quase todos os estados. Portanto, apesar da situação estar piorando a olhos vistos, na Europa, o Brasil já não era mais um “destino seguro”.

Durante duas décadas e um ano a Praça Onze foi o ponto de encontro diário dos judeus no Rio de Janeiro. Lá, nas mesas de seus restaurantes, bares e cafeterias, reuniam-se no final das tardes todo tipo de negociantes para organizar a contabilidade do dia, organizar a cobrança dos créditos e “acertar” com os fornecedores de mercadorias. Conviviam na praça com imigrantes portugueses, espanhóis, árabes e negros vindos principalmente da Bahia. Para muitos dos que haviam vindo do Leste europeu, era a primeira vez que viam um homem negro em sua vida...

Nas palavras de nossa entrevistada especial para esse artigo, Sra. Luba Klajman, que chegou ao Rio de Janeiro em 1936, aos vinte anos:

“Por volta de 1930, meu pai, um estudioso do Torá, já dizia sentir cheiro de pólvora no ar da pequena vila onde vivíamos, na Polônia, e resolveu experimentar a sorte no Brasil, onde já tinha um primo.
Na Polônia, que nesse instante de sua história vivia o papel angustiante de ser o recheio do sanduíche feito pela Alemanha, de um lado, e Rússia, do outro, em um país de economia basicamente agrária e familiar, meu pai era um negociante, comprava e vendia de tudo. Não demorou muito para tomar a decisão de vir para cá.

Levando-se em consideração as dificuldades da língua, clima e dos costumes, ajudado por seu primo, meu pai se aclimatou bem rapidamente. Seis anos mais tarde, já ganhando bem como vendedor ambulante, a famosa figura do clienteltchik, que negociava roupas e lençóis porta-a-porta, em vendas a prazo (uma novidade trazida pelos imigrantes judeus), ele tinha uma boa clientela e economias suficientes para trazer a família.

Apesar do nazismo insurgente no País, meu pai tomou a decisão de nos trazer para cá, mesmo tendo de enfrentar inúmeras dificuldades para conseguir uma permissão de entrada devido às restrições impostas pelas novas leis de imigração, promulgadas em 1931.

Parece que sentia, da mesma maneira como ocorrera, anos antes de a inflação corroer a economia na Alemanha, entregando o combustível que o nazismo precisava para chegar ao poder, que era chegada a hora de sair da Polônia.

No final dos anos 30, meu pai pressentiu que os Estados Unidos faria o que fosse necessário para que o Brasil entrasse na guerra ao lado dos Aliados. E que esse Brasil continuaria a ser um “lugar seguro” em um momento da História em que o número de países no mundo que ofereciam algum tipo de oportunidade de prosperidade diminuía a olhos vistos.

Viemos para cá na 3ª classe de um navio inglês de nome Atlanta, se não me engano. Com a idade, já não me recordo muito bem”. E d. Luba continua: “Eu não sabia nada do país, muito menos da língua, pois meu pai era muito rígido na educação e não nos deixava ler nada aparte das Escrituras Sagradas, contudo não houve um grande choque em nossa adaptação. Viemos morar perto da Praça Onze, onde viviam muitos outros imigrantes judeus vindos do Leste europeu. Naquela época podíamos assistir peças de teatro em iídiche, comer em restaurantes que serviam nossas comidas típicas e ter uma vida relativamente agradável. Tirando o clima, a paisagem tropical que nos cercava e a fauna repleta de pássaros coloridos e exóticos, o resto parecia muito natural e fácil de assimilar.

Embora fôssemos muito brancos e nos queimássemos facilmente ao sol (pois não havia protetores solares naquela época, faz questão de frisar d. Luba), gostávamos de ir à praia. Para tanto, quem morava na Praça Onze e não tinha ainda vencido na vida para poder alugar um carro e levar a família para passar o dia em praias mais distantes, como Copacabana, a saída era tomar dois bondes e andar ainda um bom pedaço a pé para ir a uma praia decente ou sujeitar-se a uma perto do porto, que era mais próximo à Praça, cheia de óleo despejado pelas embarcações.

Apesar das facilidades oferecidas pela praça e suas cercanias, ninguém queria ficar por lá por muito tempo; era um lugar de passagem até as coisas melhorarem. Assim que foi possível, nos mudamos para Nilópolis.

Do navio em que vim, recordo do sentimento de injustiça que me assaltou ao dar-me conta, pela primeira vez na vida, da diferença existente entre a 3ª classe, que não era de todo má, e a 2ª classe, até onde consegui chegar, algumas vezes. Antes desse fato, eu nunca havia sentido ou percebido que podia haver tais diferenças entre seres humanos.

Na vila em que vivíamos não havia, esse tipo de separação, baseada apenas no poder econômico; havia é claro, os que tinham mais, mas a diferença entre uns e outros era muito menos gritante, pelo menos até onde aos nossos olhos era permitido ver.

Eu me perguntava por que meu pai havia escolhido tal país quando todos os judeus na Europa só falavam em ir para Jerusalém. Em Eretz Israel, eu seria judia. Para onde estamos indo, ‘judeu é aquele que vende roupas’, pensava eu naquele momento”. “A situação na Europa a partir de 1939, com a invasão da Polônia, ficou insustentável. Por aqui existiram ameaças de segregação por parte de movimentos isolados. Houve um período de insegurança, foi tentada a disseminação do mito racial germânico em todo o País, mas por não encontrar eco no seio do povo brasileiro, anos mais tarde esses movimentos acabaram limitados a seus fundadores e poucos seguidores, que, com a entrada do Brasil na guerra ao lado dos americanos, acabaram por se dispersar.

No Brasil de 1939, em pleno governo Getulista, quando ainda não estava claro para qual dos lados o país penderia na sequência da guerra (mas que claramente na época simpatizava com o Reich), as coisas ficavam cada vez mais difíceis. O governo brasileiro havia criado leis e baixado atos que proibiam a circulação de jornais em língua estrangeira que não trouxessem ao lado do texto original sua tradução ao português.

É verdade que os jornais estrangeiros também eram obrigados a seguir as mesmas leis, mas isso era mais difícil para nós. Afinal, nós éramos a caça, e a imprensa livre era a única arma que tínhamos contra o caçador.
Em 1941, portanto pouco tempo antes de a previsão de meu pai se concretizar, todas as publicações estrangeiras foram proibidas no Brasil.

Nessa época foi também proibido (embora não de forma escrita, mas intrinsecamente) o uso do iídiche em reuniões e assembleias. Dessa maneira, de um só golpe calava-se a imprensa judaica e restringia-se a liberdade de reunião, fazendo com que a vida social dos judeus da época se limitasse a atividades religiosas e, eventualmente, beneficentes. Como meu pai previra, os norte-americanos acharam um “jeito” de o Brasil entrar na guerra do lado dos Aliados.

Já era hora

Terminada a guerra, as atrocidades cometidas pelos nazistas contra os judeus nos campos de concentração, foram expostas ao mundo – não apenas através de histórias contadas por aqueles que, por milagre, conseguiram escapar e atravessar o Atlântico, mas através de filmes realizados pelo próprio exército alemão e documentários feitos no pós-guerra pelos Aliados, que podiam ser vistos nas telas dos cinemas da época no noticiário prévio ao filme. Dessa forma, o horror se fazia quase palpável.

Nunca discuti com meu pai sua decisão de nos trazer para cá, mas nessa época creio que passei a entendê-lo melhor.

Hoje já vivo no Brasil há 77 anos e acho que, com o tempo e revivendo a História, posso compreender porque meu pai, enquanto viveu e a Praça Onze existiu, não passou um dia sem ir até lá, fosse para ganhar a sobrevivência nos primeiros tempos, fosse para ajudar os recém-chegados quando já estava melhor de vida, ou, no final, apenas para rever os amigos.

Meu pai saiu da Praça Onze, mas acho que a Praça nunca saiu de dentro dele, assim como de milhares de outros judeus que por lá passaram e infelizmente não são exaltados no imortal samba. Mas, com certeza sentem-no em sua carne”.

H. James Kutscka é publicitário, pintor e autor de inúmeros artigos e livros.

Agradecimentos do autor à sra. Ilda Klajman que, com suas pesquisas e entrevistas, ajudou a enriquecer este artigo, e à historiadora Kim Kutscka pela revisão do mesmo. Também ao Arquivo Histórico Judaico Brasileiro de São Paulo que nos auxiliou, disponibilizando para consulta seus livros, documentos e fotos. 

Agradecimentos Morashá:
Crédito das fotos.
• Livro: Judeus Cariocas, texto Keila Grinberg e Flavio Limoncic, organização: MV Serra, Editora Cidade Viva.
• Livro: Sinagogas do Rio de Felipe Goifman