Morashá
Adolpho Bloch Judeu, brasileiro e sionista Foto Ilustrativa

Adolpho Bloch Judeu, brasileiro e sionista

por por Arnaldo Niskier

Faltava um depoimento mais completo sobre Adolpho Bloch, grande empresário dos ramos gráfico e jornalístico. Foi o que fez o acadêmico Arnaldo Niskier, que trabalhou 37 anos nas empresas Bloch, inclusive em cargos de direção.  Em suas “memórias de um sobrevivente” ele traçou um perfil ágil e competente do criador de uma série de importantes revistas brasileiras.

Edição 78 - Dezembro de 2012


Adolpho Bloch chegou ao Brasil aos 12 anos de idade. Nasceu em Jitomir, Kiev, Ucrânia, e tinha terríveis lembranças dos tempos em que os cossacos sistematicamente agrediam os judeus, nos famigerados Pogroms. Foi com seus pais e irmãos morar no bairro de Aldeia Campista, no Rio de Janeiro, ficando desde logo encantado pelas festas de carnaval. Sonhava um dia comprar um carro aberto, para desfilar na Avenida.

Quando começou a estudar no Colégio Pedro II, inclusive para aprender a falar a língua portuguesa, sentiu-se definitivamente brasileiro. Nunca deixou de ser judeu, religião dos seus ancestrais, e somente mais tarde é que se confessou sionista. Isso ocorreu na década de 1960, sobretudo após a Guerra dos Seis Dias, em que o Estado de Israel derrotou fragorosamente os seus vizinhos agressores. A partir daí, Adolpho Bloch passou a se apresentar publicamente como brasileiro, judeu e sionista.
 
Cerca de três meses após a Guerra de 1967, resolveu conhecer o Estado de Israel. “Quero visitar o Muro das Lamentações ao vivo”, costumava repetir. Em companhia da esposa Lucy, do amigo Gregório Biller e do casal Ruth e Arnaldo Niskier encheu-se de coragem e organizou a viagem. Foi uma epopeia. Ele parecia uma criança, de tanta felicidade. Foi o seu reencontro com a religião que trouxera da Europa. Alugou uma van e pediu para percorrer locais históricos, como Nazaré, Belém, Nablus, Jericó, Jerusalém, a partir da hospedagem em Tel Aviv. Lembro de um episódio curioso quando a condução nos levou a Nazaré. Ele resolveu entrar numa loja e se encantou com um conjunto de camelos (cáfila) todo trabalhado em madeira. Perguntou o preço ao comerciante árabe: “Oitenta dólares.” Aí começou uma longa negociação, pois Adolpho baixou a oferta para trinta dólares.

O árabe fingiu que se ofendeu e contrapropôs setenta. Adolpho, diante já então de uma plateia de diversas nacionalidades, num inglês macarrônico, ofereceu quarenta. E ameaçou se retirar da loja. O comerciante foi atrás dele. Depois de muito papo, Adolpho fechou a compra em cinquenta dólares. Quando entrou na van, triunfante com o pacotão nas mãos, eu lhe disse: “Precisava atrasar a nossa viagem por causa desses camelos? Ainda temos que procurar a casa do tio do David Nasser para entregar a carta que trouxemos do Rio.” Adolpho me olhou com uma falsa ferocidade e deu a bronca: “Você não entende de comércio. Estou viajando há dez dias e foi o primeiro grande negócio que consegui fechar, desde que deixei o Rio.” É claro que foi uma gargalhada geral. A cáfila gloriosa ornamentou durante muitos anos uma estante da Manchete, no seu maravilhoso 11º andar.

No Muro das Lamentações

Enquanto a van nos levava pelo interior de Israel, era possível olhar, com surpresa, muitos equipamentos bélicos destruídos à beira das estradas. E, num terreno, milhares de botas militares enfileiradas. A explicação foi dada pelo guia: “Os egípcios, quando as tropas israelenses entraram no deserto, descalçavam as botas para fugir melhor...”
 
Não esquecer que estávamos há pouco tempo do final da Guerra dos Seis Dias e as marcas ainda eram muito evidentes. Na estrada que liga Tel Aviv a Jerusalém vários tanques e half-tracks, naturalmente quase destruídos, eram o triste retrato de combates recentes.
 
E chegamos a Jerusalém. Foi uma fortíssima emoção. Adolpho lembrava o que lhe dissera, em Teresópolis (RJ), o sociólogo chileno-israelense Israel Drapkin: “Muitos judeus esquecem a sua origem, mas de repente, não se sabe bem como, reacende neles a chama do judaísmo, como se fosse um átomo reativado.” Era assim que ele se sentia. O entusiasmo cresceu quando nos dirigimos a pé ao Muro das Lamentações, onde Adolpho chorou copiosamente. Mas não esqueceu de fazer o seu bilhete a D’us, em papel fornecido por mim. O que ele escreveu? Mistério insondável.

A partir dessa viagem, Adolpho passou a ser um sionista ferrenho. Aceitou o convite para ser presidente da Sociedade Brasileira dos Amigos do Instituto Weizmann de Ciências (eu fui o secretário-geral), tomou a tarefa de construir o Observatório Geofísico de Eilat, passou a convidar cientistas de Rehovot para conhecer o Brasil, como aconteceu com o físico Amos de Shalit (precocemente falecido) e tornou-se íntimo do benfeitor da humanidade, que ele chamava de “irmão”, Albert Sabin. Recebeu outro grande cientista judeu na sua mansão de Teresópolis, Zalman Waksman, o descobridor da estreptomicina. Assim, mesmo sem aparentar, Adolpho tornou-se um grande relações públicas do judaísmo brasileiro. Para os seus jovens colaboradores, alguns da mesma religião, parecia que andava em busca do tempo perdido...

Nessas memórias, reavivadas pela decisão de escrever um livro sobre a minha vivência de 37 anos nas Empresas Bloch, é preciso colocar outro fato notável: a visita à sede do Rio de Janeiro (Praia do Russel) do general David Eleazar, chefe do estado-maior das Forças de Defesa de Israel. Alto, forte, mais parecendo um galã de cinema, ele contou particularidades para nós desconhecidas do desencadear da Guerra de 67. São suas palavras: “Às quatro horas da manhã, fomos acordados pelos nossos oficiais de informações com a notícia de que os árabes estavam se estabelecendo nas fronteiras, nitidamente com intenções belicosas. Avisamos à Primeira-Ministra Golda Meir. Ela ordenou que não fizéssemos nada sem sua ordem. Telefonou para Henry Kissinger e contou o que estava se passando (a iminência de um ataque inimigo). Ele desaconselhou qualquer iniciativa do nosso Exército. Foram suas palavras: “O mundo jamais perdoará Israel se ele der o primeiro tiro.” E assim, mesmo sabendo das intenções dos árabes, fomos atacados de maneira violenta pelo 3º Exército deles e perdemos, nessa investida, cerca de 500 dos nossos jovens soldados. Só depois é que revidamos, com os resultados conhecidos.
 
Quando são discutidos os limites do Estado de Israel, sempre dá vontade de recontar essa história. De quem foi a iniciativa do ataque, aliás, fato que sempre foi uma constante nas guerras da região. Israel nunca tomou a iniciativa.

Moisés, o maior dos cronistas

Adolpho gostava de ditar seus artigos na Manchete. Sentia necessidade de compartilhar sua enorme experiência. Nos primeiros tempos, eu, o Zevi Ghivelder e o Murilo Melo Filho éramos os preferidos para ouvir as ideias do “Titio”. Depois, a preferência recaiu sobre o Carlos Heitor Cony, com alguma sobra para o Roberto Muggiati. Procurávamos manter o estilo dele, para dar autenticidade aos seus relatos. Vejamos trechos de um artigo de 1971: “A forma mais expressiva de comunicação humana é a fé. Só vencemos na vida quando temos fé... O maior cronista de todos os tempos foi Moisés, com suas Tábuas da Lei. Milênios se passaram e delas foram feitas traduções em todas as línguas - e quanto mais exploramos o cosmos mais nos aproximamos dos Dez Mandamentos...”

Em 1978, Adolpho voltou a Israel e esteve em visita ao kibutz Bror Chail, de 400 hectares, onde viviam 200 famílias, a maioria constituída de brasileiros. Conheceu uma fábrica de alimentos desidratados, com uma produção anual de mais de 15 milhões de dólares e que fornecia os seus produtos para a Unilever, a Knorr e a Nestlé. Ficou entusiasmado e fez um convênio para produzir desidratados no Brasil, numa área comprada por ele na cidade mineira de Pouso Alegre. A terra foi tratada com adubos e calcáreo, sob a orientação de técnicos israelenses, para plantar e colher toneladas de batata, alho, cebola, tomate etc. Não deu certo. Essa não era a praia dele.

Adolpho se orgulhava, no Brasil, de ter muitos amigos árabes. Sempre se inquiria: “Por que não é assim no mundo inteiro?” Pouco antes de morrer, Adolpho escreveu na Manchete nº 2.275, de 11 de novembro de 1995, um artigo que vale a pena ser recordado. Tinha o título “Meu amigo Rabin”: “Ele viveu e morreu guiado pela nobreza de uma só finalidade: a celebração da paz. Queria viver em harmonia com os países que fazem fronteira com Israel e, num horizonte maior, estendê-la por todo o Oriente Médio. Seu entusiasmo e determinação por essa causa foram maiores do que todas as dificuldades que enfrentou, dentro e fora de Israel... Recebi Rabin em minha casa, em março de 1979. Ele tinha vindo ao Rio de Janeiro para explicar os pormenores do Tratado de Camp David, a paz entre Israel e o Egito, a cuja assinatura tinha assistido como convidado de honra... No decorrer dos últimos anos conversamos muitas vezes. Era um homem de poucas palavras, porém precisas. Acompanhei emocionado o cortejo de sua última viagem de Tel Aviv para Jerusalém, onde ele nasceu. Naquela mesma paisagem, Rabin lutou na Guerra da Independência, em 1948, para abrir o caminho que libertou a futura capital de Israel de um cerco implacável. Foi o chefe do Estado-Maior das tropas que, na Guerra dos Seis Dias, em 1967, reunificaram a cidade do Rei David. Nessa nova e antiga Jerusalém, naqueles dias, no alto do monte Scopus, falou aos estudantes da Universidade Hebraica sobre a responsabilidade de cada um. Foi um inesquecível discurso de estadista... O nome de Yitzhak Rabin será sempre uma inspiração para aqueles que, em todos os cantos da Terra, acreditam nos caminhos que conduzem à Paz. Será sempre uma grandiosa referência para as novas gerações do Oriente Médio, que, graças a ele, farão do diálogo e do entendimento suas únicas armas.”
 
Belas palavras do judeu, brasileiro e sionista Adolpho Bloch, retratado com fidelidade e justiça no livro “Memórias de um sobrevivente”, que acaba de ser lançado.

Arnaldo Niskier, da Academia Brasileira de Letras e autor do livro “Memórias de um sobrevivente” (Nova Fronteira).