Morashá
A presença nazista na Amazônia Cachoeira de Santo Antônio, Rio Jari, Laranjal do Jari, Amapá. Foto: reprodução Instagram @icmbio/Rubens Matsushita

A presença nazista na Amazônia

por Ilko Minev

Pouco antes de eclodir a 2ª Guerra Mundial, os alemães fizeram uma expedição Ao Norte do Brasil, com interesses que iam além de apenas conhecer a fauna e a flora local.

Edição 114 - Abril de 2022


Em 1935, as movimentações políticas que dariam origem à 2a Guerra Mundial já estavam em construção. Naquele ano, o Partido Nazista, que comandava a Alemanha e começava a impor restrições aos judeus por meio das Leis de Nuremberg, pediu uma autorização inusitada ao governo de Getúlio Vargas: os alemães queriam realizar uma sofisticada expedição científica para coletar e estudar a flora e fauna na área da serra do Tumucumaque, uma imensa área selvagem na fronteira do Brasil com a Guiana Francesa.

Dois anos mais tarde, na véspera da 2ª Guerra, os trabalhos terminaram e os resultados foram uma enorme e valiosa coleção de amostras – a pele de uma Anaconda e de outros animais coletados estão espalhados pelos museus alemães. Eles levaram amostras de mais de 1.500 espécies de animais e plantas, e também produziram um livro e um documentário de grande sucesso.

Ao longo da expedição, um dos participantes, Joseph Greiner, morreu em decorrência da malária e foi sepultado a poucos metros da Cachoeira de Santo Antonio, no Vale do Jari, no sul do estado do Amapá, um dos lugares mais bonitos da Amazônia, com cachoeiras que lembram a região de Foz do Iguaçu (mas que até hoje não é explorado para o turismo). A sepultura impressiona pelo tamanho da cruz e pela suástica esculpida nela. Ela ainda está lá, no mesmo local, bem conservada.

Ainda é possível ler o que está escrito, em alemão: Joseph Greiner faleceu aqui em 02-01-36, de febre, a serviço da pesquisa científica alemã – Expedição Alemã Amazonas – Jari 1935-1937.

Há pouquíssimo material disponível sobre essa expedição. Depois de muito procurar em bibliotecas, arquivos e antiquários, aqui e no exterior, encontrei três livros que me ajudaram a colher dados. O primeiro, o próprio livro escrito pelos participantes da expedição – em alemão gótico, já que o Reich queria resgatar as características que considerava clássicas do povo germânico. O título original pode ser traduzido como Enigmas do inferno na selva. São muito raros e caros seus exemplares, hoje em dia (na Amazon há uma edição rara traduzida para o inglês, que custa cerca de duas mil libras esterlinas). Nele contam detalhes da expedição, como conseguiram as licenças com o governo Getúlio Vargas – o embaixador alemão se reuniu diversas vezes com o presidente brasileiro, até conseguir uma licença para virem com um avião.

Os militares brasileiros foram contra, mas o próprio Vargas intercedeu para conceder a permissão. É possível encontrar documentos nos arquivos do Itamarati com esses pedidos.

O segundo foi de um historiador brasileiro (paraense), Cristovão Lins. Ele cita essa expedição em seu livro Jari – 70 anos de história. Consegui um exemplar em uma biblioteca, em Macapá. O terceiro foi um livro de 2008, do jornalista alemão Jens Glüsing, intitulado O projeto Guiana: uma aventura alemã na Amazônia, que não foi traduzido para o português. O autor também refez os passos dos alemães na Amazônia e revelou diversos documentos dos arquivos alemães.

Também descobri no YouTube o filme (editado) sobre a expedição, que tinha o mesmo nome do livro e foi exibido nos cinemas alemães em 1938.

Durante minha pesquisa, descobri que os alemães tinham a intenção de estabelecer uma base na América do Sul e essa expedição pretendia mapear a região. Isso está registrado na comunicação de Heinrich Himmler, alto comandante da SS, com Otto Schulz-Kampfhenkel, o chefe da expedição. Foram realizados voos de reconhecimento de terreno pela equipe, para escolher o melhor lugar para estabelecer uma base no continente – essa é uma das razões para que os alemães trouxessem um hidroavião para cá, que acabou debaixo d’água (um dos flutuadores do avião bateu em algum tronco de madeira do rio, causando o capotamento da aeronave).

Otto era ainda jovem, 24 anos, assim como seu companheiro de empreitada, o piloto Gerd Kahle, com 26. Já no Brasil, foi contratado Joseph Greiner (o que morreu devido à malária), de 30 anos, que falava português e ajudava na tradução e na comunicação com os nativos.

Nos arquivos federais alemães, há um documento chamado de Guayana-Projekt, no qual Otto recomenda explicitamente a invasão e a conquista da Guiana Francesa para marcar a presença alemã no continente, já que os ingleses tinham a Guiana e os holandeses, o Suriname. “A tomada das Guianas é uma questão de primeira importância por razões político-estratégicas e coloniais”, afirma ele, no documento. E Otto já tinha o caminho para fazer isso acontecer: aproveitar a amizade com os indígenas e as boas relações com o Brasil, cujo presidente, Getúlio Vargas, segundo ele, seria admirador de Hitler e Mussolini. Quando voltou para a Alemanha, Otto foi recebido com honras e foi aceito na SS, a principal agência de segurança nazista. Quando acabou a Guerra, ele foi capturado e preso pelos norte-americanos.

Além de marcar a presença alemã na região, os nazistas queriam usar o local para ser base de seus submarinos. Eles tinham em torno de mil dessas embarcações. Por isso, precisavam de uma base para fazer manutenção e treinamento das equipes durante a Guerra, e aquela região seria ideal.

Com a eclosão da 2ª Guerra e a atenção dos alemães voltada prioritariamente a seus vizinhos, e com a posterior derrota nazista, o projeto nunca saiu do papel.

Seguindo os passos da Alemoa

Outra descoberta foi que, durante a expedição, eles deixaram uma descendente na região. Na época, uma índia ficou grávida e deu à luz uma menina “loira, de olhos azuis”, segundo reza a lenda local, que ficou conhecida como “Alemoa”. Há relatos diferentes sobre ela. Lins afirma que seria filha do líder da expedição e seu nome era Macarrani. Ela pertenceria à aldeia dos Aparaí e teria, posteriormente, se casado com um índio. Já Glüsing acredita que o pai da Alemoa seria o piloto, que, de acordo com o diário da expedição, permaneceu alguns dias a sós com duas índias. Outro nativo importante durante a expedição foi Pitoma, que praticamente se tornou um guia dos alemães pela selva.

A região continua inexplorada, ou seja, está praticamente igual à época em que eles vieram para cá. Tanto que há relatos de que foram atacados por diversos piuns, insetos minúsculos, cujas picadas são bastante dolorosas. Os alemães os apelidaram de “castigo do Jari”. Estes insetos continuam existindo em grande quantidade na região.

Um fato curioso é que, durante a passagem dos alemães, o prefeito de Macapá era um judeu – o Major Eliezer Moysés Levy, mas não se sabe se ele chegou a ter contato com os nazistas. Muito provavelmente não teve, considerando-se que era um fervoroso sionista, que se correspondia com David Ben-Gurion e criou o primeiro jornal sionista do Brasil, como relatamos em Morashá Ed. 103.

Hoje em dia não há mais pistas sobre o paradeiro da Alemoa ou de seus descendentes. A maioria dos índios Aparaí migraram para a Guiana Francesa. Alguns remanescentes da aldeia dizem que sua família teria ido para a França, mas não encontrei indícios de sua presença em território francês.

Este episódio obscuro da história da América do Sul poderia ter mudado toda a geopolítica da região caso os planos dos alemães se concretizassem. Felizmente, isso não ocorreu.

Livro

Toda essa história está contada em meu romance “Nas Pegadas da Alemoa”. Embora os personagens sejam fictícios, assim como suas tramas pessoais, toda a parte histórica e de pesquisa é verdadeira. O livro foi lançado pela editora
Buzz e tem figurado nas listas dos mais vendidos no país, na categoria ficção.

Ilko Minev nasceu na Bulgária, vive em Manaus e é autor de quatro livros: Onde estão as flores?, As filhas dos rios, Nas pegadas da Alemoa e Na sombra do mundo perdido, suas obras foram lançadas pela Buzz Editora.