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A história do bar jacob, referência para os judeus Foto Ilustrativa

A história do bar jacob, referência para os judeus

por por Mariana Pollara Zylberkan

Entre garrafas de vinho, barris de arenque importado e conservas de pepino azedo, muitos imigrantes judeus encontraram a primeira referência familiar na nova cidade que escolheram morar, a então quase rural São Paulo do fim da década de 1920.

Edição 84 - Julho de 2014


Na rua central do bairro do Bom Retiro, a José Paulino, funcionou o  Bar Jacob, único endereço que muitos viajantes traziam no bolso no  longo trajeto entre o Leste europeu e o porto de Santos, no litoral da capital.

Aberto em 1928, o bar e mercearia de Jacob Givertz já era um ponto estabelecido quando as maiores ondas migratórias de judeus chegaram a São Paulo, no fim dos anos 1930, em decorrência da eclosão da 2ª Guerra Mundial na Europa. Parentes e amigos informavam em cartas aos interessados em cruzar o oceano Atlântico que, quando chegassem a São Paulo, procurassem um judeu simpático, sempre atrás do balcão do estabelecimento administrado por Givertz, a mulher Anna, natural de Odessa, na Ucrânia, e as quatro filhas.

No endereço onde hoje funciona uma loja de roupas de proprietário coreano, um grande balcão de madeira revestido com mármore dividia espaço com poucas mesas onde clientes se revezavam para alimentar o corpo com as especialidades iídiches e o espírito das tradições que remontavam às  suas origens. Era no Bar Jacob que muitos imigrantes judeus recém-chegados ao Brasil recebiam as cartas dos parentes que haviam deixado para trás.

Nessa época, o Bom Retiro já estava consolidado como principal destino final de judeus vindos da Europa atraídos pela presença de parentes e conterrâneos. A formação da colônia judaica no bairro intensificou a atividade comercial praticada na região, impulsionada, no início do século 20, pela construção da Estação da Luz, entre outras obras viárias, que trouxe prosperidade ao bairro. Antes disso, ainda nas últimas décadas do século 19, o Bom Retiro teve uma participação mais bucólica na história de São Paulo. As margens dos rios Tietê e Tamanduateí, que circundam o bairro, abrigaram chácaras e fazendas da elite paulistana que para lá se dirigiam em busca de momentos  de lazer.

A vocação pacata do bairro  mudou com a chegada da  estrada de ferro construída pela  São Paulo Railway, que ligava  o porto de Santos ao interior  paulista produtor de café. Nas proximidades da Estação da Luz, foram construídos galpões para armazenar a carga a ser escoada ao porto, dando início, assim, ao desenvolvimento econômico do bairro que, na década de 1930,  teve seu ápice com a consolidação do comércio através dos imigrantes judeus.

No Bar Jacob, os recém-chegados encontravam crédito para comprar os primeiros insumos, recomendação de emprego e fiador para assinar o contrato de aluguel, no caso, o próprio Jacob Givertz, que ajudou, ao lado de muitos conterrâneos, a estabelecer o primeiro polo judaico na cidade de São Paulo. Em 1934, o primeiro censo do estado de São Paulo estimou em 4,5 mil os judeus do bairro do Bom Retiro, número que representava 36% dos moradores do distrito.

A disponibilidade de estender a  mão a desconhecidos, além de representar um dos valores judaicos mais valiosos, era uma forma  desse imigrante da cidade polonesa de Rubishoff, localizada a 18 quilômetros da fronteira com a Ucrânia, multiplicar a prosperidade que conquistou, apesar de tantos quilômetros distantes de suas  origens.

O então rapaz de 18 anos, que deixou a família para encontrar o irmão mais velho, estabelecido há alguns anos em Nova York, já não teve muita sorte logo no início. Diagnosticado com conjuntivite, Givertz foi proibido pela vigilância sanitária de desembarcar na cidade americana, que sofria de um surto de tracoma, doença oftalmológica mais agressiva do que a branda inflamação que o acometeu. Mesmo assim, ele foi obrigado a seguir para a próxima parada do transatlântico: a cidade de Buenos Aires.

Às margens do Rio da Prata, o jovem imigrante polonês encontrou uma cidade pujante, com uma elite disposta a desfrutar da recém-adquirida prosperidade econômica. Em 1914, um ano antes de o futuro fundador do Bar Jacob desembarcar em Buenos Aires, a Argentina havia acabado de passar, em menos  de 30 anos, de importador para principal produtor de trigo da América do Sul, o que fez da capital portenha a segunda cidade mais importante das Américas, atrás somente de Nova York. 

No mesmo período, impulsionada pela riqueza vinda do campo, a população de Buenos Aires saltou, entre 1895 e 1914, de 660 mil para 1,5 milhões de habitantes, sendo que um terço eram estrangeiros. Entre os 94 mil russos e poloneses que moravam na Argentina nas primeiras décadas do século 20, Givertz logo definiu o destino que parecia carregar junto com o próprio nome. Givertz é uma corruptela da palavra em polonês que significa condimento. Ele conseguiu emprego como garçom em um bar à beira do rio da Prata, na região da cidade muito procurada, na época, para passeios em família. Lá foi inaugurado o primeiro passeio público de Buenos Aires, o Alameda.

Sem dominar o idioma, ele soube se destacar no trabalho ao treinar e conseguir equilibrar no mesmo braço até cinco pratos de uma só vez. Anos depois, já dono do Buffet Jacob, o imigrante polonês soube perpetuar a lição aprendida para atrair a atenção dos clientes ainda no primeiro emprego em terras americanas.

Nos Bar Mitzvot e casamentos que iria servir muitos anos depois, Givertz ensaiava uma espécie de coreografia com seus garçons para anunciar o começo dos serviços. Enfileirados e vestidos em ternos brancos, os garçons atravessavam o salão de festas carregando bandejas na altura dos ombros recheadas com gefilte fish e enfeitadas por velas reluzentes. O efeito espetaculoso era ainda maior quando as luzes do salão eram apagadas e a iluminação era feita apenas pelo fogo que vinha das bandejas.

Além do trabalho de garçom, Givertz encontrou na cidade de Buenos Aires a companheira de toda a vida e mãe de suas quatro filhas: a judia natural de Odessa, Anna Roubinovitch. Eles se conheceram entre uma celebração e outra da comunidade judaica polonesa em Buenos Aires e se casaram quando Anna completou  16 anos. Jacob tinha 21 anos.

Assim como o marido, Anna imigrou para a cidade de Buenos Aires em meio a circunstâncias determinadas por terceiros. Caçula, Anna era ainda criança quando embarcou em um navio rumo à América do Sul acompanhada da mãe, Fany Roubinovitch, para reencontrar a irmã mais velha, Feigue, que havia imigrado para a Argentina para fugir da perseguição da polícia czarista.

Por influência do namorado, Feigue Roubinovitch pertencia a um grupo de comunistas que enfrentavam a estrutura política russa totalitarista. O ativismo político da primogênita era algo inimaginável por seus pais, até o dia em que o namorado comunista lhe confiou a guarda de sua arma quando percebeu o cerco do exército czarista se fechar ao seu redor. Os oficiais chegaram a vasculhar a casa de Fany e seu marido em busca de armas e panfletos propagandistas da causa comunista. Para a sorte de todos na família, sua mulher pensou rápido e, diante do alarde dos vizinhos sobre a invasão dos oficiais no vilarejo em que moravam, escondeu o revolver dentro do sutiã. Passado o susto, o simples vendedor de frutas de Odessa decidiu pelo bem de todos embarcar a filha e o namorado comunista para se casarem na América do Sul. Na Rússia pré-comunista, os cidadãos que ousassem se opor ao regime czarista eram enviados a cumprir penas perpétuas na Sibéria.
Diante da escolha entre a Sibéria e a América, Moshe Rabinovitch achou que o segundo destino seria melhor para sua família. Ele dera como certo o envio da família para as terras isoladas no norte do Cazaquistão ao descobrir o envolvimento da filha mais velha, Feigue, com grupo de rebeldes comunistas contrários à ditadura czarista.

Anos depois, em 1913, saudosa da primogênita e ansiosa para conhecer os netos nascidos no além-mar, a então futura sogra de Jacob Givertz embarcou rumo à Argentina com a filha caçula. Já em terras portenhas, Fany foi informada sobre o falecimento do marido e decidiu não voltar mais a Odessa.

Em Buenos Aires, Jacob e Anna geraram as filhas Rebeca e Olga. Mais uma vez, o casal seria afetado por circunstâncias externas que os empurrariam a se mudar novamente.

A partir de janeiro de 1919, Buenos Aires foi afetada pelo seu primeiro pogrom contra os judeus durante evento histórico conhecido como Semana Trágica. Uma série de motins foi deflagrada na capital portenha por integrantes do movimento socialista contra as autoridades policiais e grupos paramilitares.

Neste período, Buenos Aires se tornou palco da deflagração de uma greve organizada por trabalhadores de diversos setores da economia para exigir redução da jornada de trabalho e validação dos direitos trabalhistas. A força policial, então, dirigiu seus contingentes a combater o que a população acreditava ser a razão do caos argentino no início do século 20: a conspiração comunista arquitetada por imigrantes judeus vindos da Rússia que viviam no país.

Casas de famílias judias e sinagogas foram destruídas arbitrariamente por integrantes de grupos paramilitares e muitos imigrantes tiveram que sair da Argentina. Pelo menos, um dos 700 mortos durante a Semana Trágica era judeu.

Diante do clima de instabilidade, Givertz e sua família decidiram aceitar o convite do irmão de Anna, que prosperava à frente de uma loja de móveis usados na rua Dom José de Barros, no centro de São Paulo.  Casado e pai de duas filhas, Givertz se mudou para São Paulo.

Durou pouco o tempo longe das mesas e panelas. Dois anos depois, Givertz abriu o Bar Jacob que, mais tarde, daria origem aos serviços de bufê para casamentos e Bar Mitzvot da comunidade judaica paulistana.

Desde o dia que abriu as portas, o Bar Jacob sempre foi um negócio estritamente familiar. No Brasil, Givertz e Anna tiveram mais duas filhas: Aida e Carlota. As quatro moças se habituaram a dividir a rotina entre as aulas no Grupo Escolar João Kopke e na Escola Tiradentes e o trabalho atrás do balcão no bar do pai.

A abertura das portas do bar todas as manhãs era feita por elas, que ainda lavavam o balcão de mármore e recebiam os blocos de gelo entregues pela Companhia Antártica, logo cedo, antes de os clientes chegarem. Como o bar ficava aberto até a madrugada, Anna e o marido sempre pouparam as filhas do trabalho noturno, ficando eles responsáveis por encerrar as atividades, todos os dias.

Cotidianamente, Jacob pegava o bonde na Avenida Tiradentes rumo ao Mercado Municipal de São Paulo para fazer as compras que abasteceriam o bar. Após empacotar as encomendas, ele voltava para o bar de charrete, onde a mulher e as filhas o aguardavam para ajudar a descarregar e guardar as compras.

Quase diariamente era o próprio Jacob quem abastecia os tonéis de madeira onde eram feitas  as conservas de pepino azedo.  Os pepinos frescos eram lavados e acomodados dentro de uma solução composta por partes iguais de  vinagre e água, temperada com cabeças de alho e ramos de dill.  A iguaria simples era também a mais versátil e popular entre os clientes – acompanha os sanduíches de pastrami no pão preto ou servia de acompanhamento para o arenque, que repousava sempre à mostra na vitrine refrigerada por enormes barras de gelo.

Era sobre os tonéis de madeira, onde as conservas de pepino eram curtidos lentamente no tempero ácido, que as filhas caçulas de Jacob costumavam sentar-se para escutar as corridas de cavalo transmitidas pelo rádio. Era no mesmo canto do Bar Jacob que a filha mais nova Carlota passou os primeiros meses de vida, acomodada dentro de uma caixa de maçãs, forrada por cobertores, e sempre sob o olhar atento da mãe Anna, que assumia a dupla função de trabalhar no bar e cuidar das quatro filhas.

No nascimento de Carlota, Jacob tinha esperança de que seu desejo de ser pai de um filho homem – para perpetuar seu sobrenome nas gerações anteriores – finalmente seria atendido. Assim que a mulher Anna começou o trabalho de parto na casa da família, um sobrado a poucos metros do bar, Jacob colocou sobre o balcão do bar todas as garrafas de bebida que dispunha e prometeu uma rodada grátis aos clientes se a parteira voltasse com a notícia de que ele seria pai de um menino.

Diante da frustração, Jacob guardou calmamente as garrafas de volta nas prateleiras e os clientes perderam a chance de tomar um trago grátis. Mesmo assim, ele conseguiu suprir o desejo de ser pai de um homem através da terceira filha, Aida, de personalidade destemida e companhia constante do pai nas idas ao barbeiro. Jacob levava a terceira filha e também a caçula para cortar os cabelos no estabelecimento voltado apenas para homens.

Enquanto de dia o Bar Jacob funcionava como mercearia, comercializava conservas e outros produtos importados, à noite o local virava ponto de encontro de atores e atrizes do teatro iídiche, que forravam as paredes do estabelecimento com cartazes escritos no alfabeto hebraico para divulgar as peças que encenavam. Era lá também que os grupos de teatro vendiam ingressos para as apresentações.

Tanto as filhas quanto Jacob  e Anna se habituaram a fazer as refeições no próprio bar e, como lembra sua filha caçula Carlota, a única ainda viva, sempre após os empregados. Ela conta que o pai sempre colocava em prática a máxima de que é preciso antes garantir a alimentação daqueles que dependem de você para só depois sentar-se à mesa.

Apesar do clima familiar do bar Jacob, não eram poucas as vezes que clientes bebiam além da conta e, mesmo nesses momentos, a autoridade imposta pelo carisma de Givertz convencia os beberrões a deixar as confusões da porta do bar para fora.  “Vamos brigar lá fora”, repetiam os mais exaltados.

Foi justamente por ser pai de quatro filhas que Jacob deixou o Bom Retiro por volta de 1938. Nessa época, o prefeito de São Paulo era Prestes Maia que, empenhado em concluir as obras de alargamento da Avenida Ipiranga, parte integrante de seu Plano de Avenidas, que visava expandir o centro, proibiu as prostitutas de trabalharem na avenida o que empurrou o meretrício para as pacatas ruas do Bom Retiro.

A transformação do bairro em polo de prostíbulos se deu pela proximidade com a linha de trem da ferrovia Santos-Jundiaí e também devido à própria formação pouco planejada das vias, que desenhou muitos becos e ruas sem saída, onde qualquer atividade podia ser praticada de forma escondida, longe dos olhos de quem estava ao redor.  

Assustado com a nova vizinhança que passou a circundar o Bar Jacob, seu fundador decidiu partir com a família para a cidade de Santos, no litoral paulista. Todas as economias juntadas ao longo dos anos foram empenhadas na abertura de um restaurante no balneário. Infelizmente, as circunstâncias não favoreceram a nova empreitada e após um par de anos todos voltaram ao Bom Retiro.

Algum tempo depois de voltar a São Paulo, Givertz percebeu que seria mais rentável apostar na diversificação do negócio e, por isso, começou a se dedicar a organizar festas de casamento e Bar Mitzvot da comunidade judaica paulistana. As primeiras festas foram realizadas em um salão no subsolo da sinagoga localizada na Rua Newton Prado, no Bom Retiro. As iguarias do Leste europeu eram servidas à francesa por garçons trajados de branco. O próprio Jacob acompanhava o serviço de perto e se tornava inconfundível no salão graças à gravata borboleta que sempre usava e se tornou sua marca registrada. O requinte do bufê era sempre finalizado com a distribuição aos convidados de maçãs devidamente arrumadas em bandejas de prata. Importadas e caras na época, as maçãs sempre acabavam antes mesmo de os garçons alcançarem o centro do salão com suas bandejas.

Aos poucos os negócios foram prosperando, apesar de Jacob sempre receber os pagamentos de seus clientes de forma parcelada. Nessa época, o Buffet Jacob dividia as atenções dos convidados de seus clientes com outra atração obrigatória nas celebrações da comunidade judaica. A música ao vivo ficava a cargo de Samuel e sua Orquestra, conjunto musical especializado em canções típicas judaicas, liderado pelo barbeiro que se transformava em violinista após o expediente.  Samuel dividia as cadeiras na barbearia e também o palco nas festas com um rapaz que tocava acordeom. Além de músico e barbeiro, ele também fazia bicos como eletricista. 

Os anos foram passando e Jacob viu uma a uma suas quatro filhas casarem e também se despediu tristemente de sua companheira de vida, Anna, que faleceu jovem após sofrer cinco ataques cardíacos.

Após a perda irreparável, Jacob se associou ao genro Leopoldo, marido de sua filha Olga, para abrir o Salão Israel, em 1951. A nova empreitada levou Jacob a voltar à mesma Rua José Paulino que o acolheu quando desembarcou com a família em São Paulo e também onde ele se consolidou como referência de comida e solidariedade judaica.

Com a saúde cada vez mais debilitada pela evolução da diabetes, que acometia seus pés com infecções recorrentes, Jacob foi aos poucos deixando os negócios sob a responsabilidade do genro e da filha Olga, porém, nunca deixou de trabalhar. Alguns anos depois, ele ainda abriu a Mercearia e Buffet Jacob na Rua Prates, em frente ao Parque da Luz.

Alguns anos depois de sua morte, as festas no salão Maison Suisse, um dos últimos endereços onde o Buffet Jacob atuou, não tiveram mais forças para continuar e cessaram. Mesmo assim, a história de Jacob Givertz e seu Bar Jacob ecoam na memória dos muitos imigrantes que frequentaram o estabelecimento e experimentaram, além dos pratos lá servidos, a simpatia do senhor sempre de gravata borboleta.

 

Mariana Pollara Zylberkan, é bisneta de Jacob Givertz.
Baseou-se em relato e guardados de  ILDA KLAJMAN, neta de Jacob Givertz