Morashá
Wingate, o amigo oculto Foto Ilustrativa

Wingate, o amigo oculto

por por Zevi Ghivelder

Ele foi, ao mesmo tempo, uma personalidade silenciosa e ruidosa na história do sionismo. Entretanto, tanto em Israel como na Diáspora, poucos conhecem sua trajetória e as heróicas ações que comandou em defesa dos pioneiros judeus na antiga Palestina. O oficial britânico Orde Wingate está consagrado como uma figura primordial na formação efetiva da Haganá, a organização militar que deu origem ao exército do Estado de Israel.

Edição 72 - Julho de 2011


O ano de 1936 não foi favorável para os judeus na Europa nem para os pioneiros e demais habitantes da então Palestina, o chamado Ishuv. Na Europa, particularmente na Alemanha, o nazismo agravava sua política anti-semita com crescente violência, já atemorizando os judeus dos países vizinhos. Foi o ano que marcou o início da chamada “Revolta Árabe”, que se estendeu até 1939, quando o Ishuv passou a ser atacado por grupos árabes que deixavam em seu rastro dezenas de mortos e feridos. Esses grupos também empreendiam atos de terrorismo contra os mandatários ingleses, tendo como alvo preferencial o oleoduto proveniente do Iraque. Era rara a noite em que essa fonte básica de combustível não sofria explosões, sendo seus danos sempre consertados às pressas para garantir a normalidade do cotidiano do país.

Mas, tal como um reverso dessa assustadora medalha, o mês de setembro do ano de 1936 trouxe para Jerusalém um militar britânico chamado Orde Charles Wingate. Em seguida à sua chegada, os acontecimentos tomaram novos e inusitados rumos. Depois de uma temporada no Sudão, onde desenvolveu suas primeiras e bem-sucedidas táticas de guerrilha, o capitão Wingate foi designado para a Seção de Inteligência do exército inglês, sediado em Jerusalém, tendo em vista seus profundos conhecimentos sobre o islamismo, estudado enquanto cadete, e sua fluência no idioma árabe. Como tarefa mais específica competia-lhe acompanhar e relatar os passos de Haj Amin El-Husseini, o Mufti de Jerusalém, que incitava e chefiava o terrorismo árabe.

Segundo seus biógrafos, aquele oficial escocês nascido na Índia (onde seu pai servia nas forças britânicas) era um gênio em assuntos militares, um homem de coragem e visão excepcionais, um líder por vocação, um homem de comportamento imprevisível e pouco convencional e, sobretudo, um vibrante apaixonado pela causa sionista que, segundo ele mesmo dizia, tinha como inspiração o Velho Testamento. Em uma carta que escreveu para o pai, falou da sua intensa emoção ao percorrer os caminhos da Terra Santa, que qualificou como de radiante beleza. “Subi nos montes Hermon e Tabor, andei por vales que já me eram familiares através da leitura da Bíblia, tinha a impressão de ouvir atrás de mim os passos dos profetas do povo de Israel; senti-me envolvido por uma transcendente atmosfera espiritual”.

No fim de 1936, outro oficial inglês simpático aos judeus recomendou ao empreiteiro David Hacohen, um judeu riquíssimo residente em Haifa e proeminente no Ishuv, que conhecesse um colega que acabara de aportar na Palestina e queria informações mais detalhadas sobre o que de fato estava acontecendo no país. Hacohen, assim como a maciça maioria do Ishuv, não confiava nos ingleses; relutou, mas acabou atendendo ao pedido. Anos mais tarde, escreveu em suas memórias: “Era um sujeito que usava o uniforme sem ostentação, ignorava os sorrisos sociais, tinha olhos incandescentes, fartos cabelos negros que lhe cobriam a testa, conversava indo diretamente aos pontos que de fato interessavam e desconhecia as formalidades da polidez”.

No início do encontro, Hacohen perguntou-lhe se já tinha feito contato com outros judeus. Wingate respondeu: “Aqui, ainda não. Mas já conheci muitos judeus e todos ficaram sabendo do meu entusiasmo pelo sionismo”. Hacohen insistiu: “O que você sabe, que livros já leu sobre o sionismo?” Resposta de Wingate: “Só existe um livro importante sobre este assunto, que eu conheço praticamente de cor, de frente para trás e de trás para frente: o Velho Testamento da Bíblia. Estou estudando hebraico para conhecê-lo ainda melhor. Além disso, eu li o Alcorão inteiro, em árabe. Concluí que não se pode comparar a grandiosidade poética do Alcorão com os ensinamentos das Escrituras bíblicas. É por causa destas que os judeus sobreviveram. Considero um privilégio poder estar ao seu lado para que saiam vitoriosos na luta do sionismo. Lembre-se, porém, que essa batalha deve ser enfrentada por vocês mesmos. Da minha parte, esperem apenas ajuda. Mas preciso de uma contra-partida. Você pode começar a abrir para mim os corações dos judeus que vivem aqui?”.

Quando Hacohen reproduziu aos líderes do Ishuv a conversa que mantivera com Wingate, foi recebido com ironia e ceticismo. Ninguém conseguia acreditar que um oficial inglês de alta patente fosse sincero em suas ardentes declarações. Argumentaram que como se tratava de alguém servindo à Seção de Inteligência, sua missão decerto era infiltrar-se no Ishuv para descobrir o que ocorria na clandestinidade judaica nas situações de oposição ao Mandato.

Houve, no entanto, uma voz discordante. Foi a de Emanuel Wilenski, um arquiteto de origem russa e de destaque no Ishuv. Ele já tinha ouvido falar a respeito de Wingate e de suas idéias através de um amigo escocês. Convidou-o para jantar e depois relatou aos companheiros que o extremismo das posições de Wingate com relação ao sionismo chegava a ser assustador, beirando o fanatismo. No encontro, ele repetiu para Wilenski a conversa mantida com Hacohen e exclamou que os judeus deveriam pegar em armas e não se atemorizar em face da perspectiva de se envolverem em batalhas sangrentas. Por causa desse relato, passaram a se referir a Wingate com ironia dirigida a Wilenski em hebraico: ha-iedid shelchá (seu amigo). Com o correr do tempo e, em função de suas iniciativas, o nome de Wingate acolheu em definitivo aquele epíteto, mas transformado numa palavra que continha respeito e gratidão, apenas ha-iedid, o amigo.

As convicções de Wingate tornaram-se ainda mais sólidas quando Hacohen, um dia, convidou-o para uma visita ao Kibutz Hanita, na Galiléia. Foi a primeira vez que o inglês conheceu um assentamento coletivo judaico. À noite, no jantar, surpreendeu-se com a qualidade da comida: pão excelente, creme de leite, legumes, ovos e frutas, tudo feito e colhido pelos próprios habitantes do kibutz. Seguiu-se uma festa para celebrar o fim do treinamento de uma turma de jovens imigrantes alemães. A rapaziada cantou e dançou até altas horas, acompanhada pelos mais velhos. Wingate estava estupefato e comentou com Hacohen: “Eu jamais imaginei que assistiria a uma festa como esta. Tudo é tão vibrante, tão simples e tão civilizado. Este, sim, é o caminho da redenção dos judeus”. No dia seguinte, antes de ir embora, pediu para levar alguns pães. Mostrou-os a seu oficial superior em Jerusalém e disse com desfaçatez: “Experimente este pão que os judeus da Palestina comem. Quem dera nós tivéssemos algo pelo menos parecido”.

Wingate passou a freqüentar a casa dos Cohen em Haifa, nos fins de semana, para desespero da senhora Cohen, que não suportava o comportamento esquisito de seu hóspede, como, por exemplo, circular quase sem roupa, tirar os sapatos durante o jantar e massagear os pés enquanto comia. Certa noite, Hacohen contou-lhe uma historieta segundo a qual um judeu de um shtetl foi ao rabino e queixou-se que não suportava mais viver em casa por causa da bagunça e da gritaria dos cinco filhos. O rabino lhe recomendou para colocar uma cabra dentro da casa e voltar na semana seguinte. O homem voltou exasperado, pois, por causa da cabra, tudo estava imundo e muito pior. O rabino lhe recomendou que tirasse a cabra e voltasse na semana seguinte. O homem voltou, feliz, dizendo que o ambiente da casa estava maravilhoso. Wingate não gostou do que ouviu: “Já é hora de vocês pararem com esse folclore melancólico! Todo o propósito dos judeus de retornarem para a sua pátria é justamente para deixarem para trás esse tipo de história comiserada. Vocês têm que começar a sair dos guetos de corpo e alma!”.

Certa ocasião, Wingate e sua mulher, Lorna, foram convidados para um jantar na residência de Sir Arthur Wauchope, Alto Comissário Britânico para o Mandato, em homenagem ao casal Chaim Weizmann, cientista já famoso na Grã-Bretanha e líder sionista da Agência Judaica. Sua posição era no sentido de que a criação de um estado independente judaico só se concretizaria a partir de constantes ações diplomáticas junto aos ingleses. Após o jantar, discretamente, Weizmann chamou sua mulher de lado e indagou qual a sua impressão sobre Wingate, que estivera sentado ao seu lado. Vera respondeu: “É um dos homens mais interessantes que conheci, até hoje”.

Quando os participantes da recepção começaram a se retirar, Weizmann convidou o casal Wingate para continuarem a conversa em sua casa, em Rehovot. Os dois homens trocaram idéias, concordando ou divergindo, até o amanhecer. Foi o início de uma amizade que perdurou e, inclusive, chegou a influenciar a história do sionismo. Naqueles dias, a então Palestina receberia o maestro Toscanini, que se propusera a reger a recém-formada Orquestra Filarmônica da Palestina, em explícito apoio aos judeus perseguidos pelo nazismo. Os ingressos para uma série de concertos de 26 de dezembro a 2 de janeiro se esgotaram em questão de horas. Quando Weizmann soube que o casal Wingate gostava de música, conseguiu os dois ingressos e os convidou para um jantar em sua casa em homenagem a Toscanini. A amizade entre Weizmann e Wingate já tinha fincado consistentes raízes.

Àquela altura, os responsáveis pelo Foreign Office britânico se esforçavam com intensidade para encontrar alguma fórmula que solucionasse a turbulenta questão da Palestina. Enviaram ao país uma comissão chefiada por Lord Peel que, ao fim dos trabalhos, recomendou que o território fosse dividido em dois estados, um árabe, outro judeu. Os árabes rejeitaram a proposta do princípio ao fim.

No dia 12 de janeiro de 1937, Wingate escreveu para um primo chamado Rex, que vivia na Inglaterra: “Estou há quatro meses na Palestina e já percorri todo o território, inclusive as fronteiras. Você bem sabe que eu não tenho nenhum preconceito com relação aos árabes, muito pelo contrário. O Alto Comissário tem meu respeito e admiração, mas é um tipo de militar que não sabe o que fazer. Os judeus são leais ao nosso império. São gente de palavra. Há 15 milhões de judeus no mundo e no curso dos próximos sete anos a Palestina poderia absorver pelo menos um milhão. Você não faz a menor idéia do que os judeus já fizeram por aqui. Os desertos foram transformados em terras aráveis. É algo feito com uma energia, fé e criatividade como o mundo jamais viu. Agora é preciso que o nosso governo assuma total responsabilidade com relação à legítima proteção dos interesses árabes e também reconheça a Palestina como o Lar Nacional dos judeus, que logo há de precisar de boa capacidade militar. Lorna e eu aqui temos encontrado muitas pessoas interessantes, com destaque especial para o Dr. Chaim Weizmann, de fato um grande homem e, tenho o orgulho de dizer, meu amigo”.

Wingate estava cada vez mais convencido de que, em vez de se defender, o Ishuv devia atacar. Ao mesmo tempo ficava profundamente desapontado com o comportamento de seus compatriotas que, muitas vezes, não reprimiam sentimentos anti-semitas e, sempre que possível, favoreciam os árabes. Durante a “Revolta Árabe” os ingleses deixavam os árabes escapar depois dos atentados e acabavam confiscando as armas pertencentes aos judeus. A Haganá, organizada desde 1920, revidava sem magnitude, mesmo porque sua doutrina era a do auto-comedimento, não querendo acirrar os ânimos com os mandatários nem com os árabes. Foi essa posição pacífica que acabou dando origem à formação de grupos judeus radicais como o Irgun e a chamada Gangue Stern, que revidavam o terrorismo com terrorismo contra os árabes e contra os ingleses, ignorando as orientações da Agência Judaica.

Wingate continuou tentando aproximar-se dos dirigentes do Ishuv, mas estes ainda relutavam em acreditar nas suas intenções. Afinal de contas, ele era um oficial britânico e não era judeu. Os líderes da Haganá ficaram ainda mais desconfiados à medida que Wingate insistia que os judeus deveriam partir para o ataque. Entretanto, ele conquistou a irrestrita confiança de duas pessoas importantes do Ishuv: o secretário-geral da Agência Judaica, Moshe Shertok (depois Sharret), e Itzhak Sadeh, o comandante e estrategista da Haganá. Como se não bastassem suas dificuldades junto aos judeus, Wingate passou a ser admoestado por seus superiores no exército de Sua Majestade, que não admitiam sua determinação sionista e muito menos suas iniciativas. E se sentiam insultados quando Wingate, só para irritá-los, atendia ao telefone da seguinte maneira: “Shalom, Wingate speaking”.  Seu passo seguinte foi fazer amizade com o pessoal do Kibutz Afikim, localizado perto do rio Jordão e da fronteira com a então Transjordânia. Ali ele traçou as estratégias que deveriam ser os pilares dos Esquadrões Noturnos Especiais, destinados a enfrentar e combater os terroristas árabes com armas nas mãos. Foram esses Esquadrões que deram consistência, forma e conteúdo à Haganá e, a partir da fundação do Estado, em 1948, ao exército de Israel. Wingate instou os habitantes de Afikim a realizarem uma incursão de atemorização dentro da Transjordânia com um argumento que os deixou impressionados: “Eu irei à frente de todos”. Um dos dirigentes de Hanita, chamado Zvi Brenner, que ele já havia conhecido, não concordou com seu plano e nada aconteceu a partir de Afikim.

Um dos biógrafos de Wingate relata o seguinte diálogo que este último manteve com Brenner. “Está vendo aquelas montanhas? Um dia seus inimigos vão descer dali e aniquilar vocês”. Brenner: “Nós estaremos preparados para enfrentá-los”. Wingate, irritado: “Este é o problema dos judeus, sempre calmos e pacientes, aguardando as catástrofes acontecerem. Vocês são um povo de masoquistas. Ficam esperando para lutar e vão ser mortos antes mesmo de poderem começar a lutar”. Brenner: “Então o que você acha que podemos fazer?” Wingate: “Por que a Haganá não sai em campo e começa a lutar?” Brenner: “Francamente, não sei...”.

Wingate procurou seu amigo Wilenski e pediu-lhe que selecionasse uma dúzia de homens da Haganá para acompanhá-lo numa missão investigativa, eufemismo para missão armada, em um território árabe. Rumou, então, para Hanita, que estava sob fogo intermitente dos árabes. Ali, acompanhado por Brenner, conheceu um jovem chamado Moshe Dayan, que comandava a defesa do kibutz. Brenner continuou insistindo que uma ação militar através da fronteira seria ilegal e isso poderia acarretar a prisão de todos. Wingate reagiu: “Podem deixar essas formalidades comigo. Eu sou ou não sou um oficial inglês?”

No início de 1938, a Haganá fez contato com um informante árabe que levaria os combatentes até uma aldeia nas proximidades e que, conforme havia sido apurado, abrigava um grupo de terroristas. O informante era essencial porque o ataque seria à noite e os judeus não estavam familiarizados com o caminho, nem de ida nem de volta. Wingate mandou chamar o tal informante e o interrogou longamente, em árabe. Concluiu que o suposto simpatizante tinha preparado uma armadilha letal para a Haganá. Reuniu-se com o pessoal do kibutz e disse: “Eu conheço o caminho melhor do que esse traidor e já é hora de um militar de verdade comandar vocês. Querem cruzar a fronteira para um ataque hoje à noite? Tudo bem! Eu irei à frente!” O comando partiu ao anoitecer na direção do Líbano. Aquela seria a primeira ofensiva judaica efetiva contra os terroristas. Os rapazes da Haganá caminharam em absoluto silêncio por uns 15 quilômetros.

Chegaram ao local predeterminado às 3h. Wingate sinalizou para que esperassem e avançou sozinho. Ao ouvir o primeiro tiro, o pessoal da Haganá posicionou-se conforme o plano traçado por Wingate. A unidade chefiada por Brenner e Dayan fez prisioneiros e, mais importante, apossou-se de seu arsenal provido de farta munição. Todos regressaram ao kibutz sem sofrer sequer um arranhão.

Quando os mandatários ingleses souberam o que tinha acontecido, ficaram furiosos. Wingate não lhes pedira permissão e nada lhes havia revelado sobre aquela excursão militar além das fronteiras da Palestina. Foi chamado a Jerusalém pelo Alto Comissariado do qual recebeu uma severa reprimenda. No mesmo dia, um memorando circulou entre membros da Haganá, oriundo da Agência Judaica: “O Amigo está enfrentando sérios problemas. É nossa obrigação, de agora em diante, ajudá-lo em tudo que for possível”. No fim das contas, não houve maior punição e Wingate conseguiu convencer seus superiores, notadamente o general Sir Archibald Wavel, de que para combater o terrorismo era imprescindível incrementar as ações dos Esquadrões Noturnos Especiais. Muitos oficiais ingleses se opuseram àquela decisão, porém tiveram que concordar que não havia outro meio de proteger o oleoduto.

Sediado na Galiléia, Wingate tornou-se um freqüentador assíduo do Kibutz Ein Harod, fundado em 1923, localizado onde deveria estar situado o túmulo de Gideon, um dos maiores comandantes judeus da Antigüidade e idolatrado por Wingate, conforme suas leituras bíblicas. Pouco depois, obteve junto ao Alto Comissário a permissão para que um destacamento de soldados ingleses se juntasse à Haganá, sob seu comando, no norte do país. Com esse contingente, continuou chefiando incursões dos Esquadrões Especiais Noturnos contra aldeias de terroristas, revelando uma impressionante capacidade tática para os necessários avanços ou eventuais recuos.  Anos mais tarde, Moshe Dayan escreveu: “Ele tinha um sexto sentido para calcular distâncias, jamais fazia algo errado e sequer esmorecia perante dificuldades. Se nós éramos 20 combatentes e os árabes 200, ele dizia: ‘Calma, calma, sempre há um jeito para revertermos a situação a nosso favor e sairmos vitoriosos’ ”. Prossegue Dayan: “Antes de começarmos qualquer operação, ele nos dizia: ‘Não estamos guerreando a nação árabe, mas as gangues árabes; quanto aos árabes em geral, abstenham-se de crueldades porque a selvageria só é praticada por maus soldados e vocês têm que mostrar respeito perante os inocentes, principalmente mulheres e crianças’ ”.

A certa altura, Wingate tornou-se um mito entre os judeus locais. Os árabes puseram sua cabeça a prêmio e ele conseguiu das autoridades inglesas, apesar da ferrenha oposição de muitos oficiais de alta patente, uma autorização para treinar os pioneiros nas artimanhas das lutas de guerrilhas. Seu quartel-general ficava no Kibutz Ein Harod, para onde acorreram centenas de voluntários dispostos a se engajar na nova tropa. Uma de suas ações mais espetaculares ocorreu na aldeia árabe de Dakumiah, situada ao pé do Monte Tabor, perto do Mar da Galiléia, onde se escondia um dos mais ferozes e bem armados grupo de terroristas. A troca de tiros começou à uma hora da tarde, mas Wingate preferiu esperar o anoitecer. Às 3h da manhã a batalha estava vencida, da qual Wingate saiu gravemente ferido, tendo sido internado em um hospital durante semanas. Os ingleses se rejubilaram com o aniquilamento daquele grupo tão perigoso e Wingate recebeu uma promoção.

Contudo, aquele seria o término de sua missão na então Palestina, até mesmo por causa da inveja de muitos de seus compatriotas. Contudo, o legado ficou. Os judeus passaram a contar com uma força militar eficiente e respeitada. Para o lamento de Wingate, já recuperado dos ferimentos, seu amigo Wavel foi substituído pelo general Haining, que, a princípio, concordou com as ações dos Esquadrões, mas em seguida mudou de idéia e ordenou sua extinção e que, mesmo assim, continuou agindo sob formas alternativas na clandestinidade. Proibiu que Wingate voltasse a Ein Harod, porém ele se propôs a conversar com Haining na tentativa de fazê-lo voltar atrás. Sequer foi recebido pelo general.

Em 1939, pouco antes do começo da 2ª Guerra Mundial, os ingleses emitiram o White Paper, um documento que restringia de forma drástica a imigração de judeus para a Palestina e, portanto, cortava quaisquer esperanças da futura existência de um Estado judaico. Wingate não cabia em si de tanta raiva e frustração. Chegou ao ponto extremo de declarar aos dirigentes do Ishuv que, apesar de inglês, estava disposto a declarar guerra à Inglaterra e sugeriu uma série de operações ofensivas, começando pela sabotagem da refinaria de petróleo de Haifa. No entanto, os líderes judeus concluíram que aquele era um momento extremamente sensível e frágil no relacionamento com a Coroa Britânica e que não seria conveniente agravar a situação. A iniciativa de Wingate não foi aprovada, enquanto ele recebia ordens para regressar a Londres. Antes de partir, Wingate retornou a Ein Harod, onde reuniu o comando da Haganá, e a todos se dirigiu falando em hebraico: “Eu estou sendo mandado embora da terra que amo. Vocês, certamente, sabem o motivo. Mas eu lhes prometo que voltarei”. Em particular, disse aos mais próximos que seu sonho era ser o primeiro comandante, em dois mil anos, de um exército de judeus em seu país independente, na Terra de Israel.

Não voltou. Da Inglaterra foi mandado para a Índia, com a patente de major-general, encarregado de formar uma força especial, chamada Chindit, que se integraria ao exército britânico na luta contra os invasores japoneses na Birmânia.

No dia 24 de março de 1944, em uma de suas freqüentes viagens entre a Índia e a Birmânia, o avião em que se encontrava perdeu altura e espatifou-se de encontro a uma montanha. Sua Bíblia, da qual ele jamais se separou, foi recuperada e doada por sua mulher ao Kibutz Ein Harod, onde há um pequeno museu em sua memória. Se, por acaso, algum leitor vier a estar nos arredores de Washington, sugiro que vá até o Cemitério Nacional de Arlington e coloque uma pedra sobre o túmulo de Orde Charles Wingate. Fica na seção 12, número 288.

Zevi Ghivelder é escritor e jornalista

Morashá agradece ao Wingate Institute,
em Natania, Israel, pela gentileza na
cessão das fotos para este artigo.
O Instituto  foi criado em homenagem a Orde Wingate. É uma  instituição de ensino superior de renome internacional na área da educação física, que também treina as unidades de elite do exército de Israel.

Bibliografia:
Sykes, Christopher, Orde Wingate, Editora The World Publishing Company, 1959