Morashá
Uma mente apaixonada Foto Ilustrativa

Uma mente apaixonada

Uma das personalidades mais admiráveis e menos conhecidas do século 20, considerada enquanto viveu como uma das mulheres judias mais famosas da Europa, Bertha Pappenheim, passou grande parte de sua vida lutando para melhorar as condições das crianças e mulheres desamparadas e vítimas de violência.

Edição 66 - Dezembro de 2009


Esta nobre mulher fez história duas vezes ao longo da vida, dando origem, em ambas, a idéias novas e revolucionárias. A primeira, ainda jovem, foi como a famosa "Anna O", pseudônimo pelo qual ficou famosa na literatura psicanalítica. Seu caso, considerado fundamental para a origem da psicanálise, foi relatado pelo médico austríaco que a tratou, Josef Breuer, no livro que escreveu em colaboração com Sigmund Freud, Estudos sobre a Histeria, publicado em 1895. A segunda vez, anos mais tarde, como Bertha Pappenheim - incansável assistente social, carismática líder feminista; uma destemida "mãe espiritual", que viajava sozinha por todo o Leste europeu, ajudando crianças e mulheres judias em humilhantes condições de exclusão social, miséria e desamparo.

Bertha nunca se casou e a maioria dos estudiosos, conhecedores de sua doença e de seu trabalho na fase posterior, supunham que sua solteirice e feminismo revelassem vestígios dessa doença. Mas novos estudos do que parecem ser suas diferentes personas, papéis ou máscaras, mostram-na não como uma paciente patética, mas como uma heroína que, durante toda a vida, praticou uma autocura psíquica e espiritual, que ajudaria a desencadear sua enorme criatividade e coragem de realizar o que ela chamava de "pequenos atos sagrados" em benefício de crianças e mulheres.

Sua vida

Bertha nasceu em 1859, em Viena, a terceira de quatro filhos de uma família de judeus ortodoxos. Seu pai, Siegmund Pappenheim, era um rico comerciante que descendia de uma antiga e respeitada família judaica alemã, de classe alta. Ela tinha uma mente brilhante e uma impressionante intuição. Era uma ávida leitora e grande fã de óperas. Falava, além do alemão, hebraico, francês, inglês e italiano. Até os 16 anos, freqüentou uma escola particular católica para moças, onde despontaram seus dotes de escritora.

Em suas anotações, Josef Breuer retrata sua paciente como uma jovem culta, encantadora e frágil, de cabelos escuros e brilhantes olhos azuis, que vivia no protegido milieu da alta burguesia judaica alemã.

A jovem entrou na história da psicanálise aos 20 anos, quando apresentou os primeiros sintomas "histéricos". Na época, ela ajudava a cuidar do pai, vítima de tuberculose. O Dr. Breuer, já então médico e pesquisador de renome, era o clínico geral das famílias importantes e nessa qualidade foi inicialmente convocado para tratar dos ataques de tosse da jovem - a família temia que ela também tivesse contraído tuberculose.

Ele diagnosticou a condição de Bertha como sendo histeria - termo usado então para depressão e nervosismo, com um quadro de hipocondria com os mais diversos sintomas. Na época, a histeria não era levada a sério pela classe médica, pois era tida como mero pretexto para chamar atenção. No entanto, esta não era a opinião de Breuer, que acreditava não haver fingimento nela. Com a piora da saúde do pai, deteriora-se o estado da jovem. Pouco depois, ela ficou presa ao leito, com sintomas graves - distúrbios motores, da visão, de linguagem e alucinações, além de paralisia e contrações musculares que quase a deixam inválida. Quando soube de sua morte, ela sofre novos episódios muito intensos, seguidos de histeria, que a debilitam.

O caso de Bertha, ou melhor, "Anna O", fascinava Breuer, que passa a ver a jovem todos os dias em sua casa e, posteriormente, no sanatório. Por dois anos, de 1880 a 1882, médico e paciente se vêem imersos em um método pioneiro de cura ao qual Bertha chama de "cura pela fala" e "limpeza de chaminé".

O médico notou que quando Bertha relatava certos episódios de sua vida, em especial os relacionados à doença do pai, sua angústia ia cedendo, visivelmente, e a calma e alegria tomavam conta da moça. Isso o levou à conclusão de que os sintomas neuróticos da jovem eram conexões simbólicas com recordações dolorosas e que os sintomas desapareciam à medida que ela os trazia à tona durante suas sessões com ele. A esse processo, Breuer chamou de catarse, revelando o novo método de cura a Sigmund Freud.

Em 1893, eles publicam, a quatro mãos, um artigo sobre o método e, dois anos depois, o livro que marcaria o início da teoria psicanalítica, Studien über Hysterie ("Estudos sobre a histeria"). A verdadeira identidade de Anna O, no entanto, foi revelada apenas em 1953, por Ernest Jones, biógrafo de Freud.

Mistério e controvérsia envolvem o período em que Bertha esteve doente. De acordo com as anotações de Breuer, a jovem ficou curada em 1882; no entanto, segundo o psiquiatra canadense, Dr. Henri F. Ellenberger, fundador da historiografia da psiquiatria, e o Dr. Albrecht Hirschmüller, autor do livro The Life and Work of Josef Breuer, por vários anos Bertha lutou contra seu estado neurótico, tendo sido internada inúmeras vezes, entre os anos 1881-1887. Dois anos mais tarde, depois de ter conseguido certo controle sobre a doença, Bertha deixa Viena com a mãe, para se estabelecer em Frankfurt.

Senhora de seu próprio destino

Bertha emergiu transformada de sua doença, mas seu longo sofrimento deixou sua marca em seus cabelos, que se tornaram inteiramente brancos. Era uma nova mulher, cheia de energia e compaixão e, sobretudo, com profunda determinação de curar os outros.

Rapidamente conquista os salões da alta burguesia judaica, estreitando os laços familiares com os Goldschmidt, os Warburg e os Rothschild. Era admirada por sua presença marcante, inteligência e cultura, assim como por sua paixão pela música, arte e tudo o que era belo e culto. Nessa época, começou a publicar uma série de contos de fadas, tornando-se famosa também como escritora.

Foi em Frankfurt que começou a se engajar nas atividades filantrópicas da comunidade judaica, trabalhando como voluntária em cozinhas comunitárias e no orfanato judaico. Em 1900 organizou um clube para meninas, uma creche e um clube de costura. Dois anos mais tarde, criou a Weibliche Fusorge - a organização de Assistência à Mulher, que dirigiu por 29 anos. Voltada ao atendimento de mulheres e crianças, a instituição proporcionava todo tipo de ajuda e abrigo a mães solteiras e seus filhos, assim como a jovens resgatadas da prostituição.

A Weibliche Fusorge criou sua própria agência de empregos e uma comissão para proteção das crianças, além de uma série de programas de auxílio aos judeus da Europa Oriental. Em 1907 abriu sua própria creche, com capacidade para atender a mais de 100 crianças. Ela amava os pequeninos, a cujo bem-estar dedicou sua vida. Quando lhe perguntavam a razão de seu envolvimento com as causas sociais, respondia que seu trabalho com os desfavorecidos era sua forma de expressar o judaísmo, pois, dizia, a ajuda aos necessitados era uma mitzvá, ou seja, um mandamento Divino, sendo portanto uma obrigação que cabia a todo judeu e, de forma coletiva, a toda a comunidade judaica.

Bertha mantinha ligações com os movimentos feministas e acreditava que as mulheres judias precisavam de uma organização própria para representar seus direitos. Assim, em 1904, aos 45 anos, foi a visionária idealizadora e co-fundadora da Jüdischer Frauenbund - JFB (Liga de Mulheres Judias), a primeira organização judaica a lutar pelos direitos da mulher, a qual presidiu durante 20 anos, ocupando posteriormente um assento em seu Conselho Deliberativo, até sua morte, em 1936.

A JFB era uma organização singular, que aliava os objetivos feministas, sem aderir ao feminismo radical, com um forte senso de identidade judaica. Sua campanha era centrada em expandir o papel das mulheres na comunidade judaica, fortalecer a conscientização comunitária entre os judeus; oferecer treinamento vocacional às mulheres e combater um dos grandes males da época - "o tráfico de escravas brancas". A organização mantinha lares juvenis, asilos e locais para atender tuberculosos. Foram criados um posto médico para crianças e uma colônia de férias.

À frente da organização, que contava com 50.000 associadas - todas elas judias da classe média - Bertha lutou em prol da igualdade política, econômica, educacional e social para todas as mulheres de seu povo. Costumava dizer que o movimento feminista judaico acabaria por revigorar o judaísmo na Alemanha. Ela acreditava que um dos motivos para os judeus alemães estarem-se afastando da religião era o fato de que as mulheres - as transmissoras das tradições e crenças - não tinham uma real participação na vida comunitária e estavam cada vez mais alienadas das tradições e práticas judaicas. Como escreveu a Martin Buber, em 1935, acreditava ser o papel das mulheres judias - as verdadeiras "criadoras" ou "modeladoras da vida" - moldar as novas gerações, ensinando-lhes valores e transmitindo-lhes as nossas tradições. Cabia às mulheres ensinar a seus filhos a necessidade de desenvolver a Centelha Divina que existia dentro de cada ser humano.

Com a morte da mãe, em 1905, Bertha passou a viajar sozinha pela Grécia, Turquia e por todo o Oriente Médio, lutando contra a prostituição e o tráfico de escravas brancas. Descobrira a ordem de grandeza dessa escravidão em uma viagem à Galícia. Em suas viagens ao Leste europeu, ajudava crianças e mulheres desamparadas - mães solteiras ou prostitutas que a sociedade preferia ignorar. Sua fama internacional corria mundo e se multiplicava em decorrência de suas cruzadas morais, que fizeram dela uma das mulheres judias mais famosas da Europa.

Em 1907, já com 50 anos, essa mulher valente fundou um lar para moças à margem da sociedade, "The Home for Wayward Girls", próximo à cidade de Neu Isenburg, voltado à educação de jovens judias e seus filhos. Durante os anos em que o dirigiu, mais de 2.000 mulheres e crianças foram atendidas. A instituição era o âmago, a alma de todo o trabalho social desenvolvido por Bertha. Ela acreditava que era "tarefa divina dos judeus do mundo inteiro assegurar a 'força da família'". Por isso, ela estruturou a nova instituição como uma grande e tradicional família judaica, guiando a educação que as crianças recebiam no Lar pelas milenares tradições judaicas.

O impulso criativo de Bertha não se restringia a causas políticas e sociais. Ela era também uma renomada escritora e tradutora. Apaixonada pela história judaica, emocionou-se ao traduzir do iídiche para o hebraico as memórias de sua ancestral do século 17, Glueckel de Hamelin. Traduziu também o Maasel Buch, coletânea de narrações judaicas tradicionais, e Zeenah u-Re'enah, de Isaac Askhenazi.

Como escritora, era eclética; seus interesses, múltiplos. Escreveu contos de fada e uma peça teatral, em 1913, ("Momentos Trágicos"), além de inúmeros artigos sobre o anti-semitismo no Leste europeu, os pogroms e a violência desmedida que recaía sobre as mulheres judias. Escreveu também pequenas histórias nas quais abordou temas relativos ao status da mulher no judaísmo e frente ao anti-semitismo e à assimilação. Em 1912, Bertha publica seu livro de maior sucesso, Sysyphus Arbeit, que descreve a angústia das mulheres judias da Galícia e no Oriente Médio. Ela se identificava com a figura mitológica de Sísifo em seu empenho de toda uma vida, continuamente rolando sua rocha de fé até o topo da montanha do preconceito e voltando a empurrá-la até a base e, depois, repetindo a tarefa, incessantemente.

Últimos anos de uma jornada

Quando Hitler tomou o poder na Alemanha, em 1933, Bertha vivia em Neu Isenburg, onde comprara uma casa que, após a sua morte, deveria converter-se em um centro cultural judaico.

Diferentemente de outros judeus alemães, ela era extremamente consciente das circunstâncias, sabia das "nuvens ameaçadoras que pairavam cada vez mais negras no horizonte judaico". Decidiu que não ficaria calada e que enfrentaria o "grande mal" com veementes protestos públicos sobre os eventos que ocorriam em solo alemão. Ao testemunhar o horrendo espetáculo da queima dos livros judaicos pelos nazistas, declarou que o ato era "um grave sintoma da invasiva barbaridade nazista".

Alguém que viu Bertha, na época, em uma reunião política, descreveu-a como "uma senhora delicada, vestida de preto, com um contagiante senso sagrado de zelo". Ela se tornou o que o filósofo Bergson chamaria de "ativista mística", uma guerreira em defesa da transcendência do espírito e da fé sobre a ideologia nazista do Volk (em alemão, raça, povo) - uma ideologia ímpia e desalmada que cultuava o corpo.

Sua resistência espiritual aos nazistas cristalizou dentro dela a sua fé, fazendo do judaísmo a sua âncora espiritual naquele mundo tomado pelo mal. Bertha acreditava que D'us protegeria o Seu povo.

Sua produção literária foi-se tornando cada vez mais mística, mas ela permanecia pragmática. Em 1934, levou um grupo de crianças - entre as quais algumas de Isenburg - para um orfanato judaico em Glasgow, na Escócia. No ano seguinte, ao completar 79 anos, os médicos lhe diagnosticaram um tumor maligno que lhe tiraria a vida. Em seus derradeiros meses, apesar de sofrer muitas dores, volta à sua casa em Viena onde doa sua rica coleção de rendas e vidros ao Museu de Artes e Ofícios da cidade. Muito provavelmente, durante sua estada, tenha destruído todos os documentos relativos ao seu primeiro ataque de histeria, pedindo a seus familiares que não fornecessem informações sobre seu caso médico após sua morte.

Durante décadas Bertha se opusera ao sionismo e à emigração dos judeus alemães para a então Palestina, por acreditar que a separação dos membros de uma família poderia causar um efeito devastador na vida familiar. Mesmo assim, ajudou inúmeras pessoas a emigrar para a Terra de Israel. As pessoas imploravam por sua ajuda, pois ela ainda era considerada, na Europa, uma das mulheres mais respeitadas. Em 1935, quando se reúne com a líder sionista Henrietta Szold, em Amsterdã, volta a manifestar sua oposição à emigração de jovens judeus. Foi somente após a promulgação das Leis de Nuremberg que ela se deu conta do terrível erro que cometera.

Bertha foi convocada pela Gestapo em 9 de abril de 1936 por ter sido responsabilizada pelos comentários contra Hitler feitos por um menino com retardo mental que residira durante um tempo no Lar que ela dirigia. Seu câncer já estava em estágio muito avançado, mas ela quis se apresentar - apesar de seu médico ter insistido para que tentasse transferir o depoimento para sua residência. Segundo sua amiga Hannah Kaminiski, ela se manteve forte e digna durante todo o interrogatório, que durou 1:30h. Enfrentar a Gestapo foi o seu último grande ato. Bertha Pappenheim faleceu poucas semanas mais tarde, no dia 28 de maio de 1936, sendo enterrada no antigo cemitério judaico de Frankfurt.

Os nazistas passaram a difamar seu trabalho e destruíram a maior parte de sua obra. Mas, não apenas sua obra literária foi vitimada pela fúria nazista. No dia 10 de novembro de 1938, a famigerada "Noite dos Cristais", uma multidão armada atacou a instituição que ela criara em Isenburg, incendiando um dos edifícios. Em 1942, os nazistas deportaram para campos de concentração as crianças que ainda lá viviam, juntamente com seus professores, entregando as instalações à Juventude Hitlerista. Atualmente funcionam na área um centro de estudos e um memorial.

A maior parte dos jovens que salvara das ruas foram assassinados durante a Shoá. Na Polônia, 93 meninas judias, em uma das instituições sob sua tutela, suicidaram-se ao tomar conhecimento da intenção nazista de transformar a casa em um prostíbulo.

O filósofo Martin Buber, um dos amigos mais próximos de Bertha, escreveu por ocasião de sua morte: "Há pessoas com mente e há pessoas com paixão. É raro ver-se pessoas com mente e com paixão, e mais raro ainda é encontrar a paixão da mente. Bertha Pappenheim era um ser de mente apaixonada. Aquela chama branca ardia em nossos dias. Hoje ela se extinguiu e apenas sua imagem perdura eternamente refletida no coração daqueles que a conheceram. Transmitam esta imagem, transmitam a lembrança, testemunhem que isto ainda existe!"

Bibliografia:

Artigo de Melinda Given Guttman, The Legacy of Bertha Pappenheim, publicado no site http://www.ontheissuesmagazine.com

Loentz, Elizabeth. Let Me Continue to Speak the Truth: Bertha Pappenheim as Author and Activist

Artigo de Britta Konz, Bertha Pappenheim - A New Look at the Concept of the Family

Bertha Pappenheim, http://www.bet-debora.de/2201/jewish-family/konz.htm